dezembro 15, 2004

Caminhada de Dezembro 2004

Começamos hoje a caminhada que nos levará ao Porto, a Lisboa, Évora (?), Casablanca, Essaouira, Marraquexe, Fez e Santiago do Cacém. A fotografia foi tirada nos arredores de Ourique, um centro geográfico bastante impreciso para todos estes lugares, mas um autêntico tiro na mouche simbólica do jogo que nos norteia (raios, estamos mesmo a precisar de férias). As pintas negras são poeiras e outras sujidades, mas convido o leitor a imaginar que um bando de estorninhos por ali passava no momento da obturação.
Novos posts antes de 2005 serão poucos e provavelmente piores do que os anteriores. O MI deseja boas festas a todos os que por aqui passam* e recomenda cuidado nas estradas.

* Votos não extensíveis a Adérito Silva.

dezembro 14, 2004

A verdade do samba

Onde Vanzolini foi genuíno, Buarque conseguiu ser genial.

O sentimento de um ateu

Sobre o aumento dos actos e desabafos anti-religiosos (anti-cristãos, na verdade) já todos escreveram. Serei breve.
1. Na civilização ocidental o fenómeno parece ser exclusivamente europeu. Nos EUA verificou-se o contrário, ou, se se preferir, o braço de ferro foi claramente ganho pelos religiosos; ganho nas urnas e ganho no espaço mediático, com o ressurgimento dos tais valores, a obrigar agora os políticos democratas a um novo discurso, em que se procuram mostrar- também eles- muito íntimos do Senhor.
2. Na Europa, mesmo dando razão a Mário Pinto nas suas 3 (4? 5?) crónicas sobre o case study Botiglione (coisa que apenas faço para recolher dividendos retóricos), a reacção dos católicos é, no mínimo, histérica.
3. Em primeiro lugar, importa saber se estamos perante uma acção ou uma reacção anti-religiosa. Isto sim, é um case study. Aos ateus apenas é dada uma opção de definição que nem sequer é pela negativa, é por oposição. Na prática são catalogados como anti-religiosos, muito antes de se poderem reclamar não-religiosos (o Alexandre escreveu em tempos um post exemplar sobre este fenómeno, que infelizmente não consegui encontrar). Fica uma pergunta (haveria outras): até que ponto a crescente tendência anti-religiosa na Europa não é uma reacção a um quadro político em que, no Sul, quase todos os países têm ou tiveram até há muito pouco tempo, governos de direita, mais conservadores e com ligações mais estreitas à Igreja?
4. Os cristãos e, em particular, os católicos dos países do Sul da Europa, sempre gozaram de um estatuto privilegiado e reagem mal a críticas. Por deformação, têm uma irreprimível tendência para se assumirem como mártires. Ora, convém ter presente que até para um sportinguista havia um limite para lá do qual uma nova tentativa de simulação de penalty do Manuel Fernandes começava a incomodar.
5. Reconheço que o progressivo envelhecimento da população de católicos praticantes (desde o 25 de Abril a pirâmide etária deste grupo deve ter sofrido uma evolução semelhante à dos militantes do PCP) e a escassez de vocações não estimulam grande fairplay perante as críticas.
6. A pedido da Zazie, não falarei de ciência e religião. Não falarei de ciência e religião porque a única coisa de relevante a dizer é que a ciência não se deve intrometer na religião e vice-versa. Quando isso acontece nascem aberrações como o creacionismo científico, híbrido sem vigor que ficou com o pior dos dois mundos. Mas ainda antes de saltar de tópico- perdoa-me, Zazie- é preciso dizer que a religião ainda não percebeu isto. Por exemplo, nem todos os actos de contrição da igreja católica me parecem úteis. Compreendo o pedido de desculpas pela inquisição (ainda que o alcance me pareça algo limitado para quem passou pelo balcão de estiramento), entendo um pedido de desculpas aos Judeus pela atitude da Igreja durante a Segunda Grande Guerra (de novo, com o cinismo que se impõe). Não percebo o pedido de desculpa a Galileu, nem o recente apadrinhamento pelo papa da teoria da evolução. A Física e a Biologia não precisaram disso para nada. Não ficaram à espera. A impressão que dá é que a Igreja, do alto do seu autismo, com estes sucessivos e atrasadíssimos ajustamentos à realidade pensa que tem voz na matéria. Não tem. Cada novo pedido de desculpas, cada novo esclarecimento, só é motivo de preocupação. A ciência e religião distinguem-se nos objectivos e nos métodos. Podem e devem ter uma co-existência pacífica, mas dentro da cabeça de quem for capaz de o fazer. Quando me falam em simpósios de ciência e religião começo a tremer (mas aqui até estou contra a corrente, pelo menos em certos meios académicos, mais virados para a história da ciência; consultem, por exemplo, este calhamaço, de leitura seguramente proveitosa para muitos).
7. Correndo o risco de reproduzir o argumento “eu até tenho um amigo preto”, apetece-me rematar dizendo que até eu tenho muitos amigos religiosos. Respeito a fé alheia, tento percebê-la, sem inveja (e sem sucesso, mas vou tentando). Só peço um pouco mais de poder de encaixe. Afinal, quem joga a cartada do Monsenhor Javier Echevarría deve estar preparado para ser destrunfado com um Bertrand Russell, em vez de mandar logo a jogatana às urtigas.

dezembro 13, 2004

Festa modesta (continuação e fim)

Festa modesta


A biologia ensinou-nos que o "se não podes vencê-los, junta-te a eles" é um absurdo. A fórmula correcta é: se não podes vencê-los, distingue-te deles. E assim, enquanto muitos dançavam, alguém tirava fotografias.

O sentimento de um ateu

Chega de lamúrias. Antes de amanhã, aparecerá por aqui mais um ataque à religião, pleno de fanatismo.

dezembro 12, 2004

Urge ouvir Manolo

Poucas devem ter sido as formas musicais de raiz popular que registam uma evolução comparável ao que sucedeu com a guitarra de flamenco no último quartel do século passado. É impressionante ouvir os mais consagrados guitarristas de princípios e meados do século XX (Ramon Montoya, por exemplo) e escutar depois a geração actual. A diferença deve muito à qualidade da gravação, mas isso não explica quase nada, porque logo notamos, com algum espanto, a evolução que houve na técnica de tocar: os guitarristas actuais são mais seguros e mais rápidos, são capazes de um leque de timbres muito mais vasto e conseguem efeitos de dinâmica mais subtis. Em comparação com as diferenças registadas na história recente da guitarra clássica, a evolução da técnica da guitarra de flamenco parece quase uma improbablilidade. Andrés Segóvia (a referência histórica dos guitarristas clássicos) ainda seria hoje um guitarrista fora de série, sem que a sua técnica o envergonhasse diante dos discípulos dos seus discípulos. Já sobre Montoya, se tocasse agora como antes tocava, atrevo-me a dizer (até porque isso não o diminui) que não ficaria para a história. Em paralelo com os progressos técnicos, os guitarristas de flamenco atingiram também uma sofisticação harmónica e rítmica impensável em 1950. Melodicamente as falsetas não terão evoluído muito, mas o suporte harmónico enriqueceu-se, roubando acordes e encadeamentos sofisticados ao jazz, no seguimento de experiências de música de fusão que terão começado em força nos anos 60 e 70. A complexidade rítmica aumentou também, com a contínua experimentação e incorporação de ritmos das Américas Central e do Sul, enriquecendo ainda mais uma forma de música que inventara já preciosidades como a Buleria, ainda que por vezes apenas em bolsas de resistência, que felizmente souberam evitar essa praga- essa tentação faustiana, na verdade- que é a Rumba. A história do flamenco, com os seus períodos de estagnação de revolução, reflecte a história de um país, a Espanha, e da população cigana da Andalucia. Pioneiros na epopeia da guitarra de flamenco houve muitos, mas sobressaem dois gigantes: Manolo de Sanlúcar e Paco de Lucia. O segundo já todos ouviram. Oiçam agora o primeiro. Oiçam-no primeiro.

A urbanidade tem um preço

Depois da afronta do Principezinho (MacGuffin®) da blogosfera, o Ivan Nunes, esse crápula que linca e deslinca ao sabor dos seus agitados humores, eis que mais um energúmeno ousa tirar o MI da lista de links do seu miserável blogue. Refiro-me ao Homem a Dias, que há uns tempos fez uma limpeza das antigas no seu barracão de ideias. Que tristes exemplos nos chegam de Matosinhos. Matosinhos não sofre só de caciquismo, sofre também de Macartismo! Com enorme tristeza concluo que no melhor blogue cai a nódoa. Meus amigos, manter os links para a Praia e para o Homem a Dias no MI é o maior esforço de urbanidade que se pratica aqui. Perante este stress quotidiano, entre fazer uma úlcera e soltar uns insultos gratuitos de quando em vez, a opção foi clara.
Adenda seguida de errata (12.14.05):entretanto, o Alberto Gonçalves prestou um esclarecimento cabal, que muito nos honra. O insulto gratuito que lhe fizéramos deixou de estar dentro do prazo de validade. Não nos esqueçamos, porém, que Ivan Nunes continua a acumular os títulos de crápula e energúmeno. No MI nada se desperdiça.

Entrevistas desconcertantemente sintéticas

- E Mourinho?
- Irrita-me profundamente.
- A arrogância, presumo...
- Não. A arrogância dele não é a raiz do problema.
- Hum...
- O problema é ele ser tão bom. O homem pode dizer que é a grande cabeça na Europa a pensar o futebol e a bojarda nem sequer soa ridícula.
- Mas a arrogância...
- A arrogância geralmente faz-me gostar mais das pessoas, porque revela fraquezas. É também uma característica mais genuína que a modéstia, menos sujeita a falsificações.
- O que o irrita, então?
- Bem, eu gosto de poder gozar com a arrogância alheia. Mourinho não dá hipótese.
- Deseja que ele caia em desgraça um dia?
- Nem por isso. Enfim, apenas se depois ele continuar a ser arrogante, caso contrário não vale a pena. Sou um tipo com princípios, percebe?
-Estou a ver.

dezembro 10, 2004

Um talento brutal

Pipi? Mexia? Alexandre Andrade? P.ed.ro L.om.b.a? Zé Mário? Frio, muito frio. Em 2004 a grande revelação literária da blogosfera é este rapaz, o Rodrigo Moita de Deus. Cada post dele é um diamante que se equilibra por um dos vértices no post anterior. Que concentrado de talento e finura, senhores... eu não leio, antes bebo, os posts do Moita de Deus. Quem disse que os artistas estão com a esquerda? Quem? Toca a imprimir e emoldurar (talha dourada) os posts deste Homem.

Adenda (11.12.04): se o Rodrigo não fosse em estética como é em literatura, não estaríamos feitos. As minhas desculpas ao "bloguitório" pelos efeitos indutores de enxaqueca que a dupla negação acarreta, mas não resisti a uma infame paráfrase de uma famosa expressão de Caetano, seguramente por se tratar de um conhecido cançonetista conotado com a direita, que chegou inclusive a assegurar a primeira parte dos históricos espectáculos de Dina nos congressos do PP.

Entrevistas desconcertantemente sintéticas

-Qual é a sua voz feminina preferida?
-Chico Buarque e Elis Regina.
-Perdão?
-A Elis tem a melhor voz de sempre, mas a voz feminina do Chico é a única que entendo.

Hoje acordei assim

Após um violento exercício de sublimação, que pode ser entendido a partir da confissão de Tulius, inicio a versão MI do "Hoje acordei assim", considerada pela redacção como a melhor série da blogosfera (votação de braço no ar com 2 votos a favor e um voto nulo do John; ainda bem que não filmamos estas coisas). Os profissionais do ramo dos humores têm algumas rotinas curiosas. Uma delas é o "on a scale of 1 to 10, how do you feel today?", pergunta seguramente mais clara que a do referendo sobre a constituição europeia mas de um pretensiosismo confrangedor, a sugerir que é possível usar sempre a mesma régua ou olhar para ela sempre da mesma maneira. Encontrei uma forma de minorar este erro recorrendo a uma outra escala, elaborada a parir da lista de andamentos em música. Do Largo ao Prestissimo, o grau de resolução é superior ao da escala dos psiquiatras, o que parece agudizar ainda mais o problema. Porém, como cada designação- e todas belíssimas- se furta tranquilamente à objectividade do metrónomo, a escala resultante é mais adequada para uma classificação dos humores. Afinal, tudo é tempo. Esta decisão cria também um bom pretexto para ir colocando algumas fotografias por aqui, frutos de um desvio de juventude. Por último, em paralelo ficará a decorrer um concurso: quem primeiro identificar a partitura de onde retiro o andamento recebe um ficheiro MP3 com aquela que a redacção do MI considera ser a melhor gravação do tema. Sem mais demoras, hoje acordei assim:
am.jpg

dezembro 09, 2004

Difool no além: picar o ponto

Fónix, o que para aqui vai... sim senhor, bonitas cores. Escusavam eram de ter escolhido esta cor de bermudas de safari africano aqui para o Difool. Bem, podia ter sido pior. Pelo menos não tenho o problema do outro, o Mr Pink. Curtes Quentin? Volto já.

Revolução cromática, a idade da razão

No MI começámos já a preparar a bloga de 2005. Acabou-se o gosto cromático de méritos duvidosos, acabaram-se as combinações de cores tauromáquicas, as idiossincrasias na "formatação" do texto. O MI passa da idade da inocência à idade da razão. Planos para 2005? Só falamos depois das declarações de Sampaio. Não é preciso esclarecer que a nossa súbita maturidade é apenas de fachada, pois não?

dezembro 08, 2004

Comentário absolutamente reactivo-chauvinista

«Falta, em português, o aviso retumbante da queda que outros povos, mais cientes, colocaram na expressão com que designam a fatalidade do enamoramento: fall in love, tomber amoureux, ao menos têm a vantagem de alertar para essa perda de equilíbrio, que pode ser leve ou fatal, magoar ou apenas sentida como um pouco incómoda, quase ridícula.» in Modus Vivendi, via Desassossegada.
O tese desenvolvida neste naco de prosa até é bem catita e só é pena a observação não ser válida. Estamos perante um caso típico de deslumbramento retórico. Então e o "caidinho por ti" ou o "caidinho de amor"? No Brasil podemos mesmo encontrar um Samba-choro com esse nome. Sim, de acordo, a expressão em português é para lá de foleira, sobretudo se comparada com o "tomber amoureux"(Ah, la Fraaaaaaaaaaaaaaaaance! Até uma lista de supermercado lida pelo Pivot entra nos ouvidos lusos como poesia). Digo mais: aviso por aviso, o nosso "perdido de amor" perde para muito poucas expressões. E assim se conclui que os outros povos, infinitamente mais sapientes que nós em inúmeras matérias, no que toca ao amor são igualmente palermas ou até superiormente imbecis. Enfim, eu de amor percebo tanto como de curling mas pareceu-me importante mencionar isto. Preocupa-me que alguém leia o parágrafo supracitado e experimente uma queda- essa sim, trágica- nos seus índices de auto-estima (é impressão minha ou andamos há várias semanas sem recordar a auto-estima?)

PP: pareceu-me oportuno associar a este comentário seco uma contra-medida para restaurar os indicadores de paixão do MI. Aqui fica, na voz de quem sabe cantar, uma canção de quem as sabia compor, sobre uma letra de quem as sabia escrever. Pelo meio há uma enxertia de Caetano, a declamar a letra da melhor canção que fez, era ele ainda moço. Como é que um tipo volta a pegar na guitarra depois de uma coisa destas?
(Problemas técnicos adiaram a execução desta contra-medida. Fica a declaração de intenções).

Paisagens: céu limpo

Três grandes aeroportos servem Nova Iorque. Onde moro o som da rua protege-me do barulho dos reactores, mas é muito difícil varrer o céu com a vista sem identificar pelo menos um avião, a qualquer altura do dia. Ora, o céu visto de Manhattan tem duas particularidades: é um céu lindíssimo, quase sempre limpo ou com poucas nuvens, e é um céu parcialmente emoldurado por arestas de prédios altos, como que visto através de uma enorme seteira. Antes de desaparecer no infinito, cada avião desaparece primeiro atrás de um prédio. Logo a seguir ao 11 de Setembro de 2001, sempre que via um avião a aproximar-se de um prédio ficava em sobressalto. Sabia que estava a experimentar um efeito óptico, mas nem com um professor de educação visual a sussurrar-me ao ouvido "Giotto, Giotto" esta apreensão teria desaparecido. Foi preciso deixar o tempo actuar. Meses depois, sempre que o nariz de um avião tocava na aresta de um prédio situado num plano mais próximo, ainda me lembrava do 11 de Setembro, mas já sem sobressalto. Há dois dias, de madrugada, enquanto fazia tempo e me deliciava com as nuvens rosa (umas cúmulo-nimbo, seria?) num céu azul, três aviões cruzaram os ares, traçando linhas que se interceptavam todas, cada uma delas com duas das outras. Pensei de novo no 11 de Setembro, imaginei de imediato o horrendo festival pirotécnico que seria um choque entre dois aviões. Só que, logo a seguir, comecei uma lenta aprendizagem- creio que bem sucedida- para conseguir voltar a ver o céu limpo outra vez, como antes. Tudo aconteceu no intervalo de tempo necessário para que os rastos de fumo se tivessem esbatido de vez e na cabeça de um traumatizado ligeiro não houvesse forma de saber se aqueles aviões estiveram ou não em rota de colisão. A última imagem que guardo é a de três aviões dourados pela luz do sol nascente, que criava reflexos na fuselagem; uma imagem de anúncio de televisão, logo, normal, banal, sadia, propícia para fechar um ciclo que começou, também para mim, na CNN.

E esta, hein?

Parece que é possível parir um livro sem matar o blogue. O Rui Tavares acaba de escrever um post pós-parto... hum... epá, histórico. O bébé já esperneia por aí e a mãe respira saúde. Como antes. Afinal, em matéria de livros o parto trágico deixou de ser a regra na blogosfera. Confirma-se que basta ter alguma vontade, alguma esperteza. Parabéns aos Barnabitas.

PP: Confirma-se também o legado de Santana a Portugal: um universo de horripilantes metáforas. "Parto"? "Pós-parto"? "Bébé"? O Barnabé equiparado a "Mãe"? Somos vítimas do ex-primeiro, está visto.

Paisagens: uma gravata no passeio

Vi hoje no chão uma gravata, suja e amarrotada. Tinha alguns tiques de estátua maneirista, uma certa dignidade, mas também podíamos pensar na imagem de uma cascavel baleada nos ossos parietais e, então, não havia ali contorcionismo que pudesse salvar esta gravata de um fim miserável. Resta o simbolismo da coisa. Primeira hipótese: jovem de sucesso, com carreira promissora na alta finança, experimenta uma epifania de tipo ONG, afrouxa primeiro o nó da gravata, hesita um pouco, mas decide-se finalmente a atirá-la ao chão, com alguma teatralidade, um pouco como se chicoteasse o seu passado (enfim, algo na linha do masoquismo redentor). Nesse mesmo dia compra um bilhete de ida apenas para África (textual: ele terá dito "arranje-me lugar no próximo voo para África"). Porreiro. Há uma segunda hipótese: um sulista evangélico a estudar em Nova Iorque e a viver numa residência de estudantes sai à rua com uma cesta de roupa suja e dela acaba por cair a gravata do fatinho dominical. A análise dos motivos da gravata e da qualidade do material sugere ser esta a hipótese mais plausível. Maldita objectividade.

dezembro 07, 2004

Cromos: Zoran

São três da manhã e há instantes cruzei-me com Zoran, ele de um lado da rua, paciente, esperando que o cão se aliviasse, eu no passeio oposto, impaciente, sem cão e sem trela. "What are you doing here?", perguntei, para que não tivesse que responder, à falta de um alibi sólido como o de quem passeia um Labrador.
A julgar pelo que fui ouvindo nos noticiários ao longo dos anos noventa, Zoran não pode ser Sérvio. Falamos de um homem bom e, como consta, não há homens bons na Sérvia. Se Zoran fosse minimamente cínico, estenderia a mão com um sorriso franco e diria: "Zoran Y., war criminal, it´s a pleasure to meet you". Sucede que o sentido de humor deste homem não precisa destas muletas.
Quando se percebe que se aprecia mesmo a companhia de alguém? No caso de Zoran houve alguns sinais evidentes. Por exemplo, gostar de beber com ele. Andar nos copos com alguém que não se suporta é um tormento. Nessas alturas costumo dar de beber às plantas (discretamente, vou regando a Guinness o vaso mais a jeito). Com Zoran o problema consiste em ter sempre presente a distinção entre o beber com ele e o morrer nos braços dele. O álcool que um sérvio (dimensão da amostra=4) consegue gerir antes de começar a fazer coisas insensatas chegaria para me arrumar com um coma alcoólico irreversível. Um segundo sinal- mais uma confirmação que outra coisa- ocorreu há uns dias. Víamos Revíamos o Le Charme discret de la bourgeoisie em casa dele, depois de um farto repasto- cozinha bem, a criatura- e Zoran, ainda com o reflexo filosofante que lhe ficou de uns anos de universidade em Belgrado, entendeu ser oportuno explicar o filme, demorando-se longamente na enigmática caminhada da trupe de burgueses pela estrada deserta. Explicar um filme é um desporto radical; explicar um filme em tempo real um convite ao crime. Mas, surpreendentemente, fiquei deliciado a ouvi-lo. Isto é amizade, só pode ser amizade, até porque a explicação dele era uma boa treta.

Explicação da insónia (19 de 47)

Durmo aos bocados. É de manhã a todas as horas do dia. Tenho a pineal à nora, apetece-me comer cereais ao meio-dia e experimento a insónia de quem quer dormir uma sesta e não consegue. Ninguém respeita uma insónia destas, ninguém a cantou. Quem disse que a insónia é para ser vivida de noite? É nestas alturas que me apetece encontrar um guarda nocturno, daqueles que pareciam de brincar, vestidos de cinzento, barrigudos e com um metro e meio. Ou então um taxista que pegue às 7 da tarde e termine o serviço às 5 da manhã. O problema é o futebol. Já não sei falar de futebol (nunca soube, na verdade).

dezembro 06, 2004

Para quando a tua Ode a Milena, Boaventura?

É sabido que Maria Filomena Mónica (MFM) e Boaventura Sousa Santos (BSS) se odeiam mutuamente... e vice-versa, e vice-versa. A troca de mimos entre estas duas luminárias arrasta-se há anos. Eu gosto. Mas mesmo um tipo que assina como Tulius Detritus tem um resquício de consciência e ontem, ao ler o último ataque de MFM a BBS, experimentei uma sensação de desconforto inesperada, que só hoje consegui explicar. Não sendo eu da área a sociologia (obrigado, Senhor) e tendo apenas lido de MFM a biografia do Eça e de BSS o Um Discurso Sobre as Ciências (sem contar com inúmeros artigos de jornal que li de ambos), descaio para o lado de MFM. Acresce que, embora me pareça que MFM não tem sentido de humor, aprecio o gosto dela pela picardia, por tentar (mas não se esforce tanto, vá lá) recriar quezílias à maneira do século XIX. Tolero ainda sinais óbvios de algum ressabianço da parte de MFM. Por último, diverti-me com este novo exercício de malidicência. Onde está então o problema? O problema é que MFM já devia ter idade para perceber que não se mistura o achincalhamento com a crítica que se pretende séria. O que há de relevante nas limitações poéticas de BSS para a sociologia que pratica? Que traços de personalidade pretende MFM esboçar a partir da constatação que um fulano de trinta e muitos anos resolveu publicar a sua produção poética da juventude? E, de novo, que interesse tem isto para criticar BSS como sociólogo? Será que MFM se apercebe do ridículo que é cascar na poesia erótica de BSS e depois, a um parágrafo de distância, começar a discorrer sobre as orientações políticas que norteiam o estudo de BSS e acólitos de título "Conflito e Transformação Social: uma paisagem das justiças em Moçambique"? Que o ódio cega já se sabia, mas não terá MFM um amigo que lhe releia a prosa e a aconselhe? E que espírito belicista é aquele com que remata o artigo ("Não vale a pena criticar soldados quando temos à mão um general. Na luta, há que apontar à cabeça."?) Corrija a mira, MFM. Deu foi um balázio nos pés. E perante coisas deste calibre até o Pacheco do "É a guerra, é a guerra" passa por objector de consciência.
Este artigo de MFM deixou-me também com um grande galo. Leiam a poesia de BSS e depois pensem: quão cáustico teria sido o nosso George a trabalhar aquelas pepitas, quão hilariante seria o Ricardo de Araújo Pereira se pudesse meter as mãos naquela massa, ainda virgem? Mas agora que foi mal amassada por MFM, ninguém lhe vai querer pegar. E isto é trágico! É sabido que as críticas aos livros de BSS surgem sempre ao retardador. Foi preciso esperar 10 anos para que alguém tivesse reparado nas enormidades que aparecem no Um Discurso Sobre as Ciências. Logo, o facto de o livrinho de poemas de BSS ter mais de 20 anos de existência não fazia dele uma obra esquecida. Tratava-se apenas de um filão por descobrir. MFM deu cabo da mina. Como é que se resolve isto? Só vejo uma solução. BSS terá de responder à letra e a resposta só pode vir na forma de ode, uma Ode a Milena. Ficamos à espera (façam figas).

Séries

Gosto de ir acompanhando as séries de posts que vão surgindo na blogosfera. A pior série chama-se "Ar puro" e é da autoria de Pacheco Pereira. No que toca a nomes a atmosfera é sempre violentada e isto tanto é válido para o governo de Bush ("Clean Air Act"?) como para o nosso estimado (sai graxa para equilibrar) e ilustre (então, Tulius, não abuses) blogger. A melhor série da blogosfera surge no Bomba Inteligente. Com o "Hoje acordei assim" a Charlotte criou um óptimo pretexto para ir mostrando fotografias de mulheres invariavel e irrepreensivelmente bonitas (boas pá, deixa-te de merdas). A Charlotte acorda sempre da mesma maneira, o que para mim é motivo de inveja. Como se não bastasse, a série também me deixa algo frustrado. É que sempre que tento fazer o mesmo exercício fico bloqueado. Quando acordo muito bem disposto lembro-me de fotos incompatíveis com a orientação "para toda a família" do MI. Quando acordo mal disposto, lembro-me de outras fotos mas a censura mantém-se, pelos mesmos motivos. As minhas manhãs continuam sem tradução fotográfica. Enfim, todos ficamos a ganhar.

dezembro 05, 2004

À atenção da Dom Quixote

No Expresso desta semana podemos ler a enésima entrevista a Lobo Antunes. A conclusão óbvia é esta: não há inteligência nem biografia que resista a tanta exposição. Lobo Antunes já deu a volta ao contador. As únicas novidades nas entrevistas do Lobo são as suas contradições. Por exemplo, parece que aquela promessa de só escrever mais 3 romances é para esquecer (as coisas que um gajo diz para dar nervo ao mercado). Apesar destas fraquezas continuo a ler as entrevistas ao Lobo por 3 motivos. Em primeiro lugar ele não dá respostas, cria ambientes. Ler uma entrevista do Lobo é como ouvir um disco. Não se procura novidade. Aliás, creio que com os romances dele sucedia-me o mesmo, mas já não me lembro bem. Em segundo lugar, é sempre lúdico ver quantas perguntas são necessárias até o ouvirmos dizer que trabalha muito. Lobo é um workaholic exibicionista, o que me parece desde logo suspeito. Todos os verdadeiros workaholics que conheço têm vergonha de trabalhar tanto; admitem que são doentes mas em privado, junto de amigos íntimos, confessando-se com a voz sumida e a olhar para o chão, como se sofressem de sífilis. Por fim, gosto de ouvir as citações que ele faz. Aliás, creio que temos aqui matéria para mais um spin off lobo-antuniano. Agora que até já fotobiografia há (não esquecer que Lobo Antunes foi em tempos a "melhor cama de Lisboa", hãn? Toca a folhear, toca folhear) e antes do inevitável e comprometedor Lobo Antunes, Pavarotti and friends, creio que a credibilidade do autor sairia reforçada com a publicação de uma colectânea das suas citações preferidas, devidamente anotadas e analisadas no contexto da obra romanesca. Quatro estagiários para o trabalho de sapa (triar todas as entrevistas em Portugal, Espanha, Suécia, França, Inglaterra, Suécia, Alemanha, EUA e, também, na Suécia), umas linhas da Maria Alzira Seixo, ilustrações alusivas à citação, 150 páginas, capa dura, 16 euro... hum, 18... não, 23 euro, a apontar para o Natal de 2005 mas prevendo também horas extraordinárias no Verão, dependendo dos rumores quanto à atribuição do Nobel, para podermos estar a postos logo em Outubro.
E agora a questão mais delicada... 5% dos lucros para mim? Seria simpático, sim. Acho que os mereço. Só o trabalho que eu tive para ter esta ideia, as horas que passei a pensar nisto, as folhas amarrotadas na alcatifa do quarto, como ovelinhas de um rebanho disperso (Oh!). Sim, sim, as primeiras quatro horas foram só para aquecer, não saiu nada. Mas depois o pensamento ganha um piloto automático, sabem? E aconteceu-me até ter chorado após o eureka. Isto é raro, atenção. Sou pouco lacrimejante. Foi uma sensação única, melhor que um orgasmo. Enfim, sei agora- na verdade sempre soube-que esta é mais uma das ideias geniais que tenho, ao nível das de um Edison, de um Bell... Não queria que ficassem a pensar que sou um arrogante e um megalómano. Por favor, eu só posso dizer estas coisas porque trabalho muito. Ninguém tem ideias como eu. Ninguém trabalha como eu trabalho. Ninguém.

dezembro 02, 2004

Marretemos

Há cerca de um ano e meio, no tempo em que a blogosfera era uma aldeia, costumava visitar esta malta com regularidade. Chegámos até a trocar correspondência; eles gozavam comigo e eu tentava fazer-me convidar para a infame Cooperativa dos Blogues Livres, só para poder soltar a grouchalada da praxe no momento em que o convite fosse formulado. É claro que eles nunca foram na cantiga. E com as voltas que a vida dá acabei por deixar de visitá-los. Voltei lá hoje. Continuam a ser o melhor blogue de humor em Portugal. Estabilidade é isto, meus amigos.

dezembro 01, 2004

O declínio de dois grandes povos

De momento encontro-me a trabalhar com um colega grego num arranjo para duas vozes e duas guitarras de uma canção de Joe Dassin.

Mijadelas prognosticantes

Somos todos analistas políticos. E quem consegue resistir? Afinal, a análise política é aquela disciplina em que nunca ninguém responde pelas parvoíces que escreve. Há messianismo na blogosfera (Cavaco, Borges...), há algum deslumbramento, há sapos em lenta caminhada peristáltica. Tudo isso me parece natural, saudável até. Para o prognóstico político pleno de jactância é que não há pachorra.