Na estrada seduz primeiro o que se não vê
Os dez metros para lá do horizonte
O que a curva apertada esconde e não se ouve
Seduzem depois os postes de alta tensão
Os moinhos que soltam a hipnose pela planície
E uma rapina a peneirar ao quilómetro 123
Um marco geodésico impõe-se com nobreza
A mesma nobreza dos tais moinhos
Dos mesmos postes como gigantes perfilados
A nobreza fácil das coisas inanimadas
Há, ainda, os espelhos retrovisores
Três espelhos e o que está para trás
Um quarto espelho e o que vem atrás
Na estrada seduz primeiro o que não se vê.
Alexandre Andrade e Pedro Mexia. Estilos diferentes, propósitos diferentes, prosa e poesia, mas, a uni-los, na dedicatória, uma invejável caligrafia e a mesma ressalva : uma memória sem invenção («não inventada » e « pouco inventada », respectivamente). Como aqui, se o esclarecimento ainda fosse preciso.
A festa de aniversário pode ser facilmente esfrangalhada pelo olhar do cínico. Salvo raras excepções, não merece festejar coisa alguma quem tem uma idade inferior à sua esperança de vida média. Chegar onde se chegou faz parte de um percurso mediano. Dizem-me que quase morri nos Açores, jogado ao mar por um marinheiro, quando este procurava passar-me para os braços de minha mãe e não topou a onda que afastou o barco do cais. Não guardo lembrança de tal episódio. Durante uns anos apimentei a existência com uma quase-mentira: por pouco, numa tarde de pescaria com fateixa, a correnteza do Tejo não me levou. Enfim, houve outros acidentes, mais ou menos tangenciais à morte, mas também não encontro nisso razão para celebrar. Sucede que um pretexto para festa congrega sempre uma série de vontades e convém não desprezar tal cinética social, por respeito e economia de esforços. O compromisso aceita-se bem. Afinal, nunca se está tão longe do aniversário seguinte como no dia em que fazemos anos.
Quando me perguntam se sonho a preto e branco ou em technicolor, respondo sempre com uma outra pergunta que me parece mais relevante: os teus sonhos são episódios de uma série? Os meus sonhos são sempre peças únicas. Nunca se percebe a origem da primeira cena e nunca há efeitos especiais. Ninguém voa, ninguém se transforma e todos têm uma pigmentação normal. Os custos de produção dos meus sonhos são baixos e as obras não fariam grande receita de bilheteira, mas - atenção - não chegam a filme de autor. A estrutura narrativa é linear, sem rodriguinhos à nouvelle vague, sem tarantinadas, sem sequer um mísero flashback. Uma vez tolerada a ausência de justificação para a primeira cena, o que a seguir se passa é básico. Se passei por um trauma, recrio o trauma, sem máscaras. Não há ficção nos meus sonhos. Enfim, para sonho seria de esperar um enredo mais inventivo. Peguemos neste sonho, despido de símbolos e que se ocupa de uma questão típica na adolescência: estou numa festa em casa do Shaq O´Neal, consigo arranjar um caldinho, levo a rapariga à socapa para o quarto do Shaq, reparo que não tenho preservativos e começo a abrir as gavetas da mesa de cabeceira do Shaq, onde descubro uma caixa a tempo, já com a pequena em ponto-rebuçado, só que, de súbito, sou tomado por uma inquietação que não me deixa render o máximo, quanto mais assegurar os mínimos. Este sonho é da altura em que o Shaq estava a começar na NBA. Não voltei a sonhar com jogadores de basquetebol, mas com o passar dos anos afeiçoei-me ao base dos Lakers. Em todo o caso, é uma miséria de sonho.
PS: durante uns tempos não haverá comentários.
O Macguffin começou a frequentar um ginásio de musculação e não resistiu a humilhar-se publicamente no Contra a Corrente. Um outro rapaz recorreu em tempos ao mesmo expediente. Não percebo tal comportamento. Eu, por exemplo, estou há um ano inscrito num ginásio e nunca tive necessidade de me auto-flagelar por isso. É verdade que só lá fui umas 3 ou 4 vezes, o que está longe de poder ser interpretado como resistência moral. Relaxem, rapazes, a preguiça resolve-nos o problema em dois tempos.
A menina da recepção, no acto de me vender o bilhete, experimentou a urgência de me dizer que o Porto empatara com o Milão, assim out of the blue. Muito azuis eram os olhos dela. Tamanha consistência cromática deixou-me algo perturbado e não aproveitei para a convidar para um café. Minutos depois, numa sala imensa, a vigilante começou a cantar em registo operático. Aparentemente era para mim, pois não havia mais ninguém nas imediações. A performance demorou só alguns instantes e foi rematada em recitativo, mas não percebi o que ela me disse. Sorri, claro, mas desta vez não me passou pela cabeça convidar a mulher para um café, nem sequer a posteriori. São gostos.
Um museu como Serralves é sempre um museu, mesmo que o que tenha lá dentro seja mediano ou medíocre. É esse o problema Serralves coloca aos curadores: como assegurar que o quadro pendurado na parede vai despertar mais interesse que a vista da janela sobre os jardins ou as linhas do edifício. Voei sobre Grosvenor e keyser com a desenvoltura de um ignorante. Demorei-me nos textos de João Penalva. Tenho com as artes plásticas uma relação complicada.
Notas breves, que isto já vem fora de tempo:
1. A melhor ilusão colectiva destas eleições foi a da vitória da democracia. Há um português em cada três que não vota numas eleições cruciais e os comentadores rejubilam. Bem sei que não se travou a tendência para o aumento da abstenção, que a participação até não anda muito longe da de outros povos democraticamente alienados, mas recomenda-se um tom mais moderado.
2. Vergonhoso o tratamento dado pelas estações de televisão aos pequenos partidos. Gostaria de ter ouvido a declaração final de não-vitória de Garcia Pereira. A julgar pelos media, em Portugal só há cinco forças políticas. Demorei cerca de 3 minutos no cubículo de voto a colocar a cruzinha, não por ter dúvidas, mas por experimentar o fascínio da descoberta de partidos que julgava extintos ou cuja existência desconhecia.
3. Sobre isto já todos falaram e escreveram.
4. Sugestão para um blogue jeitoso: alguém com tempo e talento devia fazer uma análise a posteriori de todas as previsões que foram aparecendo nos jornais. Os colunistas da pátria gostam muito de encher a boca com a palavra impunidade, mas não há actividade mais irresponsável que a de analista político. Em Portugal um analista político diz o que lhe apetece e ninguém lhe pede contas. Veja-se o caso do Saraiva: "Julgo, por isso, que o CDS vai ser a grande surpresa destas eleições. [Parágrafo saraiviano, aqui omitido].Digamos que aos 9% que teve em 2002 poderão somar-se 3% vindos da área social-democrata - o que lhe daria cerca de 12%." Brilhante! Veja-se o tom assertivo de Franciso Azevedo e Silva, relatado no Gato Fedorento. Brilhante! O que fazer com esta gente? Ameaçá-los com um processo? Não, isso já não intimida ninguém, muito por culpa de Santana Lopes. Despedi-los por justa causa? Também não. É complicado do ponto de vista legal e seria injusto. Afinal, errar é humano. Convinha apenas saber com quem estamos a perder tempo o nosso tempo. Se identificassem quem faz sistematicamente as previsões mais ao lado, tornar-me-ia seu leitor fiel.
A FRENTE UNIDA DE APOIO A GARCIA PEREIRA acaba de surgir, desprovida de estatutos e condenada a morrer no Domingo. Junta-te ao Letteri Café, à Vigília da Devassidão, ao Cola de Sapateiro e ao MI. Vamos levar Garcia Pereira ao parlamento!
O "volto" de Pacheco Pereira, escrito no Abrupto às 15 horas e 25 minutos de 16 de Fevereiro, a poucos dias de umas eleições em que ele votará no PSD para (segundo o próprio) legitimar um lugar na equipa de primeiros-socorros que salvará o partido, é uma piscadela de olho à História. Não à História Universal, certamente, nem sequer à História de Portugal, ou à História recente do país, mas à história recente do PSD ou, se se preferir, ao seu futuro imediato. Nesta história do "volto" que se confunde com "voto" (momento Carlos Magno), há algo de sebastianismo auto-imposto e um certo dejà vu, pois é impossível não recordar o I shall return, de MacArthur, e o I´ll be back, do Terminator. O Chico e o Tom também escreveram uma canção bonita (Vou voltar sei que ainda vou voltar/ Para o meu lugar foi lá é ainda lá /Que eu hei de ouvir...) O "volto" é sempre coisa de gente ensimesmada, distinguindo-se nisso do até amanhã, que não dispensa os camaradas.
Há um estilo de escrita que está em expansão na blogosfera. O texto tem uma leitura aberta a todos, mas é também passível de uma outra leitura, mais completa, por parte do único leitor que está na posse do código. Os textos são exclusivamente de amor. Sou apreciador do estilo, mas é pouco provável que o venha a praticar, por causa de um nível adicional de leitura: o nível intermédio. Quem chega a esse nível é muitas vezes actor secundário no enredo que decorre. Amigo de um, amigo do outro, amigo de ambos, amante de um, amante do outro, amante de ambos (isto não é estilo, acontece mesmo), conhecido apenas, mas perspicaz, enfim, o grupo é heterogéneo. E vasto. O resultado é um striptease de emoções e dados íntimos feito para uma plateia de rostos familiares, coisa que requer alguma técnica. O jogo parece-me perigoso. Por isso, com o devido respeito por todos os praticantes do género, se não se incomodam muito, eu vou ficando no canto escuro da sala e só gostaria de ser incomodado pela menina que serve as bebidas.
As minhas desculpas por este regresso ao metabloguismo; como se sabe, é tabu.
No topo da lista de inacções de que me envergonho e posso revelar figura a minha rara presença nas plateias dos teatros de Nova Iorque. Esta cidade tem provavelmente a melhor oferta de teatro do planeta, mas em três anos não devo ter ido a mais de 10 peças. Isto não se explica pelo preço dos bilhetes. Sou um assíduo frequentador das salas de cinema e três idas comprariam um bihete para uma peça de teatro. Ora, eu posso ver cinema no conforto do lar, mas sei que nem sequer uma actriz consigo levar para casa, quanto mais a produção inteira. Devia era deixar de ser parvo. Este comportamento adquire contornos de insondável mistério quando constato que o melhor espectáculo que vi durante os anos em Nova Iorque foi uma representação da Long day´s journey into night, de Eugene O´Neill (ex-equo com o concerto dos Radiohead no Madison Square Garden, em abono da verdade). Nos últimos tempos tenho procurado corrigir esta falha e venho acumulando experiências teatrais. Percebi, após uma tortura de uma hora a assistir a uma peça do guru do teatro experimental, um certo Foreman que não me parece ser parente do antigo campeão de boxe, que não sou um tipo de vanguarda. Quando uma cena acomoda a saturação completa do universo das interpretações possíveis, fico sempre a pensar que alguém se esqueceu de fazer o trabalhinho de casa. Não me agrada estar constantemente a escrever a peça na cabeça e em tempo real. Tal postura é claramente reaccionária, aproximando-se assimptoticamente de uma estética teatral à Freitas do Amaral, o que me deixa algo assustado. Afinal, que teatro é o meu? O´Neill, certamente. Shakespeare, quando tenho tempo de ler a peça antes, obviamente. Oscar Wilde, esporadicamente, sobretudo quando Marisa Tomei faz de Salomé e ofusca Al Pacino, que fazia de Herodes. E as coisas modernas? Muito do que tenho visto por aqui (que, neste género, deve corresponder a 3 ou 4 peças, relembro) parece-me influenciado pela escrita para televisão. A peça a que assisti ontem, por exemplo, tem um texto bem urdido e a frescura da contemporaneidade (referências ao 11 de Setembro e à reality tv), mas o autor recorre a truques fáceis para conquistar o público e o humor está apenas um nível acima do da melhor sitcom. Já não é mau, mas este também não é o meu teatro. Progress report: excluo Foreman, mantenho a reserva dos valores seguros e continuo à procura. Remate final com uma observação de interesse para o leitor: o actor principal da peça de ontem é um puto que começa a dar que falar e que me convenceu plenamente. Chama-se Kieran Culkin. Fixem este nome e esqueçam o post.
Louçã quer ser a terceira força política. Santana acredita que vai ganhar. Na onda deste surto de demência, também eu posso gritar: quero Garcia Pereira no parlamento! Deixem-me sonhar. Garcia pode funcionar como o deputado-chave, que faria avançar um governo PS minoritário (a quem o apoio do BE ou da CDU faria com que ficasse a precisar de apenas mais um voto). Garcia seria o grande pivot da esquerda. Garcia será o extra little push over the cliff, o nível 11 de um parlamento que até agora só conseguiu ir até 10 (This is Spinal Tap).
Até Domingo o MI estará em campanha por Garcia Pereira, dando assim o seu modesto contributo para arrancar a mordaça que impuseram ao PCTP/MRPP. Isto é serviço público, meus amigos. Antes que a mordaça se transforme em açaimo!
Podia ser o meu contributo para a série grandes nomes, que tem lugar no Abrupto. Mas não é. Limito-me a convidar todos os leitores para uma discussão sobre estética que vou alimentado em privado com o Átila, a propósito da prega de carne que podemos observar no flanco ligeiramente torcido de Laetitia. Temos esgrimido argumentos do mais fino recorte retórico, mas as nossas posições resumem-se em poucas palavras: eu gosto e o Átila discorda.
Fátima dá pano para mangas e um ateu que se preze não resiste a fazer pontaria, mas creio que o Rui Tavares e o Luís Rainha (I, II, III) esgotaram de forma eloquente o tema. Não vale a pena voltarmos a discutir a veracidade do milagre de Fátima. Eu acredito no milagre de Fátima. O contencioso só surge quando comparamos a definição de milagre da Igreja com a que defendo. Avancemos.
A reacção dos partidos de direita parece-me absolutamente normal, tendo conta a sua matriz cristã e os golpes abaixo da cintura que sempre ocorrem em período de campanha. É claro que ninguém está à espera de ver o PPD/PSD e o CDS-PP a respeitarem os dois dias de silêncio e a suspensão de actividades. Vão tentar tirar dividendos deste episódio, polarizando a discussão, vitimizando-se e abrindo a cartilha dos valores morais. Em resumo, estarão mais activos do que nunca. Mas isto não passa de um fait-divers, que nem uma missa de sétimo dia resgatará do ritmo alucinante da actualidade informativa (1). Porém, fico inquieto só pensar no que aconteceria se o Eusébio falecesse em época de campanha. Esta apreensão não é de todo descabida, sobretudo para quem acredita em milagres e coincidências. Amália deixou-nos nas vésperas das legislativas de 1999 e foi o que se viu. Agora calhou a vez à irmã Lúcia e é o que se vê. E o grande Eusébio? Sou o primeiro a reconhecer quão deselegante é esta especulação (se dependesse de mim, ele chegaria a tetravô, que é uma forma não-milagrosa de eternidade), mas será que não o devíamos hospedar preventivamente numa unidade de cuidados intensivos, sempre que nos próximos 30 anos houver campanha para legislativas? Os exemplos recentes mostram, de modo inequívoco, que não há maturidade cívica e democrática para lidar com uma eventual morte de Eusébio em período de eleições.
(1) Mais complexa é saber se o governo deve ou não decretar um dia (ou dias) de luto pela morte da irmã Lúcia.
Todos os dias
Ela trazia
Uma maçã que pousava na mesa
Eu apenas olhava
O rapaz que chegava e trincava
E no dia seguinte
A todos os dias
Na mesa ela ainda pousava
Uma maçã que brilhava
E eu escondido via
O rapaz que chegava e mordia
Só que um dia,
Depois de todos os dias
Como que pela malícia movido
Perguntei-lhe se a maçã era fruto proibido
E ela,
Recolhendo do mundo todo o enfado
Disse apenas que era um pêro encarnado
Então não mais olhei
Não mais perguntei
Só que no dia seguinte
Depois de todos os dias
Mesmo faltando a maçã que eu olhava
E o pêro encarnado que ela dizia
O rapaz trincava
E ela mordia
Insinuações sobre a orientação sexual dos elementos deste blogue obrigaram-nos a convocar uma reunião de emergência, que contou com a presença dos três (o Difool comunicou por vídeo-conferência). Foi unanimemente decido prestar um esclarecimento célere e cabal à blogosfera. Mais complicado foi definir em que modos tal esclarecimento seria feito. Só após uma longa e violenta discussão com o Difool - que queria colocar uma foto e linguagem impróprias para este espaço - é que se conseguiu reunir as condições exigidas nos nossos estatutos para sufragar uma decisão da redacção, a saber: pelo menos 2 votos a favor e nenhum voto contra. Aqui fica então o esclarecimento. E é tudo.

Dos blogues novos, só gosto dos bons. Aqui ficam mais dois: Tonalatonal (ou muito me engano ou tive mesmo aulas de solfejo com o autor) e America is (ou muito se enganam alguns amigos meus ou este tipo é mesmo um génio).

Estou sem tempo. 6 apontamentos apenas sobre o concerto de ontem no Carnegie Hall:
1. Há um universo de flamenco mau, feito de rumbas açucaradas e de espanholadas - a guitarrada da praxe - enxertadas noutros géneros; há ainda o grande equívoco de equiparar o Flamenco a Sevilhanas. Estes elementos explicam a deserção de alguns ignorantes após os primeiros vocalizos de Morente. Ficou mais limpa a sala.
2. Morente tem a figura do Joe Pesci. Felizmente, não ficou com a irritante voz do actor, mas não é tanto o timbre de Morente que impressiona, antes a técnica e a interpretação. Demorou algum tempo a soltar-se, e depois foi em crescendo, até ceder à tentação de ir comer os bocadillos que, segundo o próprio, os esperavam nos bastidores. Morente falou pouco, mas sempre em castelhano e só fez uma piscadela de olhos para americano ouvir (dois ou três versos de um tema de Gershwin, num inglês quase indecifrável).
3. O que se ouviu ontem foi flamenco puro. Não é fácil gostar do flamenco cantado. É preciso aprender. Eu cheguei ao flamenco pela guitarra e demorei anos a começar a gostar do cante, mas os prazeres conquistados depressa se tornam nos mais saborosos.
4. Tomatito é um guitarrista sólido, portentoso e generoso. Sólido: o Carnegie intimida os mais experientes, como Caetano Veloso, que se esqueceu de uma letra e massacrou o público com um discurso sem pés nem cabeça; Tomatito entrou sozinho, com a descontracção e altivez dos ciganos, e arrancou para 10 minutos de grande virtuosismo. Portentoso: a mão direita de Tomatito devia ser clonada. O Flamenco é sobretudo ritmo e Tomatito, embora versado em harmonias complexas e melodias insipiradas, sabe tratar a guitarra como um instrumento de percussão. Dos guitarristas que ouvi ao vivo nos últimos tempos - incluindo Paco e Almodovar - Tomatito foi o que mais me impressionou pelo ritmo. Generoso: os guitarristas de flamenco conseguem atingir uma popularidade internacional que está vedada aos cantores, mas no flamenco o guitarrista é apenas o acompanhador, mesmo tendo em conta que o diálogo que se estabelece entre ambos é mais complexo do que, por exemplo, no fado. Tomatito foi discreto, minimal até, não se alongando nas falsetas, contrastando com o festival de guitarra com que nos brindara momentos antes, a solo ou com os percussionistas. Cedeu claramente o palco a Morente.
5. Grande momento da noite: os cinco músicos de pé, em roda aberta, quase em cima da plateia e praticamente sem amplificação, cantando e patendo palmas à desgarrada, com Tomatito a fazer umas linhas melódicas que mais parecia virem de um alaúde árabe.
6. O público foi entusiasta. Silêncios pontuados por provocações amistosas para os músicos, "Olés" de aficionados, explosões de palmas e gritos no final de cada tema, particularmente violentas após as bulerias. Não me escapou também o bilhetinho atirado para o palco, no final, que o percussionista do cajón, rapaz de extensa coxa, guardaria no bolso com um sorriso maroto (este deve ter dispensado os bocadillos). Assim por alto - e do alto do segundo balcão- , pelos narizes de ave das mulheres, pela qualidade da roupa - vestem-se bem, raios - e por alguns cromos com estilo excêntrico e retro, que pareciam vir directamente da movida madrilena, arrisco dizer que um terço da sala esteve por conta de espanhóis. Grande música, grande povo. Qualquer dia mudo-me é para Madrid. Ou para Sevilha.
O que admiro em Christo são a persistência e a energia com que persegue uma ideia. O produto final nunca me entusiasmou muito e as ideias - ou as variações sobre um mesmo tema- também não. Passei pelo Central Park ontem e fiz a reflexão dos medíocres: "com 20 milhões de dólares eu também era capaz de fazer aquilo. De resto, faria melhor". Ao percorrer aqueles caminhos serpenteantes, diverti-me mais a imaginar os meus projectos à Christo do que a gozar The Gates. Por exemplo, eu teria feito do grande relvado central uma mesa de snooker, em que cada uma das bolas coloridas teria 15 metros de raio, seria leve e irrepreensivelmente polida; a simbologia desta instalação varreria um largo espectro, que iria do vício do jogo ao choque de civilizações, passando por tudo o que vos ocorresse na altura. Vencidos estes delírios, reparei que pensar à Christo ainda é gozar e celebrar a obra de Christo.
Christo no Central Park, de manhã. Tomatito e Enrique Morente no Carnegie Hall, de noite. Amanhã há crónica.
Em tempos tive a ousadia de me querer mascarado de nu. Sair para a rua sem uma única peça de roupa parecia-me um acto tão corajoso quanto original, capaz de me garantir um lugar entre os jovens artistas boémios do subúrbio. Sair para a rua despido, nos dias de Carnaval, foi um plano secreto que ensaiei repetidas vezes dentro de casa, sem ter alguma vez arriscado passar além do patamar. E foi só uma vez. E eram três da manhã. Afinal, que imagem ficaria além da de um pénis mirrado pelo frio de Fevereiro, que, por falta de outros falos públicos, estaria sujeita a uma comparação com as pilas rijas dos exibicionistas? Quem se lembra ainda das estátuas gregas? Pois é. Talvez isto explique que naquela noite, regressando a casa, eu estivesse tão atrapalhado com as barbatanas do meu fato completo de homem-rã. Ela vinha de gata ou puma, um qualquer desses felinos. "Os gatos não gostam de água, querido. Solta-me." Na festa eu convivera de sobremaneira, mas apenas com as minhas botijas amarelas. Num fato isotérmico não se aguenta 5 minutos de samba e a minha viseira estava constantemente embaciada. Nunca me ocorreu retirá-la. Sou um tipo sério. Uma fantasia de Carnaval é para ser assumida até às últimas consequências. As pessoas achavam-me graça, claro, mas depois tratavam-me como uma armadura medieval arrumada a um canto do salão. Nunca se demoravam muito. Assim se explica a ligeira amolgadela nas minhas botijas. Era da pressão negativa, tal a sofreguidão com que inspirava. Efeito diferente provocou a gata ou a pantera, enfim, o gado caprino. A rapaziada aguçava o cristalino só de vê-la passar. Era do bandear de ancas. "Tens ali uma mulher e peras, pá!", pareceu-me ter ouvido a dada altura, mas estava com os tampões nos ouvidos e em exercícios de compensação, pelo que não é certo. Não que ela não fosse uma mulher e peras; apenas duvido que alguém me tivesse dirigido a palavra e usasse uma expressão tão ridícula. E depois, já a sós, a peste: "abraça-me, tenho frio". E eu, então só com o tubo e já sem ar nas botijas, hiperventilando para uma possível fuga em apneia: "ai é assim?" E ela, toda meiga: "já não sou fera e tu deixaste de ser mergulhador..." "Homem-rã!", disse-lhe, frisando o enfado. Pequena deambulação: eu teria preferido ser um escafandrista, mas não consegui arranjar um escafandro em Lisboa, o que muito me surpreendeu. Ser escafandrista é uma profissão talhada para o homem lusitano, pelos imponderáveis e por uma saúde na velhice comprometida, tipo mineiro tolhido pela silicose. Acresce que o dar à bomba é um gesto tipicamente português. Talvez na marinha ainda haja um corpo de escafandristas. Talvez exista ao largo de Sines um velho excêntrico que se passeia pelo fundo do mar de escafandro e empunhando um detector de metais, com um alentejano à superfície que deicxou a pastorícia é agora dá à bomba.
Tenho um amigo que costumava deixar momentos de puro humor no meu gravador de chamadas. Por mais elaboradas que fossem as mensagens dele, na variedade de sotaques que conseguia produzir, no encadeamento das ideias e no efeito surpresa, o propósito original era sempre banal: ir jantar fora, por exemplo. Tenho um outro amigo que é também especialista nesta arte, mas que a pratica num nível superior de sofisticação. Ele telefona propositadamente para fazer rir e, no fundo, nada propõe ou pergunta. Ontem, por exemplo, tinha uma mensagem que abre com ele a cantar os Parabéns (pessimamente), parando depois a meio, para encenar uma certa confusão e dizer: "Ai (efeminado), que cabeça a minha, eu é que faço anos hoje..." A mensagem morre instantes depois. Não é que ele estivesse a insinuar que eu me esquecera dos anos dele (não funcionamos assim). Aquilo mais não foi que uma demonstração de egocentrismo generoso. Cada vez mais, vou reparando que me rodeio de pessoas violentamente egocêntricas. De resto, deve ser por isso que gosto da blogosfera. Enfim, no limite, quase todas as interacções - da amizade ao enamoramento - se explicam como exemplos de egocentrismo generoso. E assim se conclui que esta designação não vale um chavo: parece explicar tudo, mas apenas porque não discrimina coisa alguma.
As palavras dos outros sempre me pareceram mais justas. Tudo o que os outros escrevem - os outros que admiro, bem entendido - me parece mais conseguido. Se eu quisesse ser absolutamente claro, não escreveria uma linha, calçaria umas luvas brancas de polícia sinaleiro e passaria o tempo a dar direcções. "Como estou hoje?" Lê o Para Sempre de Virgílio Ferreira, entre as páginas 10 e 14. Estou sempre assim. Se fui salvo pelo estilo? Lê o Os Passos em Volta, meu amigo. Está lá tudo; eu também resolvia equações do segundo grau e aprendi a gostar de Bach pelos Concertos Bradenburgueses. Os poemas de amor viriam sempre assinados por outros, por incompetência minha, claro, mas também por uma necessidade imperiosa de rigor. E nesta procura estaria também um certo génio, creio. Pedir emprestado, muito bem emprestado, é uma tarefa morosa e delicada. (Continua)
(1) As palavras dos outros é também um livro de Baptista Bastos, escrito num português absolutamente sedutor, que a todos recomendo.
Deu entrada o blogue de uma super-estrela da blogosfera lusófona, o Alexandre Soares Silva. Para os bloguistas portugueses de direita, é o blogue modelo. Culto e informado, mas com aquele jeito maniqueísta de arrumar e açoitar o mundo, ninguém dá o tempo mal empregue a ler os posts do ASS. Eu vou sempre ouvir Elis Regina logo a seguir, mas é uma mania só minha.
O Geoloc, o mapa-mundo aqui ao lado, tem sido uma fonte de satisfação. Depois de termos espetado um pixel em África, fomos hoje brindados com a primeira visita do Extremo-Oriente. Lido também na América do Sul (1 leitor), nos Estados Unidos (3 leitores), Médio-Oriente (um Marine luso-descendente) e em alguns países da Europa (um único leitor, mas que viaja bastante e tem muito tempo livre nos aeroportos), só falta ao Memória conquistar a Oceania, esse magnífico continente... hum... explorado por Cook, que nos deu Russell Crowe, Kyle Minogue, o Kiwi, o canguru, onde abundam os great white shark attacks, mais palavras chave, mais palavras chave... deixa ver, Sidney, essa grande cidade... glup- vai Tulius, é por uma boa causa- Crocodile Dundee, um filme absolutamente medíocre, Koala, Koala, Koala, INXS greatest hits, hot australian babes, horny in Australia, Aboriginals of Australia do it better, Portuguese for australians.
A humanidade já foi dividida de todas as maneiras. Aqui fica mais uma, que também não deixa cicatriz: há os homens que vivem à frente do seu tempo e aqueles que vivem aquém do seu tempo. Os primeiros não são forçosamente visionários, nem génios incompreendidos. Fazem apenas tudo a tempo e horas ou até - imagine-se- com bastante antecedência. Eu queria ser assim, poder gozar uma imponderabilidade temporal por instantes. Infelizmente, só os segundos perdem tempo a reparar nos primeiros.
Nunca serás um bom poeta, meu amigo. Ao contrário do que tu pensas, não basta estar baralhado para escrever um poema decente. Sai fraca a versalhada e só aumenta a tua confusão. Da próxima vez que estiveres baralhado, em vez do poema tenta o fluxograma.
Dentro de sensivelmente 2 horas o MI tentará uma experiência inédita na blogosfera portuguesa: comentar em directo o Super Bowl (o grande jogo anual de futebol-americano). Os leitores podem também enviar comentários, que serão publicados em tempo real. Julgo que este é um serviço importante que presto à blogosfera lusitana e, até, ao país. Só assim poderemos descodificar, perceber e, em última análise, apreciar o jogo. Qualquer semelhança entre esta iniciativa e o que se passou no Abrupto durante o debate entre Sócrates e Santana é pura coincidência. Francamente... O que sucedeu no Abrupto lembrou-me o comportamento de um amigo-estimável e muito querido- que em Paris se exaltava durante as sessões de projecção de diapositivos das férias dos outros. Se ele já tinha estado naqueles locais exóticos, monopolizava a sessão e fazia dos diapositivos do outro- pobre coitado- suporte para a sua brilhante oratória. Vem daí uma expressão que ainda hoje usamos, entre amigos: "Pedro, cala-te, não são os teus slides!". Parafraseando, apetece dizer: "Pacheco, relaxa, não era o teu tempo de antena".
Os sites de online dating são um pouco como os supermercados: é grande a variedade de escolha e enganosa a publicidade. Na ausência de uma associação para a defesa do consumidor nesta área- sim, porque tudo não passa de uma transacção comercial, só que em regime de troca directa- fartei-me de enfiar barretes. Costumava marcar os encontros ao vivo em bares. A dada altura começou a ser sempre o mesmo bar. Depois comecei a sentar-me sempre no mesmo lugar, a pedir sempre a mesma bebida (a kind of blue) e, de acordo com a estação, a usar sempre a mesma roupa. Só as mulheres iam rodando. A isto chama-se uma experiência controlada. E esse é o grande problema do online dating. Tudo está demasiado controlado, demasiado orientado para um objectivo e, inevitavelmente, ficamos reféns desse pecado original. Ao longo de meses, lá ia eu, todas as semanas, com o meu discurso ensaiado, como um actor farto de representar a mesma peça noite após noite. Bill Murray em Groundhog Day? Às Sextas eu era o Bill Murray, só que um pouco menos engraçado. Comecei a prever tudo. Sabia exactamente quando a rapariga iria passar a mão pelo cabelo, quando arriscaria demorar o olhar dela nos meus olhos e quando decidiria ir à casa de banho, coisa que geralmente acontece entre a primeira e a segunda hora. Os encontros eram sempre longos. Cinco horas num bar, a falar, a falar, por interesse ou por piedade. Só o discurso não mudava. Como é que eu conseguia estar a falar cinco horas seguidas? Não aguentei mais de um ano naquilo. Ao fim de uns tempos, a rapariga que servia a minha mesa começou a perceber o meu esquema. Tornámo-nos cúmplices. Ela aproximava-se, enquanto a outra estava a retocar a pintura ou a falar para o espelho da casa de banho, e metia-se comigo. Começou a dar-me conselhos ou simples recados: "A da semana passada era mais gira", "a de hoje tem um pescoço demasiado comprido", "esta também aparece por cá às Quintas e escolhe sempre a mesma mesa, só que outra"... Um dia uma das raparigas não veio. Fui ficando. Bebi quatro a Kind of Blue. Quando o bar estava quase a fechar, a empregada veio ter comigo, já sem traje. "Uma última bebida? What can I get us?" É actriz, claro. Ainda estamos juntos. Entretanto arranjou um papel numa sitcom e deixou de ser empregada de mesa. Às vezes ainda voltamos ao nosso bar, mas costuma ser às Terças. Ah, agora bebo caipirinhas.
Ouvi o debate, em directo, pela TSF. O entusiasmo que Sócrates transmite está ao nível do de Carlos Carvalhas. Não há razão para alarme. Quem fica à espera um Primeiro-Ministro para se empolgar tem um sério problema.
Admiro Vasco da Gama mais do que Bartolomeu Dias, apesar do feito de Bartolomeu me parecer mais impressionante. Tenho alguma simpatia por Vasco Gonçalves. Tolero o tom de voz de Vasco Rato. Mais, tolero as ideias de Vasco Rato. Em princípio devia ter estima por Vasco Granja; na verdade, adoro o homem. Sou louco pelo Vasco Granja. Se alguém se chama Vasco, é meu amigo até prova em contrário.
Esta descarada manifestação de egocentrismo só pode ocorrer com certos nomes. O nome não pode ser muito comum, como João. Deve ser raro, mas não pode ser feio, como Hildeberto. Nenhum Hildeberto pode gostar de outro Hildeberto. No limite, terão piedade um do outro. Ora bem, "Vasco" é um nome relativamente raro e decente. Um nome um pouco abetalhado, reconheça-se, mas sem chegar ao exagero nobiliárquico de um "Bernardo".
A homonímia elimina qualquer sentido crítico. É uma armadilha. Só isso explica que eu não consiga alinhar na cruzada que começa por aí contra um certo Vasco, o Vasco Chambreau. No correio que recebi, li que "Vasco Chambreau é o mais cobarde de todos os escritores. Insulta pessoas no seu site, pessoas de bem, que dão a cara no seu trabalho. Agora é altura de irmos ao seu blog e insultá-lo a ele." É claro que a mensagem foi escrita pelo próprio Chambreau. Nos dias que correm um blogger é capaz de alugar a avó por causa do sitemeter. Mas fui ver. O humor é tosco, excessivamente violento e demasiado centrado nas características físicas dos alvos, o que é sempre sinal de pila pequena (hops!). Há alguns pormenores bem apanhados, mas não estamos perante um novo Pipi. Vasco Chambreau não tem talento para as bojardas que manda. Mas gosto dele. Chama-se Vasco. E consegue dar mais erros ortográficos do que eu, o que é notável e reconfortante. O link? Ó Vasquinho, cresce e desaparece.
Certo dia, um homem de 50 anos alugou um canhão de confettis, "perfeito para espaços de pequena e média dimensão, tais como, teatros, bares, discotecas e auditórios". O canhão funcionava a dióxido de carbono e disparava até 30 metros de distância. O homem carregou o canhão, atou um cordel ao gatilho e colocou-se a um metro da boca do canhão. O disparo desequilibrou-o, sem o derrubar, e deixou-o com uma ligeira luxação muscular nos peitorais. Ainda nesse dia, o canhão seria a grande atracção na festa de Carnaval para as crianças do prédio. O homem passou a tarde a disparar confettis e impôs um perímetro de segurança de 2 metros de distância da boca do canhão. Consta que nunca mais lhe ocorreu recorrer a armas de ar comprimido ou outras.