De manhã, ao sair de casa, cruzei-me na rua com um homem de bolsa de couro a tiracolo, que se dirigia para o coração da cidade. Ao fim do dia, quando regressava a casa, voltei a cruzar-me com o mesmo homem, que parecia fazer o caminho de volta. Resgato para aqui esta coincidência pouco espectacular por um motivo, provavelmente também muito pouco espectacular. É que eu sei uma série de coisas sobre aquele homem. Sei como fala, algo do que pensa, que foi premiado com um Nobel, que tem sentido de humor, que há 10 anos atendeu um telefone no meio de um corredor de um instituto de Londres (a acreditar num amigo) e que ganha $1 000 000 por ano. Sei onde vive e uma série de episódios mais ou menos rocambolescos, bons para apimentar as biografias que se lêem sem esforço. Em contrapartida, o homem não sabe nada sobre mim. Ao fim da tarde provavelmente nem se lembrava que se cruzara comigo de manhã. Perante estas assimetrias acidentais que ocorrem nos passeios públicos fico sempre algo embaraçado. Mais tarde posso até divulgar ou escrever sobre o ocorrido, com a excitação de um caçador de autógrafos. Mas durante o encontro, acabo invariavelmente por baixar os olhos. O reverso deste comportamento ocorre quando me cruzo com um energúmeno anónimo que berra ao telemóvel as desgraças da sua intimidade. Aí o pudor cede à irritação e nunca, mas nunca, consigo deixar de olhar. Esforço-me é por não ouvir.
«Se tivesse coragem, digo-vos que fracassaria com afinco todos os dias. É muito mais saudável perder do que ganhar. Ganhar é um luxo, uma embriaguez fácil, uma descaracterização. Fracassar não é nada disso. Fracassar é muito mais difícil, muito mais exigente [...]» Pedro Lomba (fragmento pirata, apagado da blogosfera e trocado entre amigos)
Perante uma tirada destas, só podemos pensar que o autor é parvo ou então cedeu aos encantos do estilo. Como sei que o Lomba está longe de ser parvo, sobra a segunda hipótese. Eu, quando fracasso, não me sinto nada bem; chego a ter azia. Numa palavra, sou básico. Se fracassasse todos os dias, já tinha deixado de ter dias.
Percebo o encanto da prosa do Lomba, sobretudo para adolescentes em crise e outros, em crise também. Mas, bem vistas as coisas, a expressão é ilógica. Quem tem o fracasso por modo de vida não é corajoso, é batoteiro. A única e a melhor forma de honrar a derrota é continuar a tentar a vitória, o que soa tosco mas ressoa verdadeiro. Aos meus ouvidos, claro.
Causa nossa : onde pontifica o blogger com o melhor score qualidadeXprodução, um certo VM, presença absolutamente vital.
Fora do Mundo: onde se descobre que se almoça depressa e se escreve muito devagar.
Estão de saída:
Dicionário do Diabo: até sempre.
Outro, eu: o entrevistador que prefiro (apesar de ser óbvio que droga os entrevistados) não tem tempo para estas brincadeiras.
100 nada: desaparecido em combate. Que é feito de ti?
Reparando que o corpo ainda guarda pulsões juvenis, dei lugar à esperança e apressei-me a descartar a surpresa. Ao largo de Brooklyn, o mar e a ondulação fraca, feita de vazios côncavos e massas convexas com a textura imprevisível e tolerante da matéria líquida, lembraram-me um relevo acidentado de seios, um longo manto de mamas que se roçavam umas nas noutras até ao infinito, sem braços, sem pernas e sem rostos. Não foi metáfora, foi alucinação.
... Recupera Gaudêncio, à saída da grande área... Faz uma simulação, tira um adversário do caminho, agora outro... Está endiabrado, Gaudêncio... Levanta a cabeça, lateraliza e lança Mateus... Que ganha velocidade, triangula com Salvador, tem o flanco aberto, pode correr até à linha... Vai, Mateus, vai, sai o cruzamento... O que é que é isto, senhores? Com um balão para as costas de toda a defesa voltou a pôr a bola quase no meio camp... Mas, Gaudêncio, eu não quero acreditar...
Que bem se está aqui. Cheiro a relva e vejo o céu. Gozo um instante de omnisciência pura. Troquei as convicções pelas certezas. A bola virá ao encontro da minha chuteira esquerda e farei um pontapé de bicicleta de antologia. Tudo se torna simples quando temos 5 minutos de avanço sobre o nosso tempo. E eu, Gaudêncio, defesa direito, que poucos autógrafos assino e a quem dizem sobrar em dureza o que falta em brilhantismo, sei que estou a segundos de entrar para a História...
Era a minha metralhadora laser, com que à janela do meu prédio suburbano, camuflado pela cortina, despachei inúmeros transeuntes. Alvejava-os primeiro nas canelas, para os deixar tolhidos; podia a seguir apontar mais folgado de tempo. Ia depois aos membros superiores. Tinha uma certa apetência por articulações, devo confessar. E movido pelo instinto, deixava-os com a nuca ilesa até ao fim. Isto até ter começado a ver filmes na televisão e decidido que um trabalhinho bem feito pedia um balázio entre os olhos, de precisão milimétrica (ou cirúrgico, como agora se diz). Megatronic fulminante era a melhor metralhadora laser lá do bairro e- convém recordá-lo- o melhor do mundo são as crianças.
Acabei por descobri-la quase por acaso, dentro de uma pequena loja de tapetes e almofadas, prestes a concluir a transacção: quatro tapetes de grande dimensão, suficientes para alcatifar o nosso minúsculo apartamento em Paris. Resolvi intervir, mesmo sem me inteirar do preço que eles tinham acordado. Sabia que para ela regatear era imoral, sobretudo com gente necessitada. Não compreendia que discutir o preço era uma etapa essencial naquele ritual e eu, que ainda tinha presente o sucesso de uma campanha recente em Marrocos onde me convencera de uma vocação, não hesitei em me aproximar do homem, tirando-lhe as medidas. De traços finos, olhar penetrante e mãos delicadas, tinha encontrado um adversário à altura. Ataquei em inglês, enquanto ela abandonava o recinto, sem disfarçar a sua irritação. O homem deixou-me acabar e depois perguntou: " Vem de Macau?" Habituado a ser confundido com um russo quando falo em português na Europa do Norte, trazendo nos músculos, tendões e glândulas o reflexo pavloviano que me amansa sempre que alguém lembra o nosso passado glorioso e vivendo a ilusão de praticar um inglês oxfordiano irrepreensível, aquela pergunta bastou para o comerciante me surpreender, seduzir e ganhar um ascendente difícil de anular. Tentei ripostar, mas não, o homem não era um Gurka como pensara e a explicação da arte do tapete de arraiolos saiu-me atabalhoada. Optei por encurtar a conversa. Trocámos uns números e apertámos as mãos quando o preço era cerca de metade do que ele inicialmente me pedira. Sabia que tinha sido derrotado, mas ao sair com os tapetes quebrados sobre o ombro resisti ao sarcasmo dela, que preferiu não revelar o preço que tinha conseguido antes de eu entrar em acção, mas não resistiu a comentar: “Então, parece que foste ao tapete...” Nessa noite ofereci-lhe o jantar.
Deitámo-nos cedo. Às onze da noite acordei. Ela dormia na cama do lado. Na primeira noite dormíramos juntos, mas ontem parecíamos um casal idoso à antiga. Olhei pela janela, julguei distinguir ao montanhas ao longe. Talvez dormíssemos juntos lá no alto. Sorri antes de concretizar em voz o que pensara- "unidos pelo frio"-, e sorri outra vez, como se não me lembrasse já do primeiro sorriso. Perdera o sono nestes pensamentos e para deles me perder também resolvi sair à rua. Vesti-me com cuidado, quase não fiz barulho ao fechar a porta atrás de mim. Reconheci o cheiro das escadas e galguei os degraus. As ruas estavam quase desertas. Katmandu não é uma cidade de libertinagem aparente. É verdade que alguns vultos vindos da escuridão me ofereciam marijuana, mas ainda não vira uma prostituta nas ruas, o que me teria sido proveitoso. Entendamo-nos: as mulheres asiáticas deixam-me indiferente mas a prostituição fascina-me. Uma educação católica levou-me a condenar a prostituição por defeito, posição que foi reforçada pela visão de mulheres com bocas de escorbuto e joelhos ossudos das esquinas da Avenida da Liberdade e do Intendente, imagem tão forte que a pena que senti em criança era ainda pena no adolescente em convulsão hormonal. Já ateu e com uma consciência política a germinar, a prostituta pareceu-me o paradigma da exploração do homem pelo homem, convicção que foi depois abalada por alguns relatos vindos da Holanda. Encaixei a novidade, tolerando a vontade de pessoas livres que optam por aquele modo de vida, mas terminando aí a cumplicidade. No fundo, eram ainda os joelhos ossudos e as bocas de escorbuto que estavam vincadas na memória, mas tivera tempo de inventar outra explicação. A procura antecipada do acto sexual, mais até que a sua compra, desmotivava-me. Descobrira também um pudor que me inibia de ir ter com uma prostituta. Afinal, o corpo daquelas mulheres é um lugar público e as taras vagamente exibicionistas, se é que as tive, não resistiram ao fim da adolescência. Feitas as ressalvas, cruzar-me com uma prostituta pelas ruas deste mundo é bem mais inspirador que uma qualquer visita guiada ao cavaleiro de bronze da praça do município. Mas não havia nenhuma indicação de que me encontraria com uma prostituta em Katmandu. Um bar que se insinuava com uns neons de tonalidade promissora era, afinal, um club de jazz sério. Os candeeiros da iluminação pública revelaram depois três turistas inglesas embriagadas. Dei-me por vencido e voltei para o quarto. Subi os degraus devagar, um a um. Apetece-me inventar que adormeci a pensar numa série de Fibonaci, mas reparo agora nos tapetes, discretamente enrolados e quase escondidos ao lado do armário do quarto, o que interpreto como um sinal de que a dose diária de presunção para aquele dia tinha sido atingida muito antes do jantar. Escrevo pois a verdade: ontem adormeci a contar, mas de 100 para 1. (Katmandu, manhã de 29/3/98)
Uma descrição mínima e essencial da vida que vivemos? Basta convocar as leis de Newton e algumas noções da teoria dos sistemas caóticos. A primeira lei de Newton- na verdade uma reformulação de um princípio de Galileu- diz-nos que qualquer corpo permanece no estado de repouso ou de movimento rectilíneo uniforme se a resultante das forças que actuam sobre esse corpo for nula. Se substituirmos "corpo" por "consciência", ou por "motivação", esclarecemos logo metade dos nossos mistérios. A terceira lei de Newton ensina-nos que quando dois corpos interagem, a força que o corpo 1 exerce sobre o corpo 2 é igual e oposta à força que o corpo 2 exerce sobre o corpo 1. Esta lei falha para as relações humanas-das de poder às do amor- mas aplica-se na perfeição à forma como no ricochete dos contrários buscamos um pensamento original. Também a teoria do caos é fundamental e muito mais abrangente, porque resolve abruptamente a velha questão do livre arbítrio: está tudo determinado, mas o resultado é imprevisível. Sobra a segunda lei de Newton. Newton disse-nos que a aceleração adquirida por um corpo é directamente proporcional à intensidade da resultante das forças que actuam sobre o corpo, tem a direcção e o sentido dessa força resultante e é inversamente proporcional à sua massa. É trivial concluir que a segunda lei de Newton- tendo presente a terceira- salvou a humanidade, ao impedir o homem de se atirar de penedos e terraços.
(1): uma nota equidistante, para pedir desculpas antecipadas a António Manuel Baptista e frisar que nunca entrámos no centro de estudos sociais de Boaventura dos Santos.
A importância que se dá à invenção da roda sempre me pareceu exagerada. A contrapor, à invenção da mesa redonda ainda não foi feita justiça. Não espanta pois que no hotel se tivesse optado por um design rico em ângulos obtusos. Numa das mesinhas triangulares sentou-se o primeiro cliente da manhã. O fulano vinha com uma indumentária estival mas trazia a tiracolo uma sacola de material sintético, que parecia rebentar pelas costuras com a papelada. Tinha um perfil semita, óculos de aros finos, uma magreza atlética e alguma tensão acumulada nas extremidades do corpo. Pediu um café. Aos poucos o local foi-se enchendo com gente de perfis variados, óculos e compleição física diversos, mas todos, sem excepção, traziam a tiracolo a mesma sacola de material sintético, nuns mais vazia, noutros já rebentada. Entre eles, tratavam-se cordialmente. Alguns conheciam-se e houve inclusive algumas trocas de posição entre mesas. A forma das mesas terá talvez criado um problema de geometria que reprimiu em alguns a tentação de as juntar mas a explicação, na verdade, é mais prosaica: o pé das mesas estava aparafusado ao chão. No máximo, formavam-se grupos de três. O primeiro cliente (chamemos-lhe A, para efeitos que em breve se tornarão evidentes), encontrara um colega (B) e tinham começado a conversar à mesma mesa. Era uma conversa desequilibrada, em que A falava e B sobretudo ouvia, pontuando aqui e ali o discurso do outro com interjeições e grunhidos mansos. Em breve deixou de haver assunto e os silêncios longos começaram a tomar conta da mesa; a colherzinha a bater na xícara teve então os seus 5 minutos de fama. Mas quando tudo parecia pedir o remate de uma despedida atabalhoada, surge C, que vendo A de frente e B de costas se aproxima cheio de entusiasmo. O entusiasmo desaparece no instante em que, aberto o ângulo, repara em B. Como era demasiado tarde para voltar atrás,C põe uma cadeira a jeito e senta-se à mesa com os outros dois. Cumpridas as palavras de circunstância, a conversa começou a desenvolver-se com um ritmo e uma dinâmica peculiares. A, B e C conhecem-se, mas A prefere falar com e ouvir B, enquanto B prefere falar com C, o qual -percebeu-se desde o primeiro instante- não está minimamente interessado em ouvir B e só se dirige a A, que parece só não o desprezar por ser uma pessoa educada. O discurso fluia num só sentido e sem atalhos, de A para B, depois para C, chegando de novo a A. Como nenhum dos que ouvem estava interessado em ouvir, cada interlocutor parecia funcionar como uma caixa negra em que o que entra tem pouco a ver com o que sai. Do pouco que ia apanhando, a conversa mudava constantemente, mantendo-se apenas o tom, cordato. Os três homens aguentam a rotina durante cerca de meia hora, até que, de repente, todos se sentiram incomodados a tal ponto que só lhes apeteceu abandonar a mesa. Foi o que fizeram, prontamente, como se à boleia de um daqueles círculos de progressão excêntrica que perturbam os planos de água. Na vastidão do café, o ângulo de 120 graus das trajectórias de cada um, enquanto se afastavam, fora a efémera prova matematica da repulsa que todos sentiram. De onde estava, pareceu-me óbvio que houve naquela mesa um momento de omnisciência síncrone que muito os abalou. Arrisco-me a dizer que A percebeu que B, o seu psiquiatra, fazia terapia com C, paciente de A, e que os outros dois tiveram a mesma percepção, no mesmo exacto momento. Do que falavam eles, seria matéria para tratar com enormes reservas. Por sorte não os ouvia muito bem da mesa onde estava, ou então teria agora que me debater com um problema bicudo de -arrisco-me a dizê-lo- sigilo profissional. Uma coisa é certa: aqueles três homens, vestidos com camisas de padrões exóticos e cores berrantes, com sandálias e folgadas bermudas de cáqui , não iriam gozar o resto da manhã livre do congresso internacional de psiquiatria.
Do que mais gosto em Nova Iorque? Dos semáforos. As luzes são tão intensas que de noite parecem estar desfocadas e de dia ligam mal com a paisagem, dando-lhes um ar de fotomontagem. O clímax atinge-se quando apanho uma avenida de suave inclinação (2%), que prolonga o enfiamento de semáforos até se perder a vista. Então, ao fim da tarde, testemunhar a mudança do sinal vermelho para verde enquanto avança pela avenida fora como um dominó fotónico, é um augúrio de bonança desconcertante e que vicia. Ao esquema inverso- a passagem do verde para o vermelho- não chego sequer a reagir. O corolário desta observação é que, afinal, andei enganado estes anos todos e só posso ser um optimista.
PS: sim, mãe, já tenho a procuração comigo.
Se não houvesse mentiras, uma cidade sem subterrâneos seria uma cidade sem segredos. Esta cidade, como tantas outras, está cheia de mentiras, de segredos e de subterrâneos. Para os mais ingénuos, as reportagens sobre um povo subterrâneo a viver em buracos e com acesso às linhas de metro foram, há já alguns anos, revelações espantosas. Para uns poucos, tudo não passou de uma manobra de diversão. É sabido que a melhor forma de afrouxar uma suspeita consiste em fornecer aquilo de que todos estão à espera, após se ter baralhado os dados.
Já quase ninguém se lembra de como começou o rumor das passagens secretas. Nos anos trinta do século passado o chamado caso Manhattan Underground andou pelo éter e pelas rotativas, mas a notícia foi prontamente desmentida. A imprensa da época e alguns velhos guardam os detalhes dessa história. Mas às hemerotecas já poucos vão e aos velhos também ninguém vai. Tive a sorte de me cruzar com um deles. O que ele me contou merecia um enquadramento de antiquário, entre objectos raros. Na verdade, tudo começou num supermercado, diante da secção de detergentes de máquina. Calhou jogarmos a mão à mesma embalagem. Ora, esta coincidência, perante a diversidade e abundância da oferta, só pode ser interpretada como um sinal. (continua)
Alguns corpos conseguem proezas impensáveis: tocar piano como se tivessem cinco mãos independentes, dançar em pontas durante três horas, jogar e vencer 30 partidas de xadrez em simultâneo, etc. Estas coisas pouco naturais causam espanto e admiração. A notoriedade vem logo a seguir; ficará um dia condenada ao Guinness ou será reabilitada pelos livros de História. Há outros talentos, talentos domésticos, familiares ou de bairro. São pessoas que, beneficiando e/ou vítimas de uma série de contingências, adquirem uma reputação local nas artes de todos os dias, que dispensam a edição e os auditórios. Uns cortam fatias de pão à faca delgadas como o fiambre, outros preparam um arroz de passas como ninguém, dão dez voltas à praceta sem lançar as mãos ao guiador da bicicleta, fazem um mortal encarpado da prancha da piscina municipal, etc. Os que assistem são uns privilegiados, mas é um privilégio corrompido, porque calha a todos. Cada um constrói a sua caderneta de heróis e, por uma vez, ninguém está interessado em trocar cromos.
Longo preâmbulo este, para agora escrever- sem a menor hesitação- que o melhor contador de histórias à face da Terra chama-se Alexandre Estrela. O Alexandre não escreve porque, segundo o próprio, dá muitos erros de ortografia. O que ele não diz, por modéstia, é que a escrita seria um veículo inadequado para extravasar aquele talento. Infelizmente, o Alexandre já não mora aqui e o vazio que deixou pesa sempre mais ao serão. Voltei a lembrar-me dele há uns dias, quando tive em casa alguns amigos e se passou o jantar na cavaqueira. Dois desses amigos- o Jorge e o Scott- são também exímios a contar histórias, cada um à sua maneira. Sabendo eu há já muito tempo que ambos são amigos próximos do Alexandre, só ao jantar percebi o que liga estes três artistas. É a Arte, sim, mas a outra, a de contar.
A necessidade de me reencontrar? O truque de estar eternamente a virar e revirar ideias, como quem ficou apenas com uma camisola de lã num dia de Verão sem brinquedos nem amigos? A profilaxia para evitar a loucura completa? A necessidade de me sentir menos burro? O desejo de deixar uma marca no mundo? Nada disso. Escrevo porque não sei contar histórias ao jantar.
O boçal do John queria como título de post uma qualquer variação em torno de "a montanha pariu ### ####". O Tulius armou-se em gajo cool e absteve-se. Felizmente, qualquer um de nós pode exercer direito de veto. Foi o que fiz. Há limites, John. Não vês que não ia ficar bem? Afinal, falamos de Uma Thurman (outra vez), para agradecer a fotografia que o Montanha Mágica -um velho amigo na blogosfera- nos ofereceu. Caro Luís, a imagem é excelente. Não era bem essa a fotografia que procuro, mas tu não tens obrigação de conhecer as minhas obsessões ao fotograma.
Se ainda não conhecem o Montanha Mágica não sei de que é que estão à espera...
Um amigo do Zimbabué, provavelmente o tipo mais cosmopolita que conheço, por falar 5 línguas e ter amigos de infância em três continentes, contou-me que enquanto se ensaboava num balneário público no Japão um nativo se aproximou dele e, naquele inglês nipónico em que cada palavra soa a uma afirmação convicta, terá dito: “Yours is bigger, but ours is harder”. Percorrendo meio mundo, observemos agora os átrios do Met, entre dois actos de uma Ópera, para concordar com P., que não pôde deixar de reparar ser aquele o único lugar do mundo em que a fila de espera masculina para os lavabos rivaliza com a das senhoras. A explicação está na próstata e na peculiar melomania em pirâmide etária invertida que caracteriza o recinto quando os preços- ilibe-se Wagner, por uma vez- se tornam proibitivos. Encerro em registo melancólico, lembrando a confissão de E., que antes dava muitas e agora já não vai à segunda. O rapaz anda fascinado com os efeitos do óxido nítrico no crescimento do tubo polínico das plantas, forçando o paralelo acidental, enquanto assobia o tema The Secret Life of Plants do saudoso Stevie Wonder. Enfim, "who am I to doubt or question the inevitable being"?
(12.5.03)
Para bem de todos, confirmar a autenticidade de uma pessoa não segue o mesmo protocolo que aplicamos às moedas. Fónix, já viram o que seria sacrificar um blogosferante num teste de mordidela no lóbulo da orelha do Pacheco Pereira ? Seria o primeiro mártir da blogosfera e um mártir é sempre prenúncio de tragédias em catadupa (...). O Pacheco Pereira compreenderá que uma errância pelas ruas do bairro do Olivais, numa época em que havia uma ponta-e-mola ao virar de cada esquina, aguçou-me certos instintos. Esta desconfiança chegou a roçar a paranóia: em lugares públicos nunca comia de costas viradas para uma janela, usava três preservativos ao mesmo tempo e depois de ter visto o Brutti sporchi e cattivi (topa aí o Difool no domínio do italiano) deixei de comer macarrão, até então o meu prato preferido. À custa de uma dieta especial, ginástica sueca e disciplina draconiana, curei-me, tendo passado com distinção no teste de credulidade (15 minutos a passear por entre congressistas do PSD, de carteira recheada com todas as economias pessoais no bolso traseiro de umas calças larguíssimas). Fartei-me de suar mas fui aprovado com louvor e distinção. Consegui também salvar as economias, ao contrário dos meus outros colegas de terapia. Foi uma questão de sorte, já que o congressista que provocou o encontrão da praxe ainda saltou mas não conseguiu chegar à carteira. Agora, sempre que o vejo na televisão, esboço um sorriso cúmplice. Difool
Foi há muitos anos. Na altura ninguém podia ter desconfiado, mas durante uma semana ele só tivera uma pergunta na cabeça: qual o intervalo de tempo que inclui uma geração? O que veio depois é do domínio público e teve honras de manchete. Após o sinistro congresso de literatura que reuniu toda a gente, da geração dele só sobraram dois: ele próprio-um abstémio- e um outro escritor, claramente menor. Nunca se veio a saber quem tinha envenenado o Porca de Murça, o único vinho que por limitações de orçamento fora servido no jantar de encerramento. Com tão fraco álibi- "por quem nos toma?", terá perguntado o inspector da PJ- mas sem provas, nunca se viria a livrar da suspeita de que tinha sido ele o autor daquela monstruosidade. Com o tempo, o povo esqueceu; foi até uma questão de dias até que alguém dissesse: "eles, que são intelectuais, que se entendam..." O hiato geracional atraiu inúmeros estudiosos. Fez-se um filme em que ele aparece como um sujeito complexo, a viver uma tortura por estiramento moral. Os editores safaram-se com re-edições e edições póstumas de inéditos. O hiato geracional acabou mesmo por aumentar, pois para tanto inédito foi preciso recrutar principiantes talentosos com o pagamento da renda de casa em atraso. O nosso homem- a omnisciência não livra o narrador do in dubio pro reo- foi tentado a iniciar-se como escritor de policiais, coisa que interpretou como uma ofensa, ao que o editor terá respondido, entre dentes: "ias ficar rico a escrever n vezes a tua autobiografia, estafermo..." Escreveria depois um romance honesto, mas "Honestos são os vinhos" foi o título da única crítica literária que lhe fizeram. O romance vendeu mal e ninguém lhe quis dar um pseudónimo literário. A literatura do país demoraria vinte anos a recuperar, mas chegou-se lá. Notória foi a crescente e contínua explosão de talento que o outro escritor menor -o segundo sobrevivente do massacre do Porca de Murça (como o episódio ficou conhecido)- revelou nos anos seguintes. O fenómeno não chegaria a ser bem explicado. Este escritor sempre recusou entrevistas e só lia discursos, nunca improvisando. Alguns comentavam mesmo que ele não se recordava de alguns dos seus livros e personagens. O certo é que as as elites deixaram de conspirar e o governo abafou a discussão quando, perante a hipótese do Nobel, o assunto se tornou um imperativo nacional. Ao escritor menor viria mesmo a ser atribuído o galardão, que não chegaria a receber, pois faleceu na véspera da cerimónia de entrega, após um jantar de homenagem na embaixada de Portugal, em Estocolmo. O vinho servido nessa noite, apresso-me a revelar, não foi um Porca de Murça. Mas seria desonesto não mencionar a tese de um galego, em que se defende que a obra do mártir do Nobel tem sinais estilísticos que podem ser reconhecidos nos primeiros livros do outro sobrevivente do sinistro congresso, um escritor promissor, ambicioso, entretanto desaparecido de circulação, mas de quem alguns velhos ainda se lembram ter ouvido dizer: "um dia, serei o melhor escritor da minha geração"...
É quase certo que se trata de mais uma pretensão infundada, mas em Lisboa as pessoas não têm segredos para mim. Vejo um tipo na rua, que passeia o cão, e sinto que apanho a sua biografia à primeira vista. Sei o que faz e de onde veio. Com os dedos de uma mão enumero os seus passatempos e com as duas mãos conto as suas fobias. Por isso, muitas vezes reprimo o impulso de dar uma palmada nas costas de um desconhecido; outras vezes, rosno um "cabrão" em surdina. Ciente da injustiça destes julgamentos sumários, a eles consigo resistir em quase todos os locais do mundo, excepto em Lisboa. Parte deste comportamento reflecte a ambição de continuar a sentir-me lisboeta. Como deixei Lisboa há 10 anos, entre os meus amigos de Lisboa tento ser o mais lisboeta de todos.
História verídica: amigo apaixonado, abandonado e obcecado (por esta ordem) fica apenas com uma fotografia da mulher com quem teve uma aventura. A obsessão levou-o a cometer algumas loucuras e explica um vasto leque de efeitos, que vão da perda de apetite a dois pulsos mal cortados. Aconselhado por toda a gente a "esquecer a gaja" mas sentindo-se incapaz de o fazer ("rasga essa merda [a fotografia]"), ele põe em marcha um plano original. Começa por pedir a um desenhador de rua chinês que faça um desenho a carvão a partir da fotografia. Satisfeito com o resultado, dá uma gorjeta generosa ao chinês, compara a cópia com o original e lança a fotografia para a sarjeta. No dia seguinte, com o desenho do chinês debaixo do braço, aproxima-se de um desenhador de rua japonês e pede-lhe que faça um desenho a carvão a partir do desenho a carvão do chinês. O japonês estranha, mas acata. A obra nasce. O meu amigo repete a comparação, mantém a gorjeta e mete o desenho do chinês num caixote do lixo. No terceiro dia, o desenho do japonês é copiado por um colombiano; que é copiado ao quarto dia por um vietnamita. A partir do sétimo dia, pressentindo que este ritual pode vir a resultar, o meu amigo deixa de comparar a cópia com o original. Consegue depois deixar de olhar para a cópia, que continua a levar, todos os dias, a um desenhador diferente de Manhattan. Passa-se um mês e começa a ser difícil encontrar desenhadores novos. O meu amigo resolve então parar. Convencido de que a purga gradual de uma imagem só funcionaria com efeitos duradouros se houver um confronto final, opta por enfrentar o rosto que conseguira esquecer mas que leva ainda, todos os dias, debaixo do braço. Está confiante, por saber que nos processos reiterados como o que executou a acumulação de erros faz com que, ao fim de muitos ciclos, a cópia se torne irreconhecível quando comparada com o primeiro original. É pois com confiança que afrouxa a cinta que prende o desenho, enrolado em canudo. E é depois com desespero que se depara com o rosto de Britney Spears, o mesmo rosto que em posters e outdoors domina a Times Square e tantos outros pontos turísticos da cidade. Ando agora a tentar consolá-lo ("Mas tu nunca gostaste muito da MTV, certo?"), sabendo que este meu amigo dará em eremita se até lá não tiver dado em doido.
Estou aqui entretido a fazer um diapositivo do rosto da Uma Thurman. Convém preparar o futuro. É que se um dia chegar a professor e um aluno me pedir um exemplo de uma propriedade emergente, sei precisamente o que mostrar (1).

(1) Há fotografias da Uma muito mais artísticas, mas resolvi escolher uma que até numa sala do colégio Planalto não seria censurada. Para outros efeitos, procuro uma fotografia da Uma nas cenas do Kill Bill vol II em que ela aparece com o rosto meticulosamente sujo (quem me enviar essa fotografia recebe uma fotografia da Uma nas cenas do Kill Bill vol II em que ela aparece com o rosto meticulosamente sujo).
O período de ouro do futebol começou com um Bélgica-Argentina, em 1982, e acabou em 1986, quando a Argentina derrotou a Alemanha no México. Pelo meio houve um Europeu que nos correu bem, com a melhor derrota de sempre da selecção portuguesa (frente à França), Paulo Futre tinha explosões fenomenais e Maradona era, todo ele, um fenómeno. Para trás, está o passado do futebol e para a frente fui vivendo o futuro. Nutro por ambos- passado e futuro- o interesse que vem da beleza do jogo, do concentrado de emoções, de uma certa percepção da história. O problema é que o meu futebol foi vítima da ontogenia, que deu cabo da antologia. Volto sempre a 1982-1986. Não vale a pena discutir com argumentos objectivos. Sei que não tenho razão, mas prefiro continuar enganado. O meu top ten de jogadores deve ter 6 ou 7 tipos que jogavam naquela altura; o melhor jogo foi o Itália-Brasil de 1982; os melhores pontapés foram os de Eder; os melhores golos: o de Maradona com o pé frente à Inglaterra, em 1986, e a charutada de Carlos Manuel, em Estugarda. Tudo isto não deve fazer muito sentido para quem não viveu aqueles anos com a idade que eu tinha. Também não deve fazer muito sentido para quem tem a minha idade e gosta mesmo de futebol. O futebol agora deve ser muito mais rápido, mais eficiente, mais técnico, mais bonito. Paciência. Os parâmetros e índices físico-tácticos evoluíram? Que se lixe. Com um pouco de boa vontade vou até 1987, só para incluir o calcanhar de Madjer contra o Bayern. Em jeito de desculpa, faço notar que preciso destes caprichos para não sucumbir a outras parvoíces bem mais graves, como a do primeiro amor.
A ideia de que os intelectuais não gostam de futebol só pode estar a ser alimentada por intelectuais que gostam de futebol. Seria bom pôr uns números no assunto, pois desconfio que estamos perante uma falsidade. Uma coisa é certa: qualquer intelectual que tenha a pretensão de causar surpresa só porque agora resolveu escrever sobre futebol padece de excesso de leitura e chega com uma geração de atraso, a menos que intelectual se defina aqui como um tipo da linha dura, à la Jorge de Burgos. Que o digam Camilo José Cela, Bernard Pivot, Henry Kissinger, Lobo Antunes, Gabriel Alves, Nelson Rodrigues, Wim Wenders, entre tantos outros. Por isso, caro Ivan, conto ler essa tua prosa sobre o esférico e espero que não demores a apurá-la, mas não achas que ficava bem- até por uma questão de consistência geométrica- baixares a bolinha?