Jovem, se estás nos 80% da malta sexualmente activa que não usa preservativo, quero dar-te os parabéns. Sacaste logo que um preservativo é um empecilho, coisa que demorei anos a perceber. Eu, quando tinha a tua idade, usava peúgas, mas era só para não sujar os lençóis nos treinos (muitos anos depois viria a descobrir que esta é uma prática universal). De resto, naquele tempo só treinava. Quando começou a ser a sério, bem, jovem, deixa-me soltar esta confissão: eu já não era jovem e não usava um preservativo, usava dois. Nunca confiei nos testes estatísticos, sabes? A probabilidade de apanhar um preservativo defeituoso é baixa, mas as consequências tão aborrecidas que um gajo deve precaver-se. Enfim, perdoa-me a fraqueza, jovem. Naquela altura andava fascinado com uma disciplina chamada probabilidades e estatística e com um tipo de nome Poisson. E o que fazia eu? Comprava preservativos de marcas diferentes, para evitar usar dois de um mesmo stock marado. Paranóico mas esperto, hãn? À vantagem óbvia de se reduzir a probabilidade de acidente para um valor astronomicamente baixo, deves ainda ter em conta as inúmeras vezes em que as minhas parceiras perderam a paciência e adormeceram (se enfiar um preservativo pelo membro túrgido não é coisa fácil, imagina pôr o segundo sobre o primeiro). Ora, como dizem os ingleses, safe sex is no sex. A minha protecção sempre foi total. O meu domínio impecável do italiano também vem dessa altura. Ho fatto l´amore con... Deixa lá, jovem, tu já não és desse tempo. E sim, eu sei, eu sei, nada de confundir amor com berlaitada. Sexo é desporto... radical. Mas, que sabia eu quando tinha a tua douta idade, jovem? As tripes de adrelalina que eu perdi à custa dos meus cuidados. Eu ia ao hospital ser posto ao corrente do resultado do teste de sida e nem um pingo de suor saía das axilas. Uma seca. Literalmente. As minhas parceiras apareciam em sobressalto, com uns dias de atraso, e eu, sem interromper o Tetris, dizia-lhes: "partenogénese ou encornanço, querida, depois se verá". É claro que levava logo um estalo e, na ressaca da exaltação, algumas lembravam-se de perguntar: "quem é o Partenogénese?". Era injusto confundirem segurança com frieza mas, no fundo, tudo começara por causa dos preservativos. Entre a rapaziada eu dizia que não usava preservativo, claro, na certeza de que o que acontece no quarto não passa para o domínio público. Erro crasso. Um dia, em plena sala de convívio da faculdade, ouvi algumas das idiossincrasias verbais a que costumo recorrer durante o acto sexual. Foi o momento da viragem. Nunca mais voltei a usar preservativo e tornei-me um dos teus. Por uma questão de imagem, admito. Só mais tarde percebi que viver passou a ser uma permanente excitação, jovem.
Ivan, meu secas, deixa de escrever essa série sobre um epifenómeno literário e vê lá se começas a fazer alguma coisa de jeito pelo MI, como eu, que ando pela blogosfera fora a angariar leitores...
Dei hoje um último beijo
Já sem rotina, sem esperança
Tudo errado
A rua, o tempo, onde beijei
O que é um beijo nas têmporas?
Um beijo fraterno?
Um beijo de amante reciclado?
Um beijo desajeitado.
Começou no que fomos, o beijo
E fez-se choro concêntrico
Numa ausência dupla
O beijo a pairar sem testemunhas
Os teus passos lentos imaginados
A minha fuga apressada
Ainda a pedra não tocou no fundo
E já morreram os círculos no lago
Possa assim morrer o nosso choro
Sem que este beijo se desmanche
Pelo que vou lendo, há uma vaga de frio em Portugal. Ou houve. Ou estava prevista e não se confirmou. Não percebi ainda. Não interessa. O problema é mesmo esse. Portugal nunca teve um Inverno decente e isso deixou marcas. As marcas mais graves são a qualidade da construção - geralmente uma boa merda - e a ausência de aquecimento central nos prédios. Aqui no burgo estamos com temperaturas negativas e três palmos de neve no passeio. Frio? A minha casa atravessa o Inverno em plena euforia tropical. Se a minha mãe não lesse o MI, diria que passo o Inverno em tronco nu e com as janelas abertas, tal é a potência do aquecimento. E isto é regra, até nos prédios mais modestos. Vaga de frio em Portugal? Mas eu sempre morri de frio em Portugal. Em Portugal, de Dezembro a Fevereiro, o único local onde se está bem é a rua.
Tema recorrente nas entrevistas: quão autobiográfica é a obra de Kosinski? Nas palavras do autor, a pergunta pode ser reformulada nos seguintes termos: quão autobiográfica é a ficção de Kosinski? Kosinsky vê a memória como o grande contador de histórias, ou melhor, como uma colecção de episódios que não chegam sequer a formar uma colectânea de contos. O contador de histórias recorre também ao esquecimento, claro. Esquecer é importante. Tudo isto é trivial, e só merece ser contado pelo próprio Kosinski. Se tomo nota, é apenas para criticar a obsessão que, nos finais de 60 e pelos anos 70 fora, jornalistas, críticos e público tinham em saber até que ponto os episódios vividos pelos personagens de Kosinski fazem parte da biografia do autor. Isto é "voyerismo puro, uma forma menor de experiência"(cito o autor, embora aqui ele se referisse a outro problema). É possível que as subsequentes acusações de que ele terá forjado detalhes da sua biografia resultem da mesma obsessão, agora virada do avesso. Hipótese de trabalho: se Kosinski caminhou entre a ficção e a realidade, de um e outro lados quiseram puxar-lhe o tapete.
Com a actual profusão de sondagens inúteis, será que não se podia começar a colocar questões realmente importantes? Por exemplo, dada a possibilidade de se decidir entre uma vida efémera na ilusão da eternidade (tradução: passar pela vida como um adolescente) e uma vida eterna a gerir a paranóia da efemeridade , como se dividiria a população? Parece-me que ninguém hesitaria, mas a decisão talvez esteja longe de ser unânime. Maioria absoluta folgada? Duvido. Ora bem, eu pensava que uma sondagem serve sobretudo para esclarecer dúvidas e não para, numa lógica de retroacção invertida (hum?), macerar certezas. Enfim, já não falo no gozo que seria descobrir nos resultados desta sondagem de almas as diferenças entre as populações da região da grande Lisboa e da província ou o modo como as percentagens se distribuem pela pirâmide etária e são influenciadas pelas opções clubísticas. Podem dissertar à vontade nos comentários (ninguém corre o risco de vir a ser processado).
Ivan, não contes comigo para parcerias em cenas de vitimização que te têm no papel principal. Porfiemos, rapaz, mas não assim.

Fighting back An example of supreme self assertion…. Once, a group of naked prisoners about to enter the gas chamber stood lined up in front of it. In some way the commanding SS officer learned that one of the women prisoners had been a dancer. So he ordered her to dance for him. She did, and as she danced, she approached him, seized his gun, and shot him down. She too was immediately shot to death. This one example, and there were several like her, shows that in an instant the old personality can be regained, its destruction undone, once we decide on our own that we wish to cease being units in a system.… This she could do because she was willing to risk her life to achieve autonomy once more. If we do that, then if we cannot live, at least we die as men. Bruno Bettelheim, The Informed Heart
Antigo Bairro Judeu de Essaouira, Marrocos
Tulius, se não abandonas esses teus gestos de déspota ainda saio do blogue... Então agora resolveste decretar uma pausa? Alguém me consultou? Já nem falo do finado Difool, coitado. Subiu-te o vermelho à cabeça, está visto. Enfim, parafraseando um ilustre blogger: eu nunca perdi um amigo, mas até foi por causa do blogue. É o que te safa. Fica o aviso..
"Kosinski e eu" segue dentro de momentos
O único dado correcto no título é a palavra "pausa". Voltamos daqui a uns tempos. Até breve.
Um conhecido meu, a viver aqui há muitos anos, transformou uma inclinação natural, nunca antes testada, numa verdadeira obsessão. O vício deste homem é a mulher judia. Não uma mulher judia qualquer, mas quase todas, que ele vai trocando com assombrosa ligeireza. Judias de cabelos lisos e negros, nariz delicado, traços finos; judias de tez morena, cabelo castanho claro e frisado, feições exóticas. Às judias de geração zero ele torce o nariz, apenas porque as mulheres de leste - aqui como em tanto lado- têm a reputação de caça-maridos. Pensava eu. "Judia nova-iorquina a sério"- diz-me ele- "nasceu e cresceu aqui. Só assim se chega a um apuramento de inteligência, sentido de humor sarcástico e independência de espírito únicos. Tem também uma agressividade contida que faz disto um desporto radical, percebes?"
Paulo Portas é um político fora de série. A sua suposta orientação sexual não explica o seu percurso, mas uma manifestação do seu génio é a forma como transformou um handicap putativo num trunfo. Aconteceu no passado, quando um cacique do PS - um sujeito que fuma cachimbo, cujo nome agora genuinamente me falha- fez uma insinuação. Aconteceu agora com Louçã, um homem de eloquência acima de qualquer suspeita e que não fuma cachimbo. Saber se Louçã se referia exclusivamente ao facto de Portas não ter prole é irrelevante. O comentário continuaria a ser infeliz. O que espanta aqui é Louçã não saber que a orientação sexual dos políticos gera uma curiosidade enorme, um buraco negro que tudo suga, ao ponto de vergar a lógica. A tensão vem disto: todos sabem que ele sabe que o outro sabe que todos sabem e que ele também sabe, mas ninguém se pode pronunciar. Este enredo, digno de ser trabalhado pela retórica do Rumsfeldt, deixa uma espada de Dâmocles a milímetros do pescoço dos adversários de Portas. Ele nunca fará sombra a Robespierre, mas as cabeças vão continuar a rolar.
O debate sobre a interdição de fumar em restaurantes, bares e discotecas estava datado antes de ter começado. Percebe-se que é só uma questão de tempo até a interdição avançar. Isto não tira o chão a quem pretende defender a lei actual. Pelo contrário, dá-lhes uma aura de "último dos Moicanos". Sucede que esta malta não consegue discutir o problema no plano das liberdades individuais. E isso é grave, tanto mais que muitos deles, por motivos diversos e em grau distinto, conquistaram o estatuto de paladinos da liberdade. As soluções que encontram vão da reacção pura com laivos de provocação (Alegre, Alberto Gonçalves, Daniel Oliveira, MST) à discussão de questões marginais (JPC, por exemplo). A estratégia de JPC, em particular, faz-me lembrar a solução encontrada por um colega para evitar a frustração inerente à actividade de qualquer cientista: passar o tempo a reiterar uma experiência que resultou no passado e gozar a descoberta a cada momento, como se, de cada vez, fosse a primeira vez. No caso de JPC a irrelevância da rotina consiste em recordar-nos - a retórica de JPC é um ininterrupto recordar - os tiques do Terceiro Reich, nomeadamente a higienização de tendência nazi. A reflexão surge a propósito da campanha - idiota, reconheça-se- dos avisos necrófilos que agora acompanham os maços de tabaco. Seja. Podemos também ir repescar os episódios protagonizados por Macário Correia ou por a nu a hipocrisia de algumas acções legais movidas por fumadores inveterados contra as tabaqueiras. Tudo isto é fascinante, mas acessório nesta discussão. Revisão da matéria tantas vezes dada: estamos perante um problema de protecção das liberdades individuais, a tal história do meu punho e do vosso nariz, que me deixou a sangrar da boca quando, com a suposta colaboração de um amigo (fuzileiro), tentei uma demonstração gráfica.
Partamos de uma comparação estapafúrdia (sim, mais uma): em que medida a interdição que se pretende difere da proibição a que se utilizem as estradas públicas para corridas de carros? Algumas pessoas aceitariam provavelmente que se fizessem circuitos para os Fangios suburbanos expressarem o seu talento. Porém, exceptuando os próprios interessados, claramente perturbados pelo vício, ninguém consegue defender a abertura das estradas a tal gente. Aos caprichos destes tresloucados sobrepõe-se a necessidade de proteger os utentes das estradas. O conflito entre fumadores e não fumadores é semelhante, com duas diferenças. A primeira diferença resulta da diluição de responsabilidades que se associa a qualquer prática com efeitos cumulativos que se manifestam a longo prazo. É fácil apontar o dedo ao Jaime que varreu um casal de reformados com o Nissan de turbo triplo enxertado. No caso do tabaco a situação complica-se. Os efeitos do fumo passivo na saúde da população são graves e estão provadíssimos. O problema é que a culpa é colectiva; numa palavra - e que terrível palavra - o culpado é o sistema. A segunda diferença é que estamos perante um hábito muito enraizado na nossa cultura. Creio que estas duas particularidades explicam a onda de resistência, mas, se pensarmos duas vezes, ambas minam a argumentação dos defensores da lei actual. Ignorar a primeira idiossincrasia revela irresponsabilidade; pensar em função da segunda é ser-se reaccionário em último grau.
O que se passou em Nova Iorque é exemplar. Pouco tempo depois de aqui ter chegado discutia-se este problema, com o entusiasmo habitual. Depois a interdição foi aprovada. E o que se passou entretanto? Nada. A lei entrou em vigor e já ninguém se queixa. A discussão morreu. recuperá-la neste momento seria como pôr em causa a proibição a que se fume nos elevadores. Surgiu um novo hábito: ir fumar para a rua, rotina que os fumadores praticam mesmo com temperaturas negativas. O que sucedeu aqui aponta também o caminho para o modo como se vai ganhar esta batalha: com o argumento da defesa da saúde dos trabalhadores dos restaurantes, bares e discotecas. Num plano estritamente formal, o argumento tem falhas (se fosse tudo automatizado , isto é, sem empregados, a lei ainda faria sentido), mas com a habitual tibieza política não vale a pena ter agora muitos pruridos. Se servir para avançar com a lei, que se faça justiça assim. É uma cedência menor, que fará com que muitos possam gozar a filmografia da Bacall - entre outros prazeres - por muitos e melhores anos...
Não fazer de um blogue o sismógrafo da alma. Ir buscar sensações passadas e misturá-las com projecções futuras. Corromper a data que vem associada ao post, até fazer dela simples enumeração.
Miguel Sousa Tavares é um homem bonito. Esta evidência, que aturei em tantas conversas, não costuma aparecer na forma escrita. Há ainda demasiada homofobia estética por aí, apesar de alguns enclaves civilizacionais como, por exemplo, Évora. Vem isto a propósito de uma edição do livro Sul, que reúne textos e fotografias do viajante Tavares. Duas notas prévias: 1) excluindo as discussões sobre o futebol e as restrições a fumar em lugares públicos, estou geralmente de acordo com ele e admiro-o como cronista, pela coragem e pela independência; 2) após a penosa leitura de um livro de título bizarro ("Não te deixarei morrer, David Crockett"), decidi não ligar à prosa ficcional e/ou de carácter mais emocional que o Tavares tem produzido. "Sul" é um livro que não li. Porém, folheei-o. E, se me permitem a conclusão, "Sul" é um livro para ser folheado; não é por acaso que a nova edição vem com preservativo de plástico. A obra convida o leitor à prática do voyeurismo soft. A prosa e as histórias - que não li, volto a frisar- pareceram-me banais. Volta e meia recebo uma mensagem electrónica de um amigo nos confins do mundo que dá capote ao chatwinismo do Tavares. Conheço malta com cadernos de viagem lindíssimos, que tirou fotografias explêndidas ou que desenhou as pontes de Veneza a lapiseira. Há um tipo por aí que viaja sempre para Norte, desmistificou a sexualidade voraz das suecas, fez o trans-siberiano, emborrachou-se diante de uma aurora boreal e sempre que lhe perguntam onde estava ele no dia de um qualquer atentado, a resposta da praxe é: "no círculo polar árctico não há terroristas, pá". Este tipo não é conhecido. Eu próprio não o conheço. Mas é uma realidade estatística. De certeza que existe alguém assim, até vários. Alguém lhes edita o livro? Claro que não. "Sul" não sobrevive sem o autor- sem a sua fama e a sua figura. Esta constatação começa na capa e segue lá dentro. As fotografias são muito fracas, excepto aquelas em que o fotógrafo (o autor) passa a fotografado. O melhor de "Sul" é a cara do Miguel Sousa Tavares. Isto não chega a ser defeito, mas o homem escusava de ter viajado tanto.
"The true theological or philosophical point to be made about the Indian Ocean wave — if, indeed, there is one — is that it is a timely reminder of the fragility of our existence in this world, the ease with which life on a sunny holiday beach can be snuffed out in a few torrential seconds, and the awesome power which nature still wields, and will always wield, in a world where science and engineering make such boastful strides in subduing her. And any reminder of the ultimate and total powerlessness of human beings, made always necessary by our arrogance and boasting, must be an act of God, and a very sensible and benevolent one too. It can also be argued — and this is what our bishops, if they had any sense, would be arguing — that such events make us think about transience and death, and our own preparedness for our extinction and the life to come. So the calamity — so distressing for those individually involved — was for humanity as a whole a profoundly moral occurrence, and an act of God performed for our benefit.” (Paul Johnson)
Experimente substituir "onda" por "Holocausto" e "a natureza" por "os homens" (fazendo mais uns ajustamentos de circunstância). A relevância teológia - ou filosófica- permanece. Ou melhor, a irrelevância filosófica permanece. Podemos instrumentalizar o maremoto no sentido da existência de Deus ou da sua impossibilidade. O empate está garantido à partida. Ao tentar preservar a razão e a fé, Johnson perdeu a primeira. A fé não a terá perdido, ao contrário do que aconteceu com Chamberlain, quando tentou outro combinado impossível.
Há um puto que trabalha no balcão da Tap do aeroporto de Newark que é muito esperto. Não é chico-esperto, é mesmo esperto. (Segue-se uma pequena deambulação que o leitor apressado deve ignorar, retomando de imediato a leitura na palavra a negrito). É certo que quando se faz um comentário destes há um problema de referencial, o que não ajuda muito. E há também aquelas teorias que fazem da inteligência uma entidade multifacetada, complexa, difícil de testar, numa palavra, uma coisa inefável. Sem querer ofender os académicos, isto sempre me pareceu uma forma dissimulada de não ofender ninguém, de criar uma ilusão igualitária. Combinados, estes dois elementos fazem da inteligência um quase-tabu. Ora, a inteligência é uma qualidade como outra qualquer ou, se preferir, a falta dela é um defeito normal. Sei perfeitamente quando estou na presença de uma pessoa muito mais inteligente do que eu, muito menos ou tão inteligente. Os primeiros fascinam-me mas deixam-me alerta, os segundos incomodam-me e os terceiros levam-me a procurar uma posição confortável no sofá. A interacção obedece às regras de uma boa jogatina de ténis (pronto, de ping-pong; um blogue que apela ao voto no PCTP/MRPP deve mencionar "ping-pong" em vez de "ténis", por dois motivos que ficam por esclarecer). O rapaz passa muito tempo a olhar para o céu. Percebe-se o drama: sonha com o cockpit mas deram-lhe o guichet. Fala português como felizmente eu nunca falei e inglês como infelizmente nunca falarei. As nossas interacções resumem-se ao essencial mas topei-lhe a inteligência pela forma como interage com os outros e como parece arrumar todas aquelas tarefas no cérebro reptiliano, deixando o córtex a pairar noutros mundos. Há uns dias, enquanto usava o polegar oponível para o gesto modesto de colar um autocolante na minha mala, reparou nos vermelhos do céu e soltou uma exclamação de júbilo. Ontem, quando eu regressava, apanhei-o num dos corredores a olhar a neve que caía com a melancolia que a contemplação das quedas lentas sempre induz. É nestas alturas que um certo défice de sociabilidade me custa. Devia ter-lhe dito algo, metido conversa. Já vai sendo altura. Um dia destes acumulo milhas para uma viagem à Patagónia e ainda não sei nada sobre este rapaz... Mas voltemos ao céu. O céu avermelhado estava deslumbrante. É claro que escrever sobre o poente é ainda mais complicado do que tirar uma fotografia original de um pôr-do-sol e opto por evitar o desafio. Onde queria chegar era a outro poente, cenário para um verdadeiro recital de um bando de estorninhos, quase uma provocação da passarada nas ventas do pesados e estacionados boeings. Em pleno espaço aéreo controlado, à vista desarmada dos controladores de voo, a nuvem de estorninhos deve ter baralhado os radares com a fluidez dos seus movimentos. Quebradiça, imprevisível, recortada a negro num fundo escaldante, não havia ali lugar para a melancolia. A coisa foi mesmo arrebatadora. De tempos a tempos, aparecem por aqui umas dádivas do céu, como a visão félix-fuentiana de um falcão a debicar a carcaça fresca de um pombo no parapeito de um arranha-céus ou este bando de estorninhos. Uma dúvida que não posso partilhar com os meus amigos ornitólogos assaltou-me também: estaria a trocar morcegos por estorninhos? Erros destes são indesculpáveis, excepto quando se permanece dentro da mesma classe (taxonómica) e se faz do erro um condimento para a História. Sucede que já não há arquipélagos por aqui e mais depressa se vai de um milhafre a um açor que de um morcego a um estorninho.
Percebi que sou desta cidade quando a deixei. Típico. A minha paixão por Lisboa é da ordem do deslumbramento incondicional. Sei que sou um mau lisboeta. Não consigo conceber um mau presidente da câmara de Lisboa, por exemplo. Ninguém consegue estragar a cidade completamente e isso basta-me. Ao longo dos anos fui deixando de olhar para os jacarandás em flor do parque Eduardo VII, para os desenhos nas calçadas ou para o Tejo ao fundo das ruas íngremes dos bairros velhos. Cheguei a um estado lastimável. O poeta canta o para lá de Marraquexe, mas esteticamente estou é para lá de Massamá. Ainda ontem, quando avançava pela segunda circular, emocionei-me ao reparar na luz do nascente nas marquises dos prédios de Alfragide. Por instantes apeteceu-me morar ali.
Em resposta a uma provocação do Filipe Nunes, pela pena do escritor Javier Marias , o maradona faz uma sentida, divertida e sábia apologia de Maradona. Para Marias, faltava a Maradona a "inteligencia abarcadora" de Pelé, Di Steffano e Cruyff. Como maradona explica, "inteligencia abarcadora" é uma expressão tão sedutora que o seu autor fica logo dispensado de escrever com sensatez. Compete ao leitor corrigir o tiro. Ora bem, "inteligencia abarcadora", se bem percebi, não é mais do que aquilo a que gostamos de chamar "visão de jogo". E se falamos em "visão de jogo", então deixem-me sugerir mais um nome: Michel Platini. Platini via o jogo dos camarotes, e - reparem bem- ainda não deixou de o fazer. A minha ideia não é trazer mais entropia para esta discussão mas sugerir uma outra explicação que, segundo creio, escapou ao maradona. Marias tem 53 anos. No final dos anos sessenta, no pico da forma de Pelé, Marias era um adolescente. Nos anos 80, no pico da forma de Maradona, maradona era um adolescente. Independentemente de se continuar ou não a gostar de futebol, resistimos a substituir os ídolos que colocámos na prateleira enquanto crescíamos. A esse nível todos somos intrinsecamente conservadores. Merece o meu respeito- mas primeiro levará com o meu cepticismo- quem conseguir arrancar um consenso de uma discussão sobre ícones culturais (contemporâneos) entre duas gerações. Tudo isto não chega a ser fraqueza; é a nossa natureza. A irritação só surge quando alguém resolve recorrer à camuflagem que é a pretensa análise técnica e objectiva. Como fez o Javier. "Inteligencia abarcadora"? Como se o nosso Javier estivesse para se dar ao trabalho de ir buscar umas cassetes VHS do Maradona e andar à cata das fintas do Di Steffano pelos arquivos das televisões estatais. Por favor, não brinquem com coisas sérias. A minha idade? Bem, eu era um adolescente quando o Platini andava a fazer passes telecomandados de 50 metros.
Já fazia falta no MI um enlace para o blogue com o melhor teaser da blogosfera ("Blogue assumidamente activista do lóbi para levar Souto Moura ao Pritzker") e onde se encontram pérolas que eu gostaria de ter apanhado, como esta: "O que leva João Pereira Coutinho a afirmar que a Casa da Música é uma «aberração estética» e que o melhor era que «a demolissem para fazer jardins»? Obviamente considero esta opinião uma aberração ela própria, mas não quero demolir o JPC para fazer dele adubo para arbusto (...)"
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Em 2005, os automatismos da bloga levar-nos-ão aos seguintes lugares: A questão Conttinuada, Complexidade e Contradição, Universos Desfeitos... (por completar)
Acabo de eliminar os links para blogues que deixaram de ser actualizados ou com os quais já não tenho grande afinidade. Aqui ficam, pela última vez:Reflexos de Azul Eléctrico, Socioblogue, Soda Caustica, O Quarto do Pulha, Espigas ao Vento, Desejo Casar, Cruzes Canhoto!, Janela Indiscreta, Coluna Infame e Blogaris.
Em entrevista radiofónica: 1) Kosinski faz uma deselegante associação de ideias (a mulher dele e o 69)- tomar nota do carácter libidinoso da prosa e dos flirts com a numerologia, ambos claros após a leitura da primeiras 50 páginas de The Hermit of 69 th Street; 2) inconsistência no que toca ao domínio do inglês antes da chegada aos EUA; na rádio assume-se como sendo fluente quando ainda vivia na Polónia e numa colectânea de entrevistas lê-se que não tinha conhecimento prévio da língua- o discurso falado parece mais honesto (muita atenção à construção de Kosinski por kosinski);3) a comparação com Konrad surge no primeiro terço da entrevista; referência elogiosa a Konrad nas páginas iniciais do The Hermit of 69 th Street; 4) ski. O homem é louco por ski.
Lido com algum desconforto na contracapa do livro de entrevistas: Kosinski suicida-se em 1991. Terá escrito: "I am going to put myself to sleep now for a bit longer than usual. Call the time Eternity." A notícia de que a sua morte resultou de "asfixia auto-erótica" não tem fundamento (a explorar: as subtilezas da distinção entre "asfixia auto-erótica" e "auto-asfixia erótica").
Esta série não terá caixa de comentários
O MI é fértil em erros de ortografia e gralhas, mas mesmo assim não queria deixar de assinalar que a palavra "escroto" andou algumas dias grafada como "escotro". Após um esclarecedor telefonema com um familiar chegado apercebi-me do erro e fiz o necessário. Escusava era de ter sido elucidado à conversa com a minha mãe...
Há cada vez mais bloggers a fazer a transição para a imprensa pesada (literalmente pesada, se penso nas duas contratações mais recentes). Parece-me natural. É um sinal da vitalidade da blogosfera. Não percebo é por que motivo um tipo que tem um blogue tem de "escrever à blogue" nos jornais. Será que já não interessa escrever uma crónica com princípio, meio e fim? Será que agora o que está a dar é o soundbyte? Bem sei que o Paulo Portas em tempos foi jornalista, mas na altura até escrevia artigos formalmente sólidos e bem desenvolvidos. Duas hipóteses: ou a crónica às postas surge por imposição editorial - até consigo imaginar o Saraiva a pensar que assim "é mais moderno"- ou anda por aí uma tal fuçanguice de opinião que o cronista não resiste e dispara em todas as direcções. A opinião precoce começa a tornar-se um caso de saúde pública nas redacções dos jornais. Mais calma, malta. Menos agitação. Escrevam na água, como fazia o Abelaira. Escrevam devagarinho. Escolham um tema por semana. Lembrem-se das "composições" da primária.
Na rue du Château comunicava-se em música triste. A vizinha do 1° esq tocava Satie num piano herdado e era sempre o mesmo Satie, provavelmente o primeiro Satie que lhe ocorre a si agora; isso, naaaaã, nã, nã, nã, nã, nã ,nã, nã, naaaã... A Gymnopédie Nº 1 para Mlle. Jeanne de Bret aparecia nos dias úteis, ao princípio da noite , terminava com poucas fífias e parecia que era para mim. Do 2º esq vinha música de câmara ao Sábado, coisa de crianças educadas, que estudavam violino, flauta e violoncelo e parecia que tocavam para a mãe delas. A vizinha do 3° esq fazia da música profissão e estranhamente não tocava em casa, mas desceu uma vez para me pedir que não cantasse na casa de banho. É claro que fiquei ofendido. Valeu-me ser ela bonita. Em dois anos foi a única vez que falámos. De resto, pouco mais disse à vizinhança daquele prédio na rue du Château. As escadas e os patamares costumavam estar bem encerados, mas nunca percebi quem se ocupava do condomínio. Naquela altura ainda pensava ser possível vir a tocar Villa-Lobos na guitarra. Tudo isto agora soa a metáfora. Soa mesmo.
O MI interrompe aqui a postura vagamente niilista e desligada das coisas terrenas e, correndo o risco de alienar grande parte do bloguitório, defende a ida de Garcia Pereira para o Parlamento. Como explicar o apoio ao líder um partido que ainda mantém nos seus estatutos a tomada do poder pelas armas, o Marxismo-Leninismo, o Maoismo, o "derrubamento da burguesia e demais classes exploradoras", a substituição da ditadura da burguesia pela ditadura do proletariado e a instauração e vitória do socialismo sobre o capitalismo? Não há defesa possível. Eu sou um "lacaio da burguesia" e um militante do PCTP/MRPP colocar-me-ia sem hesitar nas "fileiras que intentam liquidar a vanguarda organizada do proletariado e conduzir toda a classe à capitulação perante os seus inimigos internos e externos". Com o devido respeito, quando me dizem que o que "caiu com a queda do Muro de Berlim não foi o socialismo ou o Comunismo, mas sim o revisionismo e o social-fascismo" começo a contorcer-me na cadeira (em regra, um lacaio da burguesia está sentado). Quando leio que se defende "a continuação da revolução sob a ditadura do proletariado" e que se "lutará sempre (...) para combater o imperialismo, encabeçado pelos Estados Unidos da América" fico ligeiramente assustado. Os EUA dão-me de comer. Enfim, aproximo-me perigosamente de um agente do inimigo, "dos revisionistas, dos degenerados, dos corruptos e de todos os elementos alheios à classe", aos quais não é permitido que "reingressem jamais no Partido". Ora isto vem mesmo a calhar e deixa-me à vontade para apelar a um voto no PCTP/MRPP, com o objectivo único de colocar Garcia Pereira no Parlamento. Leitor do MI, se vive em Lisboa e quer subir a qualidade dos deputados, que tal pensar um pouco em Garcia Pereira? Não lhe parece que o Bloco de Esquerda já tem exposição suficiente? Lembre-se também que "não há salvadores supremos! Nem Deus, nem César, nem senhores!" Nem José Sócrates...
O advogado Garcia Pereira vai ser o número um da lista do PCTP/MRPP por Lisboa às eleições legislativas de 20 de Fevereiro, anunciou ontem o partido.
De acordo com o Público, nas legislativas de 2002 o partido obteve 35.930 votos, o que representa 0,66 por cento do total da votação.
A outra curiosidade no Mil Folhas desta semana é a carta de repúdio ao famoso "artigo" de maria Filomena Mónica (MFM) sobre a poesia e a sociologia de Boaventura do Santos, que fora já amplamente comentado na blogosfera (até por mim). Estou de acordo com o conteúdo da carta ao ponto de me apetecer insinuar que fui plagiado. O facto de a crítica só aparecer agora diz muito da diferença de velocidades que existe na imprensa e na blogosfera, mas já se acenou com este escalpe o suficiente e não vale a pena retomar o metabloguismo indulgente. O que me chamou a atenção foi o número de autores da carta: 23! Leram bem. Este número absolutamente ridículo, mais adequado para um abaixo-assinado ou para um artigo de Física de partículas, coloca-nos perante o grande mistério pós-moderno: como explicar que as defesas a Boaventura dos Santos surjam em regra na forma de frente-armada (aqui refiro-me também ao calhamaço de autoria múltipla em resposta à polémica ao retardador gerada pelo "Um discurso sobre as Ciências")? Afinal, parece que o cognome de "guru" não peca por defeito. O efeito é contra-producente: a tamanha desproporção de meios neste combate eleva MFM à condição de heroína. É preciso fazer um boneco? Outra questão: terá Boaventura encomendado- enfim, sugerido... pronto, concordado com - esta empreitada, ficando a salvo do trabalhinho sujo? E o que motivará o grupo dos 23? Importa reforçar este ponto, o absurdo da expressão "grupo dos 23" perante outros agrupamentos, numericamente mais modestos, é certo, mas com um peso histórico mais relevante. Pensemos na China e no grupo dos quatro, na economia mundial e no G7, nos cavaleiros do Apocalipse e, até, nos 12 apóstolos. Que memória ficará do grupo dos 23? Por último, e esta é uma questão que está longe de ser menor: quem escreveu o rascunho do artigo e o pôs a circular? Quem? Quero um nome! Ana Gabriela Macedo? Ana Luísa Amaral? Armando Silva Carvalho? Bernardo Pinto de Almeida? Celina Manita? Diana Andringa? Fernanda Gil Costa? Francisco Louçã? Gabriela Moita? Gastão Cruz? Helder Macedo? Helena Carvalhão Buescu? Helga Moreira? Isabel Allegro de Magalhães? Isabel Pires de Lima? João Ferreira Duarte? João Teixeira Lopes? João Vieira Pinto? (Este é a reinar). Manuel Gusmão? Maria Teresa Horta? Maria Velho da Costa? Miguel Vale de Almeida? Paula Morão? Rosa Maria Martelo? Teolinda Gersão?
Frederico Lourenço escreve hoje no Mil Folhas sobre Aracne, o novo livro de António Franco Alexandre. Para um ignorante como eu, a prosa é suculenta. O único problema é o título. A que "Insectos gregos" se refere Frederico Lourenço? É que as aranhas- convém lembrá-lo - não são insectos. Há um parágrafo no texto de Lourenço em que são mencionados a abelha e o grilo, insectos indiscutíveis. Mas nos restantes 8 parágrafos quem brilha é a aranha. Esta quase-gaffe não é grave, mas deixou-me algo enredado e a leitura do artigo em questão exigia uma certa desenvoltura cognitiva. Foi... aborrecido.
Só agora tive oportunidade de ver o DVD série Fonseca, da rapaziada do Gato Fedorento . Antes de tentar uma crítica, parece-me importante adiantar o essencial: o Gato Fedorento recupera para o humor a Universidade e, sobretudo, a heterossexualidade.
Volta agora a bailarina que dança em pontas nos espigos banhados a ouro do gradeamento do jardim do Luxemburgo. De onde vem esta mulher? Junto alguns elementos para a decidir entre memória plantada, sonho, visão, alucinação e outras possibilidades:
1. facto: em andamento costumava passar os dedos mão no gradeamento do jardim, conseguindo um efeito paradoxal de escala torrencial (pelo movimento da mão) de uma nota só;
2. facto: dois amigos de orientação sexual oscilante beijaram-se perto do gradeamento numa madrugada primaveril.
3. dúvida: onde está a fotografia tirada a um rosto irrepreensível que espreitava entre as grades, enésimo pretexto para brincar com a profundidade de campo?
4. que importância joga uma imagem real de alguém em equilíbrio precário sobre um outro gradeamento, como um marginal pouco dotado que arrisca o escroto a altas horas da noite e à chuva?
5. a reter: detesto ballet clássico.
Leio no Aviz que as finanças da livraria Buchholz já viveram melhores dias. Tenho com a Buchholz uma relação de amor-ódio. O ódio resulta da imprecisão geográfica com que a localizo em Lisboa (fica sempre na rua ao lado), talvez uma transmutação da imprecisão ortográfica com que escrevo o nome da livraria na ausência de uma cábula. O amor, enfim, gosto daquele espaço. Por isso, não podia estar mais em desacordo com o repto que o Francisco José Viegas cita no Aviz e que terá sido escrito por um grupo de amigos da livraria. Dizem eles: «Agradece-se a todos quantos a frequentaram que a voltem a visitar, de vez em quando. Comprar um livro que não se encontra em mais lado nenhum pode, eventualmente, ajudar a reerguê-la.» Percebo a intenção: fazer um pedido de ajuda com elevação. Só que assim não funciona. A Buchholz não é particularmente especializada e hoje a oferta online lança um desafio às livrarias: ou se reinventam como espaços de convívio e de cultura ou vão perecer. Essa reinvenção acontece já por todo o mundo e, segundo creio, até em Lisboa. Não sei se a Buchholz tem um programa cultural intenso (lançamentos, conferências, recitais, etc), mas se há um caminho a seguir parece-me ser esse. Seduzir o leitor a comprar, precisamente, o livro que se encontra por toda a parte, mas que ele quer comprar ali. Para que os outros livros, que até se encontram noutros lugares, possam continuar a existir na Buchholz. O resto "é hipocrisia" (à Pacheco).
O melhor espectáculo de televisão são as discussões entre representantes de várias religiões sobre... bem, sobre tudo. Quem, como eu, pensava que o fanatismo religioso estava confinado aos enclaves mediáticos que são os canais dos evangelistas e os programas de madrugada, está desactualizado. Estas discussões têm agora lugar no horário nobre dos principais canais da televisão por cabo dos EUA. O último episódio de religious tv juntou o protestante, o católico, o rabi e o ateu de serviço, aos quais se colou, correndo com o primeiro, um especialista no Armagedão. Os pontos de vista do islamismo foram introduzidos pelo moderador, um republicano conservador do Midwest chamado Joe e, infelizmente, não convidaram budistas nem hindus. Os lapsos não acabam aqui. Joe cortou a palavra (literalmente) ao ateu, quando este punha a nu uma evidência: que era lamentável alguém aproveitar aquela discussão para promover um livro (facto: fiquei a saber que o especialista no Armagedão vende mais do que John Grisham, para cima de 40 milhões de exemplares). O moderador acusou o toque e resolveu fazer um esclarecimento (pouco convincente, de resto), mas o ateu não voltou a entrar na discussão, que continuou. Primeira emenda? Aaaaah (gato fedorento®)!
O que se discutia? Isso, o significado do maremoto na Ásia. Para o católico e para o especialista no Armagedão o maremoto é um castigo de Deus e pretexto para mencionar a clonagem e o casamento gay (então e a sida?); para o protestante é uma mensagem e pretexto para inspiradas reflexões sobre o package "vida depois da morte; para o rabi é razão para nos revoltarmos contra Deus e os católicos, no fundo uns masoquistas que fazem do sofrimento medicina; para o ateu o mais importante é continuar a fazer donativos. De sismologia ninguém falou. A coisa foi fina e meteu citações da bíblia em letra gorda sobre fundo laranja (quem dispensa um Mateus 24 nestes momentos?). Fui ler e confirmei uma impressão: a arte da profecia consiste em projectar no futuro acontecimentos passados, seguindo as mesmas técnicas de discurso vago que regem os a escrita de horóscopos, mas cortando no optimismo.
Outro argumento que sempre comparece nestas ocasiões, travestido de discurso informado mas não passando de panteísmo com laivos de rousseanismo requentado, diz-nos que este acidente é um grito de revolta da natureza que nos deve fazer refrear o optimismo no progresso e na tecnologia. Levada à letra, a prosa de Rousseau não cola. Sobre a catástrofe de 1755 recordemos que o filósofo se referia especificamente aos perigos da concentração de pessoas em grandes cidades:"...la nature n’avait point rassemblé là [Lisboa] vingt mille maisons de six à sept étages, et que si les habitants de cette grande ville eussent été dispersés plus également, et plus légèrement logés, le dégât eût été beaucoup moindre, et peut-être nul". Mais absurdo ainda é fazer do maremoto uma consequência da acção do homem contra a natureza, como se fosse o resultado directo dos índices de poluição ou da desenfreada pesca à baleia das frotas noruesa e japonesa (profecia: alguém vai acabar por desenterrar uma relação causal um pouco menos descabida que, combinada com o desejo de acreditar, vai soar bem plausível). A crítica à tecnologia, em particular, é infame. Só a tecnologia podia ter minorado esta tragédia e é para este campo que urge canalizar energias, antes que espírito mobilizador esmoreça.
A terceira falácia- digamos- resulta da tentação moralista. Há um desconforto difícil de gerir ("Lisbonne est abîmée, et l’on danse à Paris", escrevia Voltaire sobre o terramoto de 1755). Subitamente damos conta da sorte que temos e gera-se na consciência um desequilíbrio que é preciso compensar. Há quem opte por sentir com muito sentimento. Há quem prefira ser pragmático, dar dinheiro, arregaçar as mangas. Há quem passe o tempo a reflectir. Há quem fique particularmente susceptível a actos de voyeurismo jornalístico, ao tratamento diferencial que nas peças foi dado a ocidentais (um rosto é um nome) e aos locais (um rosto é um povo); há que se indigne com as imagens de turistas na retoma do bronze pelas praias há poucos dias inundadas. Há quem faça tudo isto ao mesmo tempo. Quem sou eu para opinar? As únicas conclusões que retiro são estas: 1) a incrível mobilização de donativos resulta em grande parte da cobertura mediática, com todos os seus defeitos; 2) o futuro daquelas regiões passa pelo regresso do turismo. Os fins que justificam os meios? Talvez.
A importância de se chamar Kosinski? Alguma. Um nome que corta como um gume de faca japonesa ajuda. Uma inteligência exuberante ajuda ainda mais. Há o fascínio do culto solitário, também.
Leio sugestões de livros por toda a parte. Estou receptivo ou de acordo com um quinto das sugestões (nos livros que conto ler e li) mas tamanha sintonia deixa um amargo na boca. Sempre evitei os clubes de discussão de livros. Há várias razões para isso, nomeadamente as minhas falhas de memória. Budapeste, de Chico Buarque, por exemplo, como acaba? Não sei. Não sei mesmo. Li o livro no Verão, podia juntar umas linhas de crítica não totalmente imbecil (digo eu) mas não me lembro como acaba. Vocês sabem: em que cidade está o personagem, se ficou com a mulher (havia mulher? Também aqui tenho dúvidas), se falava bem húngaro no final. Esta dificuldade em reter detalhes compromete qualquer discussão sobre livros. E se é assim, qual a vantagem de andar a ler os livros que todos lêem? Nenhuma. Seguir as sugestões de leitura das pessoas que respeito obedece a outros motivos e é algo que continuo a fazer. Mas invisto cada vez mais na exploração às cegas. Dar com uma capa apetecível, um título, um parágrafo bem esgalhado numa página aberta ao calhas, uma resposta num programa de rádio e ir depois à aventura, investir horas e horas num tipo de que ninguém alguma vez falou ou foi levado na enxurrada do tempo. Kosinski, por exemplo. Jerzy Kosinski. Sei que não vai tardar a aparecer na janela de comentários um iluminado, daqueles que já leram tudo, que vai desconstruir Kosinsky em três linhas. Fair enough. A minha empreitada é ir escrevendo sobre a experiência de o ir descobrindo.
Gosto do Natal. A apropriação por comodismo de rituais que nada me dizem no plano espiritual não me incomoda. Em noites boas cheguei até a murmurar umas linhas de baixo-contínuo na missa do galo de Ferreira do Alentejo. Um homem precisa de rituais e há muitos anos aceitei a metamorfose mais parcimoniosa: o Natal é a festa da família. Esta decisão evita o ridículo de um ateu americano que, na televisão, queria substituir o Natal por um ritual pagão obscuro. Creio que ele falava da celebração do Inverno (?), mas não me recordo bem; instantes antes um rabi falara da teoria da Evolução em termos pouco elogiosos e fiquei perturbado. A anteceder o rabi coube ao católico de serviço referir-se ao vazio espiritual dos ateus com fel a escorrer da boca. Com espectáculos destes, o telecomando impõe-se naturalmente como o melhor amigo do homem.
Em 2004 o meu Natal foi atípico. A família voou em formação de missing man e não havia tinto alentejano à mesa do restaurante de uma cidade costeira de Marrocos. A ideia de um Natal abstémio suporta-se mal sem álcool. Certas ausências, também.
Tendo presente que as leis do mercado encerram um princípio válido fora do mundo da moeda e das mercadorias, daqui em diante optámos por atribuir apenas um prémio anual, o Memória inventada Award (inglês). O MIA premiará o melhor blogger e não o melhor blogue. A distinção é subtil e não visa apenas separar o trigo do joio nos blogues colectivos, mas não vale a pena seguir agora por caminhos tortuosos. Atalhemos: o MIA 2004 vai para as prateleiras do Fernando Madeira, em círculos restritos também conhecido por "doninha" ou "gordo", o mesmo que assina na blogosfera como maradona (com minúscula). A justificação para este prémio? A primeira explicação é trivial. O Mi elogia maradona porque maradona tem por hábito elogiar o Mi. Esta mania de fazer dos galhardetes elogios é muito popular na blogosfera e explica muitas "dinâmicas", mas convém lembrar que, ao contrário do que muitas vezes se julga, a leitura mais cínica nem sempre é a mais clarividente.
O insulto gratuito é coisa imediata e efémera. A desistência de Adérito Silva, o nosso arqui-rival, é disso prova (esclareço que o Adérito não é mais um personagem criado pelo Ivan; ele existe, anda por aí, no subúrbio mais perto de si). Com o maradona sucedeu algo diferente. Se nos primeiros tempos do Pastilhas não tinha muita pachorra para o moço, cedo comecei a ficar com vontade de ir beber umas imperiais com ele. Tal projecto, eternamente adiado, coloca hoje maradona ao nível das namoradas liceais putativas que deixaram saudades pelo que não chegou a acontecer. E é aqui que a vontade de elogiar ganha um momento próprio que dispensa o diálogo e não espera pela retribuição. Elogiar assume contornos de rotina de autista.
A segunda explicação é mais trivial e objectiva. Há quem escreva muito bem na blogosfera. Há quem tenha coisas para dizer. Há quem faça blogues bonitos, quem se preocupe com a actualidade, quem atribua uma importância considerável às suas opiniões e quem use o blogue para variações de lepidóptero mimetismo sobre as colunas de opinião da imprensa. Neste pelotão das elites, mas correndo por fora, sobrevivem algumas vozes que só fazem sentido na blogosfera ou num fanzine sempre à beira da derradeira edição. O maradona, que tem um blusão foleiro e gere um sublimado fetichismo por botas de montanhismo, é uma dessas vozes. ( Fade in de umas violinadas à Smetana). A um humor refinado, que marcaria pontos na melhor sessão de brainstorming da rapaziada das Produções Fictícias, maradona alia um estilo que é um híbrido feliz de pessimismo metódico cruzado com deslumbramento juvenil. O talento permite-lhe fazer do futebol a luneta que contempla e por onde por vezes se lembra de espreitar o mundo, sem perder os leitores que só gostam do desporto-rei a partir das meias-finais das competições internacionais (grupo a que tardiamente cheguei). Estas características fazem de maradona um blogger de eleição mas não explicam o MIA 2004. O que coroa maradona é a sua preguiça. Cada post dele é um diamante bruto que não deve ser trabalhado. A displicência com que bloga é tão lendária quanto eficaz. Parece que o maradona escreve durante o intervalo de um jogo de futebol televisionado e depois não corrige, voltando à partida ou cedendo à tentação de aplicar nas botas a enésima camada de banha de iaque fundida em lume brando. Quando tudo isto acontece sem que o blogue desapareça ou o post se perca, temos prosa fresca e damos graças a quem de direito. A preguiça do maradona é um contraponto útil nos tempos que correm, em que todos apregoam (e poucos praticam) os valores da meritocracia, do trabalho, da excelência. O maradona é quem menos trabalha e consegue ser o melhor. Este corolário, que derrota tanta coisa, noutras circunstâncias justificaria uma nota introdutória a desaconselhar a exposição deste material a leitores facilmente impressionáveis. Mas tal aviso seria tão anti-maradoniano que o elogio implodiria. É por isso que, sob pena do MI contribuir também para a corrupção da juventude, o MIA é atribuido sem avisos e sem condições. Citando os clássicos: "we don´t need another hero".
Troca de galhardetes: o MI agradece aos seguintes blogues pelas distinções com que nos brindaram:
Acidental (pela pena de Rodrigo Moita de Deus, a revelar um desconcertante fairplay)
Almocreve das Petas
Aviz
Contra a Corrente
Rua da Judiaria.