O que dizer de Litbarski, uma excepção genética e cultural? Como explicar o talento de um homem tão pequeno, para mais alemão? Há nos arquivos da RTP pérolas de Litbarski, apontamentos mais do foro do bilhar artístico do que do futebol. Nos Olivais, a camisola da selecção alemã devia-se a ele. E Zbigniew Boniek? Como a malta gostava de dizer Zebínio Bonieque... Talvez nos Olivais Norte houvesse uma camisola da Polónia. Boniek seria hoje um jogador absurdo. Nos anos oitenta era apenas genial, mas um jogador cheio de malícia e anti-jogo, com espessura shakespeariana, capaz de aguentar cinco, dez, quinze, vinte, vinte e cinco segundos com a bola junto de uma bandeirola de canto, para desespero dos dois (três?) defesas que o tentavam desarmar. Detalhes de grandes craques datados. Intemporal, só mesmo a explosão de euforia de Tardelli, em 1982. Como explicar tamanha alegria? Uma final de um Mundial com o adversário certo, de acordo. Mas apenas um dois a zero, um golo de consolidação, um bom pontapé em desequlíbrio à entrada da área, insuficiente para figurar numa selecção de golos. Tardelli deve ter sentido que aos vinte minutos e quarenta segundos de jogo o seu momento tinha chegado. Quase toda a gente devia ter direito a uma explosão daquelas, sem dar lugar a risota e sem levantar suspeitas. Infelizmente, nem nas maternidades se vê um pai a correr pelos corredores com a garra do Tardelli. (continua)
Ah, Le sourire de Marko... van Basten. Relembro a história do outro Marko, o Kraliévitch, herói sérvio que não conhecia a dor. Em fuga depois de ter sido denunciado aos turcos pela amante, o corpo de Marko dá à costa e é encontrado pelos seus inimigos. Desconfiando de uma morte tão fácil, a amante contagia os Turcos com a sua dúvida. O corpo do sérvio é sujeito a uma série de atrocidades, mas nem crucificado, nem com carvão em brasa sobre o peito, concederá Marko a menor manifestação de vida. É então que a amante, num curioso anacronismo que nos sugere um conhecimento das boutades de Wilde, faz passar Marko pelo desafio mais difícil: o de resistir à tentação. Diante do espectáculo de luxúria assegurado pelas mais belas dançarinas da região, o corpo de Marko, imóvel até então, manifesta-se, não da forma que o leitor incauto possivelmente imagina, antes num discreto mas revelador sorriso, que teria sido a sua perdição, não se desse o caso de a mais bela entre as dançarinas haver reparado e se ter apressado a tapar-lhe a cara com um lenço. Convencidos os Turcos da morte de Marko, dá-se o volteface, não demorando o herói sérvio a vingar-se da amante, para logo depois se escapar com a dançarina que o salvara. Trata-se de um edificante conto de Yourcenar sobre o desejo ou, mais prosaicamente, sobre a importância do sorriso. O sorriso de Marco van Basten, por exemplo, não terá sido questão de vida ou morte, mas encheu os relvados como a manifestação mais pungente de satisfação plena e confiança. van Basten marcava, sorria e no dia seguinte a malta tentava imitar-lhe o volley e o sorriso, falhando ambos. Bons tempos aqueles, em que já não havia muçulmanos nos Olivais e das amantes só ouvíamos rumores que vinham sempre dos prédios vizinhos.
...ao Montanha Mágica e ao Conta a Corrente, ou como conseguir felicitar alguém sem recorrer às habituais ressalvas para a prevenção da lamechice que geralmente costumam castrar este tipo de manifestações. Bem, ainda não foi desta. A aprendizagem continua.
A transição de blogue para livro não me parece fácil. Pode-se ver o livro como troféu ou como arquivo, mas a verdade é que não me imagino a ler livros que nasceram de blogues. Contrariamente ao que já li (e se calhar até escrevi), a qualidade literária dos livros é superior à dos melhores blogues. No blogue impera a escrita rápida, pouco trabalhada, trapalhona. Isso dá-lhe um certo encanto, mas um encanto que dispensa lombada. Há, depois, a falta de estrutura. Quase todos os blogues que conheço são demasiado desorganizados (este é um exemplo) e excessivamente vorazes. Nem o registo diário os reabilita. Excepções? Duas ou três. Uma delas acaba de sair do armário. Durante meses o Educação Sentimental recusou enlaces e cresceu no submundo dos sussurros de blogger. Quem nunca passou por lá deve começar a lê-lo do princípio ao fim. E vice-versa. E vice-versa.
Das árvores do bairro, de entre as oliveiras alinhadas ao longo do passeio, os frágeis plátanos que ainda cresciam amparados por uma estaca e os plátanos robustos que trepávamos de noite e feríamos à navalha, os abrunheiros de cor indefinida, entre o vermelho e o roxo, dos ciprestes que indicavam o cemitério, o chorão isolado que me protegia, os choupos por onde sob a copa espreitei o céu, de todas estas árvores, as faias eram as mais queridas. E as mais úteis. Porque as faias fazem boas balizas, sobretudo as árvores vivas, de tronco aprumado e perímetro para um abraço, a promover um ligeiro aumento da percentagem de tiros ao poste. Acrescente-se que as raízes das faias não se manifestam à superfície, como convinha aos guarda-redes e aos avançados com o vício do voo de peixe. Mas há algo mais subtil. Não sei se é pela arquitectura do xilema ou se pela densidade da seiva bruta que por ali corre, o certo é que o som de um petardo naqueles postes tinha o arredondado de um grave de contrabaixo caro. Há também relatos dos balázios outonais do Samagaio, que supostamente despiam as copas num instante, numa chuva de folhas que marcava o início da estação, mas aqui estamos claramente no domínio da mitologia suburbana.
Entre os 7 e os 14 anos tinha dois sonhos acordados recorrentes. Ambos resultavam de apropriações pouco processadas de uma série de televisão (Uma casa na pradaria) e de um livro (Robinson Crusoé). Comecei por ser como o Michael Landon: cortava lenha, construía a minha casa, dominava a técnica da cunha, o encaixe perfeito e, claro, tinha uma carroça. Mudei-me depois para ambientes mais tropicais, para fazer essencialmente o mesmo (construir a minha casa), só que sem carroça e com ferramentas de carpintaria improvisadas. O único desvio às fontes era a exclusão da família de Landon (filhas e mulher) e, mais tarde, do Sexta-feira. Esta aprendizagem da misantropia, certamente explicada por qualquer regra de três simples da psiquiatria, foi abruptamente descontinuada em 1985, no dia em que marquei aquele que seria o meu único golo de livre directo e, soterrado pelos meus companheiros, com a cara a cheirar a relva, antevi os encantos do convívio. (continua)
Prosa sobre caca, de António Barreto: "Tal como há cem anos, ou duzentos, as classes com meios adoptaram o que vinha de França e de Londres, sobretudo as rendas e o Chablis, mas não a leitura nem a limpeza, também agora os meus vizinhos adoptaram o canídeo, mas não a vassourinha. Felizmente que existe, como sempre, o Estado providência. Na verdade, a freguesia pôs à disposição dos residentes, cortesia do Estado, pás e luvas. Não temos emenda!" Com o devido respeito, isto é mentira. Em França (em Paris, para ser exacto) não se usa vassourinha. Aposto a minha mão esquerda (sou canhoto) em como o número de bostas de cão por área de passeio em Paris ultrapassa o que se vai pisando em Lisboa. É irrelevante para as solas de sapato saber se o resultado normalizado pelo número de cães altera a comparação ou não. A imagem que mais depressa associo aos meus 5 anos de existência parisiense não é a torre Eiffel, são os lancis de passeio. Um tipo em Paris desloca-se com a cautela de um soldado em território minado. Se a bosta de cão explodisse, em Paris eu estaria perneta antes do meio-dia, todos os dias. Ah, falar em Estado Providência quando uma junta de freguesia instala uns postos sanitários para canídeos é uma espécie de cúmulo do espírito crítico, mas nesta crónica Barreto está imparável. Chega a afirmar que a Lapa, contrariamente ao que se diz, não é um bairro elitista. Pois não. Aliás, a instalação dos tais postos sanitários na Amadora vai conduzir a um decréscimo da criminalidade.
Quem nunca andou acima de 120 km/h na auto-estrada escusa que comentar este post.
Na revista Grande Reportagem, o rácio área da fotografia do cronista para área de texto é absolutamente vergonhoso. Com tantos analfabetos e iletrados, esta é seguramente uma medida que visa conquistar novos públicos. A ser assim, sugiro que troquem o Barata-Feyo pela Marisa Cruz. Não há "y" redentor.
Prosa de JPC no Expresso: "O GOVERNO espanhol decidiu remover a última estátua de Franco na capital. Operação nocturna, com guindaste e fraca audiência. A noite sempre serviu para isto: esconder as nossas misérias, revelar as nossas verdades. No fundo, a velha tentação cosmética de corrigir o passado, apagando os aspectos mais lúgubres..." Isto é absolutamente delicioso. JPC parece preferir as operações diurnas com audiências forjadas. São gostos. Já a visão de uma cidade acumulando bustos de ditadores na praceta, como um rosto que envelhece naturalmente, enfim... Imaginemos um JPC adolescente, enamorado de Andreia, ao ponto de tatuar na peitaça o nome da pequena, em letras góticas e garrafais. O namoro corre mal. Anos depois, JPC conhece Sónia , por quem se apaixona perdidamente. Na primeira noite juntos, vamos encontrar Sónia lavada em lágrimas e um JPC hirto de ortodoxia: "minha querida, eu não cedo à velha tentação cosmética de corrigir o passado, apagando os aspectos mais lúgubres. A tatuagem fica."
José Gil. Nunca li um livro da criatura. Não posso opinar sobre a sua obra nem sobre a sua posição no ranking dos pensadores, que o qualifica para o Masters, a ter lugar em Atenas, em pleno Parténon, de 20 a 23 de Maio, com transmissão pela Eurosport. Agora, ouvi-o com atenção em duas longas entrevistas. E o que nos diz Gil de novo? Nada. O homem Limitou-se a inventar e definir terminologia. No ranking dos conversadores, José Gil não chega a assegurar os mínimos olímpicos.
Ana Sousa Dias. Aparentemente é a nossa melhor entrevistadora, mas só mesmo quando os media são dominados por machos cinquentões é possível sustentar tal ideia. É verdade que a senhora é competente, sabe escolher os entrevistados e está uns furos acima da mediocridade generalizada. Mas, que raio, serei eu o único a reparar neste excesso de entusiasmo? A entrevista ao Sousa Tavares, por exemplo, foi uma enorme estopada. A onda da entrevistadora cúmplice é chão que deu uvas. O que falta a Carlos Vaz Marques? Um par de saias e um tailleur.
Há muitos anos fui mandado parar pela brigada de trânsito da GNR, soprei para o balão e: "ó amigo, você está com uma percentagem de mulherio no sangue acima do limite legal. O que é que tem a dizer?" O homem mostrou-me o aparelho, o balão ainda insuflado, com elas lá dentro, nadando (estilo bruços), minúsculas e felizes. "Parecem peixinhos de aquário", disse eu. Saiu coima.
Daqui a uns anos haverá patrulhamento ideológico nas estradas, polícias de retórica bem oleada, com mestrado em filosofia: "o senhor fez a aproximação à rotunda absorto nos problemas de sustentação da barca de Gusmão. Desta vez ainda passa."
Este ano o meu problema são os sinais de trânsito em Lisboa. Perco-me sempre, o que até não é mau. Campo de Ourique? Um bairro fanstástico, mas que só visito quando me perco por aí. O problema é outro e resulta de uma interpretação íntima da sinalética rodoviária. Uma placa para os Olivais nunca é apenas uma placa para os Olivais; começo logo a ouvir vozes ("chuta-me essa merda para a frente, foda-se!"). Uma interdição de virar à esquerda é recebida como uma provocação. Há dias em que os semáforos estão sempre verdes. Não me ter espetado ainda é para mim um mistério.
Não pede um café
Sem antes escrever um manifesto
E todos os dias inventa a pólvora
Azar o nosso não ter ofício
Não se lembrando do rastilho
Nunca chega a explodir
Eu admiro a pirotecnia
O fogo de artifício
Não, o fogo de artifício mesmo
Sem artifício, o fogo apenas
De artifício.
O PS chega ao Governo e o País Relativo decide acabar. Isto de blogar só dá pica quando se está na oposição. Se o Garcia Pereira tivesse ido para o Parlamento, eu também já não andava por aqui...
A mais recente publicidade a uma revista para homens tem sido quase ignorada, tendo em conta a suculência do tema. Se é verdade que os anúncios estão no limite do mau gosto, é inegável que o "gostar de fruta é de homem" pode fazer muito pela melhoria dos hábitos alimentares dos portugueses. Acresce que estamos perante uma publicidade honesta. A revista em questão é um produto de pornografia do tipo peso-pluma e tem a publicidade que merece. Não há nada pior que uma campanha publicitária a tentar puxar o produto para cima. Por fim, percebe-se ali a frustração do criativo, que certamente tinha outros frutos e outras poses na cabeça, prontamente vetadas pelo cliente. Detalhes, detalhes, pois a campanha tem uma falha estrutural: tudo seria diferente - mais patusco, mais telúrico, mais consensual, mais digno, até - se em vez de fruta a opção tivesse sido a hortaliça. "Gostar de hortaliça é de macho". Olha que bem.
Não sei que lastro se acumula dia a dia
Se é como uma erosão das noites nas manhãs
Ou da poeira que a tarde traz quando a rua
Nas esquinas me lembra os caminhos que errei
Estou num desses dias, a prumo no fulcro
Nem triste nem contente, escondido do mundo
E só me recupero gastando o meu dia
A cada trinta paro e do pouco que faço
(Não chega a ser conserto, é só uma afinação
Um modo de ajustar o sonhado ao possível
Bem a salvo do inverso que faz os dementes)
Fica um saldo aprovado, o valor corrigido
O ajuste que me anima mas só amanhã.
Aplaudo a medida, mas ainda bem que só chega agora. O meu pai é magistrado e uma infância feliz explica-se, também, pelas longas férias em família.
Ele não perdia tempo com prosa sobre automóveis; ela não lia revistas do coração. Dito isto, na hora da leitura em voz alta, todos sabemos quem sugeriu Luiz Pacheco e de quem propôs Adília Lopes.
As melhores surpresas que tenho tido na blogosfera surgem quando o blogger se mete a fazer música. Não me refiro a colocar um MP3 do Sinatra online, coisa que já não aquece ninguém. É quando o blogger pega numa guitarra e junta uma malta amiga que a coisa sai melhor. Às vezes a coisa fica como um phonoroid. Só quem já alinhou nestas pândegas sabe do gozo da coisa. Raios, que saudades...
A vitalidade da pop e do rock não se explica pela música, mas resulta do capricho adolescente - eventualmente incontornável para a construção do "eu" (ena!) - que nos faz gostar do que poucos gostam. Vem isto a propósito de conversas de gajos. Sempre que a rapaziada se desfaz em suspiros pela Joana amaral Dias eu começo a bufar. Não percebo as razões de tanto entusiasmo. Nisto surge sempre alguém, de sobrolho arqueado, que lança outros nomes, como forma de averiguar do meu grau de lucidez. Perante a aprovação unânime que a Scarlet Johanson parece gerar, chegamos a um impasse e quase renasço.
Emendamos os corpos nas sombras do quarto
Troco órgãos por sentidos e ouves ao ouvido
Síncrono o peito não nega só que não cede
Não te tenho na mão, decoro-te nos dedos
Mas o tremor que se converte em riso, o que é?
Perfeitos na metade de quem não se entrega
Será noite outra vez e aqui estarei de novo
No quarto nu está mal corrida a persiana
Não adquiri modos e timbres no estrangeiro. Citando um amigo, que parafraseou um verso de uma canção conhecida: "eu sou um labrego em Nova Iorque".
Nada mais fácil do que passar da bibliofilia à bibliomania. A causa próxima para este comentário é a série de memórias de livros e de tardes passadas em bibliotecas que tem surgido no Abrupto, mas estas manifestações são mais antigas e cortam a sociedade civil transversalmente, longitudinalmente, sagitalmente, obliquamente e em picadinho. Quem pôs tudo em pratos limpos foi o Desidério Murcho (não consigo encontrar o link) e só me resta concordar com o jovem filósofo. O livro como objecto não me interessa. Se aparecer por aí um gadget tipo livro electrónico, para onde podemos carregar o conteúdo de um romance e depois usar sentados num banco de jardim, sem problemas de reflexos no ecrã e de autonomia energética, troco todos os meus livros por CDs. Se alguém colocar toda a literatura online e em hipertexto, eu aplaudo. Odes ao livro no registo sensorial são uma profunda chatice. Não me interessa a experiência táctil do virar a página, como não me interessa o cheiro ou a capa. O livro ganha alguma importância e mérito como objecto se provar que pode ser útil para alguma função, como corrigir uma diferença de tamanho nos pés da mesa da sala de jantar (as edições delgadas de poesia são particularmente úteis). Os meus livros estão todos espatifados, excepto os romances do Lobo Antunes, que geralmente abandono antes da página 50. Dobro as páginas (chego a dobrar a dobra), escrevo nos livros (a esferográfica se não houver um lápis à mão), deixo os livros abertos em esparregata e - é verdade - como torradas enquanto leio. Há migalhas imortalizadas como folhas secas entre as páginas 80 e 90 do O ano da morte de Ricardo Reis, por exemplo. Ah, não é preciso lembrar que a gordura deixa manchas fugazmente translúcidas, pois não? Um dos momentos de maior pedantismo mediático que testemunhei foi num antigo Flashback, quando o Pulido Valente ainda estava escalonado e entrou num delírio sinergístico com Pacheco Pereira. Produziram-se então afirmações no género "eu já não leio livros publicados em Portugal" (ou em Português, não posso precisar). Na altura eu era um jovem adolescente e fiquei escandalizado. Hoje reconheço que faço o mesmo, mas por razões mais prosaicas. Deixei de ler livros editados em Portugal, mas apenas pela qualidade da encadernação, que é péssima e faz com que as folhas comecem a voar antes de concluir a leitura dos romances. Cem anos de solidão? Tenho 5 exemplares, sensivelmente um por geração da família Buendía, e só assim consegui chegar ao fim. Um livro existe para ser lido. Ponto final. Para fetiche prefiro as maçanetas das portas velhas.
Estava quase morto e mandei chamar os meus amigos. Isto de estar quase morto tem as suas vantagens. Mandar chamar os amigos, por exemplo. Mais: os amigos aparecerem. Se pudesse, voltaria a estar quase morto. Como tinha pouco tempo, fui obrigado a seleccionar os meus amigos e descobri a lucidez dos moribundos. Não hesitei um segundo, soube precisamente quem mandar chamar. Ela também apareceu, digamos que numa posição do meio da tabela. Foi um pouco caprichosa. Queixou-se de que já não fazíamos amor. Tentei em vão explicar-lhe que estava ligado a um ventilador e que fazer amor era impraticável. Ela amuou, fez beicinho e bateu com a porta. Não fiquei particularmente irritado. A minha pulsação manteve-se estável e ainda pude despedir-me dos amigos da segunda metade da tabela. Morri em paz.
A interacção cibernética que mantenho com o Maradona e o Macguffin, uma rotina muda e cega de golpes lentos do fundo do court , demorou cerca de três anos a ser interrompida por um telefonema ou um encontro ao vivo. Ambos aconteceram ontem. Foi o meu fim de tarde transcendental. O maradona deve ser o tipo mais engraçado a Sul do Mondego que nunca recebeu um cheque das Produções Fictícias. São 170 cm de puro gozo. Ele começa com o seu discurso sem peneiras e ninguém pode ficar indiferente aos seus 172 cm. Olhava eu para ele e pensava: "raios, pá, 175 cm de simpatia e só agora trocamos números de telefone?" Foi uma conversa de múltiplos atropelos, ele vivíssimo, iluminando-nos o rosto do alto dos seus 182 cm, eu reduzido ao meu humor pouco rápido. Ao fim da noite - prematuramente encurtada por motivos de força maior (afinal o maradona é um tipo responsável e até trabalha)- despedimo-nos com um "até já" e o Fernando teve de se curvar para não bater com a testa no dintel da porta do bar. Gente grande, acima de 198 cm, tem problemas que o comum dos normais não imagina.
Nesse mesmo dia conversei ao telefone com o Macgufin e percebi - sendo isto uma agradabilíssima surpresa - que o Carlos é um alentejano de gema, enraizado e com um sotaque fantástico, ao contrário deste escriba, que tem uma costela do Alentejo e outra da Madeira, sotaque de lugar nenhum e morada oscilante.
Ponho-me no meu lugar: o flirt contínuo entre o Carlos e o maradona é uma das mais comoventes histórias de amor da blogosfera portuguesa. Longe de mim querer perturbá-la. No fundo, no fundo, eu só peço uma almoçarada no Fialho.
Qual a probabilidade de encontrar ao acaso na feira de Carcavelos 13 nomes com a pinta dos que se seguem: Bernardo Pires de Lima, Diogo Belford Henriques, Eduardo Nogueira Pinto, Francisco Mendes da Silva, Inês Teotónio Pereira, Jacinto Bettencourt, João Marques de Almeida, João Vacas, José Bourbon Ribeiro, Luciano Amaral, Pedro Marques Lopes, Rodrigo Moita de Deus e Vasco Rato? Com a excepção de João Vacas (honrosa excepção), o grupo exala elitismo, cosmopolitismo onomástico, os aromas que entram pelas janelas da quinta nas manhãs de Sábado. Numa época em que tudo se baralha, rica em trânsfugas e revoltados benjamins de ilustres famílias lusitanas, é reconfortante saber que a direita portuguesa conservadora e católica já assegurou os bons nomes por mais uma geração.
Adenda: este post suscitou alguns comentários e o Ocidental PPM topou-lhe as debilidades. Só não estou de acordo no que foi dito sobre o nome "Vasco Rato". Se é verdade que "Rato" está longe de ser inspirador, "Vasco" é um nome próprio suficientemente beto para reabilitar um "Vasco Rato" por inteiro ou, inclusive, um "Vasco Torneiro-Mecânico". Não vale a pena tresler estas linhas. O censor mor desta página chama-se Vasco, mas aqui tal nome funciona contra ele.
Chegámos aos antípodas. O MI é lido em cinco continentes. Conquistada a Terra, não se arranja por aí um rádio-telescópio?
A publicidade em Portugal é dominada pelos anúncios a telemóveis, em qualidade e quantidade. Nos EUA a publicidade é dominada pelos anúncios a produtos que corrigem a disfunção eréctil. Há várias interpretações para esta diferença. Por exemplo, é possível que os portugueses resolvam todos os seus problemas a conversar. Esta explicação é altamente improvável mas ajudaria a perceber, de uma assentada, a fraca penetração das drogas supracitadas e o sucesso imparável dos telemóveis no mercado luso. Como explicar, afinal, que esta indústria não comece a definhar por falta de assunto?
Jovem florista no Rossio afugenta mendigo embriagado com um chapéu de sol cor de laranja fechado.
Rapariga em pose maneirista, envergando vestido de chita com padrão à papel de parede dos anos 70, fotografa fachada na rua Brancamp empunhando uma Nikon.
Cigana que vendeu castanhas diante do hospital de Santa Maria tem uma orquídea sobre o assador apagado.
Prostituta sem escorbuto, com grosso crucifixo ao peito, botas caneladas e saia de padrão axadrezado (que deve ter um nome estrangeiro e não pode ser apenas um padrão axadrezado) não arranja cliente.
Com sotaque a transparecer alguma confusão babélica, a rapariga serve uma entrada de endívias na mesa do lado, sem comprometer a irrepreensível silhueta do terço superior de seu tronco e os olhos de rainha egípcia.
(continua)
*Notas sobre Lisboa com tolerância zero para a reflexão, a indução, a dedução ou qualquer outra manifestação da razão que não assente nas impressões imediatas que os sentidos vão recolhendo.
Sempre na vanguarda da invenção, o MI inaugurou aqui o conceito de post âncora. No post âncora recria-se um blogue dentro do post. A inspiração na estrutura dos fractais é óbvia. Com algum talento, conseguiríamos recriar o blogue no parágrafo e, num estadio subsequente, o blogue na frase. A distância que vai desta elaboração teórica ao resultado final põe a nu a incapacidade que as artes modernas têm em vencer o cepticismo popular: na prática, estamos apenas a falar de um post que vai sendo acrescentado.
A rapaziada do Gato Fedorento está em toda a parte: António vitorino fala deles, RAP começa a riscar a esfera de influência de Pacheco Pereira, a publicidade fez deles ícones, o DVD é vendido e pirateado como poucas vez se viu em Portugal. Pessoalmente, dá-me imenso gozo. O humor é bom e os tipos parecem ser malta porreira. Escusavam era de aparecer nas respostas dos meus alunos: "famílias multigénicas? Fonseca e Meireles", "Identificar a afirmação errada? Tá mal! Tá mal! Andas a comer a tua dama que nem um dread". Não, não sou professor do ensino primário.
Até Sexta-feira passada a blogosfera era para mim um conjunto de nomes sem rosto; desde então é um conjunto de rostos e muitos nomes. A relação biunívoca ainda não foi desta. Da próxima vez começo a beber mais cedo.
Sem querer meter o pé no pântano que é uma discussão sobre quotas, a ideia de paridade entre homens e mulheres no governo parece-me absurda. Só consigo justificar a existência de quotas como medidas temporárias para corrigir desequilíbrios sociais no acesso a oportunidades de formação e emprego (e mesmo aqui hesito). Ora, ninguém planeia a vida para ser ministro (enfim, Santana não conta). Ninguém fica no desemprego por não ser ministro. A birra das mulheres socialistas não faz sentido. Como não faz sentido criticar a falta de mulheres no governo sem sugerir nomes. Apresentem-me um governo sombra de tendência duplamente rosa e vamos discutir, caso por caso, se as alternativas femininas são melhores. Isto arrumaria a questão da competência. Perguntemos depois a essas mulheres se estariam dispostas a aceitar o cargo. Isto arrumaria a questão da motivação. Longe de mim defender que os homens são, em regra, mais competentes. Agora, na motivação, na ambição, no espírito competitivo, na fuçanguice, tenho poucas dúvidas de que os homens estão, EM REGRA, uns furos acima (vá, crucifiquem-me). Cruzando competência com motivação, sempre queria saber quantas mulheres sobrariam.
Os salários das mulheres são mais baixos? O BCP é o BCP? Certo, mas isso é outra conversa. Gente excepcional consegue saltar todas as barreiras. E é de gente excepcional que falamos (idealmente) quando pensamos na composição do governo. Provem-me que se perdeu uma grande vocação e um talento fora-de-série só porque se tratava de uma mulher (vá, agora a esponja encharcada em vinagre).
Alguém teve a delicadeza de perguntar ao campeão Paul Tergat se ele gosta dos Queen e do incontornável We are the Champions? Tentemos imaginar a existência do queniano no caso de ele não suportar os solos transbordantes de lirismo do Brian May e o tom assertivo do Mercury. Pois é...
É dos livros: queres ser um bom cronista? Descobre um ângulo de análise original que vai contra a opinião da maralha. Apanha o pessoal em contra-pé e terás uma cascata de elogios sobre a cabeça: que és independente, corajoso, inteligente. No fundo, bem no fundo, estarás a fazer uma crónica reactiva. No fundo, tu nem sequer acreditas muito naquilo que escreves, mas sabes que a receita não falha. É o peso do estilo e da vaidade. E assim chegamos à apologia de Luís Delgado. Delgado está à beira de atingir um estatuto raro entre nós: o de espécie protegida. Ninguém gosta de Luís Delgado, assim como ninguém gosta de João César das Neves. A direita assobia para o lado e a esquerda afina o escarro. O problema destes alvos é que estão gastos. São hojes figuras circenses, que despertam alguma compaixão e que nos divertem. É preciso proteger o lince (literalmente, "o lince) da Serra da Malcata? É. Por outras razões, que devem mais à salvaguarda da reserva histriónica nacional do que à ecologia e aos direitos dos animais, impõe-se proteger Luís Delgado. Delgado é hoje uma mais-valia que os portugueses não podem delapidar. Ele diverte-nos. Mas um homem não é de ferro. Seria catastófico ver Delgado deprimido, cansado da vida, farto de comentários jocosos. Por isso - exclusivamente por isso-, uma crítica ao Delgado deve hoje passar por um apertado crivo de auto-censura, um pouco como quando se quer escrever uma piada nova que meta peidos. É por isso que me revolto com a crónica de hoje de Eduardo Prado Coelho (EPC). Não há ali nada de novo. Há inclusive uma passagem patética. Vejamos: "O resultado foi um processo de comentarite aguda. A gente acordava, ligava o rádio e lá estava Luís Delgado. A gente comprava o jornal e lá tinha a crónica de Luís Delgado. A gente ouvia um debate ao fim da tarde, e lá tínhamos, incansável e insone, a voz de Luís Delgado. A gente esperava um confronto no noticiário na televisão e Luís Delgado já tinha chegado. A gente adormecia, exausta, com a voz incessante de Luís Delgado..." Bem, com a ressalva de que eu nunca adormeci ao som da voz do Luís Delgado, já passei por todas as outras experiências mas o carrasco costuma ser, curiosamente, o próprio EPC.
Mas otra España nace,
la España del cincel y de la maza,
con esa eterna juventud que se hace
del pasado macizo de la raza.
Una España implacable y redentora,
España que alborea
con un hacha en la mano vengadora,
España de la rabia y de la idea.
Antonio Machado, El mañana efímero [CXXXV]
O três calhamaços que constituem a mais recente biografia de Graham Greene só podem tratar de duas vidas: a de Greene e a do seu biógrafo, Norman Sherry. A contrapor à fixação por biografias gordas, cheias de detalhes, deambulações e notas de rodapé, é tempo de fazer uma referência à autobiografia de Klaus Rajewsky, alemão metódico e menino-prodígio, que desde os cinco anos, depois de iniciado nas artes da programação, decidiu escrever a sua biografia como um fluxograma, acrescentado dia a dia. É uma autobiografia seca, literalmente esquelética, que se esgota num eixo do tempo e numa sequência gráfica de eventos, rica em nódulos de decisão, com perguntas formuladas em termos que apenas admitem uma de duas respostas: "sim" ou "não". A vida de Klaus apresenta-se, assim, como uma sucessão de decisões de tipo dicotómico, o que pouco surpreende. Sucede que Klaus, em vésperas de completar 50 anos, resolveu partilhar o seu esquema de vida com um departamento de informática e longas horas de ruminação computacional revelaram uma tendência surpreendente e um dado curioso. A tendência é esta: à medida que Klaus foi envelhecendo a frequência de decisões de tipo "sim" foi aumentando. O dado curioso remete-nos para o período em que Klaus foi dos 30 aos 35 anos de idade, que no programa surge muito pouco pontuado por nódulos de decisão; é uma linha longa, esparsamente interrompida por instruções que tendem a formar loops, como que iniciadas por um comando do tipo go to, e que sugerem ter Klaus andado a patinar durante alguns anos. Uma análise mais detalhada revela que a tendência para o aumento das decisões positivas é um artefacto; com o correr dos anos, Klaus terá passado a formular as questões pela negativa. Para os loops dos trinta anos ainda não foi encontrada explicação.
Aparecemos na festa da rapaziada do Quase Famosos, a ter lugar amanhã, no Europa? 00:00?
À quarta aula repetida, o centro organizador do discurso migra para a língua. É então que a cabeça, liberta de produzir retórica estafada, começa em congeminações muito pouco académicas, que extravasam as paredes da sala. Para bem de todos, a mesma aula nunca chega a ser dada cinco vezes.

A decadência melódica e harmónica de Stevie Wonder é uma das grandes tragédias ainda por documentar. O grande Stevie existiu nos anos setenta, um cego obcecado com o sol e um teclista genial. "Happier than the morning sun"? Depende do CD.
Os locais mais cosmopolitas de Lisboa devem ser os andaimes das obras. Na noite, tirando a enxertia dos turistas, a homogenia étnica só é quebrada por ocasionais olhos azuis, não raras vezes falsos, de resto.
Oliver Twist, A floresta, 15 Grandes Explorações, Aldeia Nova, Uma Ilha de Sonho, 20 000 Léguas Submarinas, A Cabana do Pai Tomás, O Fogo e as Cinzas, A Invenção do Amor... Este quarto já não me merece, mas ainda sou daqui.
Em Portugal mudar o pensamento político não é admissível. Um tipo pode demorar 30 anos a fazer a transição, mas será sempre visto como um vira-casacas, ou como um oportunista que se coloca do lado da História que está a dar. Em qualquer discussão sobre Pacheco Pereira, José Manuel Fernandes ou Durão, a providencial boca sobre o passado esquerdista desta gente não se faz esperar. Com Freitas sucede o mesmo, com o colorido de se tratar de uma transição que vai contra a norma. Que a direita tivesse vindo denunciar a "traição" de Freitas já se esperava. Mais curioso é ver gente de esquerda a pedir explicações a Freitas pelo artigo na Visão em que este anunciou o seu apoio a José Sócrates. Como a política não fosse um jogo de influências. Como se ficar quietinho no mesmo lugar não pudesse ser, também, uma manifestação de calculismo. Freitas não deve explicações a ninguém.
Duas notícias divulgadas no mesmo dia: Manuela Ferreira Leite não se candidata à presidência do PSD e António Vitorino não entra para o governo. Consequências imediatas: Marques Mendes ganha e Vitorino passa a presidenciável. Um cenário a quatro anos, com Mendes como Primeiro e Vitorino Presidente da República, cumpriria um desejo que corta o espectro politico transversalmente: o da redução das equipas governativas. A ideia não me desagrada. Numa sociedade obcecada com a imagem, uma pessoa de baixa estatura e bem sucedida sugere sempre competências acrescidas, um pouco como as mulheres que singram em profissões tradicionalmente dominadas por homens.
Chegou à blogosfera o psiquiatra que a Moviflor ainda não se lembrou de contratar para promover sofás. O homem escreve como fala: bem. E a escolha do título foi inspirada. Passem pelo Murcon.
Sempre me disseram que o Jaime Gama é um peixe de águas profundas. Parece que o próprio rejeita a associação, mas o termo e os seus possíveis significados sempre me fascinaram. Talvez consiga esclarecer este mistério hoje ao serão, quando estiver com o Ivan. Ou talvez não. É que o rapaz, assumindo-se como "um peixe de águas profundas" revelou-se apenas, e até prova em contrário, como carapau de corrida.
Das muitas diferenças entre a noite de Lisboa e a noite de Nova Iorque, a mais pessoal e preferida é poder encontrar em Lisboa um rosto que me transporta 15 anos atrás, sobretudo aqueles rostos de pessoas com quem nunca falei, a quem nunca despertei o menor interesse e vice-versa, mas que sempre marcaram presença, como objectos incompletos na periferia do campo visual. Dá-se o encontro, o rosto passa e fico depois com o problema de como voltar à superfície. Sou um peixe de águas profundas.
Daqui a uns dias fazemos dois anos. Antecipo o aniversário, fiel à tradição de não respeitar os números redondos. Esta é sempre uma ocasião para relembrar a minha geração: o Tiago, o Alexandre, o Jorge, a malta do posto de escuta e muitos outros (as minhas desculpas por não fazer uma lista exaustiva).
Não vale a pena avançar planos, mas se isto dos blogues for como as namoradas, ainda devemos por cá andar mais dois anos. Na dúvida, o melhor é agradecer já a todos os leitores que nos acompanham. Se hace camino al andar...
GNR: vota-se nesta banda para se parecer inteligente. Pergunta: é admissível eleger uma banda pop como a melhor do país se, em mais de 25 anos de carreira (não estou a meter água, pois não?), a banda apenas produz dois temas com elevado potencial "otovérmico" (Dunas e Efectivamente)? Madredeus: artesanato acústico para inglês ouvir, ou como aproximar a consistência estilística do autoplágio reiterado. Como é que se aceita ver os Madredeus ao lado dos Xutos, a banda que fez "Cerco", de longe o melhor trabalho de rock em português de sempre (e provavelmente um dos únicos)? 17 bandas à frente dos Trovante: eu sei que não fica bem a um gajo elogiar os Trovante, mas se a praga das flautas de bisel no antigo ciclo preparatório não tivesse minado a cultura musical de toda uma geração, nunca os Trovante teriam ficado em lugar tão medíocre. Enfim, li e reli a lista e não vi uma única referência à Banda do Casaco, mas dei com um voto para os Pólo Norte. É preciso frisar isto: há um ser vivo em Portugal que elege activamente os Pólo Norte como a melhor banda dos últimos anos. Estou abalado.
Ps: nova resolução sobre os comentários. Quando sinto que o post é suficientemente irritante, a janela de comentários aparece. Na prática isto traduz-se no seguinte: os meus posts, mas não os dos Ivan, poderão ser comentados.
Pensando outra vez, é importante ter uma taxa de abstenção considerável. Ou melhor, é importante que votar implique algum esforço. Só assim passam a contar mais os votos das pessoas com convicções fortes. Assegurar que um resultado eleitoral fica parcialmente refém da vontade de se votar parece-me muito bem. Uma taxa de abstenção razoável é um selo de garantia e não é preciso relembrar que taxas de participação acima dos 90% são sempre suspeitas. Dir-me-ão que o voto em branco cumpre as mesmas funções. Também já pensei assim, mas começo a mudar de ideias. Alguém, que não posso citar, tentou explicar que o voto em branco é o cúmulo do estilo. Isto é obviamente uma tolice e a própria tese rebenta de estilo. Não vou por aí. O problema do voto em branco é a sua natureza - como dizer isto? - excessivamente lacónica. Nunca se esclarece se estamos perante um indeciso ou um inconformado com as escolhas que lhe são propostas. Há o hábito de se optar pela segunda interpretação, associando-se o voto em branco ao voto de protesto. Onde é que estão os números? Já alguém deve ter estudado o problema, mas nunca me passou pelas mãos um artigo sobre o assunto. O tema é catita e dispensaria a tentadora caixinha com a fotografia e os comentários do Zé Saramago.
Tudo isto ganha alguma relevância no momento em que se discute a data de um novo referendo para a despenalização do aborto. E as anteriores considerações deixam-me com um problema moral por resolver. É que eu gostava que a despenalização avançasse, mas desconfio que a probabilidade de a lei mudar está inversamente correlacionada com o "esforço" que será necessário dispender para se votar. Esta vida são só arrelias.