maio 31, 2004

Pudor no passeio

De manhã, ao sair de casa, cruzei-me na rua com um homem de bolsa de couro a tiracolo, que se dirigia para o coração da cidade. Ao fim do dia, quando regressava a casa, voltei a cruzar-me com o mesmo homem, que parecia fazer o caminho de volta. Resgato para aqui esta coincidência pouco espectacular por um motivo, provavelmente também muito pouco espectacular. É que eu sei uma série de coisas sobre aquele homem. Sei como fala, algo do que pensa, que foi premiado com um Nobel, que tem sentido de humor, que há 10 anos atendeu um telefone no meio de um corredor de um instituto de Londres (a acreditar num amigo) e que ganha $1 000 000 por ano. Sei onde vive e uma série de episódios mais ou menos rocambolescos, bons para apimentar as biografias que se lêem sem esforço. Em contrapartida, o homem não sabe nada sobre mim. Ao fim da tarde provavelmente nem se lembrava que se cruzara comigo de manhã. Perante estas assimetrias acidentais que ocorrem nos passeios públicos fico sempre algo embaraçado. Mais tarde posso até divulgar ou escrever sobre o ocorrido, com a excitação de um caçador de autógrafos. Mas durante o encontro, acabo invariavelmente por baixar os olhos. O reverso deste comportamento ocorre quando me cruzo com um energúmeno anónimo que berra ao telemóvel as desgraças da sua intimidade. Aí o pudor cede à irritação e nunca, mas nunca, consigo deixar de olhar. Esforço-me é por não ouvir.

Eles não sabem o que escrevem


«Se tivesse coragem, digo-vos que fracassaria com afinco todos os dias. É muito mais saudável perder do que ganhar. Ganhar é um luxo, uma embriaguez fácil, uma descaracterização. Fracassar não é nada disso. Fracassar é muito mais difícil, muito mais exigente [...]» Pedro Lomba (fragmento pirata, apagado da blogosfera e trocado entre amigos)

Perante uma tirada destas, só podemos pensar que o autor é parvo ou então cedeu aos encantos do estilo. Como sei que o Lomba está longe de ser parvo, sobra a segunda hipótese. Eu, quando fracasso, não me sinto nada bem; chego a ter azia. Numa palavra, sou básico. Se fracassasse todos os dias, já tinha deixado de ter dias.
Percebo o encanto da prosa do Lomba, sobretudo para adolescentes em crise e outros, em crise também. Mas, bem vistas as coisas, a expressão é ilógica. Quem tem o fracasso por modo de vida não é corajoso, é batoteiro. A única e a melhor forma de honrar a derrota é continuar a tentar a vitória, o que soa tosco mas ressoa verdadeiro. Aos meus ouvidos, claro.

maio 30, 2004

Novos links


Esta nova fase do Memória às cegas não é incompatível com uns acrescentos à lista de links. Deram entrada:

Causa nossa : onde pontifica o blogger com o melhor score qualidadeXprodução, um certo VM, presença absolutamente vital.

Fora do Mundo: onde se descobre que se almoça depressa e se escreve muito devagar.

Estão de saída:

Dicionário do Diabo: até sempre.

Outro, eu: o entrevistador que prefiro (apesar de ser óbvio que droga os entrevistados) não tem tempo para estas brincadeiras.

100 nada: desaparecido em combate. Que é feito de ti?

Diatribes


O Dicionário do Diabo foi convertido em livro, acaba e desaparece. Converter um blogue em livro é uma óptima notícia (sobretudo se se trata de um bom blogue, como é o caso). Terminar um blogue é uma decisão que só ao autor pertence e que devemos respeitar, por maior que seja a nossa frustração. Apagar um blogue pode aumentar ainda mais a frustração, mas a decisão continua a ser absolutamente legítima. Fica por explicar o encadeamento destas acções: fazer o livro, terminar o blogue, apagar o blogue. Ou melhor, percebe-se a causa próxima (uma imposição da editora, certamente), mas será que faz sentido? Alguém anda a ler blogues como se lê um livro? Alguém anda a vasculhar por entre os posts escritos há três meses? Não serão o blogue e o livro objectos distintos, no suporte, na organização e na forma como são lidos? Por último - e esta é a verdadeira questão- o livro vai vender mais por acabar o blogue? Se a resposta é afirmativa, então estamos na presença de um esquema que explora mecanismos de dependência à boa maneira dos traficantes de droga que dão umas borlas antes de começarem a cobrar as doses. Não tendo isto sido propriamente um plano, uma coisa é certa: se funcionar, funcionará mesmo muito bem.
O Pedro Mexia foi uma das figuras mais carismáticas da blogosfera, entre finais de 2002 e princípios de 2004. Forjou um estilo de escrita próprio para a forma do "post" . Chegou também antes de quase toda a gente ter chegado e é o primeiro peso-pesado a partir. Aprendi a apreciar a sua frontalidade e a crítica literária que produz. Coninuarei a lê-lo por aí.


Revivalismo pastilhento


O Macguffin actualizou a lista de blogues de malta que passeava os dedos pelo Pastilhas. Não chega de saudade, a saudade sempre chega. Para todos os outros, só interessa saber que se já tínhamos o Avenida Vastulec, temos agora também o Vodka 7. Para mim - e a opinião só não é consensual porque há sempre quem se engane- estas duas prosas são as mais originais e promissoras que passaram pelo Pastilhas.


Um dia no mar

Reparando que o corpo ainda guarda pulsões juvenis, dei lugar à esperança e apressei-me a descartar a surpresa. Ao largo de Brooklyn, o mar e a ondulação fraca, feita de vazios côncavos e massas convexas com a textura imprevisível e tolerante da matéria líquida, lembraram-me um relevo acidentado de seios, um longo manto de mamas que se roçavam umas nas noutras até ao infinito, sem braços, sem pernas e sem rostos. Não foi metáfora, foi alucinação.


maio 28, 2004

A insustentável leveza do craque


... Recupera Gaudêncio, à saída da grande área... Faz uma simulação, tira um adversário do caminho, agora outro... Está endiabrado, Gaudêncio... Levanta a cabeça, lateraliza e lança Mateus... Que ganha velocidade, triangula com Salvador, tem o flanco aberto, pode correr até à linha... Vai, Mateus, vai, sai o cruzamento... O que é que é isto, senhores? Com um balão para as costas de toda a defesa voltou a pôr a bola quase no meio camp... Mas, Gaudêncio, eu não quero acreditar...

Que bem se está aqui. Cheiro a relva e vejo o céu. Gozo um instante de omnisciência pura. Troquei as convicções pelas certezas. A bola virá ao encontro da minha chuteira esquerda e farei um pontapé de bicicleta de antologia. Tudo se torna simples quando temos 5 minutos de avanço sobre o nosso tempo. E eu, Gaudêncio, defesa direito, que poucos autógrafos assino e a quem dizem sobrar em dureza o que falta em brilhantismo, sei que estou a segundos de entrar para a História...


maio 26, 2004

Megatronic Fulminante

Era a minha metralhadora laser, com que à janela do meu prédio suburbano, camuflado pela cortina, despachei inúmeros transeuntes. Alvejava-os primeiro nas canelas, para os deixar tolhidos; podia a seguir apontar mais folgado de tempo. Ia depois aos membros superiores. Tinha uma certa apetência por articulações, devo confessar. E movido pelo instinto, deixava-os com a nuca ilesa até ao fim. Isto até ter começado a ver filmes na televisão e decidido que um trabalhinho bem feito pedia um balázio entre os olhos, de precisão milimétrica (ou cirúrgico, como agora se diz). Megatronic fulminante era a melhor metralhadora laser lá do bairro e- convém recordá-lo- o melhor do mundo são as crianças.


maio 25, 2004

14 dias e o Nepal (5)

Acabei por descobri-la quase por acaso, dentro de uma pequena loja de tapetes e almofadas, prestes a concluir a transacção: quatro tapetes de grande dimensão, suficientes para alcatifar o nosso minúsculo apartamento em Paris. Resolvi intervir, mesmo sem me inteirar do preço que eles tinham acordado. Sabia que para ela regatear era imoral, sobretudo com gente necessitada. Não compreendia que discutir o preço era uma etapa essencial naquele ritual e eu, que ainda tinha presente o sucesso de uma campanha recente em Marrocos onde me convencera de uma vocação, não hesitei em me aproximar do homem, tirando-lhe as medidas. De traços finos, olhar penetrante e mãos delicadas, tinha encontrado um adversário à altura. Ataquei em inglês, enquanto ela abandonava o recinto, sem disfarçar a sua irritação. O homem deixou-me acabar e depois perguntou: " Vem de Macau?" Habituado a ser confundido com um russo quando falo em português na Europa do Norte, trazendo nos músculos, tendões e glândulas o reflexo pavloviano que me amansa sempre que alguém lembra o nosso passado glorioso e vivendo a ilusão de praticar um inglês oxfordiano irrepreensível, aquela pergunta bastou para o comerciante me surpreender, seduzir e ganhar um ascendente difícil de anular. Tentei ripostar, mas não, o homem não era um Gurka como pensara e a explicação da arte do tapete de arraiolos saiu-me atabalhoada. Optei por encurtar a conversa. Trocámos uns números e apertámos as mãos quando o preço era cerca de metade do que ele inicialmente me pedira. Sabia que tinha sido derrotado, mas ao sair com os tapetes quebrados sobre o ombro resisti ao sarcasmo dela, que preferiu não revelar o preço que tinha conseguido antes de eu entrar em acção, mas não resistiu a comentar: “Então, parece que foste ao tapete...” Nessa noite ofereci-lhe o jantar.
Deitámo-nos cedo. Às onze da noite acordei. Ela dormia na cama do lado. Na primeira noite dormíramos juntos, mas ontem parecíamos um casal idoso à antiga. Olhei pela janela, julguei distinguir ao montanhas ao longe. Talvez dormíssemos juntos lá no alto. Sorri antes de concretizar em voz o que pensara- "unidos pelo frio"-, e sorri outra vez, como se não me lembrasse já do primeiro sorriso. Perdera o sono nestes pensamentos e para deles me perder também resolvi sair à rua. Vesti-me com cuidado, quase não fiz barulho ao fechar a porta atrás de mim. Reconheci o cheiro das escadas e galguei os degraus. As ruas estavam quase desertas. Katmandu não é uma cidade de libertinagem aparente. É verdade que alguns vultos vindos da escuridão me ofereciam marijuana, mas ainda não vira uma prostituta nas ruas, o que me teria sido proveitoso. Entendamo-nos: as mulheres asiáticas deixam-me indiferente mas a prostituição fascina-me. Uma educação católica levou-me a condenar a prostituição por defeito, posição que foi reforçada pela visão de mulheres com bocas de escorbuto e joelhos ossudos das esquinas da Avenida da Liberdade e do Intendente, imagem tão forte que a pena que senti em criança era ainda pena no adolescente em convulsão hormonal. Já ateu e com uma consciência política a germinar, a prostituta pareceu-me o paradigma da exploração do homem pelo homem, convicção que foi depois abalada por alguns relatos vindos da Holanda. Encaixei a novidade, tolerando a vontade de pessoas livres que optam por aquele modo de vida, mas terminando aí a cumplicidade. No fundo, eram ainda os joelhos ossudos e as bocas de escorbuto que estavam vincadas na memória, mas tivera tempo de inventar outra explicação. A procura antecipada do acto sexual, mais até que a sua compra, desmotivava-me. Descobrira também um pudor que me inibia de ir ter com uma prostituta. Afinal, o corpo daquelas mulheres é um lugar público e as taras vagamente exibicionistas, se é que as tive, não resistiram ao fim da adolescência. Feitas as ressalvas, cruzar-me com uma prostituta pelas ruas deste mundo é bem mais inspirador que uma qualquer visita guiada ao cavaleiro de bronze da praça do município. Mas não havia nenhuma indicação de que me encontraria com uma prostituta em Katmandu. Um bar que se insinuava com uns neons de tonalidade promissora era, afinal, um club de jazz sério. Os candeeiros da iluminação pública revelaram depois três turistas inglesas embriagadas. Dei-me por vencido e voltei para o quarto. Subi os degraus devagar, um a um. Apetece-me inventar que adormeci a pensar numa série de Fibonaci, mas reparo agora nos tapetes, discretamente enrolados e quase escondidos ao lado do armário do quarto, o que interpreto como um sinal de que a dose diária de presunção para aquele dia tinha sido atingida muito antes do jantar. Escrevo pois a verdade: ontem adormeci a contar, mas de 100 para 1. (Katmandu, manhã de 29/3/98)

maio 23, 2004

Física aplicada(1)


Uma descrição mínima e essencial da vida que vivemos? Basta convocar as leis de Newton e algumas noções da teoria dos sistemas caóticos. A primeira lei de Newton- na verdade uma reformulação de um princípio de Galileu- diz-nos que qualquer corpo permanece no estado de repouso ou de movimento rectilíneo uniforme se a resultante das forças que actuam sobre esse corpo for nula. Se substituirmos "corpo" por "consciência", ou por "motivação", esclarecemos logo metade dos nossos mistérios. A terceira lei de Newton ensina-nos que quando dois corpos interagem, a força que o corpo 1 exerce sobre o corpo 2 é igual e oposta à força que o corpo 2 exerce sobre o corpo 1. Esta lei falha para as relações humanas-das de poder às do amor- mas aplica-se na perfeição à forma como no ricochete dos contrários buscamos um pensamento original. Também a teoria do caos é fundamental e muito mais abrangente, porque resolve abruptamente a velha questão do livre arbítrio: está tudo determinado, mas o resultado é imprevisível. Sobra a segunda lei de Newton. Newton disse-nos que a aceleração adquirida por um corpo é directamente proporcional à intensidade da resultante das forças que actuam sobre o corpo, tem a direcção e o sentido dessa força resultante e é inversamente proporcional à sua massa. É trivial concluir que a segunda lei de Newton- tendo presente a terceira- salvou a humanidade, ao impedir o homem de se atirar de penedos e terraços.

(1): uma nota equidistante, para pedir desculpas antecipadas a António Manuel Baptista e frisar que nunca entrámos no centro de estudos sociais de Boaventura dos Santos.

maio 22, 2004

Paparizzando


Chelsea, 2 da manhã e o actor Gabriel Byrne (Miller´s Crossing, Usual suspects...) aos beijos no passeio a uma rapariga sem ancas mas apetecível de cara. Passo por eles. O Gabriel mantém ao vivo aquele ar de irlandês chorão a quem foi vedado o acesso ao pub. É moço de baixa estatura. Parece não querer largar a miúda, agora que está à porta de casa dela. Já depois de os ter deixado para trás não resisto a olhar uma última vez. Estavam no beijo final. Os lábios descolam-se, a moça chega a casa de elevador e o Gabriel apanha um táxi. Pareciam felizes com o desfecho, o que no cinema seria péssimo mas na vida deve dar jeito. Às vezes.

Teste


1, 2, som, som...

Road to perdition


Abandonamos o narcisómetro, o contador de visitas que esteve sempre connosco. Abdicamos dos comentários. A partir de agora o nosso contacto com o mundo passará a ser o correio electrónico. Até quando isto vai durar não podemos dizer. Por agora, estes são pequenos ajustamentos que fazem sentido.

Salvo pelo pretérito?


A exposição de lamentos e carências sexuais é um dos encantos do Dicionário do Diabo. Dá-lhe um toque de honestidade e uma certa jovialidade. Às vezes parece que o Pedro está a escrever para a multidão e para uma pessoa que fica por nomear, o que torna os textos ainda mais apetitosos. Há também por ali um anacronismo ontogénico, porque o Mexia parece escrever sobre sexo como um adolescente pensa sobre sexo. A malta gosta. Por fim, não se percebe muito bem onde começa a confissão e acaba a construção, o que é bom para todos. Um exemplo de tudo isto é este post, em que o uso do pretérito imperfeito foi perfeito.

Opiniões convictamente banais


Qualquer crítica ao livro de "contos" de Clara Ferreira Alves (CFA) deve ser lida com desconfiança. A autora fez crítica literária durante muitos anos e assina uma venenosa coluna há demasiado tempo para não haver por aí espalhado muito anticorpo contra ela. Até aqui no Memória gostamos de afinfar em CFA, o que é o lado público de um movimento pendular que, sem a amplitude do amor-ódio, oscila sem atrito entre a atracção e a repulsa. O fulcro deste nosso pêndulo é o estilo de CFA nos jornais (reportagem e crónica), absolutamente invejável e sublime. Continua a não existir ninguém a escrever regularmente na imprensa lusitana que lhe faça sombra (o Lobo Antunes não é um cronista), com a ressalva de que deixei de acompanhar o Notícias do Fundão e outros periódicos do mesmo calibre.
A crítica ao Mala de senhora e outras histórias já foi feita por quem sabe do ofício. Pedro Mexia escreveu um texto moderadamente simpático que é um magnífico exercício de contenção. Não deixa de criticar aquilo que é verdadeiramente escandaloso (a heterogeneidade absurda do volume e alguns exercícios claramente falhados), mas acaba por camuflar o nervo da crónica com uma inventariação e descrição excessivas.
Para atalhar, o que este livro revela é uma falta de talento notória para a escrita de ficção. CFA tem um défice de invenção e de humor que não a limita na escrita jornalística, antes pelo contrário, mas que pode ser um calcanhar de Aquiles noutros registos. É sintomático que o melhor exercício seja a descrição de uma viagem a Durban, em busca do rasto de Pessoa, prosa que lembra uma reportagem ficcionada. Quase todos os outros textos desiludem, mesmo se formalmente irrepreensíveis, como o primeiro conto, sobre um coleccionador de arte cego. Ora, vem muito a propósito lembrar que o pior cego é aquele que não quer ver.

maio 20, 2004

1 ano e três dias


Persistindo na recusa em pactuar com datas redondas, a equipa do Memória só agora assinala o aniversário do Crítico Musical. Ao Henrique e a todos os seus colaboradores, aqui ficam os nossos parabéns.


maio 19, 2004

O Triângulo das bermudas

A importância que se dá à invenção da roda sempre me pareceu exagerada. A contrapor, à invenção da mesa redonda ainda não foi feita justiça. Não espanta pois que no hotel se tivesse optado por um design rico em ângulos obtusos. Numa das mesinhas triangulares sentou-se o primeiro cliente da manhã. O fulano vinha com uma indumentária estival mas trazia a tiracolo uma sacola de material sintético, que parecia rebentar pelas costuras com a papelada. Tinha um perfil semita, óculos de aros finos, uma magreza atlética e alguma tensão acumulada nas extremidades do corpo. Pediu um café. Aos poucos o local foi-se enchendo com gente de perfis variados, óculos e compleição física diversos, mas todos, sem excepção, traziam a tiracolo a mesma sacola de material sintético, nuns mais vazia, noutros já rebentada. Entre eles, tratavam-se cordialmente. Alguns conheciam-se e houve inclusive algumas trocas de posição entre mesas. A forma das mesas terá talvez criado um problema de geometria que reprimiu em alguns a tentação de as juntar mas a explicação, na verdade, é mais prosaica: o pé das mesas estava aparafusado ao chão. No máximo, formavam-se grupos de três. O primeiro cliente (chamemos-lhe A, para efeitos que em breve se tornarão evidentes), encontrara um colega (B) e tinham começado a conversar à mesma mesa. Era uma conversa desequilibrada, em que A falava e B sobretudo ouvia, pontuando aqui e ali o discurso do outro com interjeições e grunhidos mansos. Em breve deixou de haver assunto e os silêncios longos começaram a tomar conta da mesa; a colherzinha a bater na xícara teve então os seus 5 minutos de fama. Mas quando tudo parecia pedir o remate de uma despedida atabalhoada, surge C, que vendo A de frente e B de costas se aproxima cheio de entusiasmo. O entusiasmo desaparece no instante em que, aberto o ângulo, repara em B. Como era demasiado tarde para voltar atrás,C põe uma cadeira a jeito e senta-se à mesa com os outros dois. Cumpridas as palavras de circunstância, a conversa começou a desenvolver-se com um ritmo e uma dinâmica peculiares. A, B e C conhecem-se, mas A prefere falar com e ouvir B, enquanto B prefere falar com C, o qual -percebeu-se desde o primeiro instante- não está minimamente interessado em ouvir B e só se dirige a A, que parece só não o desprezar por ser uma pessoa educada. O discurso fluia num só sentido e sem atalhos, de A para B, depois para C, chegando de novo a A. Como nenhum dos que ouvem estava interessado em ouvir, cada interlocutor parecia funcionar como uma caixa negra em que o que entra tem pouco a ver com o que sai. Do pouco que ia apanhando, a conversa mudava constantemente, mantendo-se apenas o tom, cordato. Os três homens aguentam a rotina durante cerca de meia hora, até que, de repente, todos se sentiram incomodados a tal ponto que só lhes apeteceu abandonar a mesa. Foi o que fizeram, prontamente, como se à boleia de um daqueles círculos de progressão excêntrica que perturbam os planos de água. Na vastidão do café, o ângulo de 120 graus das trajectórias de cada um, enquanto se afastavam, fora a efémera prova matematica da repulsa que todos sentiram. De onde estava, pareceu-me óbvio que houve naquela mesa um momento de omnisciência síncrone que muito os abalou. Arrisco-me a dizer que A percebeu que B, o seu psiquiatra, fazia terapia com C, paciente de A, e que os outros dois tiveram a mesma percepção, no mesmo exacto momento. Do que falavam eles, seria matéria para tratar com enormes reservas. Por sorte não os ouvia muito bem da mesa onde estava, ou então teria agora que me debater com um problema bicudo de -arrisco-me a dizê-lo- sigilo profissional. Uma coisa é certa: aqueles três homens, vestidos com camisas de padrões exóticos e cores berrantes, com sandálias e folgadas bermudas de cáqui , não iriam gozar o resto da manhã livre do congresso internacional de psiquiatria.

maio 14, 2004

JJpiana número II

Em breve, qual judeu errante, mais uma corrida, mais uma viagem entre dois continentes, um só mar, nenhum vulcão... Ai o avião, o airbus, a poeira cósmica, o céu bruxelense que não conheço, colóquios, voos, cidade aqui, cidade acolá, tempus fugit, vita brevis, e pluribus unum (hum?), as nuvens, sempre as nuvens e subitamente uma abetarda a esfodaçar-se de trombas contra o reactor esquerdo. Fónix, pá, esta coisa de imaginar perigos absolutamente estapafúrdios- em vez de pensar em, deixa ver, actos terroristas, hãn?- precisa de ser tratada num campo de reeducação de um qualquer estado sulista desta grande nação. Muito barbecue, muito country, muito damn good beef jerky, yyyyyyyyyyyyyyyyaaaaaahh! Muita gaja loira para tombar no celeiro, muito dardo para atirar à fotografia do Bin Laden. Ui, vai ser lindo. Venho de lá outro e deixo de beber antes mesmo de ter chegado aos quarenta. A brincar a brincar, a verdade é que, indo para Portugal, vou com os espanhóis. Se não me soubessem distraído e com dificuldades nos encadeamentos lógicos em tripla, ainda se punham por aí a dizer que, à custa de cobardolas como o Difool, a Al Qaeda não só ganha eleições como é também responsável pela retoma económica da Iberia. Assim vai o nosso mundo. Razão tem o Pacheco. Olhemos para Marte... Mas qual deles, homem, o planeta ou o Deus?

Augúrio de bonança

Do que mais gosto em Nova Iorque? Dos semáforos. As luzes são tão intensas que de noite parecem estar desfocadas e de dia ligam mal com a paisagem, dando-lhes um ar de fotomontagem. O clímax atinge-se quando apanho uma avenida de suave inclinação (2%), que prolonga o enfiamento de semáforos até se perder a vista. Então, ao fim da tarde, testemunhar a mudança do sinal vermelho para verde enquanto avança pela avenida fora como um dominó fotónico, é um augúrio de bonança desconcertante e que vicia. Ao esquema inverso- a passagem do verde para o vermelho- não chego sequer a reagir. O corolário desta observação é que, afinal, andei enganado estes anos todos e só posso ser um optimista.

À atenção de Simonetta Luz Afonso


É muito preocupante o ar solícito, a prontidão e, até, o alívio estampado no rosto dos funcionários do consulado de Portugal em Nova Iorque, sempre que lhes pergunto se posso levar um exemplar da Camões, a revista de letras do instituto homónimo. Podemos convocar várias teses. A mais cândida apresenta os funcionários como pessoas que retiram da partilha daquela publicação um enorme prazer. O problema é que começo logo a pensar noutras teses. E todas, sem excepção, me parecem mais plausíveis, das que põem a nu a tal dúvida antropológica às que, mais prosaicamente, decorrem da notória necessidade de dar vazão a tralha que só atravanca e que parece não interessar a muita gente...

PS: sim, mãe, já tenho a procuração comigo.


maio 12, 2004

A cozinha

Se não houvesse mentiras, uma cidade sem subterrâneos seria uma cidade sem segredos. Esta cidade, como tantas outras, está cheia de mentiras, de segredos e de subterrâneos. Para os mais ingénuos, as reportagens sobre um povo subterrâneo a viver em buracos e com acesso às linhas de metro foram, há já alguns anos, revelações espantosas. Para uns poucos, tudo não passou de uma manobra de diversão. É sabido que a melhor forma de afrouxar uma suspeita consiste em fornecer aquilo de que todos estão à espera, após se ter baralhado os dados.
Já quase ninguém se lembra de como começou o rumor das passagens secretas. Nos anos trinta do século passado o chamado caso Manhattan Underground andou pelo éter e pelas rotativas, mas a notícia foi prontamente desmentida. A imprensa da época e alguns velhos guardam os detalhes dessa história. Mas às hemerotecas já poucos vão e aos velhos também ninguém vai. Tive a sorte de me cruzar com um deles. O que ele me contou merecia um enquadramento de antiquário, entre objectos raros. Na verdade, tudo começou num supermercado, diante da secção de detergentes de máquina. Calhou jogarmos a mão à mesma embalagem. Ora, esta coincidência, perante a diversidade e abundância da oferta, só pode ser interpretada como um sinal. (continua)

Siblings

Alguns corpos conseguem proezas impensáveis: tocar piano como se tivessem cinco mãos independentes, dançar em pontas durante três horas, jogar e vencer 30 partidas de xadrez em simultâneo, etc. Estas coisas pouco naturais causam espanto e admiração. A notoriedade vem logo a seguir; ficará um dia condenada ao Guinness ou será reabilitada pelos livros de História. Há outros talentos, talentos domésticos, familiares ou de bairro. São pessoas que, beneficiando e/ou vítimas de uma série de contingências, adquirem uma reputação local nas artes de todos os dias, que dispensam a edição e os auditórios. Uns cortam fatias de pão à faca delgadas como o fiambre, outros preparam um arroz de passas como ninguém, dão dez voltas à praceta sem lançar as mãos ao guiador da bicicleta, fazem um mortal encarpado da prancha da piscina municipal, etc. Os que assistem são uns privilegiados, mas é um privilégio corrompido, porque calha a todos. Cada um constrói a sua caderneta de heróis e, por uma vez, ninguém está interessado em trocar cromos.
Longo preâmbulo este, para agora escrever- sem a menor hesitação- que o melhor contador de histórias à face da Terra chama-se Alexandre Estrela. O Alexandre não escreve porque, segundo o próprio, dá muitos erros de ortografia. O que ele não diz, por modéstia, é que a escrita seria um veículo inadequado para extravasar aquele talento. Infelizmente, o Alexandre já não mora aqui e o vazio que deixou pesa sempre mais ao serão. Voltei a lembrar-me dele há uns dias, quando tive em casa alguns amigos e se passou o jantar na cavaqueira. Dois desses amigos- o Jorge e o Scott- são também exímios a contar histórias, cada um à sua maneira. Sabendo eu há já muito tempo que ambos são amigos próximos do Alexandre, só ao jantar percebi o que liga estes três artistas. É a Arte, sim, mas a outra, a de contar.


maio 11, 2004

ANACOMO?


Isto anda bonito, anda. Depois dos ataques isolados de Pedro Rolo Duarte, os adversários da blogosfera organizam-se e até já têm sigla revolucionária. Leia-se isto: «Os blogs estão cada vez mais a ter uma relação com o jornalismo, e prevê-se uma grande tendência para a difamação. O objectivo da ANACOM é acabar com a criação de "blogs" e espero que seja cumprido». O autor destas palavras chama-se Pedro Amorim. Sem lhe querer dar razão, só podemos concluir que Pedro Amorim é um palerma. Fica no ar uma dúvida. Querem impedir o aparecimento de novos blogues ou acabar com todos os blogues existentes?
Esta foi uma análise a quente do problema. É pouco provável que a seguir venha uma análise a frio, a menos que tenhamos em mente qualquer coisa como lançar o Amorim de pára-quedas sobre a Antártida. Sim, sim, o nosso Pedro tem direito a um pára-quedas. Vai é de T-shirt.
adenda: consta que Pedro Amorim já desmentiu a notícia do Expresso. Se assim foi, aqui fica um pedido de desculpas ao Pedro Amorim. No texto do post o leitor deve substituir "Pedro Amorim" por "jornal Expresso" e "de pára-quedas" por "atado a um bloco de cimento" (para evitar que a insustentável leveza do semanário o leve para latitudes mais amenas).


maio 10, 2004

Porque escrevo

A necessidade de me reencontrar? O truque de estar eternamente a virar e revirar ideias, como quem ficou apenas com uma camisola de lã num dia de Verão sem brinquedos nem amigos? A profilaxia para evitar a loucura completa? A necessidade de me sentir menos burro? O desejo de deixar uma marca no mundo? Nada disso. Escrevo porque não sei contar histórias ao jantar.

maio 09, 2004

Um veto e um agradecimento


O boçal do John queria como título de post uma qualquer variação em torno de "a montanha pariu ### ####". O Tulius armou-se em gajo cool e absteve-se. Felizmente, qualquer um de nós pode exercer direito de veto. Foi o que fiz. Há limites, John. Não vês que não ia ficar bem? Afinal, falamos de Uma Thurman (outra vez), para agradecer a fotografia que o Montanha Mágica -um velho amigo na blogosfera- nos ofereceu. Caro Luís, a imagem é excelente. Não era bem essa a fotografia que procuro, mas tu não tens obrigação de conhecer as minhas obsessões ao fotograma.
Se ainda não conhecem o Montanha Mágica não sei de que é que estão à espera...

Figura de estalo


Como já passaram alguns dias, urge perguntar: será que Augusto Seabra já levou um par de estalos de Clara Ferreira Alves ou estávamos perante outra figura de retórica? O excesso de estilo na imprensa lusitana deixa-me sempre a suspirar pelo regresso das bengaladas.


Ai Portugal, dar-te conselhos é bem pouco original


O Palácio da Ajuda está por acabar. Esta escaldante notícia de última hora tem prendido a atenção de alguns dos nossos mais ilustres cronistas e é pretexto para exercícios de portugalogia ressentida. Porém, antes de começarmos a puxar cuspo e a afinar a mira (a quina central vale dez pontos; as periféricas valem 5), convém lembrar que não deve haver país (a Suiça não é bem um país) sem as suas obras de Santa Engrácia ou por concluir. Aqui, na capital cultural da nação mais poderosa do sistema solar, temos o museu de Brooklyn, cuja construção está há mais de 100 anos por acabar. A sorte da malta de Brooklyn, que lhes permite gozar o sol de sábado apesar faltarem ao edifício três quartos do plano original, é não terem um VPV por vizinho. Com tanta vergonha da simbologia do Palácio da Ajuda, qualquer dia ainda vem empreitada desnecessária só pelo brilharete político. E- horror dos horrores- se não nos calamos já ainda vemos o Santana mandar pintar os três terços da fachada do Palácio, pretexto suficiente para Luís Delgado logo gritar: temos homem! Vai uma aposta?

maio 08, 2004

Três apontamentos fálicos

Um amigo do Zimbabué, provavelmente o tipo mais cosmopolita que conheço, por falar 5 línguas e ter amigos de infância em três continentes, contou-me que enquanto se ensaboava num balneário público no Japão um nativo se aproximou dele e, naquele inglês nipónico em que cada palavra soa a uma afirmação convicta, terá dito: “Yours is bigger, but ours is harder”. Percorrendo meio mundo, observemos agora os átrios do Met, entre dois actos de uma Ópera, para concordar com P., que não pôde deixar de reparar ser aquele o único lugar do mundo em que a fila de espera masculina para os lavabos rivaliza com a das senhoras. A explicação está na próstata e na peculiar melomania em pirâmide etária invertida que caracteriza o recinto quando os preços- ilibe-se Wagner, por uma vez- se tornam proibitivos. Encerro em registo melancólico, lembrando a confissão de E., que antes dava muitas e agora já não vai à segunda. O rapaz anda fascinado com os efeitos do óxido nítrico no crescimento do tubo polínico das plantas, forçando o paralelo acidental, enquanto assobia o tema The Secret Life of Plants do saudoso Stevie Wonder. Enfim, "who am I to doubt or question the inevitable being"?

"Roto", bacano? Axandra-te...


Gosto de António Pinto Leite por duas razões: 1) é um careca com pinta, o que traz sempre algum conforto; 2) foi capaz de se lembrar de "Qual é o mal?" , conseguindo ultrapassar o "Contigências" de Carrilho na corrida para os títulos de coluna mais desastrados da imprensa lusitana. Se a memória não me falha, Pinto Leite já tentou vender a tese de que "Qual é o mal?" é uma expressão usada pelos jovens. E se a memória ainda está comigo, em tempos idos ele chegou a ser hippie. Com estes predicados, nunca pensei que Pinto Leite estivesse tão ao lado das tendências da língua portuguesa. O certo é que sobre um possível seleccionado para a equipa de Scolari escreve hoje, no Expresso: "Haverá Tiago, mas está «roto»." Pinto Leite até desenvolve uma tese interessante, a de que a selecção de Portugal para o Europeu devia ser a equipa do Porto polvilhada com dois ou três jogadores de outras equipas. O problema é que depois do "haverá Tiago, mas está «roto»" não consegui recuperar a concentração e acabar de ler o texto.

maio 06, 2004

Parabéns, Pacheco!

Por ocasião do aniversário do Abrupto, dou os meus parabéns a Pacheco e autoflagelo-me com o seguinte acto de contracção. Difool, John, errou quando duvidou da autenticidade da assinatura do Abrupto. Difool escreveu umas palermices na altura, uma prosa datada e violenta, que agora relembro, só para depois a poder para sempre esquecer. Aqui fica:

(10.5.03)
As ondas hertzianas detectadas pelo radar cibéria trazem hoje no regaço da sinusóide uma estupefacção a dobrar. A blogosfera espantou-se com o aparecimento de um blog da autoria de José Pacheco Pereira (JPP) . Eu espanto-me com a ingenuidade da blogosfera. Então, malta, pede-se um pouco mais de espírito crítico. (...) É verdade que lendo o blog em questão, a prosa até podia ser a de Pacheco Pereira e as referências também. A tratar-se de um impostor, é alguém que fez o trabalho de casa. No caso de ser o Pacheco Pereira, só me resta dizer que é o Pacheco Pereira (brilhante, John). A única forma de estrangular esta dúvida é desafiar o autor do Abrupto (excelente nome, de resto, que também podia ser o de um perfume caro) para uma série de provas, uma espécie de "Os doze trabalhos de JPP". Se o autor conseguir desenvencilhar-se da tarefa, o Abrupto leva um selo de autenticidade JPP. Conto com a participação de todos para a elaboraração dos doze trabalhos de JPP. Não é fácil conceber provas adequadas(...) A confirmar-se a autencidade de JPP, estamos perante um acontecimento, epá, de cariz fundador. Nem mais. JPP, o ideólogo do PSD, mal amado pelas bases do partido, cujo intelecto, ágil e bem nutrido, desperta tanta admiração e inveja; JPP, o homem que com as suas crónicas no Público e a participação no flashback da TSF pontua o discurso político da nação sem que para isso precise de atribuir notas ou dar a impressão de que não lê todos os livros a que se refere; JPP (neste momento recomenda-se a entrada em fade in de um tema de Vangelis) um homem do Norte, que perdeu o sotaque mas ainda defende a sua terra e é capaz de o fazer sem parecer bairrista, pequenino, ressabiado ou vingativo; JPP, o homem que já não carrega o fardo da sua guinada política, pois a todos responde com frontalidade e provavelmente ainda se lembra onde estava no 25 de Abril. JPP, que tem um gato chamado Sófocles e anda sempre de um lado para o outro com Trotsky, o seu peixinho vermelho, bicho que acumula já um número impressionante de milhas na TAP (aqui inventei um bocado, mas estes elementos mais pessoais ficam sempre bem quando traçamos o perfil de uma figura pública). Pois bem, se um político com o peso de JPP resolve fazer um blog, quantos mais políticos e fazedores de opinião não lhe seguirão as pisadas? Os políticos controlam-se uns aos outros e sempre que alguém faz uma jogada que funciona, os outros não perdem tempo. Têm um comportamento que não se distingue do de um grupo de miúdos: gostam todos dos mesmos brinquedos. É claro que não entram em qualquer devaneio. O body surf de Marques Mendes, por exemplo, não despertou muitos entusiasmos, mas os políticos ainda têm alguma noção do ridículo. Um blog é outra coisa. A confirmar-se o blog de JPP, antecipo já uma reacção em cadeia. A febre bloguista vai chegar às elites, meus amigos. Teremos o PESSIMISTA, um blog de Pulido Valente, o TRAULITEIRO MOR (Graça Moura), o MESSIÂNICO (Luís Delgado) e por aí fora. José Magalhães ficará de fora, por achar que blogs é coisa para amadores. De resto, não terá tempo para estas brincadeiras, pois anda atarefadíssimo com o seu novo roteiro para a internet, uma série enigmática em que cada nova edição consegue estar ainda mais desactualizada do que a anterior. A blogosfera não pára mas a dúvida permanece: et tu, Abruptu? Difool

(12.5.03)
Para bem de todos, confirmar a autenticidade de uma pessoa não segue o mesmo protocolo que aplicamos às moedas. Fónix, já viram o que seria sacrificar um blogosferante num teste de mordidela no lóbulo da orelha do Pacheco Pereira ? Seria o primeiro mártir da blogosfera e um mártir é sempre prenúncio de tragédias em catadupa (...). O Pacheco Pereira compreenderá que uma errância pelas ruas do bairro do Olivais, numa época em que havia uma ponta-e-mola ao virar de cada esquina, aguçou-me certos instintos. Esta desconfiança chegou a roçar a paranóia: em lugares públicos nunca comia de costas viradas para uma janela, usava três preservativos ao mesmo tempo e depois de ter visto o Brutti sporchi e cattivi (topa aí o Difool no domínio do italiano) deixei de comer macarrão, até então o meu prato preferido. À custa de uma dieta especial, ginástica sueca e disciplina draconiana, curei-me, tendo passado com distinção no teste de credulidade (15 minutos a passear por entre congressistas do PSD, de carteira recheada com todas as economias pessoais no bolso traseiro de umas calças larguíssimas). Fartei-me de suar mas fui aprovado com louvor e distinção. Consegui também salvar as economias, ao contrário dos meus outros colegas de terapia. Foi uma questão de sorte, já que o congressista que provocou o encontrão da praxe ainda saltou mas não conseguiu chegar à carteira. Agora, sempre que o vejo na televisão, esboço um sorriso cúmplice. Difool



Crime, dizem eles

Foi há muitos anos. Na altura ninguém podia ter desconfiado, mas durante uma semana ele só tivera uma pergunta na cabeça: qual o intervalo de tempo que inclui uma geração? O que veio depois é do domínio público e teve honras de manchete. Após o sinistro congresso de literatura que reuniu toda a gente, da geração dele só sobraram dois: ele próprio-um abstémio- e um outro escritor, claramente menor. Nunca se veio a saber quem tinha envenenado o Porca de Murça, o único vinho que por limitações de orçamento fora servido no jantar de encerramento. Com tão fraco álibi- "por quem nos toma?", terá perguntado o inspector da PJ- mas sem provas, nunca se viria a livrar da suspeita de que tinha sido ele o autor daquela monstruosidade. Com o tempo, o povo esqueceu; foi até uma questão de dias até que alguém dissesse: "eles, que são intelectuais, que se entendam..." O hiato geracional atraiu inúmeros estudiosos. Fez-se um filme em que ele aparece como um sujeito complexo, a viver uma tortura por estiramento moral. Os editores safaram-se com re-edições e edições póstumas de inéditos. O hiato geracional acabou mesmo por aumentar, pois para tanto inédito foi preciso recrutar principiantes talentosos com o pagamento da renda de casa em atraso. O nosso homem- a omnisciência não livra o narrador do in dubio pro reo- foi tentado a iniciar-se como escritor de policiais, coisa que interpretou como uma ofensa, ao que o editor terá respondido, entre dentes: "ias ficar rico a escrever n vezes a tua autobiografia, estafermo..." Escreveria depois um romance honesto, mas "Honestos são os vinhos" foi o título da única crítica literária que lhe fizeram. O romance vendeu mal e ninguém lhe quis dar um pseudónimo literário. A literatura do país demoraria vinte anos a recuperar, mas chegou-se lá. Notória foi a crescente e contínua explosão de talento que o outro escritor menor -o segundo sobrevivente do massacre do Porca de Murça (como o episódio ficou conhecido)- revelou nos anos seguintes. O fenómeno não chegaria a ser bem explicado. Este escritor sempre recusou entrevistas e só lia discursos, nunca improvisando. Alguns comentavam mesmo que ele não se recordava de alguns dos seus livros e personagens. O certo é que as as elites deixaram de conspirar e o governo abafou a discussão quando, perante a hipótese do Nobel, o assunto se tornou um imperativo nacional. Ao escritor menor viria mesmo a ser atribuído o galardão, que não chegaria a receber, pois faleceu na véspera da cerimónia de entrega, após um jantar de homenagem na embaixada de Portugal, em Estocolmo. O vinho servido nessa noite, apresso-me a revelar, não foi um Porca de Murça. Mas seria desonesto não mencionar a tese de um galego, em que se defende que a obra do mártir do Nobel tem sinais estilísticos que podem ser reconhecidos nos primeiros livros do outro sobrevivente do sinistro congresso, um escritor promissor, ambicioso, entretanto desaparecido de circulação, mas de quem alguns velhos ainda se lembram ter ouvido dizer: "um dia, serei o melhor escritor da minha geração"...

maio 05, 2004

Posts de Lisboa (série limitada): o que vem nos rostos

É quase certo que se trata de mais uma pretensão infundada, mas em Lisboa as pessoas não têm segredos para mim. Vejo um tipo na rua, que passeia o cão, e sinto que apanho a sua biografia à primeira vista. Sei o que faz e de onde veio. Com os dedos de uma mão enumero os seus passatempos e com as duas mãos conto as suas fobias. Por isso, muitas vezes reprimo o impulso de dar uma palmada nas costas de um desconhecido; outras vezes, rosno um "cabrão" em surdina. Ciente da injustiça destes julgamentos sumários, a eles consigo resistir em quase todos os locais do mundo, excepto em Lisboa. Parte deste comportamento reflecte a ambição de continuar a sentir-me lisboeta. Como deixei Lisboa há 10 anos, entre os meus amigos de Lisboa tento ser o mais lisboeta de todos.

maio 03, 2004

Reiterar ou talvez não

História verídica: amigo apaixonado, abandonado e obcecado (por esta ordem) fica apenas com uma fotografia da mulher com quem teve uma aventura. A obsessão levou-o a cometer algumas loucuras e explica um vasto leque de efeitos, que vão da perda de apetite a dois pulsos mal cortados. Aconselhado por toda a gente a "esquecer a gaja" mas sentindo-se incapaz de o fazer ("rasga essa merda [a fotografia]"), ele põe em marcha um plano original. Começa por pedir a um desenhador de rua chinês que faça um desenho a carvão a partir da fotografia. Satisfeito com o resultado, dá uma gorjeta generosa ao chinês, compara a cópia com o original e lança a fotografia para a sarjeta. No dia seguinte, com o desenho do chinês debaixo do braço, aproxima-se de um desenhador de rua japonês e pede-lhe que faça um desenho a carvão a partir do desenho a carvão do chinês. O japonês estranha, mas acata. A obra nasce. O meu amigo repete a comparação, mantém a gorjeta e mete o desenho do chinês num caixote do lixo. No terceiro dia, o desenho do japonês é copiado por um colombiano; que é copiado ao quarto dia por um vietnamita. A partir do sétimo dia, pressentindo que este ritual pode vir a resultar, o meu amigo deixa de comparar a cópia com o original. Consegue depois deixar de olhar para a cópia, que continua a levar, todos os dias, a um desenhador diferente de Manhattan. Passa-se um mês e começa a ser difícil encontrar desenhadores novos. O meu amigo resolve então parar. Convencido de que a purga gradual de uma imagem só funcionaria com efeitos duradouros se houver um confronto final, opta por enfrentar o rosto que conseguira esquecer mas que leva ainda, todos os dias, debaixo do braço. Está confiante, por saber que nos processos reiterados como o que executou a acumulação de erros faz com que, ao fim de muitos ciclos, a cópia se torne irreconhecível quando comparada com o primeiro original. É pois com confiança que afrouxa a cinta que prende o desenho, enrolado em canudo. E é depois com desespero que se depara com o rosto de Britney Spears, o mesmo rosto que em posters e outdoors domina a Times Square e tantos outros pontos turísticos da cidade. Ando agora a tentar consolá-lo ("Mas tu nunca gostaste muito da MTV, certo?"), sabendo que este meu amigo dará em eremita se até lá não tiver dado em doido.

maio 02, 2004

Propriedades emergentes


Estou aqui entretido a fazer um diapositivo do rosto da Uma Thurman. Convém preparar o futuro. É que se um dia chegar a professor e um aluno me pedir um exemplo de uma propriedade emergente, sei precisamente o que mostrar (1).

(1) Há fotografias da Uma muito mais artísticas, mas resolvi escolher uma que até numa sala do colégio Planalto não seria censurada. Para outros efeitos, procuro uma fotografia da Uma nas cenas do Kill Bill vol II em que ela aparece com o rosto meticulosamente sujo (quem me enviar essa fotografia recebe uma fotografia da Uma nas cenas do Kill Bill vol II em que ela aparece com o rosto meticulosamente sujo).

1982-1986, anos dourados


O período de ouro do futebol começou com um Bélgica-Argentina, em 1982, e acabou em 1986, quando a Argentina derrotou a Alemanha no México. Pelo meio houve um Europeu que nos correu bem, com a melhor derrota de sempre da selecção portuguesa (frente à França), Paulo Futre tinha explosões fenomenais e Maradona era, todo ele, um fenómeno. Para trás, está o passado do futebol e para a frente fui vivendo o futuro. Nutro por ambos- passado e futuro- o interesse que vem da beleza do jogo, do concentrado de emoções, de uma certa percepção da história. O problema é que o meu futebol foi vítima da ontogenia, que deu cabo da antologia. Volto sempre a 1982-1986. Não vale a pena discutir com argumentos objectivos. Sei que não tenho razão, mas prefiro continuar enganado. O meu top ten de jogadores deve ter 6 ou 7 tipos que jogavam naquela altura; o melhor jogo foi o Itália-Brasil de 1982; os melhores pontapés foram os de Eder; os melhores golos: o de Maradona com o pé frente à Inglaterra, em 1986, e a charutada de Carlos Manuel, em Estugarda. Tudo isto não deve fazer muito sentido para quem não viveu aqueles anos com a idade que eu tinha. Também não deve fazer muito sentido para quem tem a minha idade e gosta mesmo de futebol. O futebol agora deve ser muito mais rápido, mais eficiente, mais técnico, mais bonito. Paciência. Os parâmetros e índices físico-tácticos evoluíram? Que se lixe. Com um pouco de boa vontade vou até 1987, só para incluir o calcanhar de Madjer contra o Bayern. Em jeito de desculpa, faço notar que preciso destes caprichos para não sucumbir a outras parvoíces bem mais graves, como a do primeiro amor.

maio 01, 2004

JPPiana número I


Há muita gente que não se incomoda com o meu passado, o que não é o meu caso, como se sabe...

“Saímos do armário?”

A ideia de que os intelectuais não gostam de futebol só pode estar a ser alimentada por intelectuais que gostam de futebol. Seria bom pôr uns números no assunto, pois desconfio que estamos perante uma falsidade. Uma coisa é certa: qualquer intelectual que tenha a pretensão de causar surpresa só porque agora resolveu escrever sobre futebol padece de excesso de leitura e chega com uma geração de atraso, a menos que intelectual se defina aqui como um tipo da linha dura, à la Jorge de Burgos. Que o digam Camilo José Cela, Bernard Pivot, Henry Kissinger, Lobo Antunes, Gabriel Alves, Nelson Rodrigues, Wim Wenders, entre tantos outros. Por isso, caro Ivan, conto ler essa tua prosa sobre o esférico e espero que não demores a apurá-la, mas não achas que ficava bem- até por uma questão de consistência geométrica- baixares a bolinha?