junho 30, 2005

Parafraseando (1)

O amor não é passível de persuasão intelectual.

A vida cá fora (3)

Quem sai do país fica com o ónus de dar notícia de si, de tomar a iniciativa. Na prática, é como se estivéssemos sempre a relembrar aos amigos (menos à família, reconheça-se ) a nossa morada e número de telefone. Ir viver para o estrangeiro não é natural e parece que, de algum modo, devemos pagar por isso.

junho 29, 2005

A thought experiment

Como avaliar se as opiniões de João César das Neves (JCN) sobre comportamentos sexuais são relevantes? Imaginemos um cenário em que JCN surge envolvido num escândalo de índole sexual e que há uma prova (um filme, por exemplo). Se a opinião de JCN conta, o filme despertará um interesse superior ao de outros filmes no mesmo género, pela hipocrisia gritante. Se as opiniões de JCN sobre comportamentos sexuais são irrelevantes, o filme rapidamente cairá no esquecimento, se é que chegou a despertar alguma curiosidade.
Realizei esta experiência na minha cabeça umas quatro ou cinco vezes, variando o grau de perversão de modo crescente e com método, como se aumentasse a voltagem de um choque aplicado a uma cobaia, mas sem um pingo de comoção. O resultado final foi, devo confessar, surpreendente. A minha vontade de ver o filme foi nula. Numa experiência controle JCN surge com uma peruca loira mas os resultados não sofreram alteração. Concluo, popperianamente, que as opiniões de JCN sobre orientação sexual alheia não valem um chavo.

A vida cá fora (2)

Uma amiga de longa data reparou que antes eu não dizia tantos palavrões como agora. Justifiquei-me com o facto de viver no estrangeiro, embora não pelo motivo que geralmente se apresenta. Não é por estar rodeado de estrangeiros que mais facilmente solto uma asneira. É falta de educação usar uma expressão que mais ninguém entende. Ora, são precisos muitos anos para poder praguejar com propriedade numa língua estrangeira e não me sinto à vontade quando rogo pragas em inglês. Pareço um mau actor. Reajo também com embaraço quando oiço um potuguês a dizer "fuck you" e admiro os poucos compatriotas que o dizem como se tivessem crescido em Brooklyn. O resultado é que ao pé de americanos, indianos e alemães sou um tipo educado, mas que acumula alguma tensão. Só desabafo quando apanho um português a jeito.

junho 28, 2005

A vida cá fora (1)

O principal encanto de começar uma vida no estrangeiro é a ausência de passado. É muito fácil alguém ficar refém do seu passado, inclusive quando não se praticou um crime grave de forma descuidada.
Não cheguei à América com $10 no bolso. Não sou nem um aventureiro nem um desesperado. Vim com emprego para um país de língua familiar, onde sabia que encontraria muitos amigos entretanto estabelecidos em Nova Iorque e até uma namorada, que me tinha precedido e havia já desbravado algum terreno. Zero em aventura, como se vê. Ainda assim, há uma série de obstáculos e um número suficiente de situações novas, ambos impossíveis de reproduzir no país onde se cresceu.
A gente circunscritamente muito famosa fala das idas ao estrangeiro como um escape, uma forma de voltar a apreciar o anonimato. O cidadão anónimo experimenta algo diferente, mas não menos intenso (creio): o reforço do anonimato. Há poucas coisas mais libertadoras do que nos perdermos numa cidade estranha. Enfim, admito que nem todos estejam de acordo. É uma questão de temperamento. E de sentido de orientação.
Não é preciso chegar a adulto para perceber quão flexível a nossa consciência tem de ser a fim de preservarmos um mínimo de sanidade e qualidade de vida. Não pensei foi que a geografia contasse tanto. Aqui estou a ser pouco rigoroso. Nunca é a geografia, obviamente. Não há um sistema de coordenadas para a moral. São sempre as circunstâncias que o lugar cria. Quando na adolescência sentia impulsos cleptómanos incontroláveis ao pôr os pés em Espanha, respondia apenas à ocasião e ao chamariz (leche condensada), embora parecesse que tinha trocado de consciência ou perdido escrúpulos ao passar a fronteira.
Recordações comuns a muitos certamente, mas que não impediram que me surpreendesse nos últimos dias. Afinal, a falta de laços de amizade, de conhecimentos e de ligações a instituições faz também com que o meu comportamento se altere, ao ponto de ter um conjunto de valores diferentes. Por exemplo, em Nova Iorque não me incomoda nada o netwoking ("o tráfico de influências", "a cunha", ou qualquer outra designação mais eufemística, sem cairmos no extremo pueril que são os "conhecimentos"). Discutamos o tópico em termos relativos, para evitar a hipocrisia latente: tenho em Nova Iorque uma desenvoltura na busca de contactos que não consigo pôr em prática em Lisboa. Como entender isto? Só encontro duas explicações.

(continua)

Auto-coroação de um revolucionário

O Rui Tavares é um dos bloggers que mais admiro, razão suficiente para não resistir a comentar isto: "Certos estilos, formatos e ideias que todos utilizamos nasceram com o Daniel – e na revolução que o Barnabé representou na blogosfera portuguesa (vocês não estão à espera de falsas modéstias comigo) o Daniel teve um papel duplamente fundador." Estamos de acordo quanto ao papel do Daniel no Barnabé. Tenho é alguma dificuldade em atribuir o epíteto de revolucionário ao Barnabé. Apesar do sucesso impressionante e merecido do blogue (mérito quase exclusivo do próprio Rui Tavares e do Daniel Oliveira), não se pode falar de uma blogosfera pré e pós Barnabé. Se nos limitarmos ao universo dos blogues de política, terá talvez havido um blogue revolucionário, no sentido de ter provocado uma mudança qualitativa. A Coluna Infame, pois claro. O Barnabé limitou-se a dar ainda mais energia a um movimento que - perdoe-se a expressão- já estava em curso. Curiosamente, o blogue revolucionário era feito por três conservadores.

junho 26, 2005

Crise académica

A causa próxima da crise que o Barnabé atravessa está à vista de todos. A causa última é o fraco débito de posts do Rui Tavares, que deve andar com afazeres académicos.

Adenda: este post foi escrito antes do post de despedida do Daniel Oliveira. Sem muito mais a acrescentar, aqui ficam os votos para que o Daniel regresse em breve à blogosfera e os parabéns por ter sido um dos fundadores do Barnabé.

Fotos de mulheres

Os consultores imagem do MI manifestaram o seu desagrado e preocupação face ao aumento da frequência de posts no MI com fotografias de mulheres. Respondi-lhes que a série BnO tratou de alienar as leitoras e que o MI é agora praticamente um clube de rapazes. Tendo isto em consideração, não publicar fotos mais ousadas é um sinal de elevação e de - como é que se diz? Ah! - respeito pela condição feminina.
A proposta de censurar estes posts recebeu três votos contra. Quatro propostas menos radicais e a visar o politicamente correcto foram depois apresentadas à mesa pelos nossos consultores: 1) publicar um igual número de fotografias de homens bonitos; 2) publicar um igual número de mulheres feias; 3) publicar um igual número de mulheres idosas; 4) publicar uma fotografia de uma mulher idosa e feia por cada duas fotografias de mulheres bonitas. Qualquer destas propostas teve duas abstenções e um veto contra. A votação no MI é secreta, mas o jovem Difool fez questão de frisar que tinha votado contra.
A reunião decorreu sem incidentes até ao momento em que o jovem Difool se atirou ao pescoço de um dos consultores, uma rapariga de dreadlocks e sandálias peruanas, que nos perguntou se admitíamos criar quotas para mulheres bonitas de diferentes etnias.

Descarrilhamento (2): o voto útil

Corrijam-me se estou enganado, mas a sondagem que dá a Carmona Rodrigues 41% e a Carrilho 33% vai contra todas as previsões. Alguém antecipou este cenário? Alguém o prognosticou, mesmo depois de ser uma evidência? Há quem perceba de política em Portugal? Quem acerte nas previsões? Quem não diga "o homem que nunca será primeiro-ministro" sobre um recente primeiro-ministro?
Face a estas intenções de voto - dando de barato que nenhum estagiário introduziu mal os dados no computador - é forçoso concluir que Carrilho irrita muita gente e que Carmona Rodrigues devia agradecer a Santana Lopes.
A sondagem não podia ser melhor para Lisboa. Mostra que, ganhando Carrilho - sozinho ou não- , a confiança que os lisboetas têm no homem não é genuína, absoluta ou infinita. É - digamos assim - contingente.
A malta de esquerda tem agora de optar entre o voto útil em Carrilho e uma coligação do PS com um dos (ou com os dois) partidos mais à esquerda.
O voto útil é, como se sabe, um batráquio que gostamos de evitar. No meu caso, estou à vontade para apelar ao voto útil. O meu voto em Carrilho, antes aqui defendido, é já, de algum modo, um voto útil. Detesto o estilo do homem. Um gajo que escreve crónicas com letras destacadas a negrito tem claramente um desequilíbrio. Sobre outras limitações do homem basta ler as crónicas do EPC e do Seabra com sentido crítico mínimo.
Uma coligação de conveniência entre as forças de esquerda está, a meu ver, ferida de morte à partida por incompatibilidade de personalidades.
Ruben de Carvalho e Sá fernandes ainda têm 17% das intenções de voto. A câmara de Lisboa está a uma decisão de ficar nas mãos da esquerda e este é o cenário ideal para fazer asneiras.

junho 25, 2005

A mão breve no teu flanco

Caio descontinuamente
Jogo sempre a minha mão
A um torso tangencial
Um trapézio animado

Fico então a gozar
A pausa pendular
Mas vou soltando a pele
Vou folgando a pega

Momento por momentum
Gosto de retomar a queda
Um pouco mais ao lado

junho 24, 2005

Sazonal

Laetitia Casta 29.jpg

Ana Vidovic

ana.jpg
Ouvi há minutos, pela primeira vez, a guitarrista Ana Vidovic. Com uma técnica absolutamente prodigiosa - ligados, legato, destreza e limpidez impossíveis de superar- só lhe faltou alguma maturidade e volume na transcrição da primeira sonata de Bach para violino. Estamos na presença de um talento excepcional.

Haveria muito a dizer sobre Vidovic e a escola de Zagreb de guitarra clássica, mas terá de ficar para mais tarde.

junho 23, 2005

Vasos comunicantes

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Há Brad Pitt no Conta.

ONCE UPON A TIME IN MEXICO

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Eu disse "não". A polícia então tentou negociar. Aí eu disse "não" outra vez e exigi falar com o superior hierárquico. Nesse momento a polícia fugiu.

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. Vinha cansado da viagem. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Eram dois. Tentei argumentar mas dei-lhes a minha carta de condução. Um dos polícias entrou para o branco traseiro e disse-me para começar a guiar. O seu colega seguiu-nos no carro da polícia. O polícia, do banco traseiro, pediu-me $120. Então eu disse "não". Começámos a discutir e fiquei um pouco exaltado. O polícia tentou negociar. Perguntou-me quanto é que eu estaria disposto a pagar para que resolvêssemos ali o assunto. Aí disse "não" outra vez e exigi falar com o superior hierárquico. Para me acalmar o polícia devolveu-me a carta de condução. Eu continuei, de dedo em riste, falando para trás. Nesse momento o polícia pediu para eu parar o carro, insultou-me e fugiu.

Uma vez, no México, fui mandado parar pela polícia. Vinha cansado da viagem e lixado por ter enfiado o carro contra uma carrinha, num cruzamento de um pueblo miserável. A polícia inventou que eu tinha passado um sinal vermelho e quis multar-me. Tentei argumentar mas cedi a minha carta de condução. Eram dois polícias. Um chamava-se Jesus e o outro era alto para um mexicano. Jesus entrou para o branco traseiro e disse-me para começar a guiar. O seu colega seguiu-nos no carro da polícia. Jesus arrancou um discurso moralista e vagamente xenófobo, antes de me pedir $120. Então eu disse "não". Começámos a discutir e fiquei um pouco exaltado. Jesus tentou negociar. Pelo espelho pareceu-me que afagava a coronha da pistola, enquanto falava comigo. Reiterei o "não". Jesus perguntou-me a seguir quanto é que eu estaria disposto a pagar para que resolvêssemos ali o assunto. Aí disse "não" uma vez mais e exigi falar com o superior hierárquico de Jesus. O polícia pediu-me calma, mas eu só lhe dizia que ia pagar "nada", enquanto guiava e gotas de suor galgavam as minhas costelas. Para tentar controlar a situação o polícia devolveu-me a carta de condução. Eu continuei, falando para trás. Algo enfadado e frustrado, Jesus cortou-me o entusiasmo e pediu para eu parar o carro. Abriu a porta, largou um insulto e dirigiu-se calmamente para a viatura do colega, que viera colada ao meu carro.

(continua)


junho 22, 2005

Duche e banho de imersão

Quando a reencontrei de novo partilhámos as aventuras, sem o entusiasmo dos coleccionadores de cromos. Houve pudor e prudência. Antes de irmos para o quarto passámos pelo chuveiro e eu toquei-lhe nos genitais com o afinco e distanciamento de uma enfermeira velha. Ao fim de 10 minutos senti que ela era minha outra vez e que o passado se afunilava e perdia pelo ralo da banheira. Então fomos para a cama. Na manhã seguinte despedimo-nos definitivamente, quase não dissertando. Sem perder um dia, ao fim da tarde aluguei a minha primeira prostituta. O tempo esgotou-se antes que eu desse o banho de imersão dela por terminado. A rapariga estranhou mas fez-me um desconto, não sem antes ter recomendado outra marca de amaciador.

SOS

Preciso urgentemente de obter em formato digital a famosa fotografia do Cavaco a trepar uma árvore (um coqueiro?) numa praia de um PALOP (São Tomé e Príncipe?)

A fotografia não existe na internet.

Eternamente grato,

(Este é um pedido genuíno; não estou a reinar).

"Operação mãos limpas" à portuguesa

"O ministro da Saúde, Correia de Campos, deu um "puxão de orelhas" aos médicos e outros profissionais do hospital de São João afirmando que «muitas mãos não são lavadas» quando passam de um doente para o outro, o que resulta na enorme taxa de infecções que se registam naquele hospital." (TSF, hoje)

Xanax acústico

Pavanne pour une Infante Défunte, de Maurice Ravel. Recomendo a versão de Pierre Boulez com a Cleveland Orchestra.

Pode causar dependência psíquica e física, mas tem sobre o homólogo químico a vantagem de ser compatível com a ingestão de bebidas alcoólicas.

Em casos extremos de ansiedade receito a versão para piano, tocada ao vivo por uma amiga, num quartinho.

O futuro por defeito

Filho meu será arquitecto e violoncelista, a menos que expresse uma vontade forte de ser outra coisa qualquer.

junho 21, 2005

José Vítor Malheiros, hoje, no Público

Da constelação de cronistas do Público, com os seus egos e os seus vícios, há um nome que discretamente se destaca: José Vítor Malheiros. Este homem não cede ao estilo (como VPV e ASL), não gere a sua agenda (EPC e AP), não acusa o peso do seu ego (VPV, EPC, MTS e HM), não se deixa atropelar pela ansiedade opinativa (como AB), nem espreita sempre pelas mesmas lunetas, como a lógica do politicamente correcto (HM) ou a religião (AP). A sua escrita é cristalina, o raciocíno pausado, as conclusões sempre justas. Não é o cronista que me dá mais gozo ler, mas nunca dei o meu tempo por mal empregue. Aqui fica, roubado do Público, ao jeito de um Robin Hood para intelecutais.

"1.A propósito das críticas feitas à acumulação de reformas e ordenados por parte dos titulares de cargos públicos (e também de gestores de organismos ou empresas públicas e até de trabalhadores do sector privado), assim como a propósito das críticas feitas à acumulação de reformas com mais reformas e ao valor sumptuário de algumas destas, não faltou quem visse nestas manifestações um mero sinal de inveja, um apelo franciscano ao ascetismo dos políticos ou um sinal do miserabilismo português, habituado a tudo nivelar por baixo. Quanto a tudo isto, vale a pena esclarecer dois ou três pontos.
Que os políticos portugueses ganham em geral pouco é algo que reúne o consenso de muitos especialistas. Não tenho a mínima hesitação em considerar que o nível salarial de um político deve estar de acordo com a dignidade do cargo que ocupa e com a competência que se lhe exige e que lhe deve permitir uma vida sem apertos financeiros. No entanto, isso não significa pagar ordenados milionários aos políticos. Se é verdade que com ordenados de miséria corremos o risco de não conseguir atrair os melhores, com ordenados sumptuários também corremos o risco de atrair os piores. Há aqui um justo meio a encontrar. A política é um serviço público e esse facto deve constituir uma recompensa em si para quem a pratica, assim como um factor de reconhecimento público.
Por outro lado, não vale a pena fazermo-nos mais ingénuos do que somos. Ainda que o salário de um ministro ou de um deputado possa não ser, por si, um atractivo, uma experiência política deste tipo constitui uma bela linha num currículo, que acaba por se traduzir em posteriores recompensas profissionais.
2. A questão fundamental, porém, não é o valor das suas remunerações, mas o facto de que o pagamento dos políticos deve ser transparente e não tem sido nem é. A existência de privilégios invisíveis faz com que não seja possível hoje saber se os políticos ganham pouco, se ganham bem ou demais. Que os políticos devem ganhar bem é indiscutível, mas que não se saiba quanto ganham é inaceitável.
3. A solução moralizadora encontrada, que consiste na escolha entre 30 por cento do salário ou da reforma, não resolve o problema - e, mais uma vez, demonstra a pouca noção de Sócrates em termos de justiça social ou do objectivo da Segurança Social. É evidente que se deve permitir (e estimular) que um reformado encontre trabalho, mas isso só tem sentido se puder ser feito para aliviar os encargos da Segurança Social. Teria sentido que o reformado receba o salário por inteiro e parte da sua reforma, mas não o contrário. Tal como está, a solução não é mais do que uma forma de pôr a depauperada Segurança Social a financiar as empresas. Na prática, não é mais do que um subsídio ao emprego sénior, em que a Segurança Social paga 70 por cento do ordenado do trabalhador. É uma medida escandalosamente injusta, ao serviço dos mais favorecidos e à custa da Segurança Social.
4. Outra questão ainda é o valor das reformas. A questão é que, se os ordenados podem ser substanciais quando tal se justifica pelas necessidades de contratação, as reformas pagas pela colectividade (não importa se se trata da Segurança Social propriamente dita ou um subsistema) não o devem ser. E não o devem ser porque não podem ser. Porque por cada reforma de luxo que se pague há dez portugueses que passam fome, dez velhos que não têm dinheiro para comprar os medicamentos que os médicos lhes receitam.
É um argumento demagógico? Só quem nunca viu um reformado na farmácia a escolher os medicamentos da receita que pode comprar é que o pode pensar.
A ideia de "reformas de luxo" é incompatível com o carácter social desta prestação. Em nome da justiça social, da sustentabilidade da Segurança Social e do saneamento das finanças públicas esses valores deveriam ser limitados por um tecto. As reformas são para quem precisa. "

José Vítor Malheiros

Vasos comunicantes

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Há Rivera no Conta.

junho 20, 2005

Há milagres na blogosfera

Após meses de tentativas frustradas, o MI é espontaneamente enlaçado pela Bomba. O nosso ego passou a corpo celeste. Sentimo-nos agora à vontade para fazer do solar um requisito mínimo; raparigas do meu país, se o casarão não tiver pérgula e piscina com rebordo a granito nem vale a pena perderem o vosso tempo. É oficial, nós amanhã vamos acordar assim:
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Orson Welles

Plural programático

Aqui pratica-se a purga sentimental. Mas somos românticos. Até damos as mãos na rua. E beijamos. Note-se o uso do plural, mais programático que majestático.

Latas contra latas

A notícia sobre a produção de robôs-soldado parece ter atirado EPC para um estado contemplativo que só será rompido pela urgência de fazer a apologia de Carrilho (parte XXVII), ou seja, já amanhã.
A notícia assusta num contexto de hegemonia unilateral. Robôs a metralhar guerrilheiros é um cenário de horror. Ainda assim, entre o jogo de poker que foi (é? Será?) a escalada ao armamento nuclear e uma escalada da robotização dos exércitos, prefiro a segunda. Robô contra robô é a consagração da guerra como ritual, coisa que os bichos já fazem há milhões de anos mas que nós ainda não aprendemos. As oportunidades de negócio para a televisão são imensas, como se imagina, mas a cereja sobre o bolo seria a substituição do comando pelo nurd escanzelado, mago do joystick. Não se perdia nada. E já nem falo da reabilitação da Lena dÁgua como artista pop de referência. Sinceramente, já ouvi piores rumores sobre o progresso.

Vantagens de não ter caixa de comentários (11)

A democracia tem os seus tumores. Já sabia que merdosos destes [os que marcharam pela "raça branca"; optei por retirar a fotografia que aqui estava] existem em Portugal. Sabia também que não são muito inteligentes. Mas pensava que tinham vergonha disso e não se manifestavam.

junho 19, 2005

Certified Personal trainer, SA

Um treino inovador para evitar os abismos da alma consiste em começar a cavar um buraco. Enquanto cava, imagine que está a cair. À vigésima pazada a sua inteligência deve perceber a metáfora, o seu bom-senso terá notado o absurdo da situação ou o seu humor fará com que se erga do buraco à força de braços. Em caso de dificuldade, o monitor pode estender-lhe a mão. Negamos qualquer responsabilidade por desmoronamentos cuja causa venha a ser atribuída à estupidez, insensatez ou tacanha seriedade do cliente.

Vantagens de não ter caixa de comentários (10)

(ver comentário)

junho 18, 2005

Querida Gertrudis

Perdoa-me. Não é improvável seres avó. Não é improvável que passes ao lado da beleza. Não é improvável que me aplicasses um par de tabefes - e bem dados seriam - se este postal chegasse a Cuba na volta do correio sem que me lembrasse de falsificar o endereço do remetente. Deliro: não seria bastante a tua raiva para arriscares a travessia.

Quando leio "La Havana" parece que não és real ou, a existires, pertences a outro tempo. Culpemos as canções. A propósito, podes esbofetear o Sílvio se o encontrares por aí. É que ele canta Cuba com uma carga lexical que me afunda num romantismo serôdio, Gertrudis. E "serôdio" liga bem com "Gertrudis", com o devido respeito.

Deves ignorar estas palavras. Ou então mudar de nome. Gertrudis é seguramente o mais bonito dos nomes feios. Daí esta vontade de te inventar, como se ainda valesse a pena o conserto, ainda houvesse esperança. Percebes?

Começo sempre pelos teus calcanhares. As mulheres devem ser desenhadas no sentido ascendente, disse-me um dia um desenhador sem currículo. Perdoa-me, uma vez mais, se caio na boçalidade do turista e ponho uns salpicos de ondas nas tuas pernas nuas enquanto passeias pelo Malecón. Lembra-te que todo o lirismo desajeitado é culpa do Sílvio. Daqui a nada começo a dizer que és canção, verás.

Resisto a imaginar-te mulata e de olhos verdes, mas não é fácil. Culpemos o Carnaval brasileiro e a mania de comprimir as latitudes mais longínquas como se fosse tudo a mesma aldeia. Culpado também é um amigo com fantasias recorrentes sobre mulatas de olhos verdes, confessadas com tal nostalgia que o comentário ao tal vigor híbrido surge inócuo, sem graça ou - acredita se quiseres - ponta de racismo. Em todo o caso, jamais te revelarei o paradeiro deste amigo, Gertrudis. Dá uns sopapos no Sílvio.

Diz-me, Gertrudis, que cuidados devo ter para não fazer disto uma elegia acidental? Que tipo de adjectivos devo escolher para que fiquem a reverberar sem o eco das palavras estafadas? Irei contigo à praia Giron, se quiseres, mas responde na volta do correio. Me urge tanto.

Leituras: fragmentos e notas à margem (1)

The reality of the Holocaust surpassed any imagination. If I remained true to the fact, no one would believe me [referindo-se ao romance Tzili]. But the moment I chose a girl, a little older than I was at that time, I removed the "story of my life" from the mighty grip of memory and gave it over to the creative laboratory. (...) There one needs a causal explanation, a thread to tie things together. The exceptional is permissible only if it is part of an overall structure and contributes to its understanding. I had to remove those parts that were unbelievable from "the story of my life" and present a more credible version. (Aharon Appelfeld, in Shop talk, p. 28)

Futebolês aplicado

Está uma tarde com índices de serotonina propícios para a prática da má poesia.

Errata adaptativa

Onde lê "solar" (cabeçalho), deve ler-se "T0 ou T1". Onde se lê "Região Demarcada do Douro" deve ler-se "Portugal Continental e Ilhas". Do "filha única" não abdico, mas apenas por uma questão de orgulho.

junho 17, 2005

Os nomes aos bois, s.f.f.

"Colocam-se uns tantos doutores a fazer um blogue colectivo, escolhe-se um com tendência à prepotência, outro dado a tiradas bombásticas, um com tendência para causas fracturantes, outro com tendência para o dramatismo existencial, mais um com sarcasmo aguçado e temos a mistura ideal para uma opereta das antigas. O mais triste é que isto não é mais do que um microcosmos de Portugal.".
Por exclusão de partes eu devo ser o tipo com tendência para o "dramatismo existencial". O título não me incomoda muito. Chegar lá por exclusão de partes incomoda um bocadinho.

Adenda: com o devido respeito, tu não tens currículo para o "dramatismo existencial". Reclamo o "dramatismo existencial" e cedo as "tiradas bombásticas". Lamento mas nesta discussão tenho prioridade e posso preferir.

Impressões dispersas de Chelsea à noite

A gente que sai à Quinta tem o ar satisfeito de quem começa a sair à Terça.
Na Privamera-Verão de 2005 os seios usam-se fartos.
Ainda há homossexuais com menos de 40 anos que não fazem musculação.
Na restauração as tarefas estão geneticamente determinadas à maneira dos formigueiros: os pretos são porteiros, actores brancos servem à mesa e os mexicanos limpam as mesas.

junho 16, 2005

Descarrilhamento

A equipa do MI não gosta de Manuel Maria Carrilho. A equipa do MI não viu o vídeo mas tem-se divertido com as patéticas crónicas de EPC sobre o assunto. Dito isto, a equipa do MI dá uma indicação de voto útil claríssima: Carrilho. Dos que podem ganhar, o homem é sem dúvida o melhor candidato. Esquecendo que é também o único candidato com reais hipóteses de ganhar, como se pode defender o voto em alguém que não se aprecia? Pois bem, acredito que ter o ego de Carrilho acoplado à capital pode fazer maravilhas por Lisboa. E Lisboa precisa.

Cosmopolitismo: privilégio e pesadelo

Privilégio: beber com um sérvio.
Pesadelo: beber como um sérvio.

Vantagens de não ter caixa de comentários (9)

Existe uma deontologia do homem famoso? Existe. Não se deitar com a jornalista antes da entrevista, por exemplo.

Vantagens de não ter caixa de comentários (8)

As fantasias sexuais do homem de esquerda envolvem mulheres sem consciência política (it goes without saying). Porém, quando elabora a composição da partenaire, este homem prefere as mulheres de direita (aqui haveria algo mais a dizer).

junho 15, 2005

Double-checking

O Homem a Dias tem dois defeitos graves. É actualizado de mês a mês e insiste em descarregar no meu computador um comentário que perdeu a piada a meio de Fevereiro de 2005. O que fazer para reabilitar um blogue de que se gosta mas que não cumpre os mínimos? Inventa-se um jogo. Hoje acertei em como haveria prosa nova no Homem a Dias. Mais: acertei no tema. E acertei no tratamento que seria dado ao tema. Na verdade, eu não sei por que motivo continuo a ir ao Homem a Dias. O blogue está sempre na mesma e, quando deixa de estar, eu já sei o que foi escrito de novo.

junho 14, 2005

A morte da psicanálise

A psicanálise está moribunda. É um dado adquirido e tenho pena. Fascinavam-me as pessoas que faziam análise durante 20, 30 anos. Era uma gente que se dividia em dois grupos: aqueles que tinham vidas muito interessantes e com elas se entretinham nas sessões com o psiquiatra, e os outros, que por sinal tinham vidas muito aborrecidas e, por isso, precisavam da psicanálise. Na época surgiram também dois grupos de psicanalistas: uns, que tiveram a sorte de ter por clientes os tipos com vidas interessantes, prosperaram e foram felizes; os outros, a quem coube em sorte o grupo dos chatos, estagnaram e a seu tempo foram engrossar o caudal da clientela que precisa de psicanálise. A psicanálise não morreu porque as ideias de Freud e os seus métodos caíram em descrédito. A psicanálise morreu por falta de psicanalistas ou, se se preferir, indo à raiz das coisas, a psicanálise não vingou porque são poucas as pessoas que têm vidas interessantes.

junho 13, 2005

Vantagens de não ter caixa de comentários (7)

Deixei de medir a olho o cabo que se liga ao modem quando pressenti que escrever posts da cama é um acto vagamente promíscuo.

Lusoscópio (1): o arrastão

incal-cache-p.jpgO arrastão de 10 de Junho na praia de Carcavelos tem já lugar cativo na lista de acontecimentos da nossa história recente pejados de lusitanidade, como os fenómenos do entroncamento, a moda - hoje datada - de usar bigode farfalhudo e as desistências do Fernando Mamede.
Lanço desde já um repto aos candidatos à Presidência da República para que digam, preto no branco, se vão ou não reservar 500 comendas para atribuir em Junho de 2006 à rapaziada do arrastão. Aquele que fizer deste acto de elementar justiça compromisso de honra, terá o meu voto. Digo mais: hipoteco e cedo a minha previsível comenda (cedo ou tarde, chega a todos) para um destes jovens. Convido a sociedade civil a aderir a esta ideia.
Dito o essencial, passemos à análise. Ora bem, um dos problemas que ficaram patentes no grosso dos comentários que tive oportunidade de esmiuçar foi o desconforto com que os plumitivos se referem aos protagonistas do arrastão. Africanos? Pretos? Habitantes da Cova da Moura? Nenhum termo é feliz. Aqui serão tratados com o respeito que merecem. De quem falamos, afinal? Falamos, pá, na essência, de patriotas críticos.
Juntemos alguns elementos avulsos: 1) arrastão: prática com origem nas praias do Rio de Janeiro, que consiste no roubo de uma multidão por outra multidão, sendo que esta geralmente corre mais depressa; 2) 10 de Junho: feriado nacional, em regra solarengo... Ah , e o dia de Portugal, de Camões e das comunidades lusófonas; 3) patriotas críticos: portugueses de bairros desfavorecidos, de cor, com laços familiares a países africanos de língua oficial portuguesa.
É preciso fazer um boneco? Pois bem, o que tivemos aqui foi uma manifestação de revolta por parte de quem não se sente bem em Portugal. Trivial. Mas há mais. O arrastão foi também, e sobretudo, uma bofetada com luva branca na nossa arrogância colectiva, caucasiana, elitista e pós-colonialista. Fala-se muito em produtividade, exigência, competição e toda a cartilha liberal, mas o português médio não abdica do seu diazinho numa praia com a água poluída. E o que faz a malta da Cova da Moura, da Pedreira dos Húngaros, de Chelas, do Camboja, da Musgueira Norte? Pois bem, organizou-se e foi trabalhar. Apontem uma manifestação mais pungente de dinamismo na sociedade civil... Pensemos no pólo social oposto, na classe profissional mais bajulada da pátria: os médicos. A única forma de juntar 500 médicos numa praia em jornada de trabalho é oferecer-lhes um "congresso" nas Fiji com estadia paga no Méridien local. Experimentem pedir-lhes provas desse trabalho. Pois é. Agora tentem fazer o mesmo com os nossos patriotas críticos. Não só ficariam convencidos como, com alguma sorte, ainda comprariam material electrónico portátil e uma belas carteiras, tudo muito em conta.
O arrastão revelou iniciativa, capacidade para inovar, espírito de grupo, força mobilizadora, organização, eficácia, enfim, toda a retórica de um programa de governo, mas por uma vez posta em prática. Que isto tivesse vindo da franja da sociedade, é algo que nos devia fazer reflectir. Não basta, como faz JPP, pedir contas ao ministro. De resto JPP incorre na costumeira falácia: despreza estes jovens. Não percebe que a polícia não tenha um informador infiltrado naqueles grupos. Não concebe, por exemplo, o seguinte diálogo: "Tu não dizes nada, ya? A malta dá-te tudo o que sacar entre o chapéu de sol da Sagres e a gaja do biquíni amarelo, tás a ver?, "OK. Roubas também uma bola de futebol, para eu dar ao meu puto?" Enfim, o tempo fará justiça.
É como vos digo, amigos, em 2006 vai ser preciso reservar 500 comendas. Urge louvar a rapaziada que conseguiu animar o ciclicamente moribundo dia da pátria. Discursos do Alçada Baptista? Tenham juízo. Está aberto um precedente. Agora é sempre a subir. Para o ano queremos a Lapa a ferro e fogo, o cocó dos caniches como arma de arremesso entre etnias rivais e as tias apanhadas no fogo cruzado. Vamos cumprir Portugal.

Vantagens de não ter caixa de comentários (6)

Apesar de JPC ser o melhor cronista da Lusitânia, a sua prosa não resiste ao método absurdamente indutivo do João Pedro George (JPG) que, como se sabe, consiste em analisar um romance de 500 páginas citando 5 frases pescadas propositadamente para ridicularizar o autor. A título de exemplo, olhemos para uma crónica do JPC e apliquemos o método JPG: "Uma mulher com bigode pode ter seus encantos. E suas utilidades. Sobretudo quando não existe escova de dentes por perto." (Folha de São Paulo, 11 de Março). Isto não é politicamente incorrecto. É apenas de uma falta de bom gosto atroz. Repare-se agora no remate da mesma crónica: "O nosso fado é belo, sim. Mas o nosso fado não basta. Cantado na solidão, o nosso fado é samba de uma nota só." Foda-se, isto então é péssimo. Para descobrir frase mais parola é preciso ir ler as crónicas da Vera Roquete. Bem, qual é a tua tese, Tulius? A tese é esta: o método do JPG, não sendo repugnante nem parolo, é mau. Porque, bem vistas as coisas, o JCP é axiomaticamente bom.

Álvaro Cunhal

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Ou como a morte do que nunca existiu nos pode abalar.

Vantagens de não ter caixa de comentários (5)

883.jpgPortugal não aguenta esta sucessão de craques da bola com índices de metrossexualidade elevados. Vítor Baptista foi apenas um prenúncio. A tendência começaria verdadeiramente com aquele rapaz que voltava sempre ao lugar do seu barbeiro (Futre), continuou com as experiências capilares à base de gel e mousse (João Pinto), as patilhas longas, aparadas e bicudas (Vítor Baía) ou nem por isso (Figo), atingindo o cúmulo com a combinação torso musculado- brincos de pedregulho multifacetado (Cris Ronaldo). Saudades de quem? De Chalana, claro, o último dos grandes craques a ter ar de jogador de futebol.

A escrever a estas horas? Que longitude é a tua?

"Agradas-me"*.
* Astérix na Hispânia, primeira página, vinheta 9 ou 10, se não estou em erro.

Vantagens de não ter caixa de comentários (4)

O país precisa de um novo escândulo sexual, desta vez em estereofonia e com dois planos de fimagem.

Vantagens de não ter caixa de comentários (3)

Um dos problemas estruturais de Portugal foi não ter havido grande saída profissional para quem cursou arquitectura nos anos sessenta e setenta.

Vantagens de não ter caixa de comentários (2)

Numa sociedade perfeita Mário Zambujal venderia mais do que Margarida Rebelo Pinto e teria tido uma aventura com ela.

junho 12, 2005

Vantagens de não ter caixa de comentários (1)

Nos últimos 30 anos Portugal viu nascer apenas dois grandes cultores da crónica: Miguel Esteves Cardoso e João Pereira Coutinho.

Espetar a bandeirinha

Não terei muito tempo para dedicar ao MI nos próximos dias, mas conto discorrer sobre os dois acontecimentos lusos mais interessantes dos últimos dias: o arrastão na praia de Carcavelos e a entrevista que os jornalistas do Saraiva fizeram ao Saraiva, numa altura em que o chefe do Saraiva conseguiu um prémio internacional para o Saraiva. A minha ideia é fazer um pastiche do estilo paragrafoso do Saraiva e conceber uma crónica que já tem título: "Autismo à portuguesa". O arrastão será tratado por quem percebe da poda, o jovem Difool.

Há uma primeira vez para tudo

Abóbada, are you talkin' to me? O "camarada" parece escrever que no MI não "lincamos" os posts que recomendamos, apesar de teorizarmos com autoridade moral sobre o tema. Na blogosfera esta é uma acusação gravíssima, um pouco na linha do cowboy que no saloon acusa o outro de lhe ter roubado a pileca. Não me recordo de alguma vez ter cedido à preguiça e não ter feito o enlace. No seu caso - reparo agora - há efectivamente um enlace que fiz e não funcionou, por ter uma gralha. Trata-se do enlace que vou designar por enlace A. Porém, falou com a barriga cheia, camarada. Se agora me tivesse dado ao trabalho de fazer o enlace, repararia facilmente que há um outro enlace para o Abóbada. Trata-se do enlace que designo por enlace B. No enlace B, não só o código está perfeitinho como chego a dizer bem do seu estaminé.
Na esperança de ter esclarecido o "imperscrutável" mistério que o perturbava, espero que me perdoe, por uma vez, a preguiça de não ter colocado enlaces neste post. É que, como oportunamente escreveu, há questões mais importantes. O Sudão, por exemplo.

Saudações bloguistas,

Tulius

Pub: ipod (1)

ipod.jpg Pequena história para vender ipods (o portátil leitor de ficheiros MP3 da Apple) que mete um presidiário inocente, um director da prisão tirânico e uma solitária. O herói é enviado para a solitária, por razão nenhuma. Primeira troca de palavras entre o tirano e um guarda: "quanto tempo aguentam eles até avariarem?", "Ninguém passa das 2 semanas, chefe.", "OK. Este fica 4". Percebendo o perigo, alguns companheiros conseguem introduzir um ipod na solitária, dentro de um mísero naco de pão (mensagem: o ipod é pequeno). A parte central do anúncio é filmada mostrando uma penumbra, apenas interrompida pela luz da portinhola, por onde vão esfomeando o prisioneiro. Não se vê a cara dele, só escuridão. Ouve-se música, fragmentos de várias canções. Ao fim de quatro semanas o prisioneiro é retirado da solitária e devolvido à sua cela, mostrando claros sinais de demência. Internado no hospital, consegue facilmente escapar. Percebe-se então que a demência fora encenada (mensagem: o ipod salva-te da loucura e dura, dura, dura). Na última cena vê-se o nosso herói ainda com as roupas de prisioneiro, a entrar numa loja da Apple , à procura de uma versão superior da maquineta. Pequena troca de palavras com o empregado e remate final: " ...You know, I feel safer with 10 G".

PS: esta entrada e todas as futuras entradas da série Pub não gozam de patrocínios; nem das empresas que vendem o produto nem - apresso-me a esclarecer - da concorrência. A eventual utilização destas ideias para efeitos comerciais será punida segundo os trâmites legais que desbravaremos e outros (incluindo tortura por estiramento do CEO), o que me parece ser uma equilibrada combinação de jurisprudência e ajuste de contas. Os lucros resultantes destes incidentes (indemnizações e direitos de autor para documentários apologistas da anti-globalização) reverterão para associações de defesa do consumidor sediadas em países em vias de desenvolvimento.

junho 11, 2005

Um pelotão alternativo

Na senda das ideias peregrinas, ocorreu-me uma possível solução para minorar alguns dos problemas que os casais de mulheres necessitando de sémen para a procriação enfrentam. Há essencialmente duas possibilidades: recorrer a um banco de esperma ou pedir a um amigo que seja o dador. O banco de esperma elimina o pai biológico do futuro da criança (aqui limito-me pensar como as mulheres que consideram isto uma vantagem), mas deixa sempre a pairar a dúvida de ser ter usado esperma de um psicopata (aqui não ignoro a política de "controlo de qualidade" dos bancos de esperma, mas penso em como facilmente uma dúvida destas pode alastrar). O dador conhecido oferece mais certezas quanto à qualidade do património genético (não vamos entrar na discussão sobre a tentação eugenista; há apenas bom senso em escolher um amigo cujos pais morreram depois dos 90 anos num acidente de bungee jumping). Porém, muitos dadores potenciais recusam a dádiva, temendo o fardo. Uma forma de reduzir o fardo é diluir a responsabilidade, neste caso uma diluição literal, já que falamos de fazer um pool de sémen recolhido de vários dadores conhecidos*. Com este esquema aplica-se a mesma ideia que levou à formação dos pelotões de fuzilamento, mas num contexto ligeiramente mais redentor, creio. Nascida a criança, a inevitável futura discussão sobre a identidade do pai biológico perderia também algum dramatismo e risco, já que existiria a opção de se procurar determinar ou não quem é o pai. Tanto quanto julgo saber, os bancos de esperma jamais revelarão a identidade do dador. No caso do dador único e conhecido este tipo de discussão pode surgir quando menos se deseja e mais facilmente descamba em ruptura.

* É claro que o "pool de sémen" funciona aqui para efeitos de estilo; na prática, baralhar os frasquinhos de cada dador e depois escolher um ao acaso cumpre o mesmo desígnio e diminui o risco de transmissão de doenças.

O tal canal

Tenho tido uma série de ideias razoavelmente originais nos últimos tempos. Enfim, será talvez mais adequado falar em ideias novas que, no fundo, são uma espécie de originalidade íntima, dispensando a prova ou a confirmação de primazia. A razão deste súbito afluxo criativo é óbvia e bastante prosaica: deixei de ver televisão. Não vale a pena exagerar, indo buscar Orwell e o seu telescreen. Seria também ridículo demonstrar piedade por quem continua a ver televisão. Dito isto, a verdade é que gozo esta mudança como quem recebeu um presente que não esperava. Ao pretender apenas ter mais tempo para outras actividades, fiquei com uma cabeça novinha em folha.
Nada de grandes descobertas, de rasgos. Falo de coisas simples, de tolices. Por exemplo, num claro sinal de quem ressaca a abstinência de televisão, é agora recorrente imaginar anúncios. Se bem me conheço, isto vai dar origem a mais uma série. São infinitas as formas de aborrecer os leitores do MI.

junho 10, 2005

Já somos dois, mas há uma explicação

sin-batman.jpg"O pós-pós-modernismo cinematográfico encontra o seu zénite: o vazio totalitário em que todas as coordenadas (sociais, éticas, afectivas) desaparecem e fica em seu lugar um gradeamento de linhas que vêm de inúmeros lugares e se esqueceram das realidades que lhes deram origem. Mergulhamos, então, num espaço virtual onde os fantasmas não metem medo, os heróis não nos empolgam e os desejos não produzem erecções. Quando o cinema deixa de ligar aos seus personagens e às conexões dramáticas entre eles, para se fixar apenas numa teia de relações evocativas - é porque está em vias de perder a alma. É o que se passa com «Sin City - A Cidade do Pecado»." (Jorge Leitão Barros, hoje, no Expresso).
Nem mais. Acrescento que nunca uma crítica de cinema me deixou tão aliviado como esta. A fotografia que tomei a liberdade de colocar aqui pode ser útil à rapaziada que pretender testar o seu nervo metafísico sem comprar bilhete.

Ex-namorado contra o conhecimento empírico

Ela: "Não percebes? Se uma mulher acumula aventuras, é logo insultada..."
Ele: "Pois, eu sei. É injusto. Mas trata-se uma verdade adquirida. Havia necessidade de a demonstrar outra vez?"

junho 09, 2005

BnO (46)

A aversão que tive por marcas chegou ao ponto de arrancar as etiquetas da roupa, um acto com uma ideologia subjacente e conscientemente estúpido. Um único nome resistiu a tal purga: Adidas. Era costume imaginar uma fábrica imensa da Adidas na Europa central, a regurgitar chuteiras e ténis Nastase 24 horas por dia. Os meus operários tinham a fisionomia e o arcaboiço bem torneado que via nos murais, mas não eram torneiros mecânicos da Lisnave nem gente da Marinha Grande; não sopravam o vidro, enchiam bolas de futebol. Muitas vezes sonhei que espreitava a fábrica do cimo de uma colina, ponto alto de uma aventura pela Europa a cravar boleia a camionistas e a enfiar-me dentro de carruagens de mercadorias. Consigo hoje imaginar sem dificuldade formas mais estimulantes de um miúdo gozar a clandestinidade na Europa Central. Em minha defesa só posso lembrar que não escolhemos os sonhos. De resto, não falo de uma idiossincrasia. O fascínio pela Adidas era epidémico. Um colega tinha uns Nastase perpetuamente imaculados e pregava longos sermões em quem tivesse estado perto de os sujar. Este rapaz falava com os ténis e dera-lhes não sei se um ou se dois nomes próprios. Conheço uma mão-cheia de outros casos a roçar a demência.
Pensar na Adidas comporta alguns riscos, como se alguém tivesse indexado uma série de recordações a esta palavra, sem discriminar entre as que são delicadas e aquelas perfeitamente inócuas. Fico agora a pensar nuns calções da Adidas azuis-escuros com riscas brancas. Foi no Verão, fazia um calor insuportável e jogávamos à bola na praia mas longe do mar. O tipo dos calções era alemão. Sem que pudesse perceber o que estava a acontecer, de repente pareceu-me tratar-se de um belo rapaz. Gostei de o ver com os calções, fixei-lhe as coxas bronzeadas, quase não mais olhei para os outros. Temendo que notassem o meu interesse, optei logo por abandonar a partida, inventando uma desculpa qualquer. O episódio perturbou-me. Ainda não tinha currículo sexual, provas dadas. Assumia-me como heterossexual, claro, gostava de raparigas, mas talvez como se gosta de bichos exóticos; do Mico Leão, por exemplo. Não havia propriamente tensão erótica. Era ainda um miúdo quando o Adónis da Bavária apareceu a estragar-me as férias grandes. No regresso à escola vinha com a atenção redobrada e muita apreensão. Por sorte, era tradição começarmos o ano lectivo logo com uma peladinha depois das aulas. A entrar pelo meu corredor surgiu então um tipo com os mesmo calções azuis da Adidas, um ar também germânico, forte e loiro, arianíssimo mas ainda bronzeado da praia. Só podia ser um teste e só não comentei a coincidência por falta de cúmplice. No momento capital envolvemo-nos numa disputa de bola em corrida e caímos um sobre o outro. Nos instantes de lucidez que se seguiram senti-me cientista e cobaia partilhando o mesmo corpo. Apressei-me a registar mentalmente todas as impressões daquele contacto físico: uma dor lombar, um insuportável cheiro a suor masculino, uma total falta de delicadeza, um desconforto geral, mas apenas físico. No resto, só indiferença. Sorri de contentamento quando ele ainda estava por cima de mim. O rapaz estranhou e levantou-se logo, a marcar-me com o sobrolho carregado. E eu a sorrir, sempre a sorrir. A minha orientação sexual resolveu-se naquela tarde. Daí a uns meses a Cristina entraria na minha vida e começaria a sofrer do desgosto de amor.

João Madureira

Resistindo à tentação de discorrer sobre a virtude que é ensinar harmonia com exemplos de Bossa Nova e usando a guitarra, coisa que aconteceu há uma quinzena de anos mas continua bem presente, aqui fica o endereço da página do entretanto consagrado compositor João Madureira.

junho 08, 2005

BnO (45)

Fartei-me de fintar sobre um tapete de Arraiolos. A textura do tapete presta-se a realçar o efeito que damos à bola e um tapete é um tapete, capaz de amortecer uma queda. Não é descabido pensar no tapete como substituto da relva. Ainda hoje penso que a oficialização do tapete de Arraiolos nos jogos da primeira liga faria do futebol um jogo mais nosso e ressuscitaria uma indústria, tal seria a procura de metro quadrado de tapete virgem à Segunda-feira. Cheguei a esta conclusão por acidente. Na casa a divisão mais espaçosa era a sala, onde havia um belíssimo tapete de Arraiolos, de uns dois metros por três, que juntava em tons de azul animais com motivos geométricos. Estando sozinho, não resistia a encenar umas jogadas. O verbo é exacto. Sozinho ninguém consegue jogar à bola. Não que seja impossível. Podemos ficar a dar toques ou a chutar a bola contra a parede. O problema é o impulso megalómano, a fantasia que toma conta de nós. Na presença de outros a coisa fica refreada. A sós, inventamo-nos à medida de um Eusébio. Eu entrava na sala com uma bola meia vazia e submissa, em fintas à Chalana, a sentar russos no tapete, e armava depois um petardo à Sousa, apontando ao canto superior mais distante do sofá e ficando a gozar o risco de a bola poder deixar em cacos o tesouro familiar que era uma terrina da Companhia das Índias. Às vezes dava-me para ser mais subtil, à Jordão, e olhava para as almofadas como se lhes perguntasse: "para que lado querem?" Tudo era feito enquanto relatava a jogada e imitava o som ensurdecedor de uma multidão em delírio. Depois festejava e abraçava todos os meus companheiros inventados. Abraçava-me, claro. Foi um vício terrível, o dos abraços a mim próprio, mas que me deu uma envergadura de ombros apreciável. Por causa dos ombros tornou-se depois hábito perguntarem-me se eu fizera desporto. E eu dizia que sim, mas sem entrar em grandes detalhes. Perante o ar meio desconfiado com que ficavam cedo, comecei a mentir. Ainda hoje consta que pratiquei imensa natação. Não valia a pena complicar, não fossem descobrir que uma vez derrubei mesmo a terrina. O tesouro, se hoje ainda subsiste, é graças às propriedades de amortecimento do tapete de Arraiolos e a algum talento meu para manusear um daqueles tubos de cola de propriedades cientificamente provadas.

junho 06, 2005

BnO (44)

Há um momento a meio da tarde em que não se deve estar em casa, sobretudo se ninguém nos faz companhia e o dia está chuvoso, ou apenas tristonho, ou paira no ar o amarelado das chuvadas quentes vindas do Magrebe, ou da rua ainda não chegam os ecos da malta, ou não se tem planos para o fim de tarde, ou nos ocorreu que a estante pode ceder ao peso dos livros, ou se pensou que nada vai mudar depois da jogatana e que- alerta vermelho- crianças e outros continuarão a morrer de fome no Biafra, na Etiópia, no Sudão (riscar o que não interessa, em função da data de nascimento), ou se tem 14 anos e a súbita percepção de que nada conta além dos filhos que um dia talvez nasçam, ou se topou que não há salvação possível e que não adianta disparar do quarto tiros de pressão-de-ar e ficar depois à escuta do barulhinho do impacto do projéctil na cruz de metal da igreja, ou se percebeu que os nossos medos estruturantes- do tamanho da pila ao receio de falhar- afinal são pouco originais e um amigo imaginário, cinco anos mais velho, nos teria explicado a existência poupando-nos às nossas emoções. Se tivesse sabido antecipar esse momento nem que fosse por cinco minutos, teria jogado muito mais futebol e sido- digamos- mais feliz. O mundo teria ficado na mesma, mas talvez conseguisse hoje rematar com o pé direito, coisa que não é de desdenhar.

A escolha de Sónia

O ficcionista de serviço é o Ivan, mas em 2005 é estatisticamente improvável não se conhecer uma Sónia. O dilema da Sónia é este: casar por interesse ou sacar uma subvenção vitalícia ao Estado? Colocado perante o problema, conversei com ela:
T: Não podes acumular?
S: Posso, mas não te parece moralmente reprovável?
T: Ó Sónia, francamente. A tua dúvida já revela imenso carácter. Ainda se fosse ilegal.
S: Oh, Tulius, és um amor. É uma pena não teres onde cair morto.

No comments

Já é altura de assumir que não estamos muito interessados no diálogo. O MI é um espaço pouco guterriano. Os comentários desaparecem por tempo indeterminado. Perde-se pouco, creio. Os leitores do MI ainda são menos guterrianos do que os autores. Pode ser que agora o nosso endereço comece a ser usado. Raparigas com solar na região demarcada do Douro, escrevei-nos!

Os Galácticos da Lusoblogosfera

Há novo blogue na praça. E que blogue, este Being José Mourinho! João Pereira Coutinho, Nuno Artur Silva, Pedro Rolo Duarte e mais uns quantos que guardo na secção de objectos perdidos do cérebro ("este nome não me é nada estranho, mas quem é este gajo?"). Os meus votos? De sucesso, claro. O meu prognóstico: a coisa nem chega a levantar voo ou então irá ao fundo em três tempos. Aquela malta tem mais em que perder o seu tempo e habituou-se à prosa a soldo. Apesar do nome do blogue, parece que percebem pouco da arte de mourinhar e foram contra o primeiro ensinamento do mestre: "NÃO FORMARÁS UMA DREAM TEAM". Resta-nos o luxo de podermos agora cascar num dos inimigos da blogosfera sem sair de casa. Depois de cuspir na sopa, o Rolo Duarte prepara-se para a primeira colherada. A Silly Season vai ser um fartote. Melhor do que isto, a cerejinha no topo do bolo, só mesmo se o Eduardo Prado Coelho começasse também a blogar.

Adenda: parece que o tal "Being Mourinho" é um embuste. Devia ter topado logo. Já levo alguns anos disto e é vergonhoso cometer estes erros de principiante. Bem, façamos a necessária contenção de danos: 1) desactivar o link; 2) pedir desculpa ao Rolo Duarte (esta custou). Posto isto, declaro-me de novo habilitado para caluniar o Rolo Duarte.

Desenlace ideológico?

O Tiago pega num dos meus temas preferidos: a "deslincagem". Um dia alguém ainda fará a história da blogosfera contada através dos episódios de "deslincagem". Para o Tiago, "deslinca-se" quando o link nos envergonha. Eu tenho uma tese diferente. "Deslinca-se" para vencer o tédio. O acto de desenlaçar é a imagem espelhada do acto de enlaçar: generosidade fácil versus egoísmo rápido. Detesto bloggers que fazem gala em "deslincar", gente que se zanga em público com os amigos/conhecidos e escreve textos violentos sobre o assunto. Detesto os bloggers, mas adoro os seus blogues. Deixar de ver televisão é canja. O problema é cortar com o vício da telenovela.

junho 05, 2005

Truísmo misantropo dúbio

Se só a sós somos nós
Antes sermos nós
A não estarmos sós

junho 04, 2005

Literatura bem torneada

pagarparaver-capa.jpgph11169533685601.jpgQuem escreve tem dúvidas. É sempre assim. A panne só surge quando, não tendo resolvido a dúvida, surge outra, inesperada. Não li os dois mais recentes livros que saíram da blogosfera lusitana. Uma coisa é certa: os caniços magros e peludos que me carregam não deixam margem para sonhar.

Guerreiro açoita Moura

Coça violenta de António Guerreiro na prosa e na poesia de Graça Moura, hoje, no Expresso. Trocado por miúdos, Guerreiro reduz Moura a um virtuoso do verso e fez dele um romancista menor, que não inova e produz sagas familiares. Porrada pouco original, convenhamos. Quando leio razias destas, desconfio sempre que há entre o crítico e o criticado um elo que o leitor desconhece. É um preconceito cauteloso, eu sei, mas com reiterada confirmação empírica.

junho 03, 2005

Escândalo pífio

Há na "notícia" da acumulação de pensões do ministro uma sede de vingança um pouco pateta. Esta promoção contínua de episódios de indignação colectiva tem de acabar. Pede-se a cabeça do ministro, mas para que tudo continue depois na mesma. Um escândalo de vez em quando, eis a válvula de escape que preserva o grande banquete. Tomba uma cabeça, perpetua-se o sistema, salva-se a consciência com um pouco de hipocrisia.
Não precisamos de políticos virtuosos, tipo Bagão Félix. Não precisamos que um político dê sinais, abdicando de uma pensão de 8000 euro, ficando a pão e água com os seus 7000 euro mensais. Convenhamos que é um sinal que comoveria qualquer contratado a prazo. No que me toca, prefiro que um ministro não confunda a luz do comboio com a saída do túnel (Bagão, aquele abraço!) A única discussão que interessa é esta: se o que o ministro faz indigna apesar de ser legal, não se deveria demitir a lei?

junho 02, 2005

Solidário na adversidade

Na mesma semana em que Constâncio anunciou o défice de 6.8% ao país, recebi o primeiro ordenado nos EUA com o novo visto (H1, para quem gosta de detalhes técnicos). Com este visto a carga fiscal fica mais pesada e o meu ridículo último aumento deixa de se fazer sentir. Este choradinho só se justifica porque a diminuição do meu ordenado líquido foi de 6.6 %. Costumo dizer que sou um mau emigrante e que continuo a viver em Lisboa. Parece que alguém me levou a sério.

Mas se até tomo banho todos os dias

A minha ex-futura mulher bateu com a porta e deixou-me. O meu melhor amigo não quer vir partilhar a casa comigo. Começo a pôr em causa os meus hábitos de higiene diária.

Observação com défice de elevação

anufriev_cellist.jpgTenho estado a comparar interpretações das suites de Bach para violoncelo. Casals, Fournier, Hanani, Rostropovich, enfim, a nata da nata. O timbre do violoncelo é o meu preferido, com a possível excepção do oboé. Acresce que o violoncelo é um instrumento harmónico q.b. e - não podia faltar, é da estação- o mais erótico de todos (aqui convoco o leitor a fazer um esforço para varrer a imagem do Rostropovich da memória). Por Bach tenho a costumeira obsessão. Como se não bastasse, ando a tentar (repare-se no verbo) tocar a suite número 1 na guitarra. Tudo se conjugaria para uma total fruição. O problema é que só há instantes reparei que o fraseio típico nestas peças passa por um remate seco nos graves que se assemelha - raios, como dizer isto?- ao som de um peido. Isso, uma bufa breve e redonda, que se solta de pé. Que associação tão ingrata. Antes estivesse a ouvir Vivaldi. Ou Telemann.

O primeiro mass email que me comoveu

"Sorry to flood your inboxes with such a random thing. But has anyone found a Bible recently (past month or longer). It's black and can be closed with a zipper. It has the name ##### ######## on the inside cover. Please reply or call if you have found such a Bible."

Que plano terá Deus para este homem?

BnO (43)

Talentos superiores têm um absoluto desprezo pela História. Às vezes é só arrogância, outras vezes excentricidade pura. O nosso guarda-redes, por exemplo, pensava que o "Yashine" era uma variedade de haxixe mais barata. Não coleccionava fotografias do Schumacher, nem sofreu quando o alemão quase matou um francês. Tão-pouco rejubilou. O miúdo tinha era uma relação descaradamente fetichista com as bolas. Desconfiávamos que ele não gostava de futebol, mas era excelente entre os postes e imbatível nas imediações da baliza. Só as acusações de anti-jogo não faziam dele um jogador perfeito. Nunca ninguém ficara tantos segundos no chão, sobre a bola, soltando - diziam alguns defesas, com embaraço - gemidos e sussurros. Podíamos estar a perder, mas a cena repetia-se. E era coisa tão íntima que nenhum de nós tinha coragem para o interromper. Com o passar dos anos e o despontar de uma sexualidade mais exigente, o nosso guarda-redes foi acumulando caprichos. Primeiro dispensou as luvas. Depois começou a trazer uma bola extra, que lhe fazia companhia durante as nossas ofensivas. A seguir trouxe duas bolas. Três bolas. Um pequeno harém de bolas. Bolas da Adidas, irrepreensivelmente esféricas e novas, bolas de borracha, deformadas e sujas, bolas vazias, com o côncavo infinito da mórula, bolas vermelhas e leves, que o vento levava para longe dos postes. Foi o descalabro moral e desportivo. O guarda-redes caíra em tentação e ninguém nos livrava das derrotas. Perante tantos objectos de desejo, para quê arriscar uma estirada? Arranjámos um substituto, um fulano normal, de gosto canónico pelo futebol, que exigia que o tratássemos por Zoff e tinha o quarto forrado a posters da Onze. Brutal contraste com o quarto do nosso antigo guarda-redes, cada vez mais libidinoso e a transferir o fetiche por bolas por uma tara por mamas. Seguindo a espiral de decadência, soubemos anos depois que o rapaz andou a servir copos num bar de alterne, antes de emigrar para a Califórnia, perseguindo uma ideia revolucionária e patenteada: substituir a silicone pela câmara-de-ar.

junho 01, 2005

Conta Natura em velocidade de cruzeiro

O Conta Natura recomeçou a navegar, à velocidade de um post por dia. Numa entrada a publicar em breve, o geneticista Barbosa fará uma apreciação morfométrica das característcas sexuais secundárias da Scarlet Johanson. Na mesma linha, o drosofilista Martinho prepara uma comunicação intitulada: "De como os lábios da Johanson obrigam a uma redefinição das características sexuais secundárias na mulher". O drosofilista e geneticista Pereira investigará o pedigree johansiano, num estudo que reinventa o conceito de reverse genetics: "Em busca da meia-irmã de Scarlet: do DNA fingerprinting à oftálmica quantitativa". No que me toca, tenho perdido algum tempo a alinhavar umas ideias e defenderei que não clonar a Scarlet é imoral. Diz-se ainda que as raparigas da redacção do Conta preparam uma resposta à altura.