A cruzada de Vital Moreira contra a supostamente avassaladora presença da pronúncia de Lisboa na comunicação social começa a assumir dimensões preocupantes. Sou lisboeta e o primeiro a reconhecer que a nossa pronúncia está longe de ser perfeita. Sobre a famigerada superioridade da pronúncia da região centro não me posso pronunciar; não domino o tópico. Porém, uma coisa é certa: jamais pedirei a cabeça dos pivots do Norte por não distinguirem entre o presente do indicativo e o pretérito perfeito. Aliás, as notícias lidas a partir de uma redacção do Norte ganham logo trama de novela de vanguarda, o que não é desagradável. Enfim, não gostaria de terminar sem deixar uma palavra de solidariedade à boa gente de Angra do Heroísmo, que certamente ficará consolada e com uma sensação de pertença no dia em que ouvir Vital Moreira a apresentar o jornal das oito.
Escrevi um texto em tom autodepreciativo sobre Portugal. Nada de muito original, dir-me-ão. Sucede que é um texto escrito em inglês e que será publicado aqui, na revista do Campus (Rockefeller University). A reacção mais curiosa que tive veio de compatriotas machos, que ficaram algo incomodados com o facto de estrangeiros poderem ler aquilo. Este comportamento fez com que eu tivesse começado a aprender mandarim e deixou-me com vontade de publicar o texto também aqui, no MI, assim que a revista saia, o que deve acontecer nos próximos dias. Será a primeira de duas partes, sendo que a segunda é a melhor; ou a pior, dependendo do ponto de vista.
Não sei se o leitor também tem o hábito de pela madrugada fora, ou logo quando acorda, rever tudo o que disse na festa da véspera, tentando perceber até que ponto e diante de que pessoas foi ridículo ou simplesmente inconveniente.
É muito pouco provável vir a ganhar a aposta que fiz com o Átila, a saber: chegar às cem BnO antes de 1 de Setembro. A partir da entrada 40 ou 41 senti que tinha esgotado o tema e tudo o que escrevi desde então foi arrancado a ferros. Vou continuar. Interessa-me explorar esta fase do mergulho em hipoxia e saber até onde posso chegar. A empreitada foi sempre um exercício, o que talvez explique que os meus amigos mais próximos considerem os textos particularmente aborrecidos. Procurarei evitar as formas espertalhonas de acumular entradas, como abusar das séries dentro da série e da entrada curta ou descolar completamente da realidade (e das recordações). A garrafa é quase tua, Átila, mas ainda não.
Ninguém quer saber dos bons alunos, excepto os pais deles. O próprio bom aluno - sobretudo o que é mesmo bom - despreza a sua condição. Ao fim de uns anos ele começa a desconfiar e pensa que o condicionaram para estudar. Estudar é contranatura. Há gozos muito mais imediatos. O tipo de bom aluno potencialmente mais trágico é o que é bom a tudo, da ginástica à geografia. Das duas uma: ou é movido por uma curiosidade infinita ou está programado para ter boas notas. Percebe-se a distância que vai de um ao outro, mas não os distinguimos na pauta. Mais reconfortante é encontrar o mau aluno que é brilhante apenas a uma disciplina. Esse vem com garantia de vocação. É o miúdo que acumula faltas e chamadas ao conselho directivo, está na iminência de chumbar o ano logo em Outubro e não faz os trabalhos de casa, mas depois tira sempre cincos a matemática e alimenta a rede clandestina de respostas às perguntas do teste que faz subir a média da turma.
Fui bom aluno a tudo e não me livro desse fardo. Era disciplinado e tinha uma caligrafia bonita, coisas que perdi antes de chegar ao liceu, mas sem nunca deixar de ter jeito para estudar. "Jeito para estudar" é uma expressão algo pateta, convenhamos. Preferia ter tido jeito para ir à baliza, como o A., colega de carteira cujo copianço eu tolerava de modo passivo. A. era um rapaz acidentalmente honesto, que perante a suspeita de ter copiado e depois da defesa em coro do resto da turma- "mas ninguém percebe a letra dele [a minha], stôr!" - não reprimiu o desabafo - "mas eu consigo, eu consigo!" - que lhe lixou o alibi. Conseguia, confirmo. A., corpulento, excelentes rins, na baliza como na vida, voluntarioso e trapalhão, mas também com o vício de guarda-redes de andebol que o fazia acidentalmente corajoso, capaz de oferecer o corpo e a cara antes de se lembrar das mãos. Nunca mais o voltei a ver e se nos cruzássemos agora não o reconheceria, apesar do seu nome resistir com todas as sílabas, perdido na multidão de rostos passados que decaem inexoravelmente para o anonimato. O "mas eu consigo, eu consigo!" comprometeu-lhe a nota mas salvou-o, pelo menos aqui.
Parece que há gente que escreve um blogue secreto dentro do blogue, feito de entradas que não chegam a ser publicadas. É claro que dificilmente se pode comprovar tal prática e a mitomania abunda. Este reparo é ainda válido para o que avançamos agora: no MI já publicámos uns mil posts e devemos ter guardado apenas um ou dois na forma de rascunho; de resto, contamos publicá-los em ocasião oportuna. No MI a censura existe, só que actua mais a montante.
Há quem prefira o campo enxuto, um verde em que se pode confiar como se fosse uma boa mesa de blihar, mas do que me lembro mesmo é da lama. A chuva na terra seca, o ar amarelado e o cheiro dos actinomicetos, alguém à janela a sonhar com África, outro a ressacar África com a cabeça ensanduichada no travesseiro, a lama a escorrer pelas pernas e as pernas a escorregarem pela lama, a lama a fazer de todos guerreiros, a relva afogada na lama, como uma floresta em miniatura destrruída por uma catástrofe natural, a bola com um leve travo a tétano, a bola a deixar lastro à saída do petardo, o respingo do avançado que ganha terreno, um biscoito de lama seca recortado pelos pitões e perdido nas escadas, o pontapé em balão que morre numa poça de lama e um remate a meia altura que parece acelerar ao primeiro ressalto e , a lama nas minhas luvas de guarda-redes, a lama na parede do prédio, a lama que reflecte o luar e a luz dos candeeiros de iluminação pública, a lama por fim seca na camisola da selecção, a bola a um canto e um punhado de terra espalhado pelo chão.
(Imagem roubada daqui)
Para quem se interessa por política, está em curso uma discussão interessante aqui
Para quem se interessa por ciência, está em curso uma discussão interessante aqui.
Para quem se interessa por Portugal, está em curso uma discussão interessante aqui.
Para quem se interessa pela natureza humana, está em curso uma discussão interessante aqui.
Caro MacGuffin, dizes que "qualquer destino de férias tem que ser minimamente «civilizado» (as aspas são a contribuição da semana para o politicamente correcto): sem moscas, mosquitos, frio ou calor excessivos, comida ou líquidos diarreicos. A regra que me imponho é simples: sair só para onde a obra e o engenho humanos tenham florescido em todo o seu esplendor, após séculos de sedimentação civilizacional." (...) Não me peçam para escolher retiros exóticos com climas absurdamente húmidos ou estupidamente secos, com programas de pesca submarina e aos gambozinos em praias «paradisíacas». Além disso, a minha consciência moral não me permite assistir indiferente e pacificamente à coabitação do luxo de uma estância balnear, paredes meias com a dura realidade da indigência autóctone – apesar do garrido pitoresco que a ocidente muito se preza.
Em suma: para quê a «diferença», o «exotismo» e o «paraíso» se há sempre Veneza, Roma, Londres, Nova Iorque, Barcelona ou Paris, a escassas horas de distância?"
As tuas considerações dariam pano para mangas mas a minha contra-argumentação é essencialmente empírica. Olhando para trás, as férias que mais vezes recordo foram ao Nepal, ao México e às Ilhas Virgens Americanas. Parece que o teu ideal de férias passa por assegurar a continuidade civilizacional quando desces do avião. São gostos, seguramente não indiscutíveis, que devo respeitar.
Menos pacífica é essa da "consciência moral [que] não [te] permite assistir indiferente e pacificamente à coabitação do luxo de uma estância balnear, paredes meias com a dura realidade da indigência autóctone". Dois erros. O primeiro é não reconheceres que o turismo é em muitos desses países a primeira fonte de receitas (não me refiro só a Cuba, um local que compreensivelmente nunca visitarás). O segundo é não teres considerado outras opções além dos resorts. Há estilos alternativos de viagem, que passam por conviver com as populações locais. Só assim - e não ao folhear a livralhada da Barnes & Noble - se conhece e pode apreciar uma cultura que não é a tua. Ao insistires no vá para fora ficando aí dentro, nem sabes o que tens perdido.
Escreve JPP: O mais estúpido dos argumentos contra Soares é a idade (será que a apologia publicitária e mediática da juventude nos faz esquecer que vivemos numa sociedade de velhos?). Não é a idade, é a política! Discordo. Seria estúpido tentar impedir Marques Mendes de chegar a Primeiro-ministro por ter menos de 165 cm, mas não é estúpido haver um limite superior de idade para se ser piloto da aviação civil. Dito isto, admito que possamos discutir se deve ou não haver limite superior de idade para cargos governamentais de topo. À partida eu diria que não. Se o candidato der mostras de saúde e capacidade de trabalho, não é a idade que o limitará. De resto, a reforma compulsiva a que alguns cientistas são obrigados na Europa originou um curioso fenómeno de migração de sexagenários para os EUA, onde continuam a trabalhar na academia por muitos e produtivos anos.
A contrapor, temos o argumento daqueles que defendem o limite superior de idade: nas situações em que o cargo é atribuído por um período relativamente longo, a probabilidade de haver problemas de saúde aumenta com a idade do candidato e isto não pode ser ignorado.
A discussão pode não ser elegante, mas a ser estúpida não sei quantas das outras discussões que nos vão animando se livrarão da imbecilidade.

Chema Madoz
A imagem foi roubada do Letteri Café, que tem o melhor combinado de textos e imagens da blogosfera lusófona.
O sistema de ensino público sempre fez questão de me forçar a reconhecer que tinha falta imaginação. Uma professora da primária ralhou-me por eu ter colorido um guarda-chuva a preto (o tecido) e castanho (o varão e a pega). Anos depois seria uma professora de Português a fazer-me a mesma acusação - não há outro termo -, preferindo a prosa mais delicodoce de umas meninas da turma sexualmente emancipadas. Essas experiências marcaram-me. Pensava que tinha imaginação no desenho e também para as composições. Onde sabia que me faltava a luz era no campo. Por isso acabei a defesa esquerdo. Um defesa é um tipo que reage. Um bom defesa reage depressa. Mas o defesa não deve ter imaginação, bastando-lhe apenas a disciplina táctica. Os ataques das minhas professoras marcaram-me ao ponto de ter desenvolvido um exercício que me sossegava quando comentavam a minha falta de imaginação. Era quase um reflexo, um pouco como jogar a mão às partes baixas depois de uma explosão, para assegurar que continua tudo no lugar (dizem). O que eu fazia era muito simplesmente pôr-me a imaginar. Percebe-se o ridículo da situação. É coisa de mecenas tosco: "Vá, pinta aí qualquer coisa..." Para mais, caí na armadilha de imaginar sistematicamente a mesma coisa, o que minava o exercício. Eram sempre as grandes faias do campo transformadas em foguetões, levantando-se do solo com as raízes, animadas não cheguei a definir como. Sei que havia imensas cores; a construção era algo psicadélica. Na minha tacanhez, por causa do maldito guarda-chuva e da reprimenda da Dona Natividade, quanto mais cores houvesse mais exuberante seria a minha imaginação. E insisti neste exercício tantas vezes que devo ter reflorestado uma parte considerável da Via Láctea. As professoras faziam um reparo e era automático, começava a ouvir a terra a tremer e a faia lá se arrancava do chão. Cheguei a temer ver um dia o campo cheio de crateras e revolvido, como um território de guerra onde rebentaram todas as minas. Mas nada, as faias não chegaram a sair do mesmo lugar. Sem grande surpresa, eu também não chegaria a abandonar o meu posto de defesa esquerdo.
Ficávamos agarrados ao futebol por volta dos 8-10 anos, quando ganhávamos alguma autonomia mas ainda não tínhamos desenvolvido outros interesses. O retardamento da maturidade sexual e o prolongamento da infância, que dizem ser uma idiossincrasia da nossa espécie, fez-nos criaturas mais interessantes. É preciso lembrar isto: se o desejo e competência sexuais surgissem por volta dos 3 anos, não seria apenas a indústria de brinquedos que implodiria. O efeito mais devastador nem sequer resultaria da compressão de gerações. Na verdade, assistiríamos ao colapso da nossa civilização. Adeus artes, adeus ciência, adeus religião, adeus bola. Aceite-se que o futebol é uma coisa menor. "22 gajos a correr atrás de uma bola", a famigerada definição que só ocorreria a uma mulher é, infelizmente, uma descrição rigorosa. Para fidelizar, ou melhor, para viciar, o futebol tem de ser apresentado cedo à criança. Refiro-me aqui à fome de bola, à vontade incontrolável de sair quando estávamos no quarto e sentíamos o prédio a absorver o embate de um balázio atirado (literalmente) do meio da rua. Comparado com tal gozo, o vício do futebol como substrato para desfrutes intelectuais é metadona, uma droga de substituição vagamente terapêutica. (incompleto)
Gosto de consultar listas de fobias. Há fobias verdadeiramente desconcertantes. Creio que a explicação se deve à própria natureza humana, já de si desconcertante, mas desconfio que há também um desenfreado ímpeto de catalogação entre os psiquiatras. Enfim, serão talvez as exigências da profissão. A fobia que mais me fascina é a agorafobia, o medo dos espaços abertos (que inclui também o medo das multidões). Ora, eu não tenho medo de multidões. Pelo contrário, adoro perder-me num mar de gente, porque gosto de observar as pessoas e porque me sossega sentir que sou apenas um entre milhares. Curiosamente, nos últimos tempos tenho vindo a detectar um comportamento que, de modo algo leviano, definiria como agorafobia de tipo nostálgico. Refiro-me a eventos sociais que juntam pessoas que se conheceram há muitos anos e depois perderam o contacto umas com as outras. O exemplo mais elucidativo é o fatídico jantar de curso. Nunca fui a um jantar de curso e, com alguma sorte, nunca irei. O facto de viver no estrangeiro aliviou a obrigação social e não fui forçado a explicar por que motivo nunca apareço. A verdade é que mesmo se vivesse em Portugal não me veriam num jantar de curso.
Tive bons colegas. Tenho boas recordações. Tenho 3 ou 4 amigos que conheci na faculdade e saudades de algumas pessoas. Dito isto, entrar num restaurante sabendo que vou encontrar 30 pessoas 10 anos mais velhas, cujos nomes já não arrisco e cuja biografia recente desconheço, é para mim uma cena de horror. Não se trata de misantropismo, nem de elitismo. Não me move um ódio especial à sociedade e noutras circunstâncias adoro o convívio. Interessa-me também saber o que andam a fazer os meus colegas. E gosto de os encontrar, desde que seja um de cada vez e por acaso. O que me aflige - e é mesmo pânico o que consigo antecipar - é a sobredosagem de memórias, aquele efeito sinergístico e de conseqências devastoras quando à mesa alguém solta o inevitável "lembras-te?". Tenho alguma curiosidade em saber qual será a minha posição daqui a uns 20 anos, mas o mais certo é até lá ter deixado de receber convites, coisa que me parece inteiramente justa.
Entre os meus amigos arrisco-me a ficar para a História como o gajo que ergueu uma parede de esferovite. Isto não é metáfora, é factual.
Como tínhamos anunciado, deram entrada: Vigília da Devassidão, O Acidental, Abóbada Palatina, Casmurro, Melancómico, Blasfémias e Bombyx Mori.
Estão de saída (obrigado pela companhia e até breve): Homem a Dias, Bomba Inteligente, Textos de Contracapa, ThomazCunhal, Prazer Inculto, Quarto com vista..., Universos Desfeitos, Mustang, País Relativo, Modus Vivendi, Filhos de Viriato, A Espada Relativa , Gato Fedorento, Barnabé e A Questão Continuada.
Um amigo meu quase se chateou a sério comigo (e eu com ele) durante uma discussão sobre as eleições autárquicas para a câmara de Lisboa. Eu nunca me chateara antes por causa da política, provavelmente porque os meus amigos ou não têm opinião, ou a opinião deles coincide com a minha ou simplesmente apetece-nos falar de outras coisas. O problema ficou resolvido na mesma noite e sem grandes danos colaterais. Seria algo desconcertante se tivéssemos deixado de falar um com o outro por causa do Carrilho e do Carmona Rodrigues. Haja bom senso.
Vamos proceder a uma remodelação profunda na nossa colecção de enlaces para outros blogues. Muitos dos blogues que visitamos ainda não figuram na lista e por lá andam alguns que deixámos de frequentar. Aos que vão sair, impõe-se uma explicação. Preferimos ter uma lista de blogues reduzida e que seja usada. Os interesses mudam e vamos ganhando algumas manias (como não gostar de abrir blogues moribundos, blogues que funcionam essencialmente como portais para outros escritos do autor, blogues que descarregam ficheiros no nosso computador sem pedir licença e blogues que atacam logo com música, entre outras irritações). Peço-vos que não se sintam ofendidos com o gesto futuro, se é que ainda passam ou alguma vez passaram por aqui.
Sem dúvida, jovem, sem dúvida. Aliás, a mesma prosa poderia ser rabiscada a propósito da arte de comentar a crónica. E se reparares bem, os dez mandamentos da crónica aplicam-se na perfeição aos números de palhaços, bastando substituir "género literário" por "arte circense". A cada qual o seu métier e não se fala mais nisto. O Coutinho escreve a crónica, a malta casca no Coutinho e o Batatinha continua a mandar esguichadelas da flor que leva à lapela.
Um homem foi encontrado enforcado num abrunheiro junto de um banco de jardim. No chão, perto dele, havia uma pequena peça circular, cartonada e azul. Se alguém tivesse perdido algum tempo com isto, teria descoberto uma imagem gigantesca de uma paisagem com um céu imenso e limpo de nuvens a cobrir o chão da sala do apartamento do enforcado. Olhando com mais atenção, repararia depois que a imagem era um gigantesco puzzle, praticamente completo, à excepção de um espaço minúsculo de forma triangular e rodeado de céu por todos os lados.
Um homem foi encontrado às gargalhadas num banco de jardim com uma pequena peça na mão, que era circular, cartonada e azul. Se alguém tivesse reparado e perdido algum tempo a acompanhar este homem a sua casa, teria descoberto uma imagem gigantesca de uma paisagem com um céu imenso e limpo de nuvens a cobrir todo o chão de uma sala espaçosa. Olhando com mais atenção, repararia depois que a imagem era um gigantesco puzzle, praticamente completo, à excepção de um espaço minúsculo de forma triangular e rodeado de céu por todos os lados.
Um homem foi encontrado a chorar num banco de jardim com uma pequena peça na mão, que era circular, cartonada e azul. Se alguém tivesse reparado e perdido algum tempo a acompanhar este homem a sua casa, teria descoberto uma imagem gigantesca de uma paisagem com um céu imenso e limpo de nuvens a cobrir todo o chão de uma sala espaçosa. Olhando com mais atenção, repararia depois que a imagem era um gigantesco puzzle, praticamente completo, à excepção de um espaço minúsculo de forma triangular e rodeado de céu por todos os lados.
Luís Campos e Cunha foi a primeira vítima a tombar em virtude desses crimes em preparação que se chamam aeroporto da Ota e TGV. Não se pode pedir a alguém que vem do mundo civil, sem nenhum passado político e com um currículo profissional e académico prestigiado que arrisque o seu nome e a sua credibilidade em defesa das políticas financeiras impopulares do Governo e que, depois, fique calado a ver os outros a anunciarem a festa e a deitarem os foguetes. Não se pode esperar que um ministro das Finanças dê a cara pela subida do IVA e do IRS, pelo aumento contínuo dos combustíveis e pelo congelamento de salários e reformas, que defenda em Bruxelas a seriedade da política de combate ao défice do Estado, e que, a seguir, assista em silêncio ao anúncio de uma desbragada política de despesas públicas à medida dos interesses dos caciques eleitorais do PS, da sua clientela e dos seus financiadores.
O afastamento do ministro das Finanças e a sua substituição por um homem do aparelho socialista é mais do que um momento de descredibilização deste Governo, de qualquer Governo. É pior e mais fundo: é um momento de descrença, quase definitiva, na simples viabilidade deste país. É o momento em que nos foi dito, para quem ainda alimentasse ilusões, que não há políticas nacionais nem patrióticas, não há respeito do Estado pelos contribuintes e pelos portugueses que querem trabalhar, criar riqueza e viver fora da mama dos dinheiros públicos; há, simplesmente, um conúbio indecoroso entre os dependentes do partido e os dependentes do Estado. Quando oiço o actual ministro das Obras Públicas - um dos vencedores deste sujo episódio - abrir a boca e anunciar em tom displicente os milhões que se prepara para gastar, como se o dinheiro fosse dele, dá-me vontade de me transformar em "off-shore", de desaparecer no cadastro fiscal que eles querem agora tornar devassado, de mudar de país, de regras e de gente.
Há anos que vimos assistindo, num crescendo de expectativas e de perplexidade, ao anunciar desses projectos megalómanos que são o TGV e o aeroporto da Ota. O mesmo país que, paulatinamente e desprezando os avisos avulsos de quem se informou, foi desmantelando as linhas férreas e o futuro do transporte ferroviário, os mesmos socialistas que, anos atrás, gastaram 120 milhões de contos no projecto falhado dos comboios pendulares, dão-nos agora como solução mágica um mapa de Portugal rasgado de TGV de norte a sul. Mas a prova de que ninguém estudou seriamente o assunto, de que ninguém sabe ao certo que necessidades serão respondidas pelo TGV, é o facto de que, a cada Governo, a cada ministro que muda, muda igualmente o mapa, o número de linhas e as explicações fornecidas. E, enquanto o único percurso que é economicamente incontestável - Lisboa-Porto - continua pendente de uma solução global, propõe-nos que concordemos com a urgência de ligar Aveiro a Salamanca ou Faro a Huelva por TGV (quantos passageiros diários haverá em média para irem de Faro a Huelva - três, cinco, sete mais o maquinista?).
Quanto ao aeroporto da Ota, eufemisticamente baptizado de Novo Aeroporto Internacional de Lisboa, trata-se de um autêntico crime de delapidação de património público, um assalto e um insulto aos pagadores de impostos. Conforme já foi suficientemente explicado e suficientemente entendido por quem esteja de boa-fé, a Ota é inútil, desnecessário e prejudicial aos utentes do aeroporto de Lisboa. E, como o embuste já estava a ficar demasiadamente exposto e desmascarado, o Governo Sócrates tratou de o anunciar rapidamente e em definitivo, da forma lapidar explicada pelo ministro das Obras Públicas: está tomada a decisão política, agora vamos realizar os estudos.
Mas tudo aquilo que importa saber já se sabe e resulta de simples senso comum:
- basta olhar para o céu e comparar com outros aeroportos para perceber que a Portela não está saturada, nem se vê quando o venha a estar, tanto mais que o futuro passa não por mais aviões, mas por maiores aviões;
- em complemento à Portela, existe o Montijo e, ao lado dela, existe uma outra pista, já construída, perfeitamente operacional e que é uma extensão natural das pistas da Portela, que é o aeroporto militar de Alverca - para onde podem ser desviadas todas as "low cost", que não querem pagar as taxas da Portela e menos ainda quererão pagar as da Ota;
- porque a Portela não está saturada, aí têm sido gastos rios de dinheiro nos últimos anos e, mesmo agora, anuncia-se, com o maior dos desplantes, que serão investidos mais meio bilião de euros, a título de "assistência a um doente terminal", enquanto a Ota não é feita;
- os "prejuízos ambientais", decorrentes do ruído que, segundo o ministro Mário Lino, afectam a Portela são uma completa demagogia, já que pressupõem não prejuízos actuais, mas sim futuros e resultantes de se permitir a urbanização na zona de protecção do aeroporto;
- a deslocação do aeroporto de Lisboa para cerca de 40 quilómetros de distância retirará à cidade uma vantagem comercial decisiva e acrescentará despesas, consumo de combustíveis, problemas de trânsito na A1 e perda de tempo à esmagadora maioria dos utentes do aeroporto, com o correspondente enriquecimento dos especuladores de terrenos na zona da Ota, empreiteiros de obras públicas e a muito especial confraria dos taxistas do aeroporto.
O negócio do aeroporto é tão obviamente escandaloso que não se percebe que os candidatos à Câmara de Lisboa não façam disso a sua bandeira de combate eleitoral e que, à excepção de Carmona Rodrigues, ainda nem sequer se tenham manifestado contra. Carrilho já se sabe que não pode, sob pena de enfrentar o aparelho socialista e os interesses a ele associados, mas os outros têm obrigação de se manifestarem forte e feio contra esta coisa impensável de uma capital se ver roubada do seu aeroporto para facilitar negócios particulares outorgados pelo Estado.
A Ota e o TGV, que fizeram cair o ministro Campos e Cunha, são um exemplo eloquente daquilo que ele denunciou como os investimentos públicos sem os quais o país fica melhor. Como o Alqueva, à beira de se transformar, como eu sempre previ, num lago para regadio de campos de golfe e urbanizações turísticas, ou os pendulares do ex-ministro João Cravinho, ou os estádios do Euro, esse "desígnio nacional", como lhe chamou Jorge Sampaio, e tão entusiasticamente defendido pelo então ministro José Sócrates. Os piedosos ou os muito bem intencionados dirão que é lamentável que não se aprenda com os erros do passado. Eu, por mim, confesso que já não consigo acreditar nas boas intenções e nos erros de boa-fé. Foi dito, escrito e gritado, que, dos dez estádios do Euro, não mais de três ou quatro teriam ocupação ou justificação futura. Não quiseram ouvir, chamaram-nos "velhos do Restelo" em luta contra o "progresso". Agora, os mesmos que levaram avante tal "desígnio nacional", olham para os estádios de Braga, Bessa, Aveiro, Coimbra, Leiria e Faro, transformados em desertos de betão e num encargo camarário insustentável, e propõem-nos um TGV de Faro para Huelva e um inútil aeroporto para servir pior os seus utilizadores, e querem que acreditemos que é tudo a bem da nação?
Não, já não dá para acreditar. O pior que vocês imaginam é mesmo aquilo que vêem. Este país não tem saída. Tudo se faz e se repete impunemente, com cada um a tratar de si e dos seus interesses, a defender o seu lobby ou a sua corporação, o seu direito a 60 dias de férias, a reformar-se aos 50 anos ou a sacar do Estado consultorias de milhares de contos ou empreitadas de milhões. E os idiotas que paguem cada vez mais impostos para sustentar tudo isto. Chega, é demais!
Miguel Sousa Tavares, Jornalista
T.H Chen
Não vale diabolizar as hélices para aproveitamento da energia do vento. São objectos lindíssimos. Dão um toque de modernidade e consciência ecológica, mesmo que não seja essa a força motriz que os colocou lá. Convém apenas assegurar que a força motriz que fará girar a hélice é o vento. De resto, podem até salvar paisagens já descaracterizadas, invadidas por árvores australianas, em vias de desertificação ou com casas absurdas de telhado inclinado para a neve que nunca cairá. Se esta é a nova agressão à paisagem lusitana, aplaudo de pé.
Afazeres diversos impedem-me de compilar os textos do maradona com a regularidade que se exige. Alguém quer colaborar?
Diz-se que se vê o filme da nossa vida nos instantes que precedem a morte. De todas as tolices à solta, esta é talvez a minha preferida. Muito me agradaria saber até que ponto a urgência pode espicaçar a capacidade de síntese. Enfim, não há pressa, por todas as razões e mais uma.
Sobretudo importa que o tal filme da vida não seja um derradeiro director´s cut. A julgar pela selecção de memórias que vamos praticando, não temos competência para organizar o filme das nossas vidas. Traumas, invejas e taras contribuiriam para uma selecção péssima, deixando de fora o melhor. A vida que não recordamos, a vida em cortes de película encaracolada e abandonada no chão da sala de montagem, só pode ser resgatada e colada de novo por outro. Alguém que trocasse a lembrança de uma sarrafada maldosa e brutal que apanhei pelo rosto de uma namorada pré-coito, pré-beijo, pré-Platão, uma moça sempre morena que anualmente reencontrava no Algarve e comigo entrelaçou os dedos de varanda a varanda, num prenúncio de efemeridade, que ela tratou de concretizar desaparecendo de um Verão para o outro sem aviso prévio. Já não me lembro do fato de banho dela mas sei a cor da T-shirt do sarrafeiro. Isto é mau cinema. Alguém que trocasse a imagem do sarrafeiro com a camisola da selecção brasileira, aquele pontapé amplo e a despropósito, pelos mergulhos na Ponta-do-Sol, o azul das castanhetas, um polvo pescado à mão. Ou que o trocasse pelas vezes em que, após um corte de carrinho, me demorei a cheirar a relva e a gozar a paisagem com a vista rasteira. Aceitaria até a troca por uma derrota inglória. Nada. Fácil, só mesmo convocar o calmeirão da camisola do Brasil, o seu pontapé amplo, a agressão inter-escalões etários, uma coisa que já não é sequer sede de vingança. Muitas vezes me pergunto se ele ainda se lembrará do pontapé, mas é uma pergunta retórica. O filme que trazemos cá dentro pode ser mau, mas é seguramente único. Fraco consolo este para tamanha perda de tempo.

ES e Tulius: O Colunista (estudo)
Nova Iorque, Julho de 2005 [Fotografia a preto e branco, 64 x 40 cm]
Espólio MI
Entristece-me não poder hospedar todos os apoiantes de Carrilho na minha casa até ao fim de Setembro. Trazê-los para Nova Iorque seria uma forma eficaz de proteger Carrilho da sua campanha para as eleições autárquicas.
O maradona respondeu ao apelo que fiz numa das entradas da série BnO. Por lapso não precisei que as jogadas e episódios têm de ser anteriores a 1986. Por esse motivo o texto do maradona não pode ser aproveitado para a BnO. Porém, como é prosa maradoniana, entendi partilhá-la, coisa que ficou acordada após troca de mensagens vernaculares com o autor. Bom proveito.
Gosto do futebol remoído, circular, redundante. Pelo menos a exagerar para um dos lados, que não seja para o "futebol directo", eufemismo inventado por quem acha que o mérito está sempre do lado de quem vence. Enfim, a Inglaterra terá inventado o futebol, mas o futebol que vale a pena não inventou com certeza. A jogada mais preparada de sempre teve, ironicamente, também a concretização mais directa de sempre. O seu conzinheiro chefe foi um homem chamado Ivkovic, histórico e louco guarda-redes do meu clube, o Sporting.
Logo na segunda-feira, a sete dias do embate nas Antas com o FCPorto, tratou o senhor Ivkovic de descansar a trágica massa adepta sportinguista numa lata entrevista ao então quadrisemanário A Bola: "Eu estudei a forma como o Geraldão marca os livres, sei perfeitamente como ele faz aquilo, é sempre igual.".
O Geraldão, para quem seja inculto, era um preto brasileiro de metro e noventa que, à altura do jogo do Sporting, tinha despachado meia dúzia de golos de livre directo. O seu maior problema era que os árbitros nessa altura marcavam muito poucas faltas a favor do Porto que fossem muito longe da grande área adversária: era tudo ali à beirinha, muito frontal, tudo aparentemente muito perigoso. O Geraldão tratou de inverter, por duas dúzias de meses, essa equação: uma falta a favor do Porto a mais de 25 metros da baliza é que começava a ser perigosa, a trinta era golo iminente e a mais de 35 metros sinónimo de bola ao centro. O país andava meio maravilhado com o preto grandalhão, excepto a minha mãe, que tinha medo que alguém morresse. Que eu saiba, ninguém morreu, mas um ser de seu nome Vinha (poder-se-ia escrever um livro só sobre este futebolista), do Salgueiros, fez uma visita ao hospital após excessivo voluntarismo no trabalho de travar uma bola do Geraldão.
Portanto, temos um Ivkovic a estudar as cassetes dos golos do Geraldão, a medir-lhe os ângulos dos remates, a descansar o sportinguista médio, a colocar pressão no lado do Geraldão. A meio da semana, reincidiu: "O Geraldão tem tido alguma sorte, isso não dura para sempre e, quando se conhece os truques das pessoas, as coisas ficam mais dificeis.". Andámos uma semana inteira nesta ladainha, a assistir à antevisão do Ivkovic do que seria um livre contra o Sporting marcado pelo Geraldão. Os jornalistas tentavam que o Geraldão falasse, mas daquela boca não lhe sugaram uma palavra que fosse. O Ivkovic, esse, não conseguiu sair de Lisboa em direcção ao Porto sem avisar mais uma vez o Geraldão que "o conhecia".
Confesso que à altura estranhei o silêncio. Mas ardia de esperança e, o Ivkovic, nessa altura, ainda existia nas nossas cabeças como um bom guarda-redes. Viria, é certo, a aperfeiçoar a jogada táctica que é antever uma situação de jogo e remexer no delenlace, nomeadamente quando ganhou uma aposta com Deus Nosso Senhor que Deus Nosso Senhor não lhe marcaria um pontapé de grande penalidade, os cincos minutos de fama de Ivkovic.
Bom, mas isso foram vitórias futuras. Aos 15 minutos de jogo, mais coisa menos coisa, um balázio de 35 metros entra na baliza de Ivkovic com este de braços abertos, a perguntar o que é que aconteceu, simulando ainda uma interpelação ao árbitro, talvez com o argumento de que a bola foi enviada com força a mais, que entrou na baliza excessivamente colocada. A bola, que fique claro, podia não ter ido colocada, seria igual ao litro. A força habitual nos remates do Geraldão foi acrescentada naquele tiro de mais uns quantos G's, tantos quantos as palavras debitadas por Ivkovic ao longo da semana anterior, qualquer gesto para deter aquele Concord esférico seria acção vácua. Sete dias de palavras de Ivkovic serviram apenas para dar ainda mais tensão ao elástico.
Aprendi, com esta traumatizante experiência sportinguista (a primeira de uma longa série, que continua neste dia que escrevo), que o futebol directo também pode ser bonito, ou seja, também pode ser pensado. Compreendi, também aí, por que é que os ingleses se podem dar ao luxo de ser tão maus jogadores de futebol, de praticarem essa coisa azeda que é o "futebol directo": é que falam tão bem, acima de tudo, escrevem tão bem sobre futebol, que não há incentivo para transportar uma bola de um ponto a outro do campo sem ser à base da força, ou melhor, que até uma correria desenfreada durante 90 minutos pode, através de uma cabeça inteligente e um belo texto, transformar-se em algo estética e moralmente aceitavel.
O Geraldão, pessoa demasiado inteligente para o ingénuo Ivkovic, deixou propositadamente que as palavras do guarda-redes lhe assentassem no peito durante aqueles longos dias e, no momento certo, largou-as contra a baliza do defendida por quem as tinha proferido, mas desta vez em forma de uma bola da Adidas. Foi uma jogada que levou uma semana inteira a fazer. Se formos a ver bem, afinal, futebol menos directo que isto não há.
Um rapaz tem um grande desgosto de amor e fica desgraçado. Passam-se anos e o rapaz acumula casos atrás de casos à custa da aura de romântico sofredor. Todas as mulheres querem salvá-lo do seu grande desgosto de amor. Todas falham. É o tempo que acaba por curar o rapaz, aliás, já homem feito e vivido. Tão vivido que percebera estar dependente do grande desgosto de amor para as suas conquistas. O grande desgosto de amor passa a embuste. Muitos anos depois, as modas mudam e o romântico sofredor torna-se uma espécie em vias de extinção, um tipo social muito pouco apetecível numa era em que impera a ditadura da alegria. O homem, entretanto algo enfadado das relações amorosas, volta a ver no seu desgosto de amor a solução ideal. Morre sozinho e em paz. No funeral louvam-lhe a fidelidade ao seu primeiro grande amor.
Parece não haver dúvida de que o cinto de segurança está para JPC como o soutien esteve para as feministas nos anos sessenta. Como a matriz conservadora do moço o impede de actos públicos pirotécnicos, quem sofre é o leitor-comprador do Expresso. Eis a prosa mais recente sobre a magna questão: NA PASSADA semana, o meu texto sobre o uso do cinto de segurança despertou o auditório, que tratou de descer o sarrafo. Dizia eu que o cinto era obrigatório porque a lei é lei, ou porque a segurança pessoal é importante, ou porque a segurança de terceiros é mais importante ainda. De acordo com o auditório, esqueci-me do argumento fulcral: os hospitais públicos - ou, se preferirem, os contribuintes portugueses - não têm de pagar a insensatez dos condutores, caso eles se desfaçam contra um vidro ou contra um carro. Interessante. Descontando o facto de os condutores também serem contribuintes, este argumento abre a porta para um admirável mundo novo: um mundo onde só merece tratamento público quem segue, à risca, a cartilha securitária (e sanitária) aprovada pelas «autoridades». Aliás, não se percebe por que motivo ficamos pelos condutores sem cinto. O ideal era avançar directamente para os fumadores (activos), para os bebedores (furtivos) e para os comedores de mioleira (importada). A prazo, os nossos hospitais seriam uma espécie de clubes privados, onde só entrava quem exibisse uma auréola de santidade. Os outros - os cancerosos, os cirróticos, os alienados - seriam postos na rua e, de preferência, exibidos à sociedade como exemplos de corrupção e pecado.
Não sei exactamente em que termos o "auditório" usou o argumento "fulcral" dos hospitais não terem de pagar a insensatez dos condutores que optam por não usar cinto. No meu caso, o argumento foi usado como anedota e para minar lógica ultra-liberal, sempre tão vistosa. Agora, o que não contava era com uma resposta destas. O argumento "fulcral" tem, convenhamos, alguns pontos fracos de natureza técnica. Por exemplo, numa altura em que são cada vez mais as pessoas solteiras ou divorciadas e sem prole, é bem possível que a insensatez dos condutores acabe por se auto-financiar à custa dos aceleras com vida profissional activa e anos de contribuição fiscal que se espetam sem cinto, quinam e involuntariamente geram um bónus para a segurança social. JPC prefere baralhar tudo e no acto joga alguns trunfos escondidos na manga. Ponto de ordem "fulcral": alguém defendeu a interdição dos serviços públicos de saúde a quem se espeta sem cinto? Pessoalmente exijo que nas urgências do São João tratem bem um JPC acabado de se esfrangalhar na estrada da Circunvalação. A multa tem apenas um efeito disuassor (e pedagógico, já agora) que poderá permitir poupar algum dinheiro ao Estado. Uma vez cometida a asneira, o Estado ajuda (as Companhias de Seguros nem por isso, creio). Segundo ponto: por que motivo terá JPC esquecido as outras justificações para o uso do cinto, que quebram pela base esta fictícia cruzada pela liberdade individual. Recordemos que o nosso moço havia já caricaturado o cenário do condutor a sair disparado pelo pára-brisas e a matar um transeunte. De acordo. Trata-se de pura ficção. Então e quando há várias pessoas dentro do veículo? Não terá o condutor a obrigação moral de colocar o cinto, por aumentar a probabilidade de poder dominar a viatura em caso de acidente? Adimtindo de que sim, não seria preciosismo de legislador distinguir entre a condução solitária e acompanhada, sobretudo tendo em conta que o gesto de colocar o cinto deve estar mecanizado? Tudo isto é tremendamente aborrecido, eu sei. JPC, como qualquer bom entertainer, prefere o espectáulo e opta por avançar para o seu tema predilecto: a batalha contra os puritanos. Eu já sabia que o rapaz não perde uma ocasião. Agora percebi que ele também as inventa.
Desta vez usa o splippery slope para analisar uma medida que só existe na cabeça dele (a de que os serviços de saúde públicos passem a ter o dever de discriminar entre quem usa e quem dispensa o cinto de segurança). Recorre-se geralmente ao splippery slope para alertar sobre consequências não antecipadas, catastróficas e possivelmente inevitáveis que decorrem de uma outra decisão, sendo esta geralmente mais cândida e menos polémica. Por definição, o splippery slope é a tripe do polemista conservador. Vejamos a escalada de horror que JPC nos apresenta: primeiro interditamos os hospitais públicos a quem não usa o cinto (coisa que ninguém defendeu, volto a frisar), a seguir aos fumadores activos, a quem gosta de boa comida, aos cirróticos e aos cancerosos. Percebe-se a ideia: JPC apresenta-nos uma fusão entre um regime totalitário e a sociedade californiana. A quimera é improvável, o contexto disparatado e as comparações, admitindo que ainda se justifica perder mais tempo com o assunto, bizarras. Convenhamos que há diferenças essenciais entre quem não usa o cinto por casmurrice ou mimo (vamos ser simpáticos) e quem fuma ou come mioleira. Estes vivem, isto é, jogam com o risco e o prazer associado. O caso do cirrótico é puro mau gosto, a menos que queiramos considerar a recusa em usar cinto como uma patologia do foro psiquiátrico, um vício também, tipo roleta rodoviária. Na comparação vaga com o canceroso atingimos o epicentro da demagogia, que aqui funciona por associação de ideias: obrigação de usar cinto-proibição de fumar- direito de ignorar quem tem um cancro do pulmão- direito de ignorar quem tem um cancro- direito de ignorar um miúdo que desenvolve um tumor cerebral (um canceroso).
O Splippery slope é um raciocínio muitas vezes falacioso pois não fica demonstrado à partida que uma medida implica o aparecimento da medida seguinte. No caso presente é duplamente falacioso porque a medida inicial só existe na mente fantasiosa de JPC, um cronista inegavelmente culto mas que provavelmente estudou a História do Terceiro Reich com demasiado afinco.
Agora que já ninguém tem medo de comunistas, pergunto-me se é altura de começarmos a ter medo de quem tem uma fobia do totalitarismo deslocada ou por calibrar. Maximizar a minha liberdade individual tendo apenas por regra a não interferência com a liberdade alheia agrada-me como princípio. Partir daqui para chegar à defesa de um estado minimal (defesa, polícia e justiça), que dispensa organismos reguladores-chave, como por exemplo a Food and Drug Administration (como faz Milton Friedman), assusta-me. Partir do mesmo princípio para criticar a lei que obriga o condutor a usar o cinto de segurança, diverte-me.
Recorde-se que a obrigatoriedade do uso de segurança existe há muitos anos. Sem mais piruetas de ficcionista, a questão que devemos colocar é: por que motivo esta suposta tendência totalitária (ou paternalista) ainda não chegou às nossas casas-de-banho, tornando obrigatório o acto de lavar os dentes? Por outras palavras, o que nos impediu de escorregar por esta ravina higieno-orwelliana? Avanço com uma ideia peregrina: o bom-senso.
PS. Depois da primeira crónica de JPC sobre o tema fui alertado por um controlador de portagem para o uso obrigatório do cinto de segurança no banco traseiro. Em que país com um Estado paternalista teve lugar este episódio? Nos EUA.
Uma mulher com telemóvel na rua é uma telenovela em monólogo.
Comovo-me sempre que vejo uma mulher a defender o seu marido na praça pública.
ZX Spectrum o computador que quase matou a fome de bola, não entusiasmou o nerd do bairro. H. não devia ter mais de 12 anos quando começou a brincar aos deuses no computador do pai. Era uma daquelas máquinas com monitor em fundo preto e letras verdes. Mais não sei dizer. Na altura programava-se com uns cartões perfurados e H. fazia maravilhas. Inventou um jogo ao nível dos Space Invaders, o que lhe trouxe fama local imediata, mas era obra bastarda, que ele sempre tratou com desdém. Como todo o grande visionário, H. tinha um sonho. E, ao contrário do criador típico, não tinha angústias. Ele sabia que o seu sonho estava apenas uns anos à frente do seu tempo e que ainda em vida o concretizaria. Tal certeza não impediu que em qualquer conversa H. fosse inevitavelmente falar do jogo do século. A expressão tem sido maltratada, mas H. sabia que a usava com propriedade. O seu "jogo do século" teria na verdade pouco de jogo e seria mais um "quadro vivo para se contemplar em silêncio" (palavras do autor) que dispensava o joystick. H. sonhava com um jogo virtual de 90 minutos, em que cada jogada, cada toque na bola, cada bola perdida para fora das quatro linhas fosse uma cópia perfeita de um momento marcante na história do futebol. Numa palavra, H. queria fazer a grande síntese do desporto-rei, mas uma síntese dinâmica, fluida e universal, que enterrasse de vez a caderneta. Ainda hoje é fácil recuperar as palavras entusiasmadas de H. : "Pá, imaginem noventa minutos de bola sem passes maus, sem tempo queimado, com um número de golos à andebol, hã? 25 a 23, mas com os melhores golos, ou os golos mais importantes da história. E a melhores jogadas: Pelé a ludibriar o guarda-redes no Mundial do México de 1970, as galopadas do Eusébio em 1966, hã? A arte do Garrincha e do Cruyff juntas num jogador virtual, hã? O jogo transportado a um nível absurdo de técnica, mas tudo verdadeiro, pá... como é que se diz? Verosímil. Mais do que verosímil, documentado!"
(continua)

Queria ter a certeza de que os meus amigos de Londres estão bem, poder ajudar quem está agora a sofrer, não pensar que isto é um Blitz à maneira do século XXI. Por esta ordem.
Regresso do teatro com uma amiga. Passamos perto do Rockefeller Center e damos com um palanque, um monitor gigante e uma assistência cabisbaixa. Discursa o presidente da câmara de Paris, com garra, confiança e um tom assertivo. Concluímos que Paris acabara de ganhar a corrida para a organização dos jogos olímpicos de 2012. A imagem do francês triunfante no centro de Nova Iorque é irresistivelmente anacrónica. Na manhã seguinte lemos na imprensa que afinal ganharam os ingleses. Foi como se alguém tivesse passado a noite a virar as páginas de um calendário esquecido.
Sem tempo para o MI, deixo-vos um apanhado das entradas por rabiscar que explodirão aqui dentro de dias: um aquário dos gays que a sida poupou (San Francisco), labirintos no parque de estacionamento (BnO), sexo no laboratório de fotografia (BnO), os engenhosos que o país não aproveitou ou como caçar calças de ganga com um gato (BnO), explicação da ausência de inveja (BnO), imagens de alta definição ou a sarrafada por ajustar (BnO), sobrevoando o Atlântico com Bento (BnO), o cheiro da relva (BnO), problemas de física e futebol (BnO)...
Saltar de país em país fez com que passasse a assassinar várias línguas sem sentir remorsos. Parte deste desprezo é vingança mal dirigida de quem sabe que é menos esperto e muito menos engraçado no estrangeiro. Perder inteligência aparente e sentido de humor é sempre uma tragédia, que se agudiza quando estas qualidades escasseiam já na língua-mãe. Uma solução possível é adoptar um registo lacónico e algumas rotinas de mímica e pantonima. Ou então ser paciente e esperar os anos suficientes até se chegar à fluência e ao domínio do tempo certo para soltar a piada. Até lá vamos sendo salvos pelo sotaque, que nos dá o benefício da dúvida e chega a inspirar alguma curiosidade zoológica entre os autóctones.
JPC, depois de ter tratado abaixo de imbecil um rapaz que se lembrou de fumar um charro no Dubai, revela-nos hoje no Expresso que foi multado três vezes em dois meses por não usar cinto de segurança. Estupidez? Não, meus amigos, trabalho de campo para a croniqueta onde expõe "a forma perfeita como o poder político olha para Portugal e para os portugueses: crianças crescidas que andam à solta pelo jardim infantil". Voltamos ao mesmo, pois claro: até onde o Estado deve intervir. JPC enuncia e desmonta, com a graça habitual, três justificações para a lei: a) um perigo para terceiros; b) um perigo para o próprio; e c) não é perigo para ninguém, mas a lei é lei.
O homem geralmente sabe do que fala e até conhece o estrangeiro. Tudo bem. Foi é um pouco preguiçoso na inventariação. Por exemplo: d) o uso do cinto de segurança é obrigatório pois essa é a forma mais eficaz de obrigar os pais a colocar o cinto de segurança nas crianças que os acompanham. Ou então: e) o uso do cinto de segurança é obrigatório porque permite poupar os parcos recursos do nosso sistema de saúde, que de outro modo seriam gastos com idiotas que não usam o cinto por manifesto.