novembro 29, 2005

Morse

Tenho o vício de inventar nomes para instrumentos que meçam o que realmente conta. Mas não há unidade, nem escalas, nem ponteiros. Estas coisas não são passíveis de mensuração. Sobra um nome, que exprime um desejo. Tomo sempre por modelo o sismógrafo, porque me parece um instrumento rico e com sentido do tempo. Aquela agulha sobre o rolo de papel conta uma história, coisa que os desmemoriados relógios não são capazes de fazer; medir o tempo é deixá-lo fugir a cada instante. O que faço, perguntas? Ora, pego no sismógrafo, arranjo uma complicação de fios que torne o embuste credível e ponho-me a registar, sei lá, a alma, a alegria, o desencanto. Se calhar devia usar um estetoscópio, mas não saberia onde o encostar.
Ontem, enquanto ainda dormias, inventei o onirógrafo, um detector de sonhos. Na verdade, não o inventei, limitei-me a descobri-lo. O sol rasteiro entrou pelo quarto muito devagar (não é da latitude, mas quase apetece dizê-lo), inundando-o de luz, como naqueles dias de Inverno em que na nossa casa o sol espreitava por uma brecha entre dois prédios e a luz era o raio preciso dos monumentos megalíticos, só que no tempo e no local errados. Nesse momento uma sombra ténue, delicada mais precisa, projectou-se na parede. Chamou-me a atenção pela forma como se movia, às vezes com o lento baloiçar das algas fundeadas, outras vezes mais agitada e irregular, como se transmitisse sinais de Morse de um qualquer posto avançado sob ataque. Olhando-te de frente, era evidente que sonhavas, mas se não fosse aquela sombra jamais teria dado com o que as tuas pestanas iam relatando. Deixa-me pensar agora que o fazias inconscientemente, por saberes como eu gostava de ouvir os teus sonhos e teres receio de me desiludir se ao acordar deles não te lembrasses.

Ah...

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Agora sim, Scarlett

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Perdão, Scarlett Johanson...

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Scarlett Johanson

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Primeira imagem significativa do Google Images para a busca "Scarlett Johanson"

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novembro 28, 2005

Como os gatos

A blogosfera tem várias vidas. O Educação Sentimental está de regresso.

Trabalhos de grupo

Na escola e na faculdade fartei-me de fazer trabalhos de grupo e a coisa dava-me muito gozo. Desde que acabei o curso, apesar de continuar a trabalhar dentro de instituições académicas, só tenho tido colaborações e parcerias; as primeiras tendem a ser esporádicas e as segundas desequilibradas (como entre o orientador e o estudante). Por outras palavras, nunca mais voltei a fazer trabalhos de grupo e o meu percurso tem sido essencialmente a solo. A excepção é um projecto a longo prazo com o meu amigo Santiago, que considero um trabalho de grupo a sério, apesar de ser um dicionário de ciência a brincar.

Thanksgiving

Momento memorável da noite: quando dois alemães sugerem e tentam demonstrar que o 11 de Setembro foi arquitectado pelo governo dos EUA. É difícil ser-se menos previsível (visto serem europeus), mas a coisa até teve graça, e isso foi surpreendente (visto serem alemães).

novembro 26, 2005

BnO (97)

the best.jpg Numa tarde, pela mão de A., o enciclopédico do futebol britânico, descobrimos a arte de George Best. A. fazia pause no vídeo, dizia "que desperdício de talento, pá...", depois soltava o endiabrado Best, deixava-o marcar um golo soberbo, para logo regressar à sua ladainha: "que desperdício de talento, senhores... Que pena, pá. Que pena este gajo não ter jogado no Liverpool". Da decadência de Best e dos seus problemas com o álcool ele só nos falou a seguir, mas como nota à margem. A. era tão fanático pelo Liverpool que a tragédia de Best não lhe despertava a menor curiosidade. Connosco passou-se o contrário, talvez justamente por culpa de A. e da malfadada cassete com os melhores momentos do Kenny Dalglish, que conhecíamos de cor e tinha a fita riscada como um filme velho. Fugimos a tempo de casa dele, a pensar na bebedeira do Best. De pergunta em pergunta chegámos então ao outro mártir da bebida, Garrincha. E foi assim que todos os bêbados da taberna do bairro se transformaram em velhos craques de futebol em potência e nós nos sentimos obrigados a investigar aquelas vidas.
Agora à distância, a taberna surge numa tonalidade esverdeada e sombria, parecendo que a cor do vidro das garrafas e a escuridão do tinto tomaram conta do estabelecimento; e dos velhos também, com os cantos dos lábios manchados, mesmo se não passavam a manhã a fazer escalas num trombone cheio de verdete. Só alguns olhos azuis brilhantes e um par de olhos escuros vivos ainda resistem, agora na minha memória como antes no corpo deles. Os olhos, pelo menos na aparência, nunca envelhecem, mesmo quando se espreita para dentro e já está tudo morto. Mas naquele tempo os velhos não eram assim tão velhos e por volta das 4 da tarde havia sempre alguém às gargalhadas. Da mão cheia de clientes habituais, 3 tinham pinta de jogador retirado. Enfim, dizíamos nós. Percebemos num homem novo o que é isso da pinta de jogador – o cabelo comprido atrás, a forma de envergar um fato e de abusar do “portanto” -, mas passados 30 anos, o que fica? Não havia forma de saber. Tirando uma exclusão sumária - o marreco da mesa do fundo - ficámos dependentes de palpites. E falhámos todos: um antigo estivador, que ainda fazia uns biscates com um canalizador amigo, um condutor da Carris reformado e um pobre coitado que não falou mas nos disseram ter sido guarda nocturno. Não conseguimos ter nenhuma compaixão por aqueles homens. Se tivessem sido glórias passadas caídas em desgraça... Não nos ocorreu que o condutor da Carris talvez tivesse atropelado uma criança e se consumisse em remorsos. Ou que então o vício se instalara sem causa próxima aparente, como forma de combater o tédio, ou a melancolia que se apodera dos homens de manhã. Sabíamos lá. Não sabíamos nada. Ainda contámos ao dono do estabelecimento o que buscávamos, não se desse o caso de termos falhado à Terça um craque que só se embebedava às Segundas, Quartas e Sextas, mas o homem ficou em silêncio. Depois abandonámos a taberna, conformados. E quando ouvimos, vinda de dentro, a voz do taberneiro, subitamente iluminado e quase a gritar -"Esperem lá, eu conheço um tipo que é amigo do Vítor Baptista..." - não voltámos atrás, dissemos adeus e apenas comentámos entre a malta: "Vítor Baptista? Quem é esse gajo?"

O suor pelas costelas

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Eu disse "não". A polícia então tentou negociar. Aí eu disse "não" outra vez e exigi falar com o superior hierárquico. Nesse momento a polícia fugiu.

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. Vinha cansado da viagem. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Eram dois. Tentei argumentar mas dei-lhes a minha carta de condução. Um dos polícias entrou para o branco traseiro e disse-me para começar a guiar. O seu colega seguiu-nos no carro da polícia. O polícia, do banco traseiro, pediu-me $120. Então eu disse "não". Começámos a discutir e fiquei um pouco exaltado. O polícia tentou negociar. Perguntou-me quanto é que eu estaria disposto a pagar para que resolvêssemos ali o assunto. Aí disse "não" outra vez e exigi falar com o superior hierárquico. Para me acalmar o polícia devolveu-me a carta de condução. Eu continuei, de dedo em riste, falando para trás. Nesse momento o polícia pediu para eu parar o carro, insultou-me e fugiu.

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. Vinha cansado da viagem e lixado por ter enfiado o carro contra uma carrinha, num cruzamento de um pueblo miserável. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Tentei argumentar mas cedi a minha carta de condução. Eram dois polícias. Um chamava-se Jesus e o outro era alto para um mexicano. Jesus entrou para o branco traseiro e disse-me para começar a guiar. O seu colega seguiu-nos no carro da polícia. Jesus arrancou um discurso moralista e vagamente xenófobo, antes de me pedir $120. Então eu disse "não". Começámos a discutir e fiquei um pouco exaltado. Jesus tentou negociar. Pelo espelho pareceu-me que afagava a coronha da pistola, enquanto falava comigo. Reiterei o "não". Jesus perguntou-me a seguir quanto é que eu estaria disposto a pagar para que resolvêssemos ali o assunto. Aí disse "não" uma vez mais e exigi falar com o superior hierárquico de Jesus. O polícia pediu-me calma, mas eu só lhe dizia que ia pagar "nada", enquanto guiava e gotas de suor galgavam as minhas costelas. Para tentar controlar a situação o polícia devolveu-me a carta de condução. Eu continuei, falando para trás. Algo enfadado e frustrado, Jesus cortou-me o entusiasmo e pediu para eu parar o carro. Abriu a porta, largou um insulto e dirigiu-se calmamente para a viatura do colega, que viera colada ao meu carro.

(continua)


O sal nas asas

Não sei que lembrança guardas das borboletas, se as vês em três cores apenas - brancas, alaranjadas e amareladas - e se, como eu, pensas que um salpico de mar as deitaria ao chão, mas só depois da água se evaporar e um cristal de sal de arestas afiadas lhes rasgar as asas. Talvez te recordes daquele bicho que recolhi com mãos em concha e, após peneirar a areia afrouxando os dedos, coloquei sobre as tuas costas nuas, para vos espiar de perto: ao bicho, quase desfocado, como um animal numa pastagem; a ti, à tua tão discreta penugem dourada, que o sol transformava numa auréola a envolver todo o teu corpo, e ao teu respirar, que fazia um ritmo complexo com a cadência das ondas. Parecíamos descansar depois de fazer amor, mas sem nos termos tocado, porque tudo à nossa volta nos tocava já em comunhão. E quase juro que a minha pele, sem que precisasse de ajuda, seria hoje capaz de desenhar a fronteira entre a parte exposta ao sol e a sombra que por ela avançou naquele dia, agora com a lentidão certa do meio-dia e já sem o artefacto da aceleração do tempo que é próprio dos momentos perfeitos.

Cavaquistão ou o país real

Quando vou a uma associação recreativa de portugueses de Newark, ver a bola, há na sala uns 50 homens e uma mulher, que geralmente está a servir tremoços e a tirar imperiais. Dizem-me que aquela é uma imagem do Portugal dos anos 60. Erro crasso. No Pulo do Lobo escrevem 18 pessoas e são todos homens. Não sei quem assegura o pires de tremoços mas palpita-me que não será o Dr. José Pacheco Pereira.

Adenda: é claro que fui depois ao Super-Mário e contei uma mulher apenas numa equipa de 14 escribas. Fica demonstrado que andar a brincar ao comentário político é como as play stations, uma brincadeira de rapazes.

novembro 25, 2005

Zé Mário e amigos

Na qualidade de especialista em terminar blogues e regressar do mundo dos mortos, o fim do Blogue de Esquerda seria um tema cá dos meus.

Mas é como de antigo colaborador esporádico do BdE que escrevo. Minto, na verdade é por ter esta dívida de gratidão, tantas vezes já contada por mim e outros: o BdE e a (ainda mais) pioneira Coluna Infame começaram este arraial.

Bem sei que falamos de um blogue colectivo, mas o meu abraço vai sobretudo para o Zé Mário (aqui a solo), que desde a primeira hora foi a alma do BdE.

Até breve,

BnO (96)

Pele_1970.jpg"Há três formas de atingirem a imortalidade no futebol, rapazes, sem contar com as que são infames." Quem o disse chegaria a ministro, mas na altura aproximava-se dos nossos serões passados ao relento apenas com a segurança da sua eloquência. "A primeira não depende de vós: o talento. A segunda deve-se aos caprichos dos Deuses e à vossa persistência: a sorte. Às vezes basta estar no sítio certo na altura certa, mas não há aqui grande mensagem, apenas que não devem desistir. E há uma terceira via: criar um gesto novo". Ninguém o estava a perceber, mas ele continuou. "Têm acompanhado o Mundial, certo? Toda a gente comenta o toque de calcanhar do Sócrates, não é? Daqui a 20 anos ainda falarão dele mas só por causa do calcanhar". Então entusiasmou-se: "... Aquiles é que não gostaria nada de saber desta reputação do Sócrates! Ah!" Como ninguém se juntou a ele na sua risada, apressou-se a retomar a exposição: "O Brasil pode não ganhar o Tetra, o Sócrates pode até retirar-se amanhã. Haverá depois quem diga que o toque nem sequer é dele, o que só aumentará a sua fama. Haverá também quem note que aquilo não é um duplo mortal, que qualquer um consegue fazer um passe de calcanhar, sem perceber que ao banalizar o gesto só engrandece o seu inventor. Descubram um gesto novo no campo, rapazes. Pode ser um jeito de fintar, um passe, qualquer coisa. Mas tem de ser útil, belo, dentro das regras e pouco circense, percebem? Não se lembrem de inclinar a cabeça e desatar a correr com a bola encaixada entre o ombro e uma das bochechas. Inventar é difícil, mas está mais dependente do vosso trabalho do que os outros caminhos para a imortalidade." Ninguém ousou comentar e o futuro ministro afastou-se tranquilamente.
O homem falara para uma roda de dez amigos. Nessa noite, já deitados, todos pensávamos em gestos originais e só um de nós divagava: "mas afinal, quais são as formas infames de atingir a imortalidade?" Nas semanas seguintes, sem que ninguém quisesse admiti-lo, passámos a jogar futebol experimental. Tudo se orientava para servir a criatividade. Um lançamento de linha lateral era logo um projecto. E as jogadas mais absurdas, os erros mais infantis, gozavam de um estado de graça de três segundos, na expectativa sincera de que o desastre se consertasse no último instante e emergisse como uma revelação. Os maus resultados não se fizeram esperar e as nossas várias equipas afundaram-se em todos os campeonatos de bairro. Por isso organizámos uma reunião de carácter urgente. Se houvesse acta, leríamos hoje: " foi aprovado por unanimidade que todas as ideias para novos gestos futebolísticos estão doravante sujeitas a aprovação por uma comissão avaliadora antes da sua execução nos jogos de treino e oficiais, sob pena de expulsão da equipa". É claro que não nos achando com competência e imparcialidade para integrar a tal comissão, fomos bater à porta do futuro ministro. Bem vistas as coisas, a crise tinha sido desencadeada por ele.
"Muito bem, podemos ir para o patamar. Deixem-me ir buscar a bola." E assim, aos Sábados de manhã, as nossas criações eram passadas a pente fino. Duas primeiras conclusões avassaladoras: quase nada do que inventávamos tinha utilidade prática e as poucas criações interessantes só eram originais entre ignorantes". O futuro ministro bem tentava ser simpático: "sim, J., excelente variação sobre o drible da vaca [passar a bola por um lado e contornar o adversário pelo outro], mas o Pelé fez isso ao Mazurkievicz, o guardião do Uruguai, em 1970, também sem tocar na bola. É uma finta magnífica, tão mágica que mesmo não tendo sido golo ainda hoje falamos dela". E depois ia a casa e voltava com livros abertos na página certa, para nos mostrar que falava a verdade." A nossa aprendizagem do acto criativo foi apenas isso: um banho de humildade. Após um mês daquelas sessões, regressámos ao campo com os truques do costume. À porta do futuro ministro só voltaria a tocar um miúdo, ainda ensimesmado com a tal questão. Nesse ano nós recuperámos algumas posições na tabela e muitos anos depois aquele miúdo chegaria a assessor de ministro.

Maria Filomena Mónica: so far so good

MFM.jpgAté agora estou a adorar a "autobiografia não autorizada" de MFM. E com alguma sorte ainda iniciarei a leitura do livro antes de ler a crítica devastadora do João Pedro George .
Em matéria de sex symbols para intelectuais, convenhamos que os anos setenta foram melhores que este início de século. Ana Drago? Joana Amaral Dias? Tenham dó. Enfim, não podemos exigir tudo às conquistas de Abril.

novembro 24, 2005

BnO (95)

Em rigor seria já a madrugada de São João. Passáramos a noite a saltar a fogueira e as brasas sufocavam nas cinzas. Ainda esvoaçavam pedaços meio queimados de folhas de jornal e eu vi o Pietra agarrado a uma taça e com uma cabeleira de meter medo ao nosso morcego. Eram os restos da espessa resma de edições d´ A Bola, que T. ia acumulando ao longo da época, para queimar em ritual naquela noite, a menos que o Sporting tivesse ganho o campeonato. E naquele ano, como no anterior, não foi difícil atear fogo aos madeiros com tanto jornal à mão. Só por isso o Pietra pairava entre nós, não como uma alma penada, antes simples instantâneo do Ferrari, sustentado pelas correntes térmicas que as lajes mornas ainda alimentavam.
Vi cadeiras herdadas serem consumidas naquele fogo, com os estofos aveludados a fazerem uma chama fugaz e depois o pau a arder devagarinho e a cola a escorrer dos encaixes, num prenúncio das desavenças conjugais que no prédio eram sempre silenciadas. Uns vinte casais e apenas um divórcio durante uma década? Eis uma poderosa estatística que só estalaria muitos anos depois. De vez em quando, lá aparecia uma rapariga a lançar à fogueira um molho de cartas de amor não enviadas e presas por um elástico, que depois um miúdo resgatava do fogo, desaparecendo no escuro como um estafeta da chama olímpica e deixando-a a pensar se fogo ateara pelo fim da carta ou pelo cabeçalho. Mas estes eram episódios pontuais. A rotina consistia apenas em ir saltando a fogueira, com alguns homens por perto, vigilantes. As roupas ganhavam então um cheiro forte e era fumados como enchidos que recolhíamos a casa. Só que naquela noite fiquei com um companheiro até mais tarde. Resolvemos reanimar o fogo e arrastar mais uns madeiros. Quando as labaredas surgiram de novo, sem trocarmos uma palavra, posicionámo-nos em lados opostos, com o fogo no meio. Depois começámos a fazer passar a bola a meia altura, sem a poupar das chamas.
Na véspera estivéramos até às tantas entretidos com o space invaders na televisão da minha sala. Quando desliguei o computador e voltou a imagem da RTP1, surgiu uma cena do filme O Caçador, em que Christopher Walken joga roleta russa, com aqueles olhos exoftálmicos de quem já levou um tiro nos cornos e não deu por isso, tal a sofreguidão com que ainda deseja o tambor do revólver. Ficámos congelados diante do televisor, a gerir a brutal passagem do espaço sideral onde tínhamos 3 vidas de sobra, para um casebre de Saigão em que a cada rodada a probabilidade de morrer era 1/6. E assistimos então à morte de Walken, sem sequer uma vida sobresselente, como se ele estivesse a jogar space invaders num nível já muito avançado. Não olhámos um para o outro, mas para o de Niro. Só ao fim de uns minutos o meu amigo disse: “pá, tu tens um sinal como o de Niro”. E eu: “e tu descansa, que não te pareces nada com o gajo que morreu”.
A bola atravessava a barreira de fogo sem dificuldade, mas ao fim de uma meia hora começava a ficar muito quente e sentíamos o seu calor quando a devolvíamos com o peito do pé. A tendência era para a passar tão devagar quanto possível, cortada , cheia de efeito, para que se demorasse nas chamas. Pela forma como ressaltava nas lajes, sabíamos que estava no limite das costuras. Quantos passes mais? Três? Dois? Um? E foi o meu. A bola não rebentou, mas a câmara de ar cedeu. Foi-se numa explosão pífia em pleno ar e ao chegar ao chão deformou-se logo em hemisfério. Deslizou três palmos antes de parar. O meu amigo olhou para mim, sem sorrir, e eu não sabia o que dizer. Foi então que ele sacou do bolso das calças uma bola de ténis, fê-la saltar como se fosse servir, mas passou-ma depois com o pé, soltando para o ar, quase aliviado: "ainda mexe". Já se ia ouviando a passarada...

Tiago de Oliveira Cavaco

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Detesto gatos, abomino o punk e olho para as religiões com uma curiosidade de antropólogo. Mas gosto do Voz do Deserto, desde o primeiro dia. Em jeito de homenagem, recomendo vivamente aos leitores literatos do MI o tema A Isabel é intelectual (porque perdeu a virgindade na Feira do Livro), composto, tocado, cantado e produzido pelo Tiago.

novembro 22, 2005

BnO (94)

A caminho da escola havia um largo com um chão em pedra da calçada, de onde emergiam umas bossas de simetria radial perfeita, regularmente espaçadas umas das outras. Aquele tipo de arquitectura sem arestas não era frequente no bairro. Então quando passou pelo largo um rebanho de ovelhas, um evento raro, fez-se ali um anacronismo duplo. Não sei o que teria passado pela cabeça do arquitecto, mas devia ser homem novo e ler revistas estrangeiras. Talvez ele tivesse imaginado uma representação do mar picado, como ouvimos uma vez de um marinheiro reformado. Mas nós preferimos materializar no empedrado outras ansiedades e apressámo-nos a baptizar o lugar de "largo das mamas". Em rigor, tirando os seios maternos, que para esta estatística não entram, os mais novos não tinham ainda acomodado o relevo de uma mama na palma da mão, nem sentido na ponta dos dedos o atrito da pele e a consistência da sua carne. A nossa ignorância e o desejo teriam então sido o motor da inspiração, pois nem os mais velhos - "isso pedia outro polimento, moços, um mármore rosa de Estremoz..."- nem as mulheres - "que disparate..."- se lembraram de tal nome para o largo. Mas Portugal era ainda o país onde um bispo mandara cortar o espadice dos antúrios usados nos arranjos florais dos altares, e é possível que a ausência de consenso quanto à mensagem subliminar daquela intervenção urbana a tivesse salvo da censura camarária.
As bossas não ultrapassavam a altura do joelho e estavam cerca de 5 metros afastadas umas das outras. Um berlinde lançado do topo de uma delas descreveria uma trajectória difícil de prever, pois aquele chão era feito de intersecções de concavidades suaves e amplas, um pouco como se olhássemos para um tecto invertido de múltiplas abóbadas e cada bossa fosse um capitel de onde cresceria uma coluna de sustentação. O berlinde teria depois falhado a conquista do cume da bossa mais próxima, ganhando momento para uma incursão ainda menos bem-sucedida na bossa seguinte, até morrer num rufo breve e quase inaudível no fosso de um lago artificial, coisa sobredimensionada e que nunca chegaria a encher-se com a água da EPAL, apenas de poças de água da chuva e de folhas secas das árvores circundantes. No curto período de dois ou três anos, a nossa relação com aquele lugar alterava-se. Um miúdo primeiro via os relevos como brinquedos inocentes, cenários improvisados para jogos de mini- golf com bola de futebol. No ano Inverno seguinte, o mesmo miúdo começaria a passar de bicicleta pelos bossas e a arriscar nelas umas secantes vagamente acrobáticas, reclamando depois como troféu a marca deixada na pedra pelos pneus enlameados, que despertaria comentários ordinários entre os colegas. Mas depois vinha um amor de Verão, uma tarde passada a dois no sofá de um apartamento sem pais e sem irmão mais novo, apenas o cúmplice periquito. E "largo das mamas" de súbito deixava de fazer sentido - " afinal os velhos tinham razão"-, soando a topónimo datado, que descartámos com a mesma prontidão com que nos livráramos antes de tantos diminutivos, num subtil sinal de aproximação à maioridade.

novembro 18, 2005

O linguado de Gaia

Os comentários que vou lendo sobre o já famoso episódio de duas raparigas de 17 e 18 anos que se beijaram numa escola de Gaia e foram repreendidas pelo conselho directivo são um hino ao disparate. Há pérolas para todos os gostos. Quer um paralelo idiota? Eis uma saraivada, fresquíssima (Expresso, hoje): "o que faria o comandante de uma unidade se dois soldados do mesmo sexo ou de sexos diferentes trocassem habitualmente beijos na parada do quartel?" Quer factos deturpados? Leia Miguel Sousa Tavares (Público, ontem), esse grande romancista, que certamente vê a cena a passar-se no cimo de uma das mesas da sala de convívio, com as raparigas seminuas e munidas de adereços sexuais, incitando uma horda de rapazes borbulhentos: "Duas miúdas de 14 ou 15 anos [isto é que é rigor] foram chamadas e repreendidas (...) pelo facto de andarem a exibir a sua mútua atracção, através de beijos e apalpões, perante a plateia da escola". Quer dados essenciais para enquadrar o problema? Eis Saraiva, de novo: "Não são as duas de Gaia: uma é brasileira e a outra portuguesa." Qual a relevância deste dado? Saraiva explica: "Trata-se de duas mulheres, portanto, já com alguma experiência." Mas voltemos à delirante imaginação de Sousa Tavares: "os pais das crianças que frequentam a escola, algumas apenas com seis ou sete anos de idade, têm o direito de educarem sexualmente os seus filhos...". É raro ver-se tanto tiro na água. Atrevo-me então a perguntar: saberão estes senhores o que é uma escola secundária em 2005? Se, nos anos oitenta, por cada beijo que dei na Secundária dos Olivais tivesse sido chamado ao conselho directivo, hoje seria estafeta e andaria a fazer fretes para o Expresso. Ora, basta acompanhar a evolução dos vídeos da MTV nos últimos 15 anos para perceber que as manifestações de afecto/desejo não desapareceram entretanto dos pátios de recreio. Estes dois senhores, sob a capa do não alinhamento com o politicamente correcto (tradução= o lobby gay), não dizem o que é óbvio para toda a gente e este episódio ilustra: para cada reprimenda na escola a beijos entre homossexuais faz-se vista grossa a cem idênticas manifestações de afecto entre heterossexuais. Enfim, recomendo a leitura de ambas as crónicas para efeitos lúdicos. O leitor ficará a par das fantasias eróticas de Saraiva com rameiras brasileiras, e ainda de uma frase enigmática de Sousa Tavares - "nunca descobri em mim, vários exames de consciência feitos, qualquer orientação sexual homofóbica" - que parece uma desastrada versão levada ao extremo da costumeira ressalva "eu até tenho amigos homossexuais", deixando-nos na dúvida: então, Miguel, como é? Está a dizer-nos que, afinal, tem uma orientação sexual homofílica? Mas... mas... mas o Miguel é gay?

(Este texto terá um desenvolvimento mais substancial no Conta Natura, durante o fim de semana...)

novembro 17, 2005

BnO (93)

Quando um homem que tem a fama de jamais ter falhado uma grande penalidade encontra um guarda-redes com o hábito de as defender, quem arrisca um prognóstico? Naquele dia fizeram-se apostas e havia até raparigas junto ao lancil do passeio. Todos discutiam o momento. Alguns lançavam provocações para o ar. Mas ninguém mais ouviu o que o guardião disse ao craque, quando dele se aproximou: "marcas o penalty ao ângulo superior esquerdo, OK? O meu lado esquerdo, nada de confusões, certo? Eu faço uma estirada do caraças, mas deixo-te depois a bola a pingar e assim tens golo certo na recarga. Que me dizes? Ficaríamos os dois com a reputação intacta, hã?" O atacante não disse nada, estava perplexo. Logo a seguir o guarda-redes recuou até à linha de golo, para não levantar suspeitas. O craque sabia que lhe bastava piscar o olho se estivesse de acordo. Perturbara-o não ter rejeitado imediatamente a proposta. É verdade que tinha sido apanhado de surpresa e não houve tempo para reagir, mas enquanto recuava para tomar balanço, já se ia deixando seduzir pela ideia. Se houvesse dinheiro envolvido, teria provavelmente cuspido na cara do guardião, mas formulada daquela forma, com benefícios para ambas as partes e sem perturbar o espectáculo, a trafulhice parecia-lhe quase íntegra. Só a seguir lhe ocorreu que talvez o guarda-redes não honrasse a sua palavra e segurasse a bola à primeira. Como poderia ele reclamar depois, sem admitir estar a par de tudo? Mas era também claro que podia concordar com o arranjo e rematar depois para o lado oposto, num cheque-mate ao seu cúmplicet. De resto, nada o obrigava a respeitar um aldrabão. Recusar o acordo, por outro lado, teria sido a hipótese mais segura. Dada a possibilidade de traição do guarda-redes, não havia forma de saber se o golo estava garantido e, na dúvida, sempre se salvava a consciência. Mas havia algo que o tentava naquele esquema. Talvez fosse o risco. Ou então era simples curiosidade. Por isso piscou-lhe o olho, entre dois acenos de cabeça discretos. E quando arrancou, não sabia ainda para que lado remataria. O pé acabou a decidir por ele, enviando a bola para onde o guarda-redes queria, talvez por ser a única forma de prolongar aquela história. Seguiu-se uma defesa aparatosa, com o guardião a rechaçar a bola, deixando-a a saltitar diante da baliza escancarada, exatamente como dissera. O craque correu para matar o lance, mas com um nó na garganta. Passou-lhe pela cabeça rematar para as nuvens, como forma de se punir. Porém, sabendo-se punido de antemão, apelou a toda a sua técnica, que não o traiu. Simulou primeiro uma hesitação e deixou que o guarda-redes se levantasse do chão. Depois desferiu um remate assassino, na dose certa de velocidade para que a bola passasse por entre as pernas do seu cúmplice e o marcasse para sempre com um frango monumental.

novembro 16, 2005

BnO (92)

Um homem apareceu com o filho pelo braço à porta de um seu vizinho. Não queria explicações, apenas vingança. Parecia-lhe justo exigir um ajuste de contas ao pai do miúdo que lhe esmurrara o filho, a tal justiça pelas próprias mãos, só que com mãos alheias. O homem era maneta, no sentido literal de lhe faltar uma mão, mas o que ele reclamava era impossível: que um pai batesse no seu filho, e o fizesse na presença do miúdo que tinha sido esmurrado. No momento em que a conversa decorria, à porta de casa, o olho esquerdo do miúdo começava a mudar de cor. Se espreitássemos com atenção, veríamos que um olho prestes a tornar-se negro tem infinitas cores, um espectro de verdes, amarelos e vermelhos, que logo se tocam nas margens para fazer outras cores, as quais se misturam e se recriam depois também, como um atilho cromático a arder devagar. Mas o agressor não via nada, não se atrevendo sequer a espreitar pelo olho mágico da porta. Tinha a protegê-lo o seu pai, que ia ouvindo vindo do patamar um relato cheio de vícios, feito por um outro pai em estado de choque e por um filho que não dizia duas palavras sem começar a soluçar. Fosse por feitio ou formação profissional, o homem tentava ir extraindo a informação relevante, na esperança de poder formular um juízo. Fazia-o reiterando o exercício de síntese e deixara de ouvir os queixosos, que se repetiam há vários minutos. Num estado de apuro já avançado, recordava os factos, quase murmurando: "durante a segunda parte de uma partida de futebol, o meu filho, que jogava ao ataque, foi empurrado na grande área por um miúdo mais novo e a seguir deu-lhe um murro no olho esquerdo". Limou ainda alguns detalhes, como um pai e um juiz de profissão teriam feito, antes de chegar à síntese derradeira: "o meu filho foi empurrado pela futura vítima e depois esmurrou-a num dos olhos". O veredicto parecia claro. Atenuantes? Logo depois do murro, ainda com as falanges a latejar, o rapaz mergulhou em apneia na sua consciência, em busca de uma justificação para o seu gesto. As vozes indignadas dos outros miúdos foram ficando mais longe, os adversários que pareciam crescer para ele perderam os contornos, mas a sua busca seria em vão. Como recordar aquela ligeira irritação, quando há uns anos o miúdo o superara a contar piadas numa roda de amigos? Que valor atribuir ao sorriso que a peste arrancara da rapariga por ele secretamente adorada? E aquela sensação de repulsa, quando o viu no elevador e percebeu que jamais viria a gostar de alguém com aquelas feições, de onde vinha? Há ódios órfãos que ficam a crescer por dentro e que saltam para fora quando menos se espera. Podíamos agora pensar no remate falhado com a baliza escancarada, ou no serão de estudo que o esperava naquele dia. Frustração, tédio, ansiedade, um empurrão como pretexto para um murro violento que sacuda o quotidiano. Culpado, claro. Mas a discussão parecia eternizar-se. O pai maneta insistia no castigo, que o outro pai recusava, reservando-se o direito de punir o seu filho como, quando e onde entendesse fazê-lo. A vítima deixara de chorar e estava visivelmente cansada. É perante tal impasse que o agressor resolve sair de casa empunhando um martelo de bater bifes. Antes que o pai o conseguisse agarrar e que os vizinhos se refizessem do susto e começassem a correr, o rapaz encosta a mão a uma parede e sem hesitar desfere um violento golpe no dedo médio. Um grito de dor toma então conta do patamar e fica a ouvir-se, enquanto o rapaz se enrola sobre a mão, deixando cair o martelo, que racha um dos ladrilhos do chão. Os vizinhos e o seu pai trocam olhares, incrédulos. Depois o miúdo consegue arrastar-se até casa, o pai fecha a porta, e os vizinhos regressam em silêncio ao seu andar.

Explicação do nome

Há cerca de um ano resolvi acrescentar um "M." ao nome com que assino artigos e outros textos. Já me perguntaram se não seria influência do escritor Gonçalo M. Tavares. Na verdade trata-se de uma singela homenagem a Ana Maria de Oliveira Temudo e Melo, minha mãe.

novembro 14, 2005

S. em Buenos Aires

Picture1.jpgHá uns tempos li um conto de Agustina Bessa-Luís, cujo título não consigo recordar, sobre as desventuras domésticas de um homem que tenta livrar-se de um rato. O conto é isto, mas não argumentarei se alguém achar a descrição demasiado prosaica e quiser ver no conflito entre o homem e o roedor uma alegoria que abarca os temas nobres da literatura. Eis o que importa: não achei a menor graça ao conto. E o conto tinha sido escrito para divertir o leitor. Ora, isto está sempre a acontecer e nem mereceria reparo se não me tivesse apercebido, a cada linha, do gozo que deve ter dado à autora escrever aquele texto. Reproduziu-se então em diferido - entre quem escreve e quem lê, bem entendido - a situação constrangedora do contador de anedotas que não consegue arrancar uma gargalhada, mas que disso não se apercebe, pois vai rindo convulsivamente enquanto fala. Tratando-se de Agustina Bessa-Luís, unanimamente tida como uma mulher de grande espírito (coisa que se percebe em todas as suas entrevistas e - dizem-me - em todos os seus romances), o seu riso convulsivo subliminar parecia exigir um riso meu, compulsivo, portanto. Terminar o conto foi um alívio.

Não sei se o sentido de humor é uma qualidade masculina. Poderia destrunfar Jane Austen com Bierce, lembrar que a vasta maioria dos comediantes profissionais americanos são homens e que o Ricardo Araújo Pereira não usa saias. Somos hoje obrigados a ver os homens e as mulheres como seres feitos a partir do mesmo molde, e que diferem apenas nos acabamentos finais, isto é, nos órgãos genitais e nas características sexuais secundárias. Diferenças no desempenho entre homens e mulheres - mas só as que sugerem uma diferença de personalidade ou propriedades cognitivas - são imediatamente explicadas pelas pressões sociais. Há mais homens do que mulheres nas Produções Fictícias? A ser verdade, a culpa é do Nuno Artur Silva, esse misógino. No debate nature vesus nurture geralmente chega-se a um consenso, mas porque os dois oponentes nunca atingem sincronizados o estado de exaustão. Há uma forma de salvar os calcanhares no último ensaio: quando um homem diz que o humor é uma qualidade essencialmente masculina, pode dar-se o caso do pobre coitado não ter os meios necessários para alcançar a superioridade do humor feminino.

Pescar exemplos pontuais na literatura e entre os profissionais de humor é uma má técnica de amostragem. Usar ferramentas estatísticas para extrair uma lei de um vasto conjunto de dados, um exercício demorado. Acresce que seria difícil definir o que é o bom humor de uma forma que superior à do reconhecimento público. E de que público, afinal? Se me dei ao trabalho de pensar no assunto foi por causa de T. e dos seus olhos de desespero puro quando me disse que não conseguia encontrar mulheres com sentido de humor. Só então comecei a pensar nos meus amigos mais engraçados. E o resultado a que cheguei é curioso.

Se penso nos meus 20 amigos/conhecidos chegados mais divertidos, os homens predominam numa proporção devastadora. Mas o amigo com o sentido de humor mais apurado é - de longe - uma mulher.

(continua)

Magistério de influência

Estranhei quando Eduardo Prado Coelho definiu Maria João Guardão como a "mais inteligente e informada jornalista cultural". O episódio lembrou-me o que ouvi de um amigo, hoje director de um laboratório: "se eu elogio publicamente um dos meus estudantes, faço uma nota mental para nos dias seguintes não me esquecer de elogiar todos os outros meus estudantes, caso contrário gera-se mau ambiente". Lapidar e premonitório. Dois dias depois do elogio público, eis a nota mental de Eduardo Prado Coelho, que seguiu hoje para as rotativas do Público:

"Numa crónica anterior referi Maria João Guardão como a "mais inteligente e informada jornalista cultural". Estas fórmulas acabam por ser injustas e reconheço o meu erro de escrita: de Isabel Coutinho a Kattleen Gomes, de Vanessa Rato a Joana Gorjão Henriques, de Ana Marques Gastão a Maria Augusta Silva, de Anabela Mota Ribeiro a Rita Ferro Rodrigues (e são apenas alguns nomes), existem excelentes jornalistas culturais na nossa imprensa. Acho apenas que a Maria João não tem tido suficientes oportunidades para desenvolver o seu trabalho - e daí a hipérbole."

Um último dado curioso: no laboratório deste meu amigo também só trabalham mulheres...

novembro 13, 2005

Pepo

mtfuji_x684.jpgPepo tem a fama e o proveito do playboy. Os amigos intímos referem-se sempre às namoradas como a nova "semi-namorada". O duplo qualificativo diz muito do tráfego que circula pelos lençóis de Pepo. E um homem pergunta, ao princípio da noite: "o que tem este tipo que eu não tenho?" Objectivamente tem uma top model, linda de morrer e magra como quem regressa da morte. Mas tem mais: um ar de mosteteiro belo e um talento brutal como pintor. Os quadros de pepo são murais emoldurados, com o traço de um Cisneros obcecado pela lingerie do Jean Paul Gaultier. Seios à Monte Fuji parecem querer furar as duas dimensões das telas e eu depressa aprendi a ver a pintura de Pepo com as mãos prudentemente guardadas atrás das costas. Mas isto é trivial.
O momento revelador veio depois. Pepo no corredor, o olhar dele cruzando-se com o meu, a top model entre os dois, de costas para mim, e a fracção de segundo que se seguiu ao beijo. Pepo parecia dizer-me: "mas tu esperavas o quê? Ainda acreditas na monotonogamia? Deixa-me dizer-te três coisas sobre as relações eternas: ou a começas antes dos vinte e poucos anos, ou a vais traindo, ou não tens oportunidade de a trair, porque és feio e pobre. Para elas funciona mais ou menos da mesma forma". Ah, afinal Pepo tinha um sistema. Pena é que parecesse tão desesperado. Houve naquela fracção de segundo um desencantamento aterrador. Mas ele continuava: "... isto que vês é do Gin. Eu estou bem, apenas bêbado e cansado. Não tenho culpa que continuem a fazer de mim o bastião que o ideal do amor eterno tem de conquistar." Confere. Pepo, como outros amigos mulherengos, despertam sempre um interesse mais complexo do que se julgaria à partida. Uma namorada que resista mais do que 1 mês é logo vista como a mulher que lhes mudou a vida e insulfla toda a gente de uma patética esperança. "... A tua malta quer à força que eu seja como eles, mas eu nada posso fazer pelas inseguranças dos teus amigos. É para mim claríssimo que jamais estarei com uma única mulher até ao fim da minha vida."
Há vários indícios de que nunca serei amigo próximo de Pepo. Mas com alguma sorte conseguirei levá-lo à Europa para que me pinte um mural.

novembro 10, 2005

Plano de acção

Vivi 5 anos em Paris. Não é improvável ter viajado num dos carros que arderam nos últimos dias (lembras-te, Pascale?). Mas o MI regressa sobretudo porque ando ligeiramente aborrecido. Retiro do acto de interromper e recomeçar um blogue uma energia semelhante à que vem com um novo corte de cabelo. Não respondo pelo resto da rapaziada; este deve ser o meu lado feminino.

Matei o Tulius, o Difool e o Ivan.

O plano agora é continuar a construir a memória e deixar de comentar a actualidade, respeitando o objectivo inicial. Tenho até uma resma de envelopes endereçados à redacção do Público, para quando experimentar um pico de indignação ou sentir que sei algo que os outros gostariam de saber também.

Perdoem-me por não avisar ninguém sobre o meu regresso. É melhor recomeçar com discrição.