maio 30, 2005

Uma pedrada no charco

B00005Q3DS.03.LZZZZZZZ.jpgJamais me passaria pela cabeça colocar uma fotografia de Sharon Stone no MI, mas é preciso combater o crescendo de popularidade desta criatura entre nós. A coisa começa a tomar proporções de idiossincrasia nacional, um pouco como a antiga tara por Lloyd Cole. No mundo ninguém conhecia Lloyd Cole, mas em Portugal o homem chegou a ser rei. Sharon Stone, ao contrário do nosso Cole, é uma super-estrela, mas está hoje no limbo. Tendo perdido a frescura sem ter alcançado o prestígio, o futuro de Stone passará provavelmente por fazer publicidade no Japão e, pelo andar da carruagem, por vir a Portugal animar o Carnaval de Ovar. Meus amigos, uma tara por Sharon Stone é mais louvável e menos embaraçosa do que, por exemplo, uma fixação na Samantha Fox. Até aí eu vou. De resto, é esse o problema. Por se pensar que gostar de Sharon Stone dá estilo, apanhamos com loas à mulher. Como corrigir esta tendência, que tanto tem degradado a blogosfera lusa? Talvez relembrando que alguém que contracenou com o Richard Chamberlain fica com um futuro como sex symbol irremediavelmente comprometido. Repito: irremediavelmente comprometido.

Se és francófilo e cinéfilo segues por tua conta e risco

Imprimi o texto da constituição europeia e ando a tentar ler aquilo. Também me esforço por chegar ao fim do Baisers volés, do Truffaut. Em ambos os acasos adormeço a meio. Tentar ler a constituição europeia enquanto passa o Baisers volés seria flirtar com o coma profundo.

Temos blogger

Todos ao Abóbada Palatina.

Estou com uns dias de atraso

A ausência de talento para o amor não me ensinou o ciúme.

Desintêvêxicação

Atravesso um novo período sem televisão. Passaram as tremuras e já só tenho saudades do Bill Maher.

A ganância, at last

Passei a minha vida sem pensar em dinheiro. Uma infância numa família de classe média e nenhum amigo com mota de água alicerçaram a mítica relação "saudável" com o dinheiro. Uma profissão que promove a ideia do trabalho como vocação, reforçou-a. A herança católica a pairar como uma ameaça, vigia-a. Até ontem. A vivência em Nova Iorque veio à superfície. "Greed is good". Dou pela primeira vez comigo a pensar em dinheiro e a fazer disso prioridade. É fascinante mas, antes de mais, é clarificador. Um tipo que elege o dinheiro como objectivo primeiro tem a vida simplificada. Oxalá o bom senso volte quando chegar a altura de escolher o faqueiro.

maio 29, 2005

O ângulo matosiano (exercício 1)

«11 por cento dos alunos universitários do Porto fuma charros todos os dias, revela estudo de finalistas do curso de Medicina de Ciências Biomédicas de Abel Salazar, 52,3 por cento 'esporadicamente', 20 por cento 'todas as semanas' e 14,6 por cento 'todos os meses'.» (Comércio do Porto)

O estudo é claramente deficiente por não discriminar entre a inalação e a simples passa para fazer boa figura. Como explicar esta falha, tendo em conta a excelência do Instituto Abel Salazar (sediado, recorde-se, na Invicta)? Uma hipótese a considerar é a do estudo ter sido redigido por estudantes completamente mocados, algo que qualquer leitor com rudimentos de probabilidades e estatística poderá tentar avaliar (hipótese levantada, com graça e propriedade, aqui). É também um desafio tentar perceber quantos alunos não fumam charros. Adiante. Este é o tipo de notícia que constitui matéria-prima de primeira água para a Helena Matos. Parte da prosa da Helena visa educar os seus leitores mais conservadores, que teriam ficado chocados com a notícia. A Helena depressa desmontaria o problema: meus amigos, o charro é coisa ubíqua, do Dubai ao café Suave, no Bairro Alto, não se excluindo - está visto- as imediações do café Piolho, símbolo da tradição académica no Porto. Aplicando a táctica do ângulo reverso, a Helena perguntaria depois: será que alguém ficaria chocado se 11% dos alunos universitários do Porto se embriagassem com Glenfiddich malte, 12 anos? Meio abananados, os seus leitores receberiam depois a ensaboadela costumeira sobre o politicamente correcto. Nunca falha.
No próximo exercício vamos tentar imaginar a Helena Matos a dissertar sobre a participação do Estado na compra de drogas para corrigir a disfunção eréctil em presidiários a cumprir pena por abuso sexual.

BnO (42)

Um dia perguntou-me se eu não era ainda muito novo para ler Eça. E eu, já ciente de ter falhado a precocidade em tudo na vida, fiquei a gozar o momento, esquecendo por instantes que se alguma anormalidade havia, era coisa para um trimestre; o livro fazia parte do currículo do ano lectivo que se anunciava logo a seguir ao Verão. Este mesmo homem gostava de me ouvir estudar guitarra no patamar, vício que alimentei durante umas semanas, encantado com as propriedades acústicas do lugar. Ia para lá depois do jantar e tratava o instrumento com a destreza de um ungulado, mas ele apreciava. Se estivesse no elevador, parava de propósito e vinha ouvir. Era um fulano em paz com a vida e de enraizados hábitos, que praticava com uma impressionante regularidade (o Kant local), como passear o cão e passear sozinho, de mãos atrás das costas. Gozava o bairro, ao contrário de outros magistrados, sempre soterrados nas resmas de processos e entrincheirados nas lombadas da jurisprudência. Muitos anos depois, no mesmo local que já não era a minha casa, cruzei-me com ele. Um olhar imensamente triste, uma morte que lhe pesava, os dois no átrio do prédio. Eu agarrado à porta, não sabendo quando nem como fechá-la, debitando palavras de consolo sem grande jeito, a tentar o golpe de rins esperançoso mas sempre a deslizar para as memórias comuns. Desejei ter à mão uma guitarra, para tocar um chorinho ou qualquer coisa de improviso.
No “nada é mais inabitável do que o lugar onde se foi feliz” está implícita uma vivência infeliz e posterior noutro local. A expressão foi bem burilada, mas na altura pareceu-me o cúmulo do egoísmo. Ou coisa de misantropo. Com o devido respeito, muito mais inabitável é o lugar onde fomos felizes com quem deixou de o ser, fórmula que remete para uma felicidade presente de súbito virada contra nós. Poucas vezes estive num lugar tão inóspito como aquele átrio, naquele dia. Apressemos o futebol, então: o senhor jogava mal, mas tratava a bola com inteligência; vestia-se de branco como se fosse para um court de ténis e nos raros golos que marcou festejava com alegria pura, sem as manias do craque que faz disso uma rotina.

maio 28, 2005

Tenho um brinquedo novo

Fartei-me da prosa do JPC. Fartei-me das questões que ele lança como se estivesse a dar uma palestra, do excesso de estilo. É claro que continuo a ler o Coutinho, mas já não com o mesmo entusiasmo. Um gajo de esquerda trata os cronistas de direita como uma criança mimada manuseia brinquedos. Há uma implacável sede de novidade. Pois bem, a Helena Matos destronou o Pereira Coutinho. Escrevem ambos ao Sábado, o que facilitou a transição. É uma prosa mais portuguesa, a da Helena, de raciocínio menos fulgurante e que produz uma sensação prolongada de mal estar. O efeito JPC - aquela vontade irreprimível de o esmurrar- dura apenas alguns instantes. Com a Helena uma ânsia equivalente - mas distinta, como convém ao cavalheiro Tulius- é capaz de me dominar durante 5 minutos. O processo de composição da Matos passa pelas seguintes fases: 1) escolher um tema fracturante; 2) ver o que se passa em Espanha; 3) não se passando coisa alguma em Espanha, ver o que se passa em Portugal; 4) escolher o ângulo oposto de análise, para o efeito surpresa; 5) capitalizar sobre o efeito surpresa - "ah, que coragem; "ena, bem visto, é muito bem visto"; 6) concluir, o que desagua na exposição das falácias do politicamente correcto, no apontar do excesso de atenção dada ao BE e/ou no desmontar da questão que, afinal, é muito pouco importante e nos desvia dos problemas realmente graves (geralmente abordados pelo António Barreto, no dia seguinte, com aquele estilo torrencial que nos deixa atordoados). A crónica de hoje (no Público, a pagar) é paradigmática. Vão ler. Só não gostei foi de ver o nome do Fausto ser tratado daquela forma. Segundo percebi, a Helena estava a terminar o texto e ouviu na rádio que a câmara de Lisboa não comprou uma ópera ao Fausto. Terminado este exaustivo trabalho de investigação, a Helena mete a quinta, sôfrega de chegar ao Nirvana do cronista de direita: cascar na subsídio-dependência do artista. Meus Deuses, o Miguel Esteves Cardoso (brinquedo vintage) esgotou o tema nos anos oitenta. Ainda não perceberam que qualquer tentativa ulterior foi, é e será sempre pífia? Pois bem, a nossa Helena, depois de uns encadeamentos lógicos, insinua que o Fausto, com aquele ar de "cantor maldito", construiu uma imagem perfeita para sacar subsídios. Nem mais. A coisa vem dos anos 70. Olhamos para a fotografia do Fausto nos velhos álbuns do Zeca e vê-se que o homem já estava possuído. Tinha feito um contrato com o diabo, mas lera a coisa até à letra miudinha: "quero sacar o carcanhol do contribuinte, viver bem, ter um veleiro, comprar uma casa de praia em Fortaleza, educar os meus filhos em Cambridge. Em troca, Lúcifer, faço-me cantor maldito". Bem, fiquei sem perceber o que se passou exactamente com a história da Ópera do Fausto (o jornalismo é uma arte em desuso), mas parece-me que a Helena Matos, com o seu almofariz de prosa, sempre à procura do ângulo reverso, também construiu uma imagem perfeita. Afinal, andamos todos à procura de uma imagem perfeita, de defender o nosso nicho. Agora, apontar as baterias ao Fausto? Um tipo que grava de 10 em dez anos (tradução heleniana: "que ataca o Estado de dez em dez anos"), um bom profissional, que (com subsídios ou não) produziu uma obra sólida onde vai beber ao melhor da nossa música popular? O autor de um os álbuns de maior longevidade do pós-25 Abril? Helena, baixa a bolinha e vê lá se começas a escolher canelas para o teu dente.

maio 27, 2005

Tó,

Não sei se prentendes instalar-te em Nova Iorque, ou se vais fazer como aquele fulano que gere o PP a 2000 km distância, mas dá-me um toque (943523127) se assentares arraiais por aqui. Podíamos ir beber uns copos, falar de viagens, enfim, dialogar. Conheço uns restaurantes catitas, vais ver. Espero que não consideres isto um abuso. De resto, quem pagará o(s) jantar(es) serás tu. Parece-me ser este um acordo razoável, visto receberes uma subvenção vitalícia por teres afundado o país.

Um grande abraço, companheiro.

Tulius

Junho será mês de bachianas no MI

dre117.jpgManuscrito da Missa em si menor, de J.S. Bach

maio 25, 2005

BnO (41)

Bairro que é bairro reproduz o tecido social das aldeias. Não pode faltar o louco da praceta. Nós tínhamos dois. Consta que um deles assim ficara - o olhar parado e a barriga pendente - depois de uma passagem pelos pára-quedistas. Em tempo de paz, faço notar. Era um louco discreto, mais lento mental do que demente, mas alimentava uma perversidade diária: fazer a carreira do 21 em hora de ponta para se poder encostar às raparigas. O outro louco era mesmo avariado. Frenético, calcorreava os Olivais de Norte a Sul e cravava cigarros a cada cem metros. Tinha uma cabeleira negra e desgrenhada, tez cigana, o rosto anguloso, uma magreza pouco saudável e momentos de verborreica loucura. Lembrava o Rasputine, pelo menos na forma em que Hugo Pratt o desenhou. Chegava a assustar quem não o conhecia. A origem deste homem vinha envolta em algum mistério: de professor universitário com esgotamento a cobaia de tratamentos por choque eléctrico, a verdade é que ninguém sabia a sua história. Na dúvida, inventava-se um percurso acidentado, já que a demência congénita desperta compaixão mas nenhuma curiosidade. Bairro que é bairro tem também os seus inadaptados públicos, gente que não é louca, nem envereda pela marginalidade, mas com quem não apetece estar. Do vasto painel destas personagens, impõe-se aqui recordar o "Batatinha", obviamente um gordo, mas de uma gordura absurdamente esférica e maciça. Redondo na cabeça, redondo no tronco, redondo nos joelhos, curtos os pés, logo, arredondados também. O "Batatinha" era um tipo humilde e de honestidade condicionada pela geografia. Olhava-se para ele e percebia-se logo que não viveria muitos anos. No bairro não fazia mal e gostava de jogar connosco. Não que gerasse grande simpatia; a verdade é que ninguém tinha coragem para o enfrentar. O que nos salvava da humilhação pública de ter de explicar a presença de um gordo daqueles que não morava no prédio e cheirava a suor velho era o seu génio futebolístico. Bastava ele pegar na bola e logo parecia que o tínhamos convidado para armador de jogo. O "Batatinha" tinha uma capacidade de retenção de jogo fenomenal. Era exímio na arte da finta fundeada (em que o pé de apoio nunca se mexe). Havia ali uma força especial que fazia não descolar o esférico do seu pé; se o electromagnetismo não passa de frouxa metáfora, a atracção gravítica é hipótese que não podemos desprezar. O corpo maciço do "Batatinha" era um pequeno planeta com capacidade locomotora. Aliás, não há hoje no bairro quem consiga vergar candeeiros só por passar perto deles, mas eu sei de umas sombras desalinhadas que de noite surgem ao longo da Avenida Cidade de Luanda e -quase juro- aquilo é marca do finado "Batatinha".

maio 23, 2005

BnO (40)

Jogava-se a feijões no dia em que J. marcou um golo de pontapé de bicicleta. Seríamos uns dez em campo e não havia assistência. Foi um golo lindo, quase tirado a papel químico de um anúncio da Cola-cola, só que com muito mais mérito, pois J. fez a coisa ao primeiro take e sem receber cachet. É uma pena não haver um filme ou uma fotografia que tivesse registado aquele momento. Mais que uma pena, por pouco não foi uma tragédia. Ainda chegámos a pedir ao Gantes que nos fizesse um desenho sobre o pontapé, mas o Gantes não percebia nada de futebol, passava a vida a pintar e a fazer banda desenhada de terror; entregou-nos um esquisso de uma bicicleta no ar com chuteiras no lugar dos pedais. "Obrigadinho, ó Gantes..." O golo de J. alimentou noites e noites de discussão. Dez de nós tínhamos na memória o corpo dele a gozar um, talvez dois- uns dias mais tarde falaríamos em quatro- segundos de imponderabilidade. Os outros ouviam-nos, incrédulos. J. , em pleno ar, não adoptara a típica postura de bicho de conta, com a coluna em anzol. Não, a sua amplitude de movimentos fora olímpica, fazendo do pontapé um gesto técnico de arte marcial. Quem testemunhou aquilo jamais esqueceu. Era Verão, a relva estava bem tratada, pujante a chama da chaminé da Petrogal, J. tinha um equipamento vistoso, o guarda-redes ajudou com uma estirada esforçada. O estrondo no poste antes de a bola ressaltar para dentro da baliza fez a banda sonora para o momento e um subtil compasso de espera, como se alguém quisesse dar tempo a J. de, já no chão, se virar e desfrutar o momento em que a bola ultrapassaria a linha de golo. Instantes tão impossíveis de esquecer como de tornar verosímeis junto dos ausentes. É verdade que J. não era um jogador de excepção. Aquele golo foi claramente acima das capacidades dele. O pontapé de bicicleta passou depressa à categoria de piada local. Era como os gambozinos. Ninguém acreditava. A J. nem concederam o título de one hit wonder. Tal pressão transtornaria o rapaz. Durante anos perseguiu um segundo pontapé de bicicleta. Nisto hipotecou o seu futuro e o do seu irmão mais novo, que tinha por missão imortalizar o momento, primeiro com uma máquina fotográfica e, anos depois, com uma pesada câmara de vídeo. J. podia estar na zona do círculo central, mas bastava a bola vir em balão para que se virasse de costas para a baliza adversária e tentasse a bicicleta impossível. Quando não pontapeava o ar, rematava para fora ou entregava a bola directamente ao adversário. No fundo, só era aceite no jogo porque a risada geral estava assegurada. Perante a chacota, o desespero de J. foi aumentando, ao ponto de tentar o pontapé na parte empedrada do campo, cair mal e ser hospitalizado. Passou uma tangente à paraplegia, mas safou-se. Acamado e impedido de jogar durante três meses, J. aproveitou então a autoridade dos enfermos e mandou chamar o Gantes. Durante semanas passaram as tardes de Terça e Quinta juntos. Nas primeiras sessões, Gantes chegava de mãos nos bolsos e ficava a ouvir J., meio delirante e sempre a gesticular, esforçando-se por explicar o futebol ao pintor. Depois o Gantes começou a levar um caderninho e lapiseira, a seguir uma pasta para folhas tamanho A3, depois guaches, tela e cavalete. O resultado final foi um quadro a óleo que imortaliza o pontapé de J. em tons quentes, surgindo ele a pairar no ar, com ares de herói revolucionário e melenas ao vento. O quadro seria exposto no átrio do prédio à revelia da porteira e da comissão de condóminos. Eu testemunhei o pontapé maravilha e sei que a obra não peca por excesso, pese embora a megalomania de J. Quando lhe perguntaram se gostava do quadro, ele terá dito: "É bonito, mas eu tinha pedido um mural junto ao campo. O Gantes é que não quis problemas com a bófia e como ele não abdica de assinar...".

2005-05-23 20:46:24

maio 21, 2005

BnO (39)

Passámos a manhã que se seguiu à tragédia de Heysel Park a atirar a bola contra a parede. Alguém comentou a medo os passes mágicos do Platini, o que fez soltar alguns acenos de cabeça de concordância. O som da bola tomou depois conta da manhã e o prédio chegou a estremecer. Na altura não me lembrei da dor de um certo merceeiro de Turim. Hoje a dor do merceeiro reformado de Turim parece-me incomensurável, muito mais revoltante que a de um outro merceeiro em Telavive, pai de atleta olímpico, ou que a mágoa de um indiano com uma mercearia em New Jersey, pai de uma secretária que trabalhava nas torres gémeas e era pontual. Sem querer ver os actos terroristas de 1972 e 2001 como manifestações de inteligência, o contraste com Heysel Park parece-me óbvio. Não houve morte mais estúpida que aquelas 39. O merceeiro de Turim que viu o filho moribundo em directo pela RAI só pode ter esperneado de raiva. "Heysel" juntou-se a uma série de nomes que foram minando a minha memória como símbolos da vil natureza humana, deste nosso absurdo. Libertos da sua circunstância, são nomes que hoje se passeiam como navios-fantasma: "Schumacher", "Aldo Moro", "Bocassa", "Komeni", "Heysel Park"... (continua)

Descobridor procura descoberta

A minha ciência tem sido um hino reiterado à uniformidade do mundo natural. Nunca descubro diferenças.

maio 20, 2005

Insultos: colheita do dia

A minha melhor amiga no local de trabalho (estranho título) disse que eu sou cobarde, hipócrita e que não tenho vergonha na cara (em inglês isto pode ser dito com economia). Um outro grande amigo escreveu-me a dizer que sofro de uma "pseudo-moralidade um bocado psicótica". Foi um dia porreiro. Ainda bem que não me cruzei com nenhum dos meus inimigos. Na melhor das hipóteses seria apenas baleado. Gostei particularmente da "pseudo-moralidade psicótica". Gosto de insultos elaborados. Um bom insulto deve ser apreciado sem estados de alma. Foi o que tentei fazer, mas sem sucesso. Confesso que estranhei vir o comentário de um amigo que há uns anos ridicularizava alguém por usar a expressão "é um tipo muito honesto", como se a honestidade pudesse admitir diversos graus. Como se houvesse tipos honestos, que só mentem, digamos, 3 vezes por mês, e tipos muito honestos, que mentem menos de 2 vezes por ano. Enfim, da próxima vez que tentar fazer as pazes com a consciência recorrerei a um confessionário. Sempre é mais discreto e inconsequente.

Quercus sublime

carlos_brag1.jpgO que mais me indigna no já famoso caso sobreirogate não é promiscuidade entre o poder político e o grande capital, nem a esperteza saloia, nem a indecência de se falsificar uma data. O que mais me indigna - e não é bem indignação, é mais tristeza - é ver o nome da minha árvore preferida associado ao de previsíveis aldrabões. Como se não bastasse, o papel do sobreiro nesta história é o de cadáver principal. De futuro, façam as vossas trafulhices com pinheiros mansos e eucaliptos. Haja respeito pelas árvores belas e boas.


Colecção Armando

O maradona está em vias de involuntariamente tomar conta do MI. Perante o caudal de prosa que está a sair do Causa, o ficheiro com os textos do rapaz vai passar a estar disponível na coluna da direita e será actualizado sem aviso, em função do gosto pessoal e vagar do Difool. Se vos acontecer descarregar o mesmo ficheiro e só se aperceberem no final da leitura, não perderam o vosso tempo. A colecção ganha também um novo nome. Colecção maradona nunca me pareceu muito feliz (vindo do Tulius não surpreende). A partir da agora vamos falar da "Colecção Armando", em promiscuidade fonética com as colecções Armani.

maio 19, 2005

BnO (38)

Nunca consegui passar dos 124 toques na bola sem a deixar cair. O número é embaraçoso. Não abro o Guinness Book há anos, mas o record deve andar pelos quatro dígitos. No bairro havia quem chegasse aos 1000 toques. Eu dominava os rudimentos do malabarismo: manter a bola baixa, quase colada ao pé, e estar sempre equilibrado, enquadrado com o esférico. Manter a bola baixa não melhora apenas o controle; aumenta o número de toques por unidade de tempo. E o tempo é importante. Aliás, ainda hoje defendo que o record de toques na bola é definido menos pelo domínio técnico do que pela resistência ao tédio ou, se se preferir, pela capacidade de concentração. Sucede que esta é uma opinião programática, sem suporte empírico. Como se verá.
Um dia resolvi desafiar um amigo para um duelo de toques. Escolhi-o a dedo: um tipo melhor do que eu mas de excepcionalidade improvável, rapaz para valer talvez uns 200 toques em dia inspirado. Perdi o primeiro embate (198 a 67), o segundo (167 a 90) e antes do terceiro fiz deslizar o meu trunfo da manga: "e se fôssemos contando uma história enquanto damos toques?". Fez-se silêncio e esperei pela facada óbvia em quem expunha o flanco: " bem, tu apenas terias tempo para uma anedota curta...". Mas não. Ele concordou sem se alongar. Era de poucas falas. Na minha cabeça a disciplina que contar uma história implica faria com que eu não cedesse à vadiagem mental que a partir dos 50 toques me atacava e, pelo contrário, perturbaria o meu adversário, incapaz de encaixar a polivalência e de se acomodar à novidade. O preconceito óbvio era que eu seria um "criativo" e o meu adversário um burocrata. Comecei eu, num arranque prudente ao décimo toque, com um "era uma vez..." Não passei dos 45. A história saiu pífia e ficou por concluir. Depois foi a vez dele. Ao quarto toque soltou para o ar: "a vinha foi o presente envenenado que inquinaria quatro gerações e num século conduziria os Andrade à decadência moral e financeira..." Aos 350 toques ainda eu não conseguira fechar a boca de espanto. Diante de mim revelava-se um génio do realismo mágico, que improvisava uma história em flashbacks múltiplos e fazia a trama correr sem hesitações pelas quatro gerações dos Andrade, metendo bruxaria, animismo e nunca trocando os nomes. Nem deixando cair a bola. Havíamos começado pouco depois de almoço. Ao crepúsculo eu ouvia - com irreprimível interesse- a descrição da melhor colheita de sempre dos Andrade. Os Andrade prosperavam, tinham um futuro risonho pela frente e só mais três horas de narrativa poderiam levar aquela história idílica aos abismos antecipadamente descritos. E ele nas calmas, com 4600 toques, sem sequer se excitar nas partes que envolviam o Andrade patriarca e a criadagem mestiça e viçosa. Um génio. 5000 toques. Quando o chamaram da janela para que fosse jantar, passou-me a bola com o pé e eu tentei dominá-la no ar, mas desequilibrei-me. Ele então olhou-me com candura e o que disse foi sincero: "se quiseres continuo amanhã e fazemos disto um folhetim".

Colecção maradona restaurada

Cena comovente esta de encontrar duas mensagens na nossa caixa de correio com o instantaneamente mítico texto do maradona sobre a não-vitória do Sporting frente ao Benfica. Permitam-me um desabafo sobre a nossa caixa de correio. Recebemos publicidade sobre produtos para aumentar o tamanho da pénis (qual delas terá comentado a evidência?) e somos vítimas de bloggers em manobra de auto-promoção, tipo: "publiquei um post, não queres ir ler?" Um desconsolo. Até hoje, pá. Dois anos a receber lixo informativo foram reabilitados pelo gesto do Rinoblog e de um outro rapaz, o T.C. Chapelada dupla! É claro que o mérito é do maradona, um verdadeiro fenómeno de culto na blogosfera. A propósito, aqui fica a colecção, agora restaurada. O altruísmo existe.

maio 18, 2005

Valor seguro
Título alternativo A: "A francofilia tolerada"
Título alternativo B: "Contrariando a crescente scarlet-johansonização da blogosfera lusa")

Laetitia_Casta_03.jpg
*Repare-se na parolada do nome impresso na madeira. De resto, repare-se no ridículo que é assinar "Laetitia Casta". Mas a malta tudo aceita. A resiliência desta mulher em suporte fotográfico- mas não no celulóide - é inexplicável.

Muda de latitude

84 Bonga.jpg
Pois eu tenho prova fotográfica de gente muito circunspecta excitando-se ao som de Bonga.

Post ressabiado

Graças à vossa não-ajuda, perdeu-se o texto de ressaca do maradona sobre a não-vitória do Benfica sobre o Sporting. Na boa. O texto vai crescer pela ausência e fica já com o destino traçado: o de cromo raro. Daqui a muitos anos os filhos dos vossos filhos vão ouvir falar do texto de ressaca do maradona e perguntar quem era o Carlos Cruz. Não se percebe, pois não? É a dimensão desta tragédia, meus c###### de #e###. Enfim, continuemos a coleccionar. Podem descarregar o quarto texto do maradona, junto com os restantes. E depois pensem nas consequências das vossas acções. Francamente, pá.

maio 17, 2005

Banda sonora para moderada introspecção

tomatitoduquende.jpg
"Lo bueno y lo malo".
Duquende e Tomatito.

BnO (37)

Dispensava as figuras acrobáticas. O meu mergulho não acabava na água, antes aí começava. Eu sentia a gravidade em desaceleração e nem dava pelo choque térmico. O quadrilátero de azulejo vinha ao meu encontro, mas parecia que pedia licença. Depois abria os olhos, tomava o gosto à água, cheirava o cloro da piscina municipal e empurrava com os lábios a caruma flutuante. Sentia o meu mergulho como um aconchego, mas era tudo inventado. Durante anos não entrei na piscina. Contava-se que um mânfio se atirara da plataforma dos 10 metros e, de tão embalado pela testosterona, metade dele acabara no perímetro forrado a laje e a outra metade, assim logo a seguir, acertara na piscina propriamente dita. Ora, nem mesmo imaginando um caudal amazónico a diluir aquele sangue a partes ínfimas por milhão durante anos a fio, ousava eu molhar o pé. Não havia azul que me seduzisse e podia o sol de Agosto estar a pino. Até ao dia em que houve jogo no campo do complexo desportivo. Aquilo parecia um centro de estágios quando ainda não se falava de tal coisa. A piscina, por exemplo, era praticamente olímpica, mas dizia-se que lhe faltavam 2 cm para os 50 m, o que quilhava os records do Yikoshi e serviu de pretexto ao professor de educação física para elaborados discursos sobre a procura da perfeição e a maldição de se ser português. O campo de futebol de cinco também era catita, mas a ausência de relva causava um certo desconforto. Mal sabia eu que na equipa adversária, a entrar pelo meu corredor, iria surgir um sujeito magro e alto, de físico pouco impressionante, que logo me disseram tratar-se de um pianista com algum nome, que tocara inclusive no São Luiz.Foi o suficiente para que o corpo do homem se tivesse transmutado à minha frente. Fixei-me nas mãos dele. Fortes como tenazes, claro, mas com uma notável rede de veias salientes à flor da pele, respondendo ao calor do dia e, quem sabe, recompondo-se ainda do Czerny da madrugada. O que faziam umas mãos daquelas ali? Um pianista tem a vida por uma falange e aquele cimento polido por todo o lado, a uma queda aparatosa de distância, fazia-me hesitar. E se este homem deixa de tocar por minha culpa e cede ao álcool? Será possível fazer uma carga de ombro tomado por estes pensamentos? A reputação de pianista era o seu livre-trânsito no corredor direito. Como explicar isto aos companheiros? Inúmeras vezes fui ultrapassado. O homem nem sequer era grande jogador. Com o passar do tempo, a pressão foi aumentado e parecia não haver forma de deixarmos de estar a perder, mesmo sendo o resultado equilibado. O responsável era eu; saltava à vista ao ponto de se dispensar a estatística. Já perto do fim da partida, o pianista aparece diante de mim, ensaiando uma tabela, coisa de bilharista, a trajectória do esférico a 45 graus com a tábua da linha lateral, ele passando-me pelo outro lado e reencontrando a bola já nas minhas costas; eu a persegui-lo agora, o tipo a um toque meu de se estatelar ao comprido; o nosso frangueiro indefeso, só e a crescer assustadoramente no meu campo de visão; os companheiros gritando lá atrás para que eu parasse o homem; o momento da verdade: então, como é? Por uma vez não hesito. Belisco-lhe o calcanhar com a biqueira da sapatilha, o pianista tropeça e cai sem se enrolar. Ouve-se um barulho de gelar a espinha. Aproximamo-nos (ah, a bola morre nas mãos do nosso guardião), o homem mexe-se mal e geme. Escorre-lhe sangue da boca e do nariz. Tem a cara toda amassada e chora como uma criança. "Bah, o futebol não é para meninos", penso eu, já em activo processo de bestialização para evitar remorsos. Fico de cócoras e avalio-lhe as mãos. Só isso me preocupa. Mas recordo que o homem caíra com presença de espírito, protegendo as mãos atrás das costas. Um pianista deve desenvolver reflexos contra-natura. Bem podiam ter avisado. Se soubesse que o homem iria salvaguardar sempre as mãos, o jogo teria corrido de outra forma. Carga de ombro com cargo de ombro, em vez desta carga psicológica que fez de mim um tipo violento. O pianista começa a refilar comigo. Percebe-se mal o que ele diz e fico com os braços salpicados de sangue. Levanto-me sem me desculpar, já um animal pleno. Ignoro os companheiros, por fim silenciosos. Afasto-me do recinto, passo pela piscina e, com algum cerimonial, mergulho os braços na água. Subo depois à prancha dos três metros e mergulho de pés, pela primeira vez ao fim de muitos anos. Afinal havia mesmo caruma a flutuar na piscina municipal.

maio 16, 2005

O render da guarda

Até voltarmos, será que alguém nos podia ir enviando os textos do maradona (endereço aqui ao lado), para que o arquivo não se ressinta desta nossa ausência? Grato.

maio 14, 2005

Pausa

Os trabalhos serão retomados dentro de alguns dias. Até breve.

maio 13, 2005

O ónus da explicação

Há uns tempos teve lugar uma experiência para testar o valor da acupunctura no tratamento de enxaquecas. Foram seguidos três grupos: um tratado por acupuncturistas, outro por pessoas que foram espetadas com agulhas sem se respeitar os preceitos técnicos da acupuncturab e, por fim, um grupo que não foi tratado e permaneceu na sala de espera ao longo das diversas sessões. Ao fim de semanas de tratamento houve melhoria em cerca de metade dos elementos do grupo tratado por acupunctura, mas a mesma proporção de casos bem sucedidos foi encontrada no grupo perfurado "à balda". No grupo que permaceceu na sala de espera a percentagem de pessoas que deixaram de ter enxaquecas foi muito menor. Isto nada tem de surpreendente. O "efeito placebo" é conhecido há séculos.
Nas questões de fé, o ónus da explicação cai sobre o ateu. Se o efeito placebo está demonstrado cientificamente, coisa que geralmente excita o ateu de sobremaneira, por que razão não aceita ele o grande placebo da alma e insiste em permanecer na sala de espera com a cabeça a latejar?

Objectivo: Domingo em Ferry Street

Um campeonato de futebol é um conjunto de jogos chatos que se auto-organizam para salvar um deles do esquecimento colectivo.

Conta Natura

Encerramos a nossa participação no Conta Natura, um blogue colectivo de ciência. A equipa está a ponderar continuar o projecto, com uma nova orientação. É preciso injectar sangue novo! Os interessados em participar devem escrever para o endereço de correio electrónico que se encontra na aqui.
Tendo em conta estes desenvolvimentos, é provável que comecem aparecer no MI textos sobre ciência (demasiado esporádicos para justificar um blogue independente). Esta série já tem nome: "A pulga de Hooke".

maio 12, 2005

BnO (36)

Havia no bairro um padre de intelecto pouco exuberante mas que era uma figura simpática. A simpatia é muitas vezes um prémio de consolação, dádiva de quem julga para compensar o desmérito quem é julgado, mas a forma de locomoção daquele padre (uma vespa) corrobora a apreciação. Uma situação recorrente era ir eu pelo passeio e ver o padre passar na estrada. É sintomático só ter retido a imagem da vespa a afastar-se de mim, com o padre de costas, em conformidade com o código da estrada, trepidando. Nunca percebi o que movia aquele homem. Certo, o motor a dois-tempos, mas será que fazia visitas ao domicílio? Haveria ali um espírito de missionário a querer extravasar as paredes do templo? Mistérios. O outro padre era intelectualmente robusto. Também se percebe a inteligência de um homem pela dimensão do que ele sabe e não diz, mas não havia lugar à dúvida: estávamos perante um orador de primeira água. Só que, por muito bons que fossem os sermões do padre Janela, depois de cortar com a igreja só voltei a ter saudades do sabor da hóstia. A minha falta de espiritualidade revelou-se cedo, quando tentei obter a receita para o corpo de Cristo. Para mim não era blasfémia, antes um desafio técnico que passaria pela selecção do melhor fermento. Lembro-me de ter saído da igreja com a resolução tomada e a hóstia colada ao céu-da-boca, como se quisesse perpetuar aquele último contacto. A hóstia depois não descolou, como se também ela quisesse recuperar-me. Na jogatana que se seguiu, assumi a minha posição no flanco esquerdo. Eu e a hóstia. Tecnicamente não tínhamos mais um elemento, mas é verdade que estive imparável. Uma das curiosidades daqueles encontros era o constante reposicionamento em campo de acordo com o desempenho técnico o momento. Um defesa que começasse bem podia evoluir para o meio campo e se continuasse a cumprir chegaria à linha dianteira. Em 20 minutos passei de defesa esquerdo a avançado. E marquei golos incríveis. Fiz até um de pontapé de bicicleta, a uns 15 metros da baliza, o golo que sempre desejara. Os adversários eram bons e apesar do meu desempenho divinal - ou melhor, com índices tácticos e técnicos elevados - estávamos empatados a 1 minuto do fim. Um dos nossos é então ceifado dentro da área. Grande penalidade e eu, o craque do dia, sou chamado a marcar. Concentro-me com as mãos nas ancas, olho para o ar de olhos fechados e... a hóstia descola-se do céu da boca. Distraio-me por instantes, mas não perco tempo e engulo-a, voltando a concentrar-me no pontapé. A bola sai com força e para as nuvens. No prolongamento perdemos a partida, devido a um erro meu, já na defesa, depois de em 10 minutos ter conseguido passar de bestial a defesa esquerdo.

maio 11, 2005

Posts XL

Inicio aqui uma nova categoria que incluirá posts meus extensos. Começo com um já antigo sobre o aborto, por razões óbvias.

DO HOMICíDIO PRÉ-NATAL À IVG

Coisas de circunstância

Em Junho de 1998, realizou-se em Portugal um referendo que colocou a população perante a seguinte questão: "Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas dez primeiras semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?". Aqueles que ficaram satisfeitos com o resultado anterior realçam o absurdo que é fazer um novo referendo quando só ainda passaram cinco anos. Para os inconformados (grupo em que me incluo), a complexidade do problema, o resultado (ver abaixo) e a ocorrência excepcional que foi o julgamento de Aveiro justificam colocar este problema no topo da agenda política. Convém recordar que a elevada abstenção impede que o resultado do referendo de 1998 tenha carácter vinculativo. Há ainda quem recorde a divisão quase salomónica que foi a votação de 1998 e o empenho de muitos padres que não hesitaram nos argumentos usados para condicionar as plateias dominicais. Todos este factos pesam na decisão de avançar com o novo referendo. Parece-me também legítimo, apesar da aparente dualidade de critérios, que mais depressa se tente de novo mudar a lei em caso de derrota do "sim" (através de um novo referendo ou com a apresentação de um projecto-lei) do que no caso da vitória do "não". Só o "sim" implica uma mudança e só faz sentido questionar a mudança depois de esperar tempo suficiente para avaliar e tirar conclusões. É claro que este argumento deve ser usado com moderação, caso contrário estaria a defender um cenário absurdo em que teriam lugar referendos sucessivos com a derrota do "sim", até que fosse alcançada a vitória pretendida. Um projecto-lei tem sobre o referendo, a vantagem de ser uma proposta mais detalhada e a desvantagem de estar mais sujeito ao efeito nefasto da partidarite. Através de referendo ou mediante a apresentação de uma proposta de lei, o essencial é não desistir de mudar uma lei totalmente desajustada da realidade social e que é uma ofensa para a liberdade individual de tantos. Mesmo esquecendo que o resultado do referendo de 1998 não tem carácter vinculativo em virtude da elevada abstenção, é sempre oportuno desmascarar uma estratégia, subliminar, que visa também minar esta discussão e assegurar o status quo. Os seus proponentes dizem que atingimos o ponto de saturação num debate em que as pessoas nunca mudam de opinião. Há aqui um equívoco. Aceito que não é com uma discussão que alguém mudará a sua opinião sobre o aborto. Vou mais longe: até a discutir apicultura é raro mudar de posição. Aceito também que opiniões formadas sobre temas pesados, como a pena de morte ou a eutanásia e o aborto, têm à partida um elevado e idêntico grau de irredutibilidade. Porém, é mais provável que alguém altere a sua posição sobre o aborto do que sobre a pena de morte, simplesmente porque os acidentes biográficos relevantes para uma mudança de opinião não ocorrem com a mesma frequência num e noutro casos. Poucas são as famílias que têm um tio em estado vegetativo, como são poucos aqueles que viram os familiares serem brutalmente assassinados por um ndivíduo de 18 anos, que estará fora da cadeia aos 40 e poucos, a tempo de refazer uma vida. Perante situações traumáticas, pessoas com opiniões que julgavam inabaláveis, questionam-se, sentem-se injustiçadas e podem vir a construir novos juízos. Ora o carácter excepcional das situações anteriores contrasta com a frequência com que somos, directa ou indirectamente, colocados perante o dilema do aborto. E diante da inevitabilidade do problema, ou depois de vivida a experiência, há quem mude de opinião (num sentido ou noutro). A inflexibilidade mantida ao jantar ou numa mesa redonda de um programa de televisão diz muito da importância que damos a esta questão, mas não diz mais nada.

Onde começar a discussão?

Há no debate sobre o aborto uma retórica aparentemente irrebatível mas que, ao simplificar a questão, passa ao lado do problema essencial. Quando leio que "o aborto é moralmente intolerável (para qualquer um de nós que tenha a vida humana como um valor insubstituível) se um feto for considerado uma vida humana", surge logo a questão: de que aborto fala o autor? Será que também inclui o aborto terapêutico (aquele que se faz para salvar a vida da mulher grávida)? No mesmo texto, mas mais adiante, ficamos a saber que o autor aceita o aborto terapêutico. Colocamos então a questão: e o aborto numa mulher que engravidou durante um acto de violação? Naquele texto não encontramos resposta. Convém lembrar que o aborto terapêutico e o que é realizado para interromper uma gravidez que resultou de uma violação estão já previstos no código penal vigente. São conquistas valiosas e sinais vitais de laicismo. Mas são também conquistas precárias, tendo em conta a força dos movimentos pró-vida e o discurso oficial do Vaticano. Não sei o que dizer a quem condena passivamente uma mulher à morte por não poder aceitar uma intervenção que, sacrificando o embrião, a salve; também não sei como lidar com quem não permite um aborto em caso de gravidez por violação, condenando mãe e filho a uma pena perpétua de consequências inimagináveis. Receio que seja impossível ter uma discussão esclarecedora com quem defende estas posições e aponta o dedo gritando "nefandum crimen!". Não pretendo, pois, convidar para este debate aqueles que, crentes ou não, estão em sintonia com o discurso oficial da igreja católica, nem recuarei até questões que só persistem devido a um atavismo sociológico e religioso inaceitável. Forço-me a um certo radicalismo, entrando até em contradição com o que de início escrevi, por uma questão de pragmatismo e profilaxia: quem se opõe ao aborto terapêutico e conseguiu chegar aqui na leitura, deve desistir agora, pois estará a perder o seu tempo e a forjar uma úlcera. A única discussão que considero válida cobre um espectro de situações que vão do aborto eugénico (praticado quando são detectadas malformações no feto) ao aborto realizado como método contraceptivo de último recurso. Referências a posicionamentos fundamentalistas só aqui voltarão a aparecer em contextos de perspectiva histórica ou de redução ao absurdo.

O que nos diz a ciência?

Qualquer polémica sobre o aborto vai inevitavelmente desembocar em três questões: 1) quando começa a vida humana? 2) no caso de existir um organismo vivo que não é um ser humano senão em potência, haverá lugar a uma equiparação legal e moral a um ser humano? 3) admitindo que aceitamos a existência de uma vida humana intra-uterina, em que circunstâncias deve ser tolerado o aborto ou, se se preferir, o que distingue o aborto do sacrifício de um ser humano já nascido? Como seria de esperar, a ciência não ajuda a esclarecer nenhuma destas questões. O que se verifica é um abuso de interpretação dos dados científicos, às vezes descarado, outras inocente (por ambos os lados). Fica-se com a ideia de que a opinião sobre o aborto é um destilado de experiências e informações avulsas e um juízo moral relativamente alheio aos ensinamentos da ciência. Formulada uma opinião, alguns procurarão na ciência uma justificação que os tranquilize ou reforce o acantonamento. Como se compreende, é uma busca viciada. É também um exercício razoavelmente inútil. Saber quando começa a vida humana não é uma questão para a ciência, antes uma questão filosófica e, em última análise, deve ser resolvida por cada um, de uma forma informada e não constrangida. A fecundação é vista por todos como o princípio da vida de um novo organismo. Não há aqui lugar para grandes controvérsias. A junção dos gâmetas feminino e masculino dá lugar a uma entidade genética única que tem a capacidade de se dividir, originar um embrião, depois um feto, um bebé, uma criança e, por fim, um indivíduo com a capacidade de se reproduzir e reiniciar o ciclo. Porém, nos últimos anos assiste-se a uma crescente sacralização ou, corrigindo o tiro, a uma mitificação da genética, com ênfase particular no genoma humano. Realça-se a excepcionalidade de cada combinação cromossómica, o que em rigor não está errado, mas vai-se depois num crescendo que pode levar a prosas como a seguinte: "Após a concepção, nada ocorre de novo que possa alterar a natureza do novo ser surgido com a união das duas células. A partir daí, só há desenvolvimento do feto humano. Desde o primeiro instante já está programado aquilo que será o novo ser vivo, uma pessoa individual, com características já bem determinadas. Todos os aspectos biológicos, psicossomáticos e até o temperamento do novo ser humano já estão definidos, inclusive a cor dos cabelos". Mesmo fechando os olhos à desajustada fixação em detalhes do foro capilar, não deixamos de estar no domínio do ridículo. Nem o mais reducionista dos geneticistas se atreveria a assinar tal texto. Esqueçamos por instantes o Homem. Falemos de hienas. Em teoria, e num contexto de património genético, a excepcionalidade genética de uma hiena é menos importante do que a excepcionalidade genética da espécie a que pertence. Exterminar todas as hienas não é apenas aritmeticamente mais grave do que sacrificar uma hiena; significa perder um genoma resultante de milhões de anos de um processo evolutivo que dificilmente se repetirá com os mesmos acidentes. O sacrifício de um indivíduo corresponde à perda de uma associação única de genes para sempre, o que, de uma perspectiva estritamente genética, não é grave se estiverem asseguradas as condições que permitam continuar a fazer mais hienas... Regressemos de imediato ao Homem antes que se soltem insultos. Sejamos claros: o que é válido para os bichos nem sempre nos serve. Seria estúpido e criminoso generalizar as conclusões do parágrafo anterior. O valor da vida humana e os direitos consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem nada devem à genética nem à perpetuação da espécie. Acrescento que um indivíduo incapaz de se reproduzir por limitações de ordem biológica ou de orientação sexual deveria ter os mesmos direitos de quem o pode fazer (não tem). Do mesmo modo, é indiscutível que um gémeo homozigótico não fica com o seu valor intrínseco reduzido a metade só porque a sociedade sabe que há um outro indivíduo geneticamente igual que o pode substituir a qualquer altura. Por outras palavras, o genoma humano possibilita a condição humana, mas não pode escravizá-la. Ao aceitar esta conclusão, só nos resta desmistificar a célula que resulta da fecundação. Uma célula que contém o genoma humano e dará origem a um indivíduo não apresenta ainda nenhuma das características da condição humana. É apenas um começo. Dito isto, voltemos às questões iniciais: quando surge o indivíduo e quando surge o ser humano? Começo pela noção de individualidade, recorrendo à seguinte citação: "A partir do momento da concepção, do ponto de vista biológico, temos um ser vivo, individualizado e humano.” Estas palavras têm todas exactamente o mesmo sentido e valor com que aparecem na afirmação "A Rainha de Inglaterra, do ponto de vista biológico, é um servivo, individualizado e humano." Esta retórica de efeito fácil merece resposta em idêntico registo. Sem perda de juízo, seria de facto difícil defender que a partir de uma Rainha de Inglaterra podemos obter duas cabeças idênticas e coroadas, mas é possível, e em muitos casos até provável, que da célula resultante da fecundação surja, não apenas um indivíduo, mas dois ou três, ou mais ainda (gémeos homozigóticos). Na verdade, até ao estadio de oito células, cada célula é totipotente, ou seja, capaz de, sozinha, dar origem a um indivíduo completo. Só nos resta concluir que é falsa, a noção de que desde a concepção temos um servivo individualizado. Feita a correcção, sou o primeiro a reconhecer que esta ressalva tem um alcance limitado e passa ao lado da questão central: em que momento nasce um ser humano? Em duas palavras: ninguém sabe. As religiões não se entendem quanto à altura em que a alma entra no corpo. Pelo contrário, os cientistas estão de acordo no que respeita à cronologia de eventos que marcam o desenvolvimento, mas, não dispondo de um detector de almas, hesitam na importância que devemos dar a cada um desses marcos do desenvolvimento embrionário. Dispomos, pois, de uma enorme margem de interpretação e daí resulta que a mesma informação é usada para defender posições diametralmente opostas. Uns preferem dar à célula que resulta da fecundação o mesmo valor que damos a uma criança, um homem ou um idoso, por considerarem que a célula tem igual valor efectivo (o que me parece um absurdo) ou por atribuírem ao valor potencial a mesma importância que dão ao valor efectivo (o que me parece mais razoável, embora também falacioso). Outros exageram a importância de determinadas etapas do desenvolvimento embrionário, sugerindo que o embrião ou o feto só se tornam humanos quando adquirem uma determinada competência ou característica (o que me parece ser uma posição particularmente imodesta). Sem querer transformar este texto num mini-compêndio de embriologia (excelentes sites sobre a matéria podem ser consultados), creio que se justifica comentar algumas das etapas a que tem sido dada a importância que nos levaria a delimitar fases de vida intra-uterina não(ou pré)-humana e humana. Há uma série de marcos, como o primeiro pontapé na barriga ou a altura em que o embrião/feto adquire uma silhueta inconfundivelmente humana, que, quando comparados com outros critérios mais sofisticados, parecem manifestamente insustentáveis. Parece-me, contudo, que também os critérios mais sofisticados não estão a salvo de críticas. Entre os critérios sofisticados incluo, por exemplo, o momento em que o feto adquire independência, ou seja, é viável (no sentido em que consegue viver fora do útero), e o momento em que se detecta actividade cerebral. A noção de independência não é satisfatória por várias razões. Por um lado, faz depender a noção de vida humana de avanços tecnológicos, o que é inaceitável. Há 50 anos atrás, não era possível assegurar vida extra-uterina a fetos com menos de 30 semanas; desde então foi já possível assegurar a viabilidade a bebés prematuros que estiveram no útero materno pouco mais de 20 semanas. Por outro lado, está viciada na lógica feminista mais radical, sugerindo que a dependência do feto em relação à mãe retira-lhe todos os direitos. O critério da actividade cerebral é o marco escolhido por Carl Sagan e Ann Duryan, num texto lapidar na forma como se tenta discutir o aborto. Partindo da noção de que o que nos distingue das outras formas de vida é o pensamento que somos capazes de praticar, não é de todo ilógico fazer coincidir a humanização do feto com o momento em que nele se detecta actividade cerebral com padrões semelhantes aos de um cérebro humano adulto. Este marco surge por volta da trigésima semana. Como escrevem Sagan e Druyan, fetos mais jovens mostram já actividade cerebral e reflexos, mas não podem pensar como nós pensamos. É evidente que equiparar a vida humana a uma determinada competência intelectual levanta outros problemas, que é artificial traçar uma fronteira ao longo de um processo (o desenvolvimento do sistema nervoso) que não sucede em soluços quânticos, e que, em absoluto, um feto de 30 semanas pode ter a estrutura cerebral que teoricamente o levaria a poder pensar como um adulto, mas é pouco provável que o faça. Ainda assim, creio que esta noção, juntamente com o critério da dor (o momento em que o feto se torna competente para experimentar a dor), me parece razoável, senão para definir o que é uma vida humana, pelo menos para traçar uma divisão entre o que tem absolutamente de ser tratado como um ser humano e o que deve ser respeitado na medida em que tem o potencial de se tornar rapidamente num ser humano. Gostaria também de frisar que a noção de potencial para originar uma vida humana, embora importante, não pode ser levada a extremos. Se fosse possível fazer um filme sobre a fecundação e passar as imagens em câmara lenta, detectaríamos um momento em que a entrada do gâmeta masculino no óvulo é inevitável mas ainda não ocorreu. Esse momento, que precede a fecundação, apresenta-nos já um ser humano em potência que ninguém se lembra de proteger... Em conclusão, não creio que nenhum dos marcos de desenvolvimento seja absolutamente satisfatório para definir o começo da vida humana. A noção que me parece mais justa, menos falsa e, de certo modo, mais livre de preconceitos e presunção, é esta: no homem, o desenvolvimento embrionário é um percurso no sentido de uma humanização crescente e acelerada. É impossível determinar com rigor em que altura nos tornamos humanos, mas acredito que a célula resultante da fecundação é menos humana do que um feto às 15 semanas. É uma definição pouco forte, mas as convicções de raiz dogmática dispensam-se, sobretudo num tema desta importância. Creio que é, sobretudo, uma definição abrangente e robusta, que não será desmentida pelos avanços futuros da ciência. Esta noção de humanização em continuum é partilhada por muitos. A primeira fronteira, admitir a existência de uma humanização em contínuo, questiona desde logo a legitimidade da linha divisória que legalmente marcaria o início de um ndivíduo com os mesmos direitos de quem escreve e de quem lê estas palavras. Tal argumento é usado com inexcedível excitação pelos que estão contra a legalização do aborto. Porém, não é preciso ser um legislador para perceber que este é um problema geral para quem tem de fazer uma lei. Quando se aceita que só aos X anos se ganha o direito ao voto ou a consumir bebidas alcoólicas em estabelecimentos públicos, não passa pela cabeça de ninguém dizer que essas leis são absurdas, apesar de todos sabermos que um indivíduo com X-1 anos e 364 dias tem a mesma maturidade que terá no dia seguinte (ao completar X anos). Podemos questionar o valor de X. Em muitos casos, a decisão será controversa. Mas é melhor ter uma lei do que ficar eternamente sem abrigo legal a discutir se queremos X ou Y. Haverá sempre quem aos 16 anos já tem maturidade suficiente para votar; outros morrerão velhos sem ter perdido uma votação, apesar de nunca terem percebido muito bem o que lá iam fazer. Estas inevitabilidades não chegam para fazer de uma lei uma lei má. Em conclusão, a impossibilidade de separar rigorosamente as águas não é razão para se deixar de legislar. Aceite-se também que uma lei que regulamente o aborto não tem a pretensão de definir o que é a vida humana, antes resulta de um compromisso entre: 1) respeitar a vida intra-uterina (ao impor um limite temporal para a realização do aborto); 2) responsabilizar a mulher e o homem a quem a gravidez diz respeito; 3) responsabilizar o Estado; e 4) assegurar uma gravidez e um nascimento desejados. Esta nuance é importante porque retira do código penal o peso dogmático que incomodaria até um defensor do aborto. Mantenho que ninguém sabe quando começa a vida humana. Como decidir, então? Creio que só faz sentido adoptar um critério de ordem prática. A decisão deve ser um compromisso que visa antecipar, tanto quanto possível, a intervenção médica, tendo em conta um prazo mínimo necessário e razoável para que a dúvida sobre uma eventual gravidez se instale, seja esclarecida e uma reflexão sobre a decisão a tomar tenha lugar. Uma vez ultrapassado esse prazo, só em situações excepcionais deve ser permitido o aborto. Na maior parte dos países de cultura ocidental que legalizaram o aborto, esse prazo situa-se entre as 10 e as 14 semanas. Decidir entre as 10 e a 14 semanas não deve depender do peso que cada um dá aos eventuais marcos no desenvolvimento embrionário que ocorrem durante esse período. Se um país tiver um desenvolvimento tecnológico e um nível educacional médio que torne raros os casos em que a gravidez não é detectada até às nove semanas, o limite das dez semanas será razoável. Caso contrário, faz mais sentido optar pelas 14 semanas. Logicamente, determinadas circunstâncias (se a grávida for menor ou revelar anomalias psíquicas, por exemplo) devem levar ao alargamento do prazo.

O valor da vida humana

Todos temos presente exemplos de enorme injustiça social devida ao aborto. As repercussões são gravíssimas e vão dos traumas psíquicos à morte da mulher grávida em virtude de um aborto realizado em condições desfavoráveis. Tais situações não são razão suficiente para se permitir o aborto, se tivermos argumentos morais válidos que nos impeçam de o aceitar como prática. Porém, defendo que o aborto continuaria a ser um problema que devíamos deixar entregue à consciência de cada um, mesmo numa sociedade utópica, sem desigualdades sociais. Por outras palavras, as injustiças sociais que são hoje a norma, bem como a vergonhosa postura de avestruz do Estado e de segmentos da sociedade perante este problema, não são os argumentos em que baseio a minha posição. São apenas os motivos que me levam a escrever agora este texto, o que é algo bem distinto. O cúmulo da hipocrisia é ignorar a existência do problema. Mas há, a jusante e a montante, hipocrisias menores. Por exemplo, o fervor e inflexibilidade que muitos anti-aborcionistas mostram nas discussões, nomeadamente quando enchem a boca com o valor insofismável da vida humana, não deixa de me espantar. É como se não vivêssemos num mundo que, insistentemente e de forma por todos tida como normal, discrimina e quantifica o valor da vida humana em função de circunstâncias (em tempo de guerra versus tempo de paz, estatuto civil e militar, o contexto em que um homicídio é cometido, a importância que cada um de nós vai atribuindo à sua própria existência, a forma distinta como a morte de um jovem e a de um idoso nos choca, os cálculos dos seguros de vida, etc).

A assimetria de posições

Há uma outra hipocrisia, em estado latente, que fica a pairar sob a cabeça dos que são contra a legalização do aborto. Acredito, sem estar a fazer ironia, que quem é contra o aborto não planeia vir a fazer um às escondidas. Mas duvido que todos tenham presentes as pressões que podem levar uma pessoa a decidir-se por um aborto. Duvido sinceramente que muitos não se veriam obrigados a abdicar do discurso que defendem em público por uns instantes. A hipocrisia latente concretiza-se não no momento em que o aborto é realizado, mas quando o mesmo discurso é retomado, como se nada se tivesse passado. Os que defendem o aborto não são moralmente superiores a quem a ele se opõe, mas estão a salvo deste perigo. Quem defende o aborto só se compromete a aceitar que outros o pratiquem e não tenta vergar ninguém a um conjunto de princípios que não são consensuais. Esta assimetria de posições explica, a meu ver, que a causa pró-vida junte adeptos mais empenhados do que as associações que defendem o direito a uma escolha individual (que são, por definição, mais tolerantes). Em democracia, as consequências deste fenómeno são, no mínimo, irónicas e, no limite, perversas.

O feminismo bacoco

Se tracei uma linha divisória no início deste texto, é agora imprescindível traçar a outra linha. Não tenho a menor simpatia pelo discurso pró-aborto de tipo incendiário, que continua a dominar muitas discussões. Na sua expressão mais sofisticada podemos encontrá-lo em obras como as de Judith Thompson ou de Eileen McDonagh. Na sua forma mais boçal, aparece escrito a marcador no ventre de mulheres, na versão "na minha barriga mando eu". É um discurso estúpido, se tivermos em conta a lógica do combate político que se pretende travar: assusta o adversário, fazendo-o cerrar fileiras e leva à deserção dos apoiantes da legalização do aborto mais moderados, que não estão dispostos a embarcar em feminismos fora de prazo. Mas é, antes de tudo, insustentável por uma questão de princípio. Defendo que cada um é livre de fazer aquilo que entender do seu corpo, inclusivamente dar cabo dele, mas um embrião a crescer dentro da barriga não é um rim que se possa dispensar livremente, nem um tumor a exigir intervenção cirúrgica. Não é uma aberração, nem surge por geração espontânea. Houve necessariamente uma participação consentida da mulher e do homem que a fecundou (excepto nas situações anteriormente mencionadas, que não são matéria de discussão). A gravidez pode ter resultado de um azar (os métodos contraceptivos não são infalíveis), mas, em última análise, a responsabilidade é dos progenitores. O facto de o embrião estar a crescer dentro de um corpo e dele depender implica deveres e direitos para a grávida, mas muito rapidamente os seus deveres suplantarão os direitos. Ao defender o aborto como uma solução de recurso, que visa corrigir um erro de planeamento ou um azar, e permitir que em todos os casos a gravidez seja uma gravidez desejada, sou inclusivamente obrigado a tolerar que se pratique o aborto (nos prazos legais que discutimos) como método contraceptivo rotineiro. Porém, nada me obriga a respeitar quem, devidamente informado, continue a fazê-lo. Se este cenário não me preocupa é porque, ao contrário de muitos catastrofistas, duvido que, uma vez promulgada a lei que legalize o aborto, estas situações se tornem (mais) frequentes. Mas não é por acreditar que jamais chegaremos a trocar a pílula e o preservativo pelo aborto que fico indiferente à destravada retórica feminista, sobretudo quando nas entrelinhas se promove a banalização da interrupção voluntária de gravidez. A título de exemplo, recordo aqui a situação fictícia construída por Judith Thompson, que provocou acesos debates nos anos setenta. Thompson começa por dizer que o embrião é um ser humano. Sugere depois que imaginemos um violinista talentoso (as especificações são da autora) condenado a morrer se não o ligarem cirurgicamente a uma mulher durante nove meses. Admitamos que encontramos uma associação de melómanos com elevados recursos cirúrgicos, que conseguem ligar o violinista ao corpo de uma mulher enquanto esta dorme. Perante os factos, Thompson coloca-nos a seguinte questão: será que a mulher tem o direito de se desligar do violonista, mesmo sabendo que o matará se o fizer? A pergunta é obviamente retórica, pois para Thompson a resposta só pode ser "sim". Este tipo de argumento, parece-me absurdo. Ninguém engravida a dormir, por imposição de outrem. Daqui decorre que é impossível transferir a responsabilidade da decisão de abortar para a associação de melómanos. Surpreendentemente, a retórica feminista não parou aqui e é notório o aumento da insensatez. Para McDonagh, a gravidez é um conflito entre a mulher grávida e o embrião, impondo-lhe este drásticas modificações fisiológicas, sem pedir licença, da mesma forma que um violador força uma relação sexual. Ora, se aceitamos que pelas suas acções um violador deve ser condenado, McDonagh conclui que o embrião também pode ser punido. Estamos no domínio do aborto por uma palha, sob a máscara da legítima defesa. Pela mesma lógica, o que nos leva a negar a uma mulher o direito de processar os pais por ter nascido mulher? É ou não verdade que se não tivessem útero nunca o embrião teria tido oportunidade de as invadir? E de quem é a culpa que elas tenham nascido com útero senão dos pais? ...Como? O sexo é uma lotaria cromossómica que os pais não podem controlar? Seguramente, mas então e o embrião? Por acaso é-lhe dada alguma opção de escolha senão crescer? Aparecentmente, para McDonagh, isso não o desresponsabiliza... Enfim, o mais patético neste argumento é que uma argumentação por redução ao absurdo é impossível. A discussão começa logo no absurdo.

O papel do Estado

Um novo referendo, ou um novo projecto-lei que não passe por referendo mas que seja votado na Assembleia da República, é o que se pretende. Em caso de votação na Assembleia da República, que se dê liberdade de voto, já que esta é uma questão que, ao centro, corta o espectro político transversalmente e no plano dos princípios não é uma causa da esquerda ou da direita. Já é extremamente frustrante ter de condicionar o timing da votação da proposta de lei a jogos de bastidores da coligação governativa tardiamente revelados. Uma lei corajosa é aquela que descriminaliza (logo, despenaliza) o aborto e não faz deste acto uma prática ilícita. Manter a lei como está mas sem lhe ligar, fechando os olhos e assobiando para o lado, é uma aberração. Manter a lei como está, mas assegurando o requinte de um julgamento que não visa a sua aplicação, antes garantir o apedrejamento moral (coisa que julgo ter lido, mas admito não ter percebido, tal a minha estupefacção), é um delírio de sanatório em que se parece querer fazer pouco de toda a gente e, em particular, dos profissionais da justiça. Despenalizar sem descriminalizar é abrir finalmente os olhos, mas apenas para lavar as mãos, o que me parece uma hipocrisia ainda maior. A única solução passa por assegurar o cumprimento de uma lei que descriminaliza o aborto até às 10 semanas (perder momentum e o momento a discutir se é às 10 ou às 12 é pouco prudente), julgando quem não a cumpre e condenando ou não em função das atenuantes (aqui estou em desacordo com a proposta de lei do PCP). É uma solução que passa também por punir quem vende ou promove abortos feitos fora das instituições hospitalares ou clínicas que garantem as condições necessárias de segurança. Passa ainda por assegurar a existência de um corpo médico disposto a assegurar o serviço, sem que isso represente um problema de consciência. Uma lei que legalize o aborto não deve ser confundida com a sua liberalização, pois tal não resolveria as injustiças sociais que hoje conhecemos. O dia 3 de Março de 2004 será importante para relançar esta discussão.

O futuro adiado

Acredito sinceramente que em breve nos juntaremos à Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Grã-Bretanha, Grécia, Holanda, Itália e Luxemburgo, países onde o aborto até às 10 semanas é permitido e já deixou de ser um tema de acesa controvérsia. Resolvida esta questão, o verdadeiro problema será o aborto eugénico. Presentemente, o aborto eugénico é praticado quando o embrião apresenta malformações ou sofre de doença grave. É um acto traumático, mas que não tem alternativa. Porém, outras situações há, mais delicadas, que provocam violentos dilemas morais. O que fazer quando se detecta uma deficiência que não compromete a 100% a vida do indivíduo, mas limitá-lo-á para sempre (a trissomia 21 ou a distrofia muscular de Duchenne, entre tantas outras)? A ciência não ajudará a resolver o dilema moral, antes pelo contrário. Com o aumento das potencialidades do diagnóstico pré-natal, o número de casais confrontados com uma decisão deste tipo tenderá a aumentar. O papel da ciência é antecipar estas decisões o mais possível e alertar para possíveis complicações antes da gravidez acontecer, mas os avanços tecnológicos e pressões sociais cada vez mais fortes conduzirão também a uma tentação verdadeiramente eugenista, em que não se procura diminuir o número de nascimentos com anomalias mas promover o nascimento de indivíduos com características genéticas melhoradas ou resultantes de escolhas mais ou menos caprichosas (a escolha do sexo, por exemplo). Este cenário de ficção científica datada em breve será uma realidade. E em Portugal, com a endémica inércia social e ainda às voltas com uma lei que devia ter sido aprovada há mais de vinte anos, não sei francamente como nos vamos preparar para os novos desafios. Depois de vários meses de inactividade na internet, o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida começou a apresentar uma página na internet enxuta e realizou um encontro sobre o tema. Sinais de mudança? Duvido./font>

Suicídio

Soube ontem do suicídio de um fulano que devo ter cruzado três vezes. A primeira foi quando li a tese de licenciatura dele (a única tese de licenciatura que li na vida). A segunda foi quando ele me deu uma aula extraordinária (duplamente). A terceira foi quando ambos concorremos a um programa de doutoramento. Chovia muito nesse dia e eu entrei numa sala onde ele já estava. Vi depois uma máquina de fazer gelo e - armando-me em esperto- coloquei a gabardina na parte traseira da máquina, de onde vinha calor. Sorrimos um para o outro e um de nós terá dito: "são as vantagens da termodinâmica". Ainda hoje não sei de quem falou assim. Ele parecia ser mais capaz de dizer uma coisa daquelas, mas eu tenho muito de Zelig e, como conhecia a sua reputação, talvez me tivesse querido aproximar do seu registo. Podia adiantar mais qualquer coisa, mas correria o risco de cometer alguma inconfidência. O suicídio é a única morte que julgo merecer alguma discrição.

maio 10, 2005

BnO (35)

Há um excesso metafórico no futebol, muito ao gosto de sociólogos patuscos, que leva a pérolas como o "ritual colectivo onde o culto a um determinado tipo de masculinidade hegemónica é reconhecível". Aprendi a apreciar a "ritualização dos velhos combates tribais", mas foi coisa que veio com os anos. O fascínio que fundou o meu interesse pelo futebol precedeu qualquer elaboração teórica, apesar de não ter ficado pelos aspectos mais triviais do jogo. Tolere-se a minha patuscada: foi com o futebol que percebi a transitoriedade da existência. Lá no bairro ninguém morreu de chuteiras, apresso-me a esclarecer. Simplesmente, quando comecei a jogar, Teofilio Cubillas estava nas últimas e surgiam rumores sobre um miúdo do Montijo (o Paulo Futre). Um a sair e o outro a começar, o fim e princípio acotovelando-se no tempo e espaço, uma coisa poderosa. A partir desse momento, não mais deixei de ver nos ciclos de vida das aulas de biologia esquemas fraudulentos que criam uma ilusão de eternidade. Como se o indivíduo não contasse, viria eu a ranger entre dentes perante a ditadura da espécie. No futebol parecia acontecer o mesmo: fornadas de jogadores substituíam os mais velhos, reapropriando-se dos cognomes para, em 12 anos, serem eles também descartados. Interessava mais um craque do que o craque. Este ensinamento vinha reforçado, como se o futebol, fruto da nossa obsessão, nos desse um contínuo de estudos horizontais instantâneos e um grande estudo longitudinal, que íamos fazendo com paciência enquanto crescíamos. A ingenuidade levou-me a dramatizar ainda mais a lógica do espectáculo. Pensava então que quem deixava de jogar morria; não que o matassem, mas que o jogador se deixava morrer. Um futebolista profissional vivo com mais de 34 anos? Coisa de circo, seguramente. Até que um dia dei com um antigo defesa central em corpo barrigudo de treinador. Já não era de acreditar em reencarnações e fiquei a ressacar a descoberta durante dois dias. Havia ficado sem mártires.

(continua)

9 de Maio de 2005: maradona escreve 5 posts.

Foi-me atribuída a gestão do espólio do maradona . Cumprindo funções, aqui fica a terceira actualização (para descarregar e difundir junto de externatos e escolas politécnicas).
Destaque: "Qualquer relato por ele [Jorge Perestelo] feito era algo de devastadoramente insuportável: de inicio, e à cabeça, sabíamos que metade do jogo decorreria em Angola, por entre as matas do Bailundo ou do Huambo."

Apontamento técnico: as actualizações do ficheiro são cumulativas, ou seja, o último ficheiro contém a colecção inteira e pode substituir todos os outros; a ortografia maradoniana será conservada, por respeito aos estudiosos que um dia esmiuçarão este material.

maio 09, 2005

Tulius errou

Um mea culpa e um pedido formal de desculpas ao Afonso Bivar, por eu ter confundido um argumento a dois tempos com um comportamento supostamente revelador de imaturidade e desejo de protagonismo. Não se tratou de tresleitura, mas antes de leitura truncada, o que ainda é mais censurável.

Contra-medidas

A ameaça da publicação de 100 entradas da série A Bola no Olival tem transformado o MI num clube de rapazes. As poucas mulheres que por ainda passavam volatilizaram-se. Fiz queixa ao Ivan e o moço ofereceu-me uma canção para pôr no ar. Nas suas palavras: "é uma contra-medida para estancar a fuga das raparigas". Sejam tolerantes, por favor. O moço anda entusiasmado com um brinquedo novo, uma guitarra acústica. No Sábado fez 40 quarteirões a pé, só para poder exibir o instrumento. Hoje resolveu assassinar um tema de Eden Ahbez. Os acordes foram sacados de ouvido a partir de uma versão de Caetano Veloso, já há muitos anos. A qualidade da gravação é má, houve pouco tempo de estúdio, os carros do lixo não ajudaram e o melhor dos takes para o solo foi para o galheiro por causa de uma sirene de ambulância. Em todo o caso, aqui fica. Ivan (voz e guitarra) "interpreta" Nature Boy.

Com auscultadores resulta melhor, para quem ouve e quem não quer ouvir.

Nature Boy

There was a boy...
A very strange enchanted boy.
They say he wandered very far, very far
Over land and sea,
A little shy and sad of eye
But very wise was he.

And then one day,
A magic day, he passed my way.
And while we spoke of many things,
Fools and kings,
This he said to me,
"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return."

"The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return."

maio 08, 2005

Triplamente melancólico

Sempre que vejo um pai ensinar baseball ao seu filho.

maio 07, 2005

O Sábado no escritório

Cuidado, não se aproximem
Nem queiram que vos ajude
Um clandestino de mim
Eis-me aos Sábados aqui
Por favor, sejam meus cúmplices
Digam que me viram, sim
Mas só na Segunda-feira

Arquivo maradona

Deu entrada mais um texto de maradona. Toca a descarregar:
maradona (duas entradas)

O grande urinol

Maria Filomena Mónica deve ter razão: a blogosfera é o equivalente das portas das casas de banho públicas. O que se escreve é tão mau e tão desinteressante que, vejam bem, até damos com uma entrevista colossal ao Luiz Pacheco feita pelo franco-atirador que é o JPG. Ainda não li, mas assim que me levantar prometo fazê-lo. É uma pena a MFM não poder entrar na casa de banho da rapaziada.

Gilberto: voz e guitarra

gilberto2.tiffO Ivan verdadeiro oferece um bom ponto de partida para se perceber o encanto da voz de João Gilberto. Põe-se Gilberto a tocar e parece que ele está mesmo da sala de estar, sentado no sofá. A julgar pelo legado histórico, desde as gravações dos anos cinquenta, a construção de um canto depurado foi feita sem grande esforço. Gilberto continua a cantar quase como sempre cantou. Só os rumores de um feitio difícil e de um perfeccionismo obsessivo perturbam a imagem de um caminho tranquilo. Quando se faz o contraponto entre a voz de Caetano e a voz de Gilberto, é incontornável não mencionar o vibrato e ornamentos arabescos do primeiro, mas creio que a diferença principal começa na ausência de dinâmica em Gilberto. O seu volume de voz surge quase inalterado, não numa canção em particular, mas em todo o seu repertório. Há uma explicação provisória: os temas da canónicos da Bossa-nova fazem alusão a um universo nos antípodas do sangue e sofrimento do tango e do flamenco, por exemplo, prestando-se ao sotto voce gilbertiano. Esta ausência cria e exige espaço para um respeito absoluto do texto (dicção e acentuação) e põe a nu a espécie de baixo-contínuo invertido que é a linha melódica gilbertiana, bem como o tratamento rítmico de discreto virtuosismo (oiça-se a fabulosa versão de Sampa, tão distante das interpretações de Caetano e Gilberto, tão estranhamente natural). Ao celebrado Desafinado, que remete para os acordes dissonantes da Bossa Nova, podia ter sucedido um Arritmado, que homenageasse as brincadeiras rítmicas que João Gilberto faz com o texto. Ora, estas duas características do cantor devem muito ao instrumentista.
O baixo-contínuo invertido de Gilberto é a expressão do seu entendimento vertical da música. A complexidade harmónica da Bossa Nova perturba o guitarrista principiante, habituado aos quatro acordes quadrados com que se domina os grandes temas dos Pink Floyd. Uma canção de Bossa Nova faz-se acompanhar por 10, 15, 20 posições diferentes na guitarra, que exigem uma coreografia digital contra-natura, até ao momento em que se percebe a lógica de economia de esforço subjacente. Esta complexidade harmónica seduziria os adeptos do jazz os princípios dos anos 60, fechando um círculo. Na verdade, a Bossa Nova tinha ido buscar muito ao jazz e à enorme riqueza da música popular brasileira dos anos cinquenta, nomeadamente ao samba-canção. Os arranjos para a guitarra de João Gilberto são de uma sucessão de escolhas nem sempre típicas mas em que tudo parece fluir naturalmente. É aqui oportuno realçar que João Gilberto é mais do que um intérprete superlativo, porque a forma como se acompanha à guitarra faz dele um arranjador brilhante. Ele não existe sem a sua guitarra e é inútil tentar perceber se é a sua voz ou a forma como toca que o tornam excepcional. A guitarra de Gilberto, no seu ascetismo aparente, sintetiza uma série de elementos da música popular brasileira e é quase orquestral (ou coral, se se preferir, dada a preponderância dos acordes de quatro notas).
O depurado tratamento rítmico da melodia é indissocável da batida da(s) batida(s) de Bossa Nova na guitarra, um jeito sincopado de pulsar as cordas que foi roubado do pandeiro e surgiu nos seminais Chega de Saudade e Bim-Bom. A batida de João é hoje indissociável da música popular brasileira e contagiou inúmeros outros estilos, da pop ao jazz. Nas palavras de um entendido:"... os dois princípios articulados na batida da bossa-nova são a regularidade, que rege os baixos, e a não-regularidade, que orienta os acorde na variação de uma base que, algumas vezes, é realmente tocada. Ressalte-se que essa articulação soa sem qualquer conflito pois, no fluxo da canção, a não-regularidade se constitui a partir da regularidade, e a regularidade é reforçada pela não-regularidade." A ausência de harpejos (as notas do acorde tocadas individualmente) ajuda a fundir ritmo e harmonia e consolida o ascetismo da Bossa Nova.
Lê-se com frequência que no final dos anos cinquenta o fenómeno João Gilberto ajudou a popularizar a guitarra (o violão) junto das elites. Há aqui algum exagero. Se é verdade que o violão sempre foi o instrumento das classes populares, "coisa de vagabundo", muito antes de João Gilberto já as elites (inclusive as elites musicais) haviam mostrado interesse pelo instrumento, sendo Villa-Lobos - com os seus estudos para guitarra, a suite popular brasileira, o famoso choro, etc - o melhor de muitos exemplos. Inegável é a influência de João Gilberto em quase todos os compositores brasileiros que depois vieram. O sucessor de João Gilberto tem sido o próprio João. Por reverência ou incapacidade, ninguém se apropriou do estilo dele. Mas há hoje pedaços de João Gilberto por todo o lado.

Já quase no fim de escrever este texto deparei com um artigo que diz tudo o que eu pretendia escrever. É algo embaraçoso para mim, mas aqui fica o enlace. Quem tem conhecimentos de música poderá apreciar este outro artigo.

maio 06, 2005

DESFALK

Parece que em Portugal há um jornal de borla, por sinal bem merdoso, que deve assegurar a gratuitidade pela prática da pirataria. Ó senhores "jornalistas", saquem daqui o que entenderem, mas ao menos deixem um bilhetinho.

Ainda Pacheco

Houve três comentários ao Abrupto cuja leitura recomendo, da autoria de Luís Carmelo, Pedro Mexia e Afonso Bivar. O texto do Fora do Mundo é o mais acutilante, mas pareceu-me injusto e desajustado. Há ali matéria que não incide propriamente sobre o blogue, mas sobre a personalidade do seu autor. A crítica de Mexia resume-se à seguinte afirmação:"o Abrupto cria uma ficção do homem inteiramente público, do homem racional e desapaixonado, como se Pacheco não albergasse, como nós todos, traumas e rancores (visíveis a olho nu, de resto)". E então? Pessoalmente, aplaudo. Já não há pachorra para tanto estilo confessional. Fica por esclarecer se foi uma opção livre de Pacheco. Mexia esquece detalhes importantes. Aqui na blogosfera, JPP pode ser "o Pacheco", mas convém ter presente que este Pacheco podia ser pai de 95% dos bloggers portugueses. Há uma incompatibilidade geracional difícil de ultrapassar. Acresce que Pacheco é uma figura pública de estilo ortodoxo, cerebral e frio. O que queria Mexia? Que JPP surgisse de repente em registo intimista e a exprimir dúvidas? A meu ver, a crítica do Mexia pode ser decomposta em duas questões. Primeira: afinal, o que acrescenta o Abrupto à figura de JPP? Muito pouco. Limita-se a reforçar a figura pública que Pacheco construiu. A consequência é uma certa saturação, resultante da sua exposição multimédia e do seu óbvio défice de simpatia natural. JPP assume-se aqui como uma espécie de figura tutelar, que afixa a sua doutrina e depois se afasta, deixando o frete da discussão aos seus leitores. Esta atitude deve ser bem frustrante para alguns, a julgar pelo que leio por aí, mas é difícil imaginar como poderia ser de outro modo, até por uma questão de disponibilidade. Tirando casos excepcionais, como o Pastilhas do Miguel Esteves Cardoso, a blogosfera nunca dará acesso 24 horas por dia a intelectuais famosos. Ou seja, querer que Pacheco jogue com as mesmas regras que a arraia-miúda parece-me um pouco descabido. E a segunda questão: o que trouxe o Abrupto à blogosfera? O blogue em si é mediano. Digo-o sem reservas. Não é um blogue empenhado, não prima pela qualidade da escrita, não é particularmente original, as séries são aborrecidas, enfim, não conseguiria um décimo da projecção que tem se fosse assinado por um pseudónimo de Pacheco. Percebe-se que o blogue é o refugo da prosa de JPP. Ocasionalmente surgem reflexões muito boas, mas são raras. JPP podia começar a preocupar-se menos com o sitemeter (que implica um ritmo regular de publicação de entradas) e a fazer prosa mais esporádica e de qualidade. Em todo o caso, é compreensível que, tendo ele outros veículos de publicação, o blogue se ressinta. Por outro lado, o impacto da vinda de Pacheco para a blogosfera é inegável, sobretudo na aceitação junto dos media tradicionais. É essa a principal contribuição de Pacheco, mesmo se o sucesso estrondoso do Abrupto dissuadiu outros "intelectuais" instalados de tentarem este meio. Ou, vendo bem, também por isso...

maio 05, 2005

Post ilustrado para o Barlavento Algarvio

sporting_lusa.jpgMano,

Na qualidade de único membro do MI que escreve a verde, felicito-te pelo feito dos leões. Ter crescido no quarto de um sportinguista ferrrenho fez de mim sportinguista por simpatia. Som um adepto sem vergonha, daqueles que não sabem o onze de cor, ficam indiferentes com as derrotas e rejubilam com as vitórias. Tu és feito de outra massa, eu sei.
Parabéns também a estes dois rapazes.

Até à taça,

Difool, John

BnO (34)

A janela do quarto escancarada, a persiana corrida pela metade e a aparelhagem puxada ao limite, debitando música para a rua, eis uma circunstância tipicamente suburbana. Só que jogar ao som dos Joy Division dava-nos pouco alento. Não perseguíamos os passes em profundidade. Com os Iron Maiden ficávamos frenéticos e violentos. Uma vez alguém pôs os Smiths, mas aí interrompemos a partida para poder ouvi-los melhor, sentados na relva. Foram acontecimentos episódicos. Até que surgiu G., um cinéfilo incipiente que se mudara para o nosso prédio. G. tinha um plano: gorducho e feioso, queria chegar ao estilo aristocrático do Ardiles e não olhava a meios. Deslumbrado com o Fuga para a Vitória, acreditou que o futebol podia transformar-se com uma banda sonora. Foi então que durante meses aturámos a experimentação do moço. Da nona às cantatas de Bach, passando pelas violinadas do Smetana, a discoteca do pai de G. – melómano e erudito- foi passada a pente fino, até ao dia em que G. pôs um vinil de Schonberg a tocar e antes de chegar ao campo a malta já lhe tinha partido o vidro da janela, tal fora a nossa irritação. Nem isso o demoveu. A finta de um Ardiles imenso na escuridão do cinema Império perseguia-o. Seria também no cinema que G. encontrou a solução, enquanto via o Chariots of Fire. Praticar desporto ao som de Vangelis é kitsch, dirá o leitor. Ouvir Vangelis é Kitsch, atalhará. Impõe-se um ponto de ordem: há uma cinematografia que sobrevive da exploração do prazer inconfessável que é vibrar pelas vítimas, pelos mártires e pelos heróis, tudo confluindo para o momento em que o protagonista dá a volta ao seu destino. Vangelis é a expressão acústica dessa trafulhice. O problema é que o expediente funciona. Quando G. colocou a banda sonora do Chariots of Fire, passámos todos a levitar, como se voássemos baixinho. O tempo desacelerou, os nossos gestos eram grandiosos e feitos em câmara lenta, como se estivéssemos a ser imortalizados por quatro câmaras de televisão. G. galgou os lances de escada e quando saiu do prédio percebeu que tinha acertado. Antes de entrar no campo, despiu a T-shirt brinde com algum protocolo, revelando finalmente a sua camisola listada a azul-celeste e branco. Foi como Osvaldo Ardiles que deu o primeiro pontapé. O sonho durou dois dias, até o pai lhe ter interditado Vangelis no hi fi topo de gama.

JJpiano forte

Todos os blogues surgiram, directa ou indirectamente, como reacção à Coluna Infame e ao Abrupto. Pacheco Pereira, em particular, está de parabéns. Foi o único intelectual instalado a aderir à febre bloguista, um fenómeno curioso, tanto mais que a resistência das elites letradas à blogosfera continua a fazer-se sentir.

SOS

Em breve vamos começar a disponibilizar mais algumas torturas acústicas. Perguntinha:qual é o melhor site (estável, de confiança, barato e, se possível, nacional- bonito, Tulius, bonito) para alojar ficheiros com mais de 1 mega?

maio 04, 2005

O desamor continuado

Perdoa se te explico a Primavera
São ritos ancestrais e se algo sobra
A precipitação que te apoquenta
Faz do tesão mais que um desejo, um plano
Começa-se também p´ra se acabar
Não olho para trás, mas sei de cor

Não me falem de virgens ao jantar
Gozo maior não posso conceber
E foi trunfo que usei ainda novo
Apresentar o mar ao meu amigo
Que só olhara montes e planície
Perdi depois o amigo, extraviado
Melhor fim não consigo imaginar

maio 03, 2005

Quem diria...

O homem mais justo da blogosfera está de volta.

Anti-clímax

Ia eu deslumbrado pelos caminhos deste senhor quando, subitamente, aparece uma fotografia da Joana Amaral Dias. A coisa só se explica por um arrebatamento patriótico. Enfim, um patinho feio não destrói a Primavera. Vão ao E Deus criou a mulher, um blogue onde as características sexuais secundárias têm, na verdade, o papel principal. Não aconselhável a misóginos e a feministas ortodoxas.

BnO (33)

Futebol, dúvidas metafísicas, crise religiosa e miúdas. Um ano de mudanças. Janeiro. Cristina no passeio, junto à linha lateral, pega numa bola transviada, demora-se num capricho e eu grito de impaciência. Março. Cristina ao fundo da rua, vindo da paragem do autocarro, perna esticada para a frente, a parar a bola que fugia com a palma do pé. Só consigo pensar no ridículo do gesto. Maio. Cristina a sair do prédio, surpreendida por um balázio contra a parede, o rosto zangado, a três quartos, os nossos olhares cruzados, um primeiro sobressalto. O que é isto? Julho, não acerto um passe e a Cristina foi para a terra dos pais. Setembro, Cristina bronzeada num macacão verde, um número absurdo de alças sobrepostas, os braços nus, o cabelo liso pelo pescoço. Vou numa corrida desenfreada e inútil, a bola perde-se pela linha de fundo, na direcção dela. Cristina flecte as pernas, à guarda-redes, recebe e abraça a bola, olha para mim com um sorriso e eu, esbaforido, sorrio e engasgo-me. Peço-lhe a bola, que ela se apressa a esconder atrás das costas. Aproximo-me, tento recuperar o esférico (sempre fui um bom defesa) e nisto descubro-me abraçado a ela, mamilos com mamilos, o corpo dela a fugir, as mãos dela atrás das costas e o seu pescoço à minha mercê. O que é isto? Tiro-lhe a bola e devolvo-a logo, num balão alto, sossegando o pessoal. Retomo a minha posição em campo. Ainda olho uma última vez. Cristina sorri e eu também. Novembro. Chuva miudinha. Jogo a meio campo, já sou ateu e sou praticamente de esquerda. Cristina foi apanhada desprevenida e recolheu-se junto de um plátano. A bola - já se percebeu - sai do campo, em sua direcção. Dessa vez Cristina não lhe toca e o esférico morre na estrada, numa das rodas traseiras do 21 da Carris. Aproximo-me, incrédulo. Então ela diz: "não me queres salvar dos teus amigos?"

maio 02, 2005

O promíscuo feminino

Os meus amigos machos sexualmente hiperactivos e com espírito de coleccionador são olhados com alguma simpatia, mas não saem da categoria de animais fodilhões, pouco escrupulosos. As minhas amigas fêmeas sexualmente hiperactivas e com espírito de coleccionador são olhadas com alguma censura, mas procura-se sempre uma explicação de tipo redentor para o seu comportamento: a cura ou a procura empenhada do grande amor. Quem olha e teoriza, em ambos os casos, são os meus amigos e amigas (sexualmente moderados ou não). Quarenta anos de feminismo não chegaram para conceder à mulher o direito ao coito descontraído. Muito haveria a dizer sobre o tema.

BnO (32)

Quem espreitava à janela? Havia um rapaz, com uma deficiência motora grave, que por vezes nos observava a jogar, mas sempre com desdém. Era conhecido como o "atleta", alcunha da autoria dos bons selvagens que éramos, no sentido anti-rousseauniano da expressão. Não podendo explorar o corpo, o "atleta" dedicava-se à electrónica. Naquele tempo ainda não havia hackers e qualquer tipo com um raciocínio a tender para o fluxograma era atraído pelos circuitos integrados. Só as bestas sadias caíam nas malhas do futebol. Um outro rapaz, fisicamente impecável, mas de pensamento excêntrico, passou a infância à margem dos jogos. Por vezes ia brincar com ele. Fazíamos filmes de animação, coisas complicadas para a época. Havia um terceiro alienado, a talhar-se para artista plástico e que não dava um chuto na bola. De certa forma, jogava-se futebol por defeito, à falta de vocação.
(continua)

maio 01, 2005

BnO (31)

No tempo em que os magistrados andavam de autocarro, os nossos pais regressavam a casa, na cozinha as mulheres avançavam o jantar e a malta brincava lá fora. Não fosse pela falta de alfaias agrícolas sobre os ombros dos homens, dir-se-ia que ainda vivíamos no campo. Apeavam-se aos pares da carreira do 81, vindos do coração da cidade. A imagem que me ficou foi a das tardes primaveris, embora fosse certo que também trabalhassem mesma Praça do Comércio durante o Inverno. Como tomavam sempre o percurso mais curto da paragem de autocarro até casa, acabavam por atravessar o campo durante uma partida. Por vezes não resistiam a dar um pontapé, invariavelmente torto, por culpa do peso dos processos que traziam na pasta e lhes deslocava o centro de gravidade (uma consequência negligenciada da morosidade da justiça). A graça era tolerada, mas apenas quando apanhavam uma bola morta a meio campo. Depois desapareciam no prédio e nunca tantos cinco minutos se acotovelaram numa hora, quando nos começavam a chamar para jantar e nós insistíamos em prolongar a partida até ao lusco-fusco. Ninguém queria ser o primeiro a ceder, mesmo que estivesse a ganhar. Pura peer pressure. Do tolerante "então, quantos marcaste?" ao "vai já para o teu quarto! Não voltas a jogar até ao fim do mês...", na chegada a casa cada um debatia-se com a sua circunstância, pormenor ignorado na rua. Eternizar os fins de tarde era inevitável, com aquele céu de pintor, as andorinhas em voo acrobático, a pardalada em algazarra numa árvore ninho e as bagas nos arbustos, mais vermelhas, mais alaranjadas e mais venenosas do que na realidade, a acreditar na botânica do subúrbio. No tempo em que os magistrados andavam de autocarro, reparo agora, não tínhamos ainda saído do campo.

BnO (30)

Ah, a ciganada. Em rigor, pela tez da pele, fisionomia e ofício, não seriam ciganos. Aos nossos olhos, eram ciganos todos os que nos Olivais vinham de agregados familiares a roçar o limiar de pobreza. O bairro era um condomínio escancarado, contrariando uma tendência que viria a fazer-se regra. A habitação social misturava-se com prédios para a classe média e a tensão era omnipresente: nas ruas, nas pracetas, na escola. Havia zonas proibidas, lugares com seringas pelo chão, chungas de perna alçada à entrada do supermercado. Devo ter assistido a quatro ou cinco roubos da janela do meu quarto. Um ciganão marcou-me num homem a homem sem defeso durante anos. Percebi então nos habituamos ao medo (continua). Uma vez fomos atacados por três deles, que se haviam emboscado nas arcadas de um prédio, lugar de passagem. Traziam ponta-e-molas e tinham um jeito latino de roubar, verborreico, não resistindo a relatar outras façanhas enquanto nos palmavam os relógios e obrigavam um de nós a descalçar os Adidas. Daquela vez, o mais pequeno dos três, tentando ganhar o respeito dos mais velhos, usou-me como figurante para o seu relato, sussurrando-me antes um "Não te preocupes, eu não te espeto". Fiquei com a navalha a milímetros, mas tranquilíssimo. Cheguei mesmo a apreciar a empolgante historieta do moço e por pouco não me feri. No fim, quis até fazer-lhe uma pergunta, mas dada a condição de um dos meus companheiros, descalço e lacrimejante, optei por demonstrar alguma solidariedade e refreei-me. Não sendo propriamente corajoso, aquela calma reflectia apenas uma inabalável confiança nas pessoas, que me levaria a ser roubado repetidas vezes ao longo dos anos, com dispensa de ponta-e-mola. Escusado será dizer que quando nos gamavam a bola não havia calma que resistisse; nem fôlego, que os cabrões corriam como desalmados. O ajuste de contas surgia apenas em dia de partida. Aí os ciganos ganhavam estatuto de advers]arios leais e nós fazíamos de conta que a bola nunca nos pertencera. Era como se renascêssemos sem passado no começo de cada jogo. Antecipando que uma certa consciência de esquerda fará do leitor um adepto dos mais desfavorecidos, é algo constrangedor recordar que demos grandes cabazadas à ciganada. Mas, agora à distância, quem sabe se tolerando uma filosofia de Robin dos Bosques por conta própria, reconforta-me acreditar que as nossas bolas, depois de passarem de estrato social, terão também transitado de geração.

SOS

Procuro bom manual de prosódia. Agradecido.

(Este post tem uma interpretação literal: procuro mesmo um manual de prosódia).