setembro 13, 2005

Aquele Abraço

desenho almada negreiros.jpgO MI acaba aqui. Conto ainda escrever 11 entradas e uma curta nota explicativa sobre o projecto BnO, mas alterarei as datas de publicação para que este texto permaneça no topo da página.

Seria inútil descrever o gozo que ter estado na blogosfera me deu. Ter escrito mais de 1200 entradas ao longo de dois anos e meio foi um delicioso desperdício de tempo. Conviver com esta comunidade, algo que guardarei como uma experiência divertida e rica.

Sinto que o modelo de escrita que aqui tentei explorar está degenerado, esgotado e circunstancialmente limitado. Degenerado porque as "figuras" Ivan, John e Tulius começavam a denunciar algum desleixo meu; como se não bastasse terem perdido as vozes respectivas, nos últimos tempos iniciaram incursões em territórios temáticos alheios. A continuar assim, o único traço distintivo que sobraria seria a cor dos caracteres com que os textos aparecem. É um modelo esgotado também, porque acuso alguma fadiga e poucas das séries que iniciei me parecem merecedoras de continuação. Por fim, é um modelo limitado neste momento, porque tenho vontade de experimentar um registo e uma rotina de escrita que não funcionam bem neste meio. O MI ameaçava poder vir a funcionar como um colete-de-forças e não vale a pena inquinar esta experiência.

Não voltarei até ao fim do ano. Em Janeiro logo se verá. É verdade que tenho o currículo manchado por um anúncio de abandono do tipo santanista, mas durante uns tempos é seguro que não escreverei e parece-me mesmo improvável que regresse. Em todo o caso, se voltar será aqui e não com outra roupagem. É uma carga de trabalho desnecessária para toda a gente mudar de blogue e, embora perceba os efeitos de tal rejuvenescimento, não vejo necessidade de o fazer, sobretudo quando se continua a escrever essencialmente da mesma forma. Se e quando voltar, prometo avisar.

Na dúvida, queria agradecer a todos os que por aqui foram passando e à equipa da weblog.pt. Agradeço também a todos os que tiveram a delicadeza de fazer enlaces para o MI e a quem nos escreveu.

Boa escrita e até qualquer dia.

Um abraço,

Vasco

(O desenho é de Almada Negreiros)

BnO (91)

É sabido que a magistratura não se dá bem com a tecnologia. Só por isso A. não fez relatos da casa para o bairro; o radioamadorismo não era passatempo que se cultivasse no prédio. Entre os pais, conto um pianista amador, um guitarrista recalcado que deixou marca em Coimbra, uma emulação da Florbela Espanca, um sujeito com gosto pela mecânica, um bom xadrezista e pouco mais. A haver por ali passatempos mais privados, é improvável que não os tivesse topado, se tantas foram as tardes passadas em casa de amigos e alguns os armários e portas abertos por engano. Não imagino poder encontrar algemas na cómoda quarto; penso mais numa bancada de aeromodelismo, numa biblioteca de ciências ocultas, num cavalete iluminado pela luz que vinha da janela. Os passatempos que por ali havia eram os de toda a gente – televisão, passeios ao Domingo, desporto, jornais – e ainda o bridge, que viciara dois ou três iluminados.
Também nós não primávamos pela excentricidade, excluindo o Gantes - que pintava - e um mago da electrónica - que quase não saía de casa. Havia um vasto leque de actividades lúdicas - o judo, a ginástica, o badminton, o ténis, algum instrumento de música e até a equitação - mas quase todas nos eram impostas ou, no mínimo, sugeridas. Por vontade própria, tudo se resumia a futebol, Subbuteo, bicicletas e ZX spectrum. Quem não sabia jogar, vivia o jogo à custa de outros talentos. A. mal sabia dar um chuto na bola, mas tinha uma memória prodigiosa, um débito verbal impressionante e um jeito raro para imitar sotaques, vozes e todo o tipo de sons. No campo divertia-se a comentar as jogadas e a relatá-las em diferido, enquanto esperávamos que alguém regressasse com a bola e a partida pudesse recomeçar. Tolerávamos o capricho a A., porque ele era bom e generoso nas comparações. Até eu tive os meus momentos à Zico, Sócrates, e vários à Zbigniew Boniek e à Karl-Heinz Rummenigge, referências recorrentes nos relatos de A., pelo gozo que lhe dava pronunciar tais nomes. No fim do relato de uma jogada que dera em golo, A. reproduzia a massa sonora de uma multidão em delírio, e aquilo era uma obra de arte de sonoplastia, cheia de sugestões de polifonia, frases distintas sobre o ruído ensurdecedor, buzinas, foguetes, o "gooooooooolo" esganiçado e distante do relatador da cabina do lado e os efeitos de batimento acústico provocados por gritos ligeiramente desafinados. Ninguém percebia como ele conseguia fazer aquilo, mas chegava a ser viciante. Um tipo marcava o golo e corria até junto de A. para encher o ego com o relato épico e ver quem acabara de ter sido: Ardiles ou Platini? A. só evitava fazer comparações com o Maradona, um pouco como o professor que resolve não dar o 20 porque pode sempre aparecer um aluno melhor no ano seguinte. O Maradona era o topo da escala, um nome inatingível... A menos que L. estivesse num dia endiabrado e pela frente encontrasse defesas suficientemente bons para não fazerem figuras tristes, mas incapazes de contrariar o seu drible. A menos que o fim de tarde estivesse de feição: um risco rosa sobre o mar da palha, a chaminé da Petrogal em repouso, um casal de andorinhas a fazer razias ao relvado, o ar quente mas agitado por uma brisa suave. O que dizer então de quem pega no jogo antes do meio campo, e num rodopio se livra de dois defesas e avança pelo flanco direito, rápido e em toques longos, de precisão milimétrica, a fazer a bola quase fugir do seu alcance, como se atirar a bola para a frente fosse menos uma forma de a guiar do que de a perseguir e que, depois de vencidos mais dois defesas, ludibria ainda o guarda-redes e remata para golo, completamente desequilibrado mas com o instinto de goleador alerta? Que dizer de tudo isto, se ainda nem a 1986 tínhamos chegado? "Maradona", claro. Azar o nosso não haver por perto um gravador naquele dia, pois A. esteve à altura do acontecimento, revivendo a jogada e atrasando o momento em que atribuiu a autoria, ciente de que iria quebrar uma regra. O problema surgiu logo a seguir: L. quase repetiu o lance, mas fazendo tudo ainda um pouco melhor: a finta simples deu lugar ao malabarismo - o gesto de encaixar a bola com os pés e de a largar num coice controlado, fazendo com que passe em balão sobre o defesa; a corrida hesitante passou a galope em ziguezague; em vez do corpo em desequilíbrio, vimos um bailarino a dançar sem esforço; e o remate final ainda saiu violento e ao ângulo, a pedir o aconchego de uma rede oficial. Corremos para L. e depois virámo-nos para A. Imperturbável, ele relatou o novo golo, ainda com mais graça, mas também com a precipitação de quem percebeu logo que nome teria de gritar. E, por uma vez, o nome que se ouviu não vinha nas cadernetas.

Vantagens de não ter caixa de comentários

Um bom editorial deve mobilizar o leitor, fazer com que pense, teste as suas ideias pré-estabelecidas, etc. Em Portugal todos os editoriais me desafiam. O problema está na questão que geralmente emerge na minha cabeça: o que faz um editorialista quando não está a escrever um editorial?

Com tanta gente fixe por aí, raios...

Há vários problemas que demoro a resolver. Que critério seguir diante de um mendigo e como escolher um presidente da república, por exemplo. Para o primeiro problema ainda não encontrei solução, mas creio ter despachado o segundo. Bastou-me imaginar a tropa fandanga que se perfila para as presidenciais - Soares, Cavaco, Jerónimo, Louçã, Garcia Pereira, Carmelinda (será?), etc. - para que se tivesse feito luz. É condição necessária que o candidato venha da dita sociedade civil e não tenha ligações óbvias a partidos. O candidato poderá até vir a ser parasitado pelos partidos, mas apenas a posteriori. Estou absolutamente convicto da justeza deste critério ao ponto de sonhar com uma cláusula constitucional, impossível de escrever e de pôr em prática. Adio a discussão sobre as condições suficientes do candidato, pois é coisa que se despacha com um pouco de bom senso. Ao contrário dos catastrofistas do burgo, como Pulido Valente, consigo pensar numa mão cheia de bons candidatos. Não há míngua de candidatos. Temos é hábitos velhos.

setembro 12, 2005

BnO (90)

Podia ter morrido de tantas maneiras que dou comigo a puxar da calculadora para provar com confiança estatística que estou vivo. Quando me perguntam se acredito na vida após a morte, respondo: "naturalmente". O que não acrescento é que julgo estar já a gozar tal vida, desde que abandonei o futebol e agora as fobias me impedem de aderir a um desporto radical. As quatro linhas não são um local assustador, mas se começo a enumerar todos os episódios e a reparar nos pormenores, escapei da morte inúmeras vezes. Com olhos de predador na bola que fugia, fiz slaloms em hora de ponta pelos carros da avenida; por pouco não mergulhei para salvar bolas das rodas dos autocarros da Carris; havia arbustos mal podados, com cepos afiados e inclinados a 45 graus, perfeitos para dizimar uma carga de cavalaria num campo de batalha; algumas arestas do passeio tinham sido acidentalmente lascadas e eram afiadas como lâminas de sílex; dei saltos acima das minhas possibilidades acrobáticas e não sei como não parti o pescoço. Se calhar é mania minha. É verdade que também me ponho a pensar nas vezes em que estive na mira de um jovem com vocação para psicopata. Eram tantas famílias de polícias por ali, que não é difícil imaginar um miúdo à janela no "pum, pum, estás morto" usando a pistola do pai. Nos Olivais havia mortes trágicas, mas apenas uma a cada seis meses: o tipo que se esfarelou quando mergulhou da prancha dos 10 metros e caiu fora da piscina municipal, as velhotas atropeladas perto da Rotunda (episódio recorrente), o adolescente vagamente conhecido - "sim, esse, não te lembras? Suicidou-se"-, os drogados frequentadores dos "Candeeiros", que volta e meia abusavam da dose, o cabo-verdiano que era meu vizinho e comeu o fígado de alguém, o fulano que tombou de um sexto andar pelo vazio central das escadarias, ficando a baloiçar a dois metros do rés-do-chão com a barriga da perna espetada num ferro e que viria depois a morrer de tétano. Eu tinha as vacinas em dia, os cuidados de toda a gente, mas surpreendia-me, antes como agora, que não houvesse mais mortes espectaculares no bairro.

BnO (89)

O nosso treinador às vezes fazia comentários crípticos, coisas como: "o equipamento é um equívoco". Ou então era de uma crueldade inusitada: "quem se sacrifica pela equipa bem pode ficar em casa a abrir os pulsos". Mas ele tinha uma visão e quem o conhecesse facilmente o percebia. L. não era rapaz de muita leitura, só que era habitado por uma intuição tramada. Cedo percebeu o poder do ciúme e como a ansiedade pode ser uma força motriz. Ele aproveitava tudo o que os jogadores tinham para oferecer, mas não olhava para eles como pedras de xadrez, objectos inanimados capazes apenas de executar gestos técnicos pré-estabelecidos, nunca se revoltando contra a sua natureza. L. conhecia a natureza dos seus, só que havia mais. Segundo ele, para que a imagem do jogo de xadrez funcionasse, os peões, os cavalos, os bispos e a realeza teriam de se relacionar como se viessem mesmo de um reino, com as intrigas da corte, as tensões sociais e os caprichos equinos. "O xadrez é para gajos pouco inteligentes e sem sensibilidade". Porque o cavalo nunca resolve começar a avançar pelas diagonais. "Viciei-me nas emoções alheias. Para mim não há melhor barro do que este". É verdade que L. era implacável, mas não se podia dar ao luxo do oleiro, que só tem olhos para a vasilha e joga a matéria-prima para o chão. Cada gesto de L. era para engatar o futuro. Jogador preterido fica com fome de bola para o próximo encontro. Uma crítica diante de todos ecoa sabe-se lá com que reverberação. O génio de L. era dominar a dinâmica de tais incubações e assim ir norteando a equipa ao longo da temporada, dando-lhe alento. Funcionava como um gestor de esperanças. E na véspera dos jogos, passava a maestro de almas. Profundo conhecedor do dia-a-dia no bairro, identificava qualquer atrito e aproveitava as tensões da semana para motivar os extremos, lixados um com o outro mas sem outra hipotése de canalizar a raiva senão pelos corredores respectivos. Pazes refeitas atiravam o par para a zona defensiva e não havia dupla de centrais mais unida. Se o guarda-redes adversário tinha roubado uma namorada, o avançado estava escolhido: o melhor amigo do cornudo, que este, com a cautela recomendada, ficava sempre no banco. A ciumeira entre os craques da equipa era usada para animar um triângulo que avançava pelo campo em tabelinhas desconcertantes e a uma velocidade vertiginosa, como se qualquer um dos vértices quisesse na verdade que os outros perdessem o domínio da bola. E no centro deste arraial de emoções, o armador de jogo, alguém que parasse pouco pelo bairro, sem grandes intimidades, capaz de entregar a bola a quem a merecia e sem as oscilações de temperamento e os estados de alma comuns num grupo de amigos.

Direito ao lugar comum (1)

Há um capital de esperança associado à promiscuidade que não tem merecido a devida atenção.

Gay world

A publicidade de Jean Paul Gaultier? Os billboards da Calvin Klein na baixa de Manhattan? Esqueçam. A manifestação mais exuberante da cultura gay surge numa revista de cariz conservador de um país católico do Sul da Europa. Falo obviamente de Portugal. Menos óbvia é referência à revista Sábado.
Um dos bónus de receber visitas de Portugal é a imprensa lusitana que de repente inunda a minha casa. Fico hipnotizado e às vezes surpreendido e maravilhado. Como agora. Toda a gente sabe que a cultura gay está em grande, mas nunca pensei que a revista Sábado (Número 71, 15 de Setembro) fosse um dos seus bastiões. Um tipo tenta ler Pacheco Pereira e a sua habitual desconstrução do jornalismo luso, mas ainda não esqueceu o anúncio da PT, que mostra três jogadores roçando-se uns nos outros com um deleite de fazer corar o esférico; são os grandes clubes num improvável ménage à trois. Despachado o Pacheco, é depois impossível reunir a concentração necessária para ler Alberto Gonçalves. São ainda as luminosas palavras de Sylvie Dias que me consomem: "se me apaixonasse por um homossexual tentava mudá-lo". Eu se me apaixonasse por Sylvie Dias tentaria afinar-lhe as sinapses, mas não sei quem é a criatura. Há depois um artigo sobre um certo Paulo Ferreira, actor, encenador e - rufo de tambor - podador de bonsais; podemos dizer, sem arriscar, que estamos na presença de um naco de imprensa que confirma o estereótipo do metrossexual. Mas, para quê perder tempo com o Paulo, se a umas páginas de distância temos um artigo sobre Batman, o ícone gay da cultura pop? E não ficamos por aqui: o leitor tem possibilidade de escolher o seu torso cinzelado de eleição: Batman ou o Capitão América? O Capitão chega a ter honras de chamada na capa, mas é na página 67 que surge em todo o seu esplendor, com as coxas vigorosas, o discreto chumaço e as feições másculas, que se adivinham num rosto parcialmente tapado por uma máscara de inspiração sado-maso. (...Pausa para recuperar o fôlego). Foi já sem surpresa que deparei, quase no fim da revista, com um artigo de fundo sobre o a versão portuguesa do Queer Eye for the Straight Guy , a imagem dos gays nas novelas e o meu vizinho José Castelo Branco. O Queer Eye será um sucesso garantido em Portugal. Imaginar cinco gays com tiques efeminados invadindo uma casa na Amadora e tentando explicar a um camionista do eixo norte-sul quão importante é aparar as sobrancelhas, enfim, a coisa tem um potencial histriónico - e, convenhamos, de violência doméstica - insuperável. Na versão lusa a série chama-se Esquadrão G(ay), mas o nome peca por defeito. O que temos hoje é uma verdadeira frente armada e um país à beira do estado de sítio.

setembro 11, 2005

Moving on

Acaba de sair a segunda parte do artigo que escrevi sobre Portugal e os Portugueses para a revista do Campus da minha Universidade.
O artigo completo (primeira e segunda partes juntas) pode ser lido aqui:


A sketch of Portugal and its people

I read somewhere that Portugal is a country that has been in steady decline for the last four centuries. Allow me to correct that view. Portugal is a country that has been in steady decline for the last eight centuries, essentially ever since its birth. Being in steady decline is part of our nature. If success were to happen to us, say, by accident, we would lose our identity. Every Portuguese struggles with this reality. The Portuguese intelligentsia is constantly analyzing the causes of our poverty and misfortune, oscillating between a paralyzing pessimism and a miraculous solution that will fix the country and the people within a generation’s time. It is not surprising that we have turned into a bipolar and self-delusional nation. The thesis I adopt here borrows very little from genetics. The Portuguese are culturally streamlined for failure. No one knows precisely why it is so, but it is inescapable.

Portugal had its first national hero centuries before we became a nation. This is not unusual, but it’s a revealing start. Meet Viriato (179–139 B.C.), a warrior chieftain of a tribe (the “Lusitanos”) from the western Iberian Peninsula, who held off the Roman invasion for several years. Viriato was so good at throwing stones from cliffs at the Roman Legions and in using guerrilla tactics that he had to be murdered in bed by three of his own people, who had been bribed by the local centurion. When Hollywood runs out of the most obvious epics, they will immortalize Viriato on the big screen. Portugal will then lobby to choose a star that is Portuguese enough. Mark Ruffalo or Danny De Vito? Tough choice. Viriato gave us national pride. From the Romans, in turn, we got a unified language, industries, military roads, bridges, administrative centers, and a religion, when Rome converted to Christianity in the fourth century A.D.

Our second hero was the founder of the nation, Afonso Henriques (1109–1185 A.D.), son of the crusader-knight Henry, and Teresa, the illegitimate and favorite daughter of Alfonso VI, king of León. In 1096 A.D. Henry received from Alfonso VI a hereditary title to the province of Portucale (roughly, today’s north of Portugal). By then that land was a sort of buffer zone between Christian and Muslim territory. Muslims had moved to the Iberian Peninsula in the eighth century A.D., after the Germanic invasion that contributed to the decline of the Roman Empire. Henry was a loyal vassal to Alfonso VI, but upon the king’s death and the civil war that ensued between Galician, Castillian, Aragonese, and Leonese barons, he wisely remained neutral and abandoned his feudal obligations. After his death, his wife Teresa pursued this policy but when the Leonese Alfonso VII ascended to the throne, he forced Teresa to pay homage to the kingdom of Léon and Castilla. The nobles of Portucale, however, who had learned to appreciate their independence, rebelled against Alfonso VII and implicitly, Teresa. They were guided by Afonso Henriques, who had armed himself as a knight and managed to defeat his mother’s army. He would ultimately become an acclaimed and self-made king, by fighting the Muslims in the South and containing Alfonso´s march on Portugal.

I do not intend to bother you further by extending the list of Portuguese heroes, but Afonso Henriques’ accomplishments were worth mentioning on two grounds. First, gaining independence from our big and only neighboring kingdom (today´s Spain), left a wound that future wars and a Spanish occupation of the country from 1580 to 1640 A.D. did not help to heal. Modern relations between Portugal and Spain are excellent, that is, we no longer fear them and they continue to ignore us, a fact that our collective ego does not allow us to appreciate fully. Nevertheless, discussions over the control of the rate of streamflow in Portugal’s main rivers (unfortunately they all flow from Spain) or a mere soccer match are sufficient to unmask this hidden and mostly unidirectional tension between the two nations.

Secondly, although Afonso´s rebellion against his mother was purely political and less Freudian (hélas, his father had died) than I would like to think, it set the tone for centuries of betrayal, politically motivated marriages, illegitimate descendants, quasi-idiotic heirs to the throne, and a lethargic noble class; in short: a display of pure European monarchy. Luckily we became a Republic in 1910, but soon we smoothly transitioned to a dictatorship that lasted half a century, most of which ruled by Salazar (1898-1970). In 1974 a military coup d’état put an end to the dictatorship and eventually paved our way to “the worst form of government except for all those others that have been tried.”

Today, Portugal has about 10 million people living within its borders and there are sizable Portuguese communities in France, the US, Brazil, Venezuela, and South Africa. The country is homogenous in terms of religion, ethnicity, and language, and there are no serious separatist claims, not even from the Azores and Madeira islands, two small and beautiful Portuguese archipelagoes cast away in the Atlantic ocean. Between 1886 and 1966, Portugal lost an estimated 2.6 million people to emigration, more than any West European country except Ireland. In the last two decades this understandable tendency to abandon the country has slowed down and has been counteracted by a flow of immigrants in search of labor from Brazil, countries of the former USSR, and Africa; 400,000 immigrants live today in Portugal. We have made considerable social and economic progress in the last 30 years. For instance, literacy levels have improved and this skill is widely used by the male population to read the sports press. A key event that triggered a number of structural changes in the country was our entry into the EEC (today’s European Union) in 1986. European money financed a number of projects and gave us a decent roadway. Still, a recurring topic in any discussion by and about the Portuguese is the need for a “change of mentality.” No one knows exactly what this is supposed to mean and how it can be done, but we all agree that it will be more difficult to achieve than building a few kilometers of highway.

The Portuguese discoveries remain to this day our greatest accomplishment. They were, however, a burden too heavy to carry. In fact, they still are. Let’s start with the word ‘discoveries’ and its two obvious problems. It is striking that two independent and similar actions, equally valid in merit, are judged differently by history, depending solely on when they occurred. “Who did what first” is an obsession well known to scientists but, unlike science, history can be rewritten to a large part just by playing with the dates. Thus, it is just a matter of time until someone comes up with the thesis that Brazil was not discovered by Cabral in 1500, but centuries before by the Vikings (who, apparently, got to North America before Columbus), or by the Chinese, even earlier, or by extra terrestrials, no one knows precisely when but presumably before anyone else. The second problem with the word ‘discoveries’ is that it is an example of eurocentrism and hidden paternalism (euphemistically speaking). Consider this: the Portuguese were the first Europeans to get to Japan, but even the Portuguese would not dare to say that we discovered Japan. Notice however how we talk about the arrival of Cabral to Brazil: we always refer to the discovery of Brazil as if the land was devoid of indigenous populations. This being said, what Portuguese sailors accomplished during the fourteen and fifteenth centuries was outstanding. Historians and intellectuals in Portugal should just agree, that what is difficult to explain is not why we were unable to rise to that level again, but simply how we did it in the first place.

Portugal´s empire has left us with huge shoes to fill. One of the several ways my Brazilian friends make fun of me is by repeatedly asking for the gold we took from them when Brazil was a Portuguese colony (1532–1822). Frankly, I would also like to know where that gold went. Portugal, the mother-country, remained poor and underdeveloped, even at the peak of the Empire, before the Spanish, the Dutch, the English, and the French took over the world.

The most valuable and enduring yet fragile legacy of the former Portuguese empire is its language. Five centuries ago it was confined to a small and marginal European country. Today, between 190 and 230 million people speak Portuguese throughout the world, in South America (Brazil), Europe (Portugal), and Africa (Cape Verde, Guinea-Bissau, Mozambique, Angola, and Sao Tome and Principe). The language ranks eighth among the most commonly spoken languages in the world (third among the western languages, after English and Castilian). Portuguese also has a presence in Asia, but in a vestigial (Goa) or decaying (Macau and East Timor) form. The transition to independence of Portugal´s former colonies in Africa and Asia was a disaster, not atypical of the dismantling of empires, but Portugal has a lot to answer for. The war in Africa for the control of the colonies, lead by Portugal´s dictator Salazar and continued by his successor, had a flavor of anachronism and hopelessness from the moment it started, in 1961.bordalo1.png

Legend to the picture: “Zé Povinho”, a Portuguese character created in 1875 by
a Portuguese artist named Bordalo Pinheiro, became the unofficial symbol of our people. He is an ugly but kind man who lives a simple life and mocks the powerful. Except for this disrespect of the powerful, which in Portugal tends to be common but not overt, Zé Povinho is a fair representation of the Portuguese.

With the independence of all major colonies, Portugal reassumed its role as a small country (administrative control of Macau for a few more years was irrelevant) and the burden of the ‘discoveries’ continued to crash down on the generations to come. This is perhaps the time to confess that in high school, I only learned the history of my country until roughly 1640. The curriculum was so bad and unbalanced that we did not have time to cover the last 350 years of the nation´s history. I thought this was tragic. Having decided to fix the problem on my own, I plunged into books from international sources, mostly thematic (on the arts, the sciences, and so forth). To my surprise, I came to the conclusion that it was as if Portugal did not exist during that period. Yes, the Portuguese colonies were mentioned, but always as if they were a passive achievement. Fine, there were references to Port wine, but Port wine is essentially an English creation on Portuguese soil. True, the 1755 Lisbon earthquake was vividly discussed by intellectuals like Voltaire and Rousseau, but it would be insane for the Portuguese to take credit for a natural catastrophe that killed 90,000 people. In short, it seems that my high school teachers were accidentally right. Why bother to study the history of the nation if the Enlightenment, the French, American and Industrial Revolutions, and even the Second World War were followed from a distance, receiving no direct contribution from Portugal?

Let me give you two examples. Take philosophy. Portugal´s seminal contribution to the field occurred in the XVII century, when the parents of the yet to be born Spinoza were kicked out of the country and headed to Amsterdam. Since then Portugal´s only input to the world of ideas has been the term ‘desenrascanço’, loosely translated as ‘disentanglement’ and defined by Wikipedia as “an ability to solve a problem without the adequate tools or proper technique to do so, and by use of sometimes imaginative resourcefulness when facing new situations”. Now, consider the Nobel Prize in science. As you scroll down the list of laureates and their findings, it is striking how the vast majority of the prized discoveries did not fade away into irrelevance. A clear exception is Egas Moniz, Portugal´s only laureate scientist. Moniz got a shared prize in 1949 for pioneering lobotomy. Today, this is a tragically obsolete technique that has helped no one, the arguable exception being Jack Nicholson, who played a neurotic lobotomized-to-be in One Flew Over The Cuckoo’s Nest (1975) and won an Oscar for it.

Is it all bad? Of course not. Just focusing on more recent times, the Portuguese revolution of April 25, 1974 was a defining moment in our history. Only in Portugal could you witness a military coup like ours. First, almost no blood was shed. A total of four people were killed, by gunshots fired from the windows of the political police headquarters. This was a tragic event, but by any criterion the death toll for a revolution was low. Second, in less than two years the power effectively moved from the army to the people. The transition was not easy, though. Indeed, in 1975 the country risked a Marxist-Leninist takeover. However, on November 25, 1975 an attempt to seize power by the radical leftists was blocked by more moderate military forces, and that day marked the end of the political and social turmoil. Since then we have been living quite peacefully.

It also seems clear that the Portuguese have a remarkable capacity to respond to punctuated challenges, even when skills that we traditionally lack—organization, to name one—are required. For instance, we managed to successfully organize the Expo 1998, an enormous exhibition of cultures from all over the world, and more recently the 2004 European Soccer Cup was a success, just ask the Greeks. This capacity is probably best illustrated by the display of pragmatism of the Marquis of Pombal (1699-1782), prime minister to King Joseph I, in the aftermath of the 1755 Lisbon earthquake. What is remarkable in his famous quote, “What now? We bury the dead and feed the living” is that he actually meant it. A third of the city’s population was lost and Lisbon was heavily damaged, but no epidemics followed and within less than one year the construction of the world’s first quakeproof buildings began. The Portuguese can indeed achieve great things and are not intrinsically lazy or incapable. The problem is that we are procrastinators by default. Unless the situation is life-threatening, the typical Portuguese will not abandon the couch and the remote control.

Every nation’s people, no matter how collectively mediocre, includes a few exceptional individuals. Some of my favorite countrymen are local politicians and cheesy singers, hardly geniuses and definitely non-exportable stuff. Luckily, we had a handful of talents in the last century. First and foremost: Fernando Pessoa (1888-1935), a poet second to none, with the arguable exception of Luís de Camões (1524?–1580), author of The Lusiads, our great epic. Pessoa was actually a small crowd of poets trapped in the same body. His rationalized schizophrenia gave rise to five major writers, each with his own biography and, more importantly, an individual style and poetic universe. He was an admirer of Whitman, who took the multiplication of the self to an extreme level of complexity. More recently, two Portuguese novelists have gained wide international acclaim: José Saramago (1922-) and António Lobo Antunes (1942-). According to Harold Bloom, Saramago is “the most gifted novelist alive in the world today.” Lobo Antunes would probably say the same about himself. In a puzzling violation of the rules of logic, both may be right. Saramago´s talent lies in his capacity for constructing a plot around a bright and clearly defined idea—the Iberian Peninsula detaches from the European mainland and starts drifting in the Atlantic Ocean; a girl in Portugal´s Baroque period can see people’s souls; Jesus struggles with Christianity and his condition of martyrdom; everyone except a woman goes blind—and in delivering it in an almost paragraph-free, compacted and intricate prose, which at first scares the reader but has seduced him by page 20. Lobo Antunes is also a virtuoso of the language but in a different way. His novels tend to be more psychological, less plot-oriented, and offer a sad, though at times tender, portrait of the Portuguese social classes in contemporary Portugal. These two big egos have produced an impressive body of work and almost any of their novels is worth reading.

As far as music goes, Amália Rodrigues (1920-1999) is Portugal’s voice, and rightly so. Admired by everyone within the country and abroad, from Charles Aznavour to David Byrne, her phenomenal singing and personality single-handedly made the Fado popular all over the world, from Japan to New York. Incidentally, this city fascinated her and she spent extended periods of time here. Probably less well known to the reader is Carlos Paredes (1925-2004), a virtuoso of the Portuguese guitar. Paredes was a prodigious melodist and interpreter of his own pieces, and someone who breathed through the instrument with an intensity I have never found in another musician. This extremely modest and decent man has some collaborative pieces with the double bass Jazz player Charlie Haden, but his solo work is by far his best legacy.

Switching to painting, two names come to my mind: Amadeo de Sousa Cardoso (1887-1918) and Helena Vieira da Silva (1908-1992). Sousa Cardoso was a modernist born in the wrong place, who died at the wrong age of 31. From rural Portugal, he headed to Paris when he turned 19 and became a close friend of Modigliani. During his lifetime, his paintings were received with moderate success in Europe and the US, but his work has more recently gained international repute. Like him, Vieira da Silva also went to Paris as a young woman after spending her youth in Lisbon. In a sign of how disturbed our dictator was by talented people, she was refused Portuguese citizenship in 1940 and spent the rest of her long life outside of Portugal. Vieira da Silva became famous for her paintings of complex compositions and fragmented spaces. In recent years the country has somehow made peace with Vieira da Silva by building her a museum in Lisbon. Fortunately for everyone, this international artist is represented in several collections of European and US museums, and her career did not depend on Portugal’s guilt-assuaging actions, which came a little too late.

This brings me to the last of my remarkable countrymen: Aristides Sousa Mendes (1885-1954). Sousa Mendes was a Portuguese diplomat living in Bordeaux when the Second World War began. Portugal remained neutral during the war but our dictator was a supporter of Hitler’s actions. Sousa Mendes put his job at risk when he issued around 30,000 visas to Jews and other persecuted minorities, helping them to escape to Lisbon from where they eventually reached the US. He saved many people but could not save himself from Salazar, who put an end to his career. This Portuguese Oskar Schindler died in poverty in 1954. Israel first, and later democratic Portugal, have honored him posthumously.

Self-deprecating humor can be a sort of preemptive criticism that disarms potential external critics. I guess this applies here. This piece itself is the ultimate example of how unreasonable Portuguese tend to be when analyzing themselves. Part of the nonsense you’ve read reflects my own shortcomings but is ultimately a testament to my nationality. The other limitation is intrinsic to this type of exercise, as we tend to consider as idiosyncratic traits that foreigners could easily claim to be elements of their own culture as well.

What lies ahead? With the crisis of the welfare state, our inability to absorb immigrants, the overture of the European Union to more underprivileged countries, China’s economic threat to Portuguese fabrics and other key industries, the rise of synthetic substitutes for cork, cheaper and more attractive tourist destinations than our quasi-destroyed South coast and, last but not least, our lack of entrepreneurship and tradition in the sciences and higher education, well, it is difficult to claim that we have a bright future. Paraphrasing Lewis Carroll, it will take all the running we can do to continue declining as graciously as we’ve done so far.

Conselho de amigo

"In the karma account I owe the universe quite a lot for taking care of people crying in their beer. E se, ao final do final de semana, it all still seems dark, traga na mala um chapéu e camisa dos NY Yankees e vamos a um sport bar em Chicago apanhar juntos. Nao há nada como uma dor real para fazer a dor subjetiva passar."

Nem mais. E Chicago é já daqui a 4 dias.

Lusoscópio: o casamento

incal-cache-p.jpgA minha relação com essa invenção social que é o casamento tende perigosamente para o trauma. Tal afirmação é mais do que uma descrição rigorosa que se aplica a uma faixa larga da população, pelo simples facto de eu continuar solteiro.
Até aos vinte e poucos anos adorei ir a casamentos. Ainda não conhecia a palavra, mas o acto de pôr gravata e até um papillon - infelizmente há registos fotográficos - tinha a excitação do travestismo. A oportunidade de apanhar uma piela de borla não era de desprezar e explorar oftalmicamente a rede de amigas das minhas primas deixava-me entretido a um canto. O pior foi quando os meus amigos começaram a casar-se. O casamento dos amigos coloca um problema de base: passamos a ter um papel activo e eu comecei a acumular vergonha atrás de vergonha.
Na única vez em que fui padrinho de casamento tive de suportar a humilhação de ser corrigido diante de todos pelo padre, por ter acentuado mal a palavra "esposos". Aproveito a ocasião para ajustar aqui as contas com o padreco: "esposo", "esposa" e "esposos" são as nossas palavras mais feias, com a possível excepção de "paxaxa"; o mais grave é que enquanto "paxaxa" nem sequer tem honras de dicionário, "esposos" continua a ecoar na Casa do Senhor. Pronunciar mal tal palavra é a declaração de amor possível à língua portuguesa, mas -lá está - os seminários dão cabo do bom senso.
Não contente com a experiência de ser padrinho de casamento, repeti a dose na versão padrinho de baptismo. Tratou-se de uma daquelas cerimónias religiosas que combinam o casamento com o baptismo, reveladoras de um surpreendente poder de encaixe da Igreja. Ora, eu, na minha lógica de ateu, pensava que o baptismo ficaria para o fim e ignorava que o padre iria seguir a lógica do alinhamento tipo concerto de rock, em que os eventos de menor impacto antecedem a grande apoteose. Foi por isso que me demorei na casa de banho da sacristia a afinar a guitarra portuguesa. "Como foste parar a uma casa de banho de sacristia a afinar uma guitarra portuguesa, John?", pergunta o leitor atento. Foi tudo uma sucessão de equívocos e azares: alguém pensou que eu sei tocar guitarra portuguesa e desafiou-me para o acompanhar num fado que encerraria a cerimónia, a guitarra desafinou por causa dos mármores frios da igreja, um coro começou a cantar e eu vi-me obrigado a procurar um canto silencioso para afinar o instrumento. Quando estava nos ajustes finais, alguém deu comigo e percebi então tinha passado o meu momento de partilhar com todos os convidados a minha visão do futuro que desejo para a minha afilhada. Desde então ensaio diariamente esse discurso, à espera de ocasião oportuna para me redimir, que imagino vir a ser o momento da conversa com a jovem rapariga sobre o uso de drogas leves ou métodos contraceptivos, explorando aquela cumplicidade que vem com a distância e que os pais por vezes não estabelecem com os filhos. Voltando ao incidente, a verdade é que entrar depois na Igreja, ser fulminado pela noiva do alto do altar e aguentar o casamento até ao fim, tendo perdido o baptismo, foi um acto razoavelmente corajoso e patético. E no caminho para a Quinta, a evitar as saídas de auto-estrada prematuras, tinha o nó na garganta de quem sabe que será o bobo da festa.
O terceiro momento humilhante foi, em rigor, apenas frustrante: aguentar 7 horas de casamento sóbrio na presença de uma namorada e de amigos completamente embriagados a tequila, em plena cidade do México. Só a razão para a minha abstinência revela o ridículo da coisa: andava a tomar antidepressivos. O episódio deixou-me ainda pior e fui obrigado a reforçar a medicação, iniciando um ciclo vicioso que por pouco não me afastou irreversivelmente do álcool e quase me conduziu a um asilo.
O que estes episódios não contam é a profunda melancolia que agora se apodera de mim sempre que um amigo me convida para um casamento. Olho para trás e quase nenhum daqueles casamentos sobreviveu. A coisa dura um ano, às vezes dois, e se chega aos três é porque ambos os membros do casal são bons a esconder os amantes. Se recordo o ritual, as palavras do padre, a voz embargada dos pais, o branco imaculado, Pet Shop Boys às três da manhã e toda a gente feliz, sei lá, tudo me parece um balão de felicidade condenado a rebentar num vértice vizinho. Só que depois, ao ver a esperança estampada no rosto dos meus amigos, fico com o coração todo amarrotado. No fundo sou um romântico. E o que pode um tipo dizer nestas alturas? Resolvo a situação com uma palmadinha nas costas, que é o gesto mais ambíguo que conheço.
É claro que julgava estar imune aos erros dos meus amigos e que a vida me reservava um destino mais feliz. De certo modo, foi o que aconteceu, mas é uma questão de interpretação. Em vez de ter ficado casado um ano ou dois, consegui a proeza de ter estado casado menos oito meses (-8 meses). É improvável que a minha história seja única, mas reclamo a autoria do inovador conceito de tempo de casamento negativo. Passo a explicar: no dia em que discutia a lista de vinhos com o meu futuro sogro a minha namorada teve o bom senso de me abandonar. Foi o culminar de uma relação longa que só não se eternizou porque, paradoxalmente, cometi o erro de pedir a moça em casamento. Desde esse momento tudo descarrilou e a oito meses da boda o nosso casamento acabou. Tentei explicar várias vezes o conceito de tempo de casamento negativo a amigos e familiares, mas eles mostraram-se sempre incomodados. De início foi pelo tipo de humor, demasiado autodepreciativo; depois porque perceberam que na minha cabeça a lista de prendas de casamento ainda era para respeitar.
Não direi que nunca me casarei. Aborrece-me a ideia de deixar este mundo com um saldo negativo, mas isto não é coisa que se diga a uma mulher e prometer oito meses parece-me, enfim, pouco ambicioso. Entretanto podem continuar a convidar-me para casamentos. Já não tomo antidepressivos e voltei a beber. A propósito, às vezes apetece-me telefonar ao meu ex-sogro e esclarecer que vinho decidíramos escolher, mas isso sou mesmo eu e o meu fascínio incorrigível pelos detalhes.

Outonal

É de bom-tom enaltecer o Outono
Reparar nas primeiras chuvas e
Na frescura do fim da tarde quando
A madrugada foi morna e enfim verde
Mas não se diz nem à boca fechada
Que a arte lixou já três estações

Desagravar o Outono foi acaso?
Feliz quem percebeu ser em Dezembro
Que se olha p´ra Janeiro e a natureza
Não reclama atenção, não muda a cor
De um ano novo a salvo está Outubro
A folha cai e eu gozo sem o risco
De crer que o chão a nós também nos chama

setembro 10, 2005

Todos ao Homem a Dias!

Caríssimo Alberto,

O Homem a Dias foi saneado há uns tempos, porque o seu blogue quase não apresentava sinais de vida. Estava praticamente moribundo, como por certo concordará. Verdade seja dita que esperneava de quando em vez e não há hospital de campanha onde se possa testemunhar espasmo tão subtil e fino de ironia. É mesmo caso para dizer: a cada espasmo do Homem a Dias eu pasmo (comecei a ficar à vontade para estes trocadilhos no limiar do mau gosto quando a minha mãe me assegurou que não corre sangue bastardo de Carlos Magno nas minhas veias). Se o Alberto entendeu agora presentear-nos com prosa mais regular, tenho todo o prazer em o voltar a incluir na lista de blogues. Dito e feito. Sabe, isto de retirar enlaces como forma de represália sempre me pareceu uma coisa meio amaricada. Sou dos Olivais Sul, bairro vizinho de Chelas e do "Vietname". Quando nós queríamos ajustar contas, fazíamos uma espera e afinfávamos com empenho. Não escondo que por vezes recorríamos ao computador, mas era mais como uma catana, pois o ZX spectrum é delgado e corta o ar com um silvo que na altura nos encantava.

Dor de corno anacrónica

Um homem percebe que não merece o amor quando a primeira pergunta que lhe ocorre é: "o que tem o outro que eu não tenho?"

setembro 09, 2005

Última manobra

Deixou de existir o antigo Memória Inventada, que durou de Março a Novembro de 2003 e estava alojado na Blogger. Creio que já ninguém frequentava aquelas paragens há muito tempo e havia por lá uns textos que me envergonham. Correndo o risco do culto da personalidade em versão do it yourself, trouxe para aqui o post que inaugurou o MI, escrito pelo Ivan. Tanto quanto posso avaliar da minha janela, após mais de dois anos a paisagem que ele descrevia continua igual. O rio ainda lá está e nós continuamos na cepa torta.

Desde que cheguei aqui, tenho ficado muitas vezes a ver navios. E não me canso. A minha janela abre sobre o East River e esta é uma vista que tão cedo não será corrompida pelo postal ilustrado. Falta-lhe beleza convencional e é preciso aprender a gostar dela, ver como lhe assentam as estações. Se não fosse a circunstância de ser a minha vista, não lhe daria importância. Hoje gosto do que vejo como quem descobriu algum encanto num rosto banal trazido pela rotina. A paisagem é futurista, mas à imagem daquele futuro da arquitectura que surgiu em meados do século passado e não há forma de deixar de estar sempre uns anos à frente. É uma Brasília a ir ao fundo, com um enquadramento estranho de duas pontes. Já a vi de noite, de madrugada, durante as manhãs ventosas, nos finais de tarde pacíficos e, claro, ao crepúsculo. Já a vi a todas as horas do dia e a quase todas as horas da noite, com a persistência de um Monet e sem o talento do pintor. Os batelões, quando passam, de tão carregados agitam o fantasma de Arquimedes, ou não lançassem suspeita sobre o Eureka velho de mais de dois mil anos. Os veleiros dilatam as pupilas do Daniel, que também espreita da janela, deixando-o a pensar "eu devia era ter tirado a especialidade..." . Ontem vi um autista em bra?çadas lentas, embalado pela corrente. Hoje foi um galeão de velas enfunadas que desceu o rio. Amanhã as pontes ainda estarão ali ao fundo mas não sei o que trarão as marés e a correnteza. É que entre a foz e a nascente, olha-se para um rio e é sempre presente. Pelo menos parece.

Colecção Armando

Durante as arrumações acabei por perder o arquivo com textos do maradona. É verdade que o problema tem solução, mas vou aproveitar este acidente para homenagear maradona pelo desprezo com que trata a sua prosa. Que melhor homenagem se lhe pode fazer do que dar cabo do arquivo que tinha os seus textos?

Quadro de honra

Estive a fazer algumas alterações na coluna da direita. A lista de agraciados com a comenda MI por prestação de serviços relevantes ao Memória vai desaparecer e ficará imortalizada nesta entrada. Eles foram: a Catarina (1.31.04), o José Mário Silva (1.31.04), a Zazie(2.02.04), o Joe Dalton(2.02.04), o Arquimedes (2.02.04), o MacGuffin (2.13.04) e a Inês (6.12.04).


As palavras certas são: "nepotismo" e "inbreeding"

Eu nem quero pensar no que aconteceria se esta moda de começar a listar todos os casos de nepotismo na política pega. Ou se alguém depois se lembra de começar a quantificar o "inbreeding" nas faculdades. Ah, sobre o inbreeding impõe-se um esclarecimento, porque o termo é inglês e a vida académica tem uma dinâmica própria. A ideia não é saber quantas vezes os docentes, abusando ou cedendo aos avanços para efeitos de melhoria de nota do corpo estudantil, caem na tentação carnal. Não, a ideia não é escrutinar a vida privada e investigar se a data da agregação precedeu a reserva da Quinta para o casório. Há uma deontologia do bufo que o impede de explorar tais territórios. O inbreeding aqui pretende-se razoavelmente assexuado. Trata, por exemplo, casos como a protecção dada pelo professor de literatura comparada ao seu antigo aluno Y no concurso púbico para professor associado, podendo ambos estar apaixonados por Sandra, que não liga a nenhum deles e namora um surfista.

Descarrilhamento: o descarrilhamento feito pelos seus leitores

jimdine.jpg

"Meu sacana,

Não achas que já é tempo de parar com essa fantochada do descarrilamento? Em vez de ajudares o homem só o prejudicas. Quem pensas ser? Queres estar para os eleitores como o Manuel João está para os candidatos? Gozar com a democracia? Trair Abril?

Um apoiante de Manuel Maria Carrilho".

Descarrilhamento: o não-elogio de EPC

Já tinha lido comentários negativos à prestação de Carrilho na campanha para a câmara de Lisboa mas só hoje, ao ler a crónica de Prada Coelho, me apercebi da dimensão do desastre aparente. EPC fala de todos os candidatos e elogia a prestação de Nogueira Pinto. Ora, é sabido que EPC abusa do piropo camuflado, mas se não comentou o desempenho de Carrilho, das duas, uma: ou o filósofo deve mesmo ter sido um desastre ou EPC deixou de o apoiar. Percebemos que EPC ainda apoia Carrilho quando, na mesma crónica, escreve sobre a natureza nova das campanhas e nos recorda que todos os candidatos exibem agora as suas famílias. É óbvia a intenção de neutralizar o episódio Bárbara e Salvador-Dinis-Gonçalo-João Maria- Diogo- Afonso - Sancho (riscar o nome que não interessa). Mas é o não-elogio a Carrilho que fica a ecoar depois de ler a crónica. Ora, um apoiante crítico de Carrilho tem a obrigação de enfrentar este problema. EPC apenas o agigantou. O que fazer? Bem, parece-me claro que Carrilho procura deliberadamente não se destacar nos debates, porque seria eticamente condenável que se aproveitasse do seu métier de filósofo enquanto político. Recorde-se que Carrilho é um especialista em retórica, com vasta obra publicada, incluindo livros em estrangeiro. Tomem nota: Histoire de la rhétorique, Livre de Poche, 1999 (co-autor), Retórica e Comunicação. Asa, 1994 (organização), Argumentation, Aesthetics and Rationality Kluver, 1995 (organização), Verdade, Suspeita e Argumentação, Editorial Presença, 1990. É absolutamente louvável e revelador de uma enorme grandeza de espírito que um filósofo com o gabarito de Carrilho perca os debates. Carrilho não só respeita a incompatiblidade da acumulação de cargos como a pratica a um nível inconcebível, que chega a tocar nos alicerces da sua personalidade. Há aqui uma poderosa mensagem, uma revelação que nos sossega. Mas não se julgue que Carrilho joga a cartada do inocente e do puro. Há também o animal político. É esse o génio de Carrilho. O homem é uma personagem de Shakespeare que não precisa de 3 actos para evoluir; ele transmuta-se continuamente. O que Carrilho nos diz, no fundo, é isto: "eu sou como você, caro eleitor. Esqueço factos -se é que alguma vez os cheguei a ter na memória-, engasgo-me, hesito, tenho dúvidas, deixo-me dominar pela vaidade". Carrilho pratica uma técnica de aproximação, capaz de forjar fidelidade por simpatia. É um jogo aparentemente simples, mas a que só os grandes visionários são capazes de recorrer. Em vez de criticar Carrilho, bem podiam tirar o caderninho de apontamentos. O homem anda a escrever no ar o seu melhor livro de sempre. Quem leu os outros que me corrija, por favor.

setembro 08, 2005

Vantagens de não ter caixa de comentários

Aqueles que se irritam com o compadrio que abunda na blogosfera um dia perceberão que é muito mais difícil encontrar alguém de quem valha a pena dizer mal do que quem nos mereça um elogio. É esse o motor da solidariedade blogueira. Não se trata de querer ganhar simpatias, aumentar o números de visitas e todas essas tolices de que só os novatos se lembram. É tudo uma questão de economia: um elogio é sempre menos trabalhoso de rascunhar do que uma crítica mordaz.

Gismonti

Gismonti_Oristano.jpg
Escolher o tema musical preferido é uma tarefa condenada ao fracasso. Porque confiamos demasiado na memória e nos traímos. Porque revelamos a nossa ignorância, também; quanta melodia não andará por aí que teria a minha preferência se a tivesse ouvido? Dito isto, sem tempo para escrever sobre um dos meus músicos brasileiros de eleição, o colossal Egberto Gismonti, deixo-vos aqui o tema instrumental para guitarra que mais vezes consigo ouvir de seguida sem que me canse: Memória e Fado, a faixa sete do álbum Dança dos Escravos.

Quase certo

É líquido que este rapaz ainda não passou por Praga.

First Avenue

Antes da despedida o choro, sim?
Para ter tempo de te consolar
E chorar eu na véspera também
E ainda me poderes abraçar

Descarrilhamento: é verdade que no tempo em que ainda lia as crónicas do Carrilho costumava tapar a foto com o polegar

João Pedro George (JPG) é um Pipi sem a obsessão por vaginas. Poucos textos na blogosfera me dão tanto gozo como os que ele escreve. Quando ele anuncia posts sobre Miguel Sousa Tavares e Margarida Rebelo Pinto, é óbvio que os irá destruir com violência catártica e o habitual catanço de frases absurdas. O simples anúncio faz crescer água na boca e tal constatação não abona em meu favor mas é prova do mérito de JPG. Entretanto, sobre Carrilho escreveu ele o seguinte: "Manuel Maria Carrilho foi vergonhoso. Grotesco! Manuel Maria Carrilho é um demagogo enfeitado com as plumagem da cultura. Pior: é um bastardo da filosofia. A forma como se mexia na cadeira, como tremia pudibundo dos lábios, o tique do levantar dos ombros, a papeira vislumbrada, o feroz desejo de poder, tudo em Carrilho me é repelente. Carrilho revelou desconhecer os problemas da cidade de Lisboa, quando não sabia responder fazia propaganda, recorria à quinquilharia verbal, falava de generalidades como “as crianças”, “os velhos”, o "desporto", "as escolas", etc., sem nunca apresentar nada de concreto. Quando Sá Fernandes perguntou a Carrilho, depois deste afirmar que iria aumentar as faixas BUS, se ele, Carrilho, sabia quantos quilómetros essas faixas têm actualmente em Lisboa, Carrilho respondeu, pálido de embaraço: “Eu não vim aqui para responder às suas perguntas”. Por isto, e por tudo o que passou ontem no debate, digo: Manuel Maria Carrilho está a mais no espaço público português. Fora com ele!"

É uma opinião válida, que um adepto crítico de Carrilho não deve descurar. Dois comentários: 1) não é relevante para o debate saber que a "papeira vislumbrada" de Carrilho incomoda JPG; a crítica à aparência está para o comentário político como as piadas com peidos estão para o humor; 2) só um tanso ou alguém predisposto a não gostar do candidato se deixa convencer pelo diálogo sobre a quilometragem de faixas BUS em Lisboa; quando um candidato interpela o outro com uma pergunta à Trival Pursuit a contra-medida é o esquivanço.

setembro 06, 2005

Já viver com o ordenado mínimo é canja...

"Não é fácil hoje em Portugal acumular o estatuto de intelectual ou agente da Cultura e a opção política de Direita. Mais: parece estar na moda ser de Esquerda e um intelectual de direita é quase olhado como se tratasse de uma espécie rara. Pode um intelectual, um cronista, um académico, um poeta, um pintor, um músico ou um jornalista assumir-se claramente de Direita sem por isso ser alvo da desconfiança de algum pensamento politicamente correcto? Ou, por outro lado, será que a Direita soube ao longo das últimas décadas aproximar-se daqueles que, estando situados politicamente à direita, conseguem ser simultaneamente autores ou agentes da Cultura em Portugal? Tudo indica que a resposta é negativa para ambas as questões.".

Quando o que "parece estar na moda" já está na moda há pelo menos 25 anos (é o que a memória viva me diz) e provavelmente há muitos mais (é o que as leituras me vão dizendo), há algo que não bate certo. Se a moda se eterniza não pode ser moda. Temos aqui claramente um acto falhado. O que começa a estar na moda em Portugal é o intelectual de direita. Atenção: não digo que há mais intelectuais de direita ou que as artes subitamente começaram a namorar a direita. Digo isto: nos últimos anos (e os blogues são um exemplo claro) houve um notório aumento da exposição dos intelectuais de direita. O encontro que se anuncia no Acidental é apenas mais um sinal. E um sinal porreiro. Agora, era escusado continuarem a perpetuar a imagem do mártir ou herói da direita, lutando sozinho contra tudo e todos. A menos que o rídiculo esteja... na moda.

Botânica aplicada

O melhor exemplo que posso dar de um campo de forças erótico, daqueles que podemos representar com vectores e dois pólos, não é propriamente uma surpresa; a coisa pressupõe tensão, pelo que não se pode concretizar, o que exclui desde logo alguns meios e veículos - como a pornografia- e também os povos particularmente dados às manifestações públicas de afecto - como as gentes do Caribe. Alguma surpresa, que é mais uma fina ironia, virá talvez do local: um jardim botânico. A lógica da flor, a mobilização dos insectos, o fruto, enfim, tudo parece fazer parte de um grande esquema que se realiza na união dos gâmetas e é rico em segredos perversos, mas a associação do jardim ao sexo é quase sempre cândida: o jardim é o local do sexo em público autorizado, o namoro. Ora, no Ocidente o namoro é hoje uma arte em decadência. Que interesse tem o banco de jardim se ambos os pais trabalham e o quarto está à disposição nas longas tardes dos dias úteis? (continua...)

Vargas Llosa

É absurdamente luminoso e rico o pequeno ensaio de Vargas Llosa sobre o Don Quixote de Cervantes que acompanha a mais recente edição da obra, a cargo da Real Academia Española e da Associación de Academias de la Lengua Española. O volume conta ainda com outros ensaios, que resolvi evitar para combater o hábito de encalhar nas extensas introduções e não chegar propriamente a iniciar a leitura os grandes clássicos. En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme...

Viciado em Portugal

Afinal sempre renovei a assinatura anual do Expresso online. Fica como a confissão da semana e, se estiverem de acordo, não se falará mais deste assunto.

setembro 03, 2005

Ar puro

Não percam o texto de Carlos Vaz Marques sobre o sectarismo nos media portugueses.

BnO (88)

"A bola ia com efeito. Rematei de um ângulo apertado e com dois defesas à minha frente. Foi um golo incrível, mas quando o poste é uma pedra e a bola é metida a um dos ângulos superiores a dúvida pode persistir. Passou por dentro do poste. Foi a impressão com que fiquei. Perguntaram-me se tinha sido golo e eu disse que sim. Os da minha equipa concordaram comigo; os outros nem tanto. Mas tinham dúvidas. Decidimos que tinha sido golo. Acredito naquele golo. Foi há tantos anos. O jogo contava para um... Sabes, às vezes a dúvida instala-se e é como uma coisa insidiosa. A dúvida vai então buscar um pouco a todas as outras dúvidas que trazemos connosco, revelando uma capacidade de mobilização impossível de igualar. Como se lida com um exército de dúvidas? Decapitando o general, claro.
Não sei o que se passou. A culpa pode ter sido de um pedreiro que tinha um fio-de-prumo caprichoso e fez as verticais do prédio ligeiramente oblíquas, más para referenciais. Gosto destas justificações fantásticas. Às vezes o estilo ajuda. Mas é verdade que me incomoda agora não poder saber se foi golo ou não. Felizmente não procurei deliberadamente esta incerteza, ou então desesperaria. Talvez não mereça a sorte de a dúvida estar lá desde o princípio, antes até de a bola ter transposto a linha de golo. Na altura pareceu-me golo, sim, mas logo hesitei. Não há nada mais corrosivo do que uma dúvida que perturba a ordem a que nos habituámos e disso estou livre.
Não chega a ser um fardo, isto que carrego. A propósito, nunca percebi muito bem a imagem do fardo. Para mim o peso na consciência tem a dinâmica do pêndulo: um movimento que se repete, com o pânico das acelerações e os tempos quase parados, numa ilusão de tranquilidade. Os anos vão carregando o pêndulo, reforçando-lhe a inércia. A tendência só de contraria com uma tesoura. E quando o pêndulo se solta, cai sem barulho. Ainda acho que foi golo. Foi golo seguramente. E um belíssimo golo."

setembro 02, 2005

O Mirandês

João Miranda é um guru na blogosfera portuguesa. O que o distingue dos outros são os seus conhecimentos técnicos (está sempre bem informado) e a sua retórica. Ora, o estilo provocatório de João Miranda tem um problema sério: em muitos casos um outro João Miranda facilmente desmontaria o João Miranda; ou seja, o Miranda nem sempre vai até às últimas consequências do seu raciocínio. Num provocador isto ainda se tolera, mas se é só para provocar prefiro o Frank Zappa. No último naco de Mirandês lemos o seguinte (em registo irónico, esclareço):

"Os indivíduos que vivem em zonas perigosas não são responsáveis pelo que lhes acontece porque não podem escolher o lugar para viver.

Os criminosos não são responsáveis pelos crimes que cometem porque na verdade a sociedade não lhes permite escolher uma vida melhor.".

Ó meu amigo, mas fica por aí? Então e aquela criancinha que cresceu nas barracas e era filha de um pai alcoólico? Não é dela a responsabilidade por não ter chegado à faculdade? E os Albaneses adultos, Miranda? Não é deles a responsabilidade por não terem decidido abandonar um país de merda? E os Holandeses, Miranda? Não são eles os únicos responsáveis pela sua sorte no dia em que os diques rebentarem?
No mundo de João Miranda a biografia não existe. Ninguém teve azar e não há contingências. É tudo da exclusiva responsabilidade do indivíduo, como se saíssemos de uma linha de montagem, iguais em tudo aos outros. Asseguremos essa coisa venerável que é a liberdade individual e todos os problemas do mundo desaparecerão. Desconfio que o João Miranda não cresceu nas barracas, mas tal detalhe nem chega a ser relevante.

The Las Vegas argument

Deixei de ver televisão, mas aposto que neste preciso momento, em algum canal, há um idiota a dizer que a catástrofe de New Orleans foi um castigo divino. Há nesta história dois elementos irresistíveis para a mente destes lunáticos: a água que tudo inundou e a atmosfera pecaminosa da cidade. Felizmente ainda há Las Vegas, plantada num deserto, ainda mais debochada e de pé.

Descarrilhamento: regressão ou evolução?

Alinhamento cívico para o futuro próximo:

Autárquicas: Carrilho.

Presidenciais: voto em branco.

Legislativas: voto nulo de conteúdo obsceno.