novembro 28, 2004

Quem é o filho da puta?

É a grande questão que consome a blogosfera e a culpa é de Pedro Mexia, que misturou filho da puta com um raciocínio complexo. A jogada só admite duas explicações: ou foi tudo uma grande filha da putice ou apenas um momento menos feliz e de ingenuidade. Enfim, há males que vêm por bem. O texto do Mexia deixa-me à vontade para relatar uma história que, merecendo ser verídica, é sobretudo esclarecedora da técnica mexiana de mandar a teoria às urtigas com um intervalo de uma dúzia de posts.
Há uns tempos fui convidado para participar numa tertúlia de poetas republicanos, malta de esquerda, maçons (julgo eu), sportinguistas, todos eles apreciadores de Manuel Alegre e Ary dos Santos e com uma particularidade adorável: são agressivos para quem levante a menor suspeita de recorrer a fotografias da Kirsten Dunst durante as rotinas de auto-recreação. Escusado será dizer que aceitei o convite. Na primeira sessão, antes da versalhada, falámos animados e cúmplices sobre blogues e ocorreu-me lembrar os tempos da Coluna Infame. Entre comentários vários disse-lhes que apreciava a escrita do Pedro Mexia. Nesse momento o ambiente gelou e no minuto seguinte convidaram-me a abandonar a sala. Perplexo perante tão radical mudança de comportamento, prontamente exigi uma explicação. Um deles apenas disse:
-Tu és um irmão do Mexia!- para logo insistir, perante o meu ar ainda mais espantado- Sim, tu, meu grande irmão do Mexia!". A segunda tirada deixou os outros visivelmente excitados. Três deles juntaram-se em uníssono:
- Ai meu “ganda” irmão mais velho do Mexia!
Perante um crescendo de raiva que rapidamente poderia dar lugar a uma sessão de apedrejamento, apressei-me a sair. "Antes lixado que linchado", lembro-me de ter pensado ao franquear a porta da rua.
No dia seguinte cruzei-me com um deles, meu amigo de infância e por sinal o menos exaltado da noite anterior. O rapaz estava visivelmente incomodado.
-Desculpa lá, eu sei que não és um irmão do Mexia- Foi então que explodi.
-Mas que palhaçada é esta? Parece que não conheces a minha família? E se fosse irmão do Mexia, qual era o problema?
-Não, não, não és um irmão do Mexia... O pessoal exaltou-se.
-Não percebo nada. Chateiam-se comigo por pensarem que eu sou o irmão do Mexia?
-Não é isso... é por gostares do Mexia.
-E isso faz-me irmão dele?
-Um irmão dele. Ele tem muitos irmãos. O que mais há para aí é irmãos do Mexia.
-Está tudo doido...
-Não, o pessoal passou-se. Foi só isso. Desculpa. Ouve, nunca mais te chamam aquilo. Ontem desvalorizámos o insulto.
-Desvalorizaram o insulto? Mas desde quando ser irmão do Mexia é insultuoso?
-Não desconverses.
-A sério, explica-me?
-Então não sabes? Onde é que tu andas, pá? Quando lá nas tertúlias um gajo chama outro de "irmão do Mexia" há pancadaria na certa. Mas isso só aconteceu uma vez. Por uma questão de educação e porque estamos com problemas de tesouraria e não dá para andar a partir cadeiras todas as semanas.
- Trata-te, rapaz. O que dizes não faz sentido.
- Como é que podes gostar do Mexia, pá? O gajo é monárquico, de direita, benfiquista, não gosta do Alegre e goza com o Ary! Como é que podes gostar de um gajo que põe a foto da Kirsten Dunst num... num... num blogue, pá, à vista de todos os adolescentes sexualmente activos deste país? O Mexia viola todos os princípios do nosso grupo, ataca tudo o que para nós é importante. O gajo é um... o gajo é um filho da puta. Se és irmão dele dá no mesmo. Vem daí.
- Hum... Estou a ver. Consideraram a hipótese do meio-irmão? Seria talvez mais adequado em situações que exijam alguma cerimónia.
-E tu ainda gozas com isto? Sabes que podia ter tido problemas quando ontem não te insultei, não sabes? E que estou a arriscar ao vir falar contigo?
- Pronto, não leves a mal. Agradeço-te o gesto amigo.
-Bem... Não é só amizade. Há um motivo adicional.
-Então?
- Prometes que não dizes a ninguém?... OK. Tenho com o Mexia uma dívida de gratidão.
- Como assim?
- O tipo escreveu uma vez sobre os dentes da Kirsten. Disse que eram dentes caninos. Eu, que sou doido pela Kirsten, ainda não tinha reparado. Mas é verdade. E esse detalhe... Oh, esse detalhe potencia tudo.
-É a primeira coisa sensata que te oiço dizer hoje.

BdE

Nos últimos 25 anos dois grupos profissionais e dois homens podem reclamar a autoria do grosso das expressões que entraram no léxico popular. Refiro-me aos políticos e craques da bola- aqui sem grande controvérsia, creio- bem como a Herman José e a Gabriel Alves- seguramente uma escolha mais polémica, como é próprio de qualquer fulanização. O caso Gabriel Alves é o mais interessante, pois estamos perante um efeito secundário e não um objectivo pretendido. A minha relação com o universo idiomático do jornalista é complexa e francamente afectiva. Consigo identificar as melhores expressões: "ganhar espaço no tempo", " a força da técnica ou a técnica da força", "excelentes índices técnico-tácticos" , etc. Porém, as expressões que recordo mais vezes são muito menos engraçadas. Não têm piada nenhuma, na verdade. Mas são as expressões que quando eu e o meu irmão éramos miúdos mais comentávamos. E é isso que fica, como um ferro marcado na pele. Muitas vezes dissemos nós "excelentes rins", a propósito de tudo e de nada; mais vezes dissemos "vale a pena ir ao Estoril para ver jogar David Byrne", também sempre a despropósito. Longa prosa esta, só para introduzir a paráfrase que se segue: vale a pena ir ao BdE ver jogar esta gente.

novembro 27, 2004

Aviso aos navegantes: O Alexandre tem lombada

O autor do 1bsk lançou um novo livro. No 1bsk podemos ler a melhor prosa da blogosfera em Português de Portugal- assim mesmo, a melhor- e a imaginação do Alexandre continua a trilhar labirintos desconcertantes. Não sei detalhes sobre a obra. Não sei se a capa é verde, mas creio que o livro não inclui textos do blogue. Não sei quem publica, mas sei quem devia comprar: praticamente toda a gente com bom gosto. Atirem-se à primeira edição. E não comprem o livro para oferta no Natal , a menos que combinem com um amigo ou familiar trocar de mão dois exemplares embrulhados. Quem avisa amigo é.

Cromos: W.H.

Werner fuma cigarrilhas à janela. É o homem mais desejado que conheço. Desejado pelas mulheres e desejado pelo homens novos. Elas querem estar com ele; eles querem envelhecer como ele envelheceu. Seco de carnes, cabelo de um branco imaculado a contrastar com a pele queimada do rosto, Werner aguenta nas calmas opções estéticas arriscadas, como uma camisa enfiada para dentro de umas calças sem cinto. Apaixonou-se por Portugal e vive na Linha. Todas as manhãs vai nadar, no Inverno como no Verão. Pergunto-lhe se a poluição não incomoda e ele responde: "Não, de todo. Aliás, há umas semanas, estava eu a nadar e fui surpreendido por uma barbatana [ele disse "triângulo"] fora de água. De início assustei-me mas depois vi 3 golfinhos a saltarem à minha frente. Foi inesquecível". Werner costuma sublinhar o seu discurso abrindo muito os olhos e quando disse "inesquecível" ficou durante largos segundos exoftálmico. Voltaríamos a conversar naquela noite. A propósito de qualquer coisa, e tentando esboçar um argumento de conformado, disse-lhe: "é a natureza humana". A frase entrou num qualquer loop dentro do cérebro dele e até nos despedirmos ele terá dito "It´s human nature" umas 20 vezes, por tudo e por nada. Não sei se o incomodei ou se o impressionei e na dúvida fico na dúvida. Já depois dele ter saído resolvi medir o efeito Werner num grupo de 3 raparigas de vinte e poucos anos que estavam ainda na sala. "Lindo de morrer", "que homem", etc. É o costume. Há pelo menos 10 anos que é assim. Isto não é a natureza humana. É sorte pura. Como o encontro com os golfinhos, de resto.

novembro 25, 2004

Intelligent design


Para o maradona, claro.

Defendo que na rotina o design se deve vergar à funcionalidade. A tampa dos frascos de detergente de máquina Tide, por exemplo, é um exemplo de bom design. O detergente nunca escorre para fora, por mais descuidado que seja o utilizador. Nem uma gota se perde. Tudo foi estudado para que o líquido que ficou a meio caminho reverta- literalmente reverta- para o receptáculo original. O gargalo destes frascos é um imóvel pastor de líquidos. E o declive do rego, que cumpre o perímetro e abre em cunha para o interior, dependendo do ângulo do observador chega a ser comovente.
Eis o exemplo oposto: a máquina de refrigerantes da minha universidade. À partida dir-se-ia que estamos perante um objecto plenamente conseguido. Há uma vitrine atrás da qual se perfilam garrafas de diferentes marcas, que podem ser seleccionadas com um código de letras e números. Para cada selecção, cerca de 5 garrafas idênticas alinham-se em profundidade, como um grupo de paraquedistas prontos para o salto no vazio. É apenas necessário que o utente introduza a quantia e faça a sua escolha. Esta decisão põe em marcha uma sequência de eventos em cadeia, que se desenrola à vista de todos. Uma plataforma delgada começa por subir entre o vidro e as garrafas, parando ao nível do refrigerante pretendido; um segundo comando faz com que na fila da garrafa escolhida todas avancem uma posição, com a inevitável queda da garrafa dianteira na plataforma; carregada com a mercadoria, a plataforma retoma então actividade e desloca-se invariavelmente até uma altura média; o ponto alto deste bailado mecânico sucede quando nos apercebemos que a plataforma é, na verdade, também um tapete rolante, que posto a funcionar encaminha a garrafa para a direita. A estreita esteira de borracha em segundos faz desaparecer a garrafa na estrutura opaca da máquina, para logo a fazer cair num receptáculo à direita, já do lado de fora da máquina, do qual retiramos o produto. Tudo isto não demora mais de 7 segundos e até o tempo é ideal para apreciar o espectáculo. É claro que o engenheiro que projectou esta máquina é um exibicionista de primeira água. Sucede que é também um mau engenheiro. A garrafa cai no receptáculo exterior com alguma violência. Sendo de plástico, parece não haver problema. Mas num país em que o mercado das colas gaseificadas tem a fatia de leão, o engenheiro devia ter previsto que cada recepção violenta da garrafa produz uma bomba-relógio. Mesmo os avisados não conseguem abrir aqueles refrigerantes sem que se perca algum líquido, os dedos fiquem açucarados, a roupa manchada e o chão molhado. O problema resolve-se com uma esponja, estrategicamente colocada na base do receptáculo, a amortecer a queda. Este truque funciona, mas perante tão bela dança mecânica não apetece ter um papel activo nem recorrer ao improviso. Moral da história com fraco calibre de indução: quem se enamora em demasia pelas suas ideias acaba por tramar os apreciadores de uma ocasional Coca-cola às 6 da tarde.

Dos erros e das gralhas

Os erros ortográficos e as idiossincrasias gramaticais (permitam-me a auto-indulgência) que por aqui andam só admitem uma explicação. Pelo contrário, se as gralhas partilham também uma causa próxima, é cada vez mais evidente que escondem um universo diverso de causas últimas. As minhas gralhas são o que de mais autobiográfico e exacto aqui se escreve. Sucede apenas que nunca o leitor tem a chave necessária para as interpretar. De resto, quando confrontado com gralhas antigas o autor sofre do mesmo problema.

novembro 22, 2004

We´ll always be together


Saímos juntos para a rua de braços mais que dados; para lá de abraçados, os nossos braços tocam-se em toda a sua extensão, adivinham-se nos movimentos, imitam-se em sincronia. Não me falhas, não te queixas. Podias falar um pouco mais, trocar de hemisfério no Verão. Essa tua fidelidade canina incomoda-me, sabes? Mas que digo eu agora? Protegeste-me tanto ontem. Dentro de ti, como uma marioneta sem fios, fico logo mais homem. Quando saímos juntos para a rua e reatamos o namoro, sei que o tempo passa, mas parece que desacelera. Sabe bem. Do frio já conversáramos, lembras-te? Então, nada de embaraços agora, meu fiel e quente sobretudo.

novembro 20, 2004

Like no virgin


East Village, 2 da manhã.

Caminho sozinho pelas ruas. Um grupo de miúdas adolescentes aproxima-se de mim, em animada discussão, e eu preparo-me para ser violentado verbalmente pelo uso e abuso do "like", a bucha para todas as hesitações que pontua o discurso das moças cá da terra. Baixo os olhos, acelero o passo e solto uma melodia em assobio baixinho. Depois oiço um fragmento de conversa e não consigo pensar em mais nada, ou sequer continuar o assobio. "...This void of loneliness..." O que é que estas pitas sabem do "void of loneliness"? Telepatia de passeio público, só pode ter sido.

novembro 19, 2004

This is spinal tap...



Durante anos sonhei com a possibilidade a chegar a guitar hero. Depois vi This is spinal tap, arrumei a guitarra e fiz-me biólogo. Ontem revi This is spinal Tap, lavado em lágrimas. Lágrimas de tanto rir, apresso-me a esclarecer. É claro que num país com um nível cultural decente o esclarecimento seria perfeitamente desnecessário. Poucos filmes têm um humor à medida de uma geração como This is Spinal Tap. Talvez Big Lebowsky se aproxime, mas não chega a fazer sombra. Quem costuma passar por aqui sabe que eu não podia fazer melhor elogio...

novembro 18, 2004

Trabalho de campo

Com vista a assegurar uma bloga farta em 2005, a equipa do MI encontra-se 100% mobilizada em actividades de prospecção e demarcação de parcelas. Retomaremos os posts daqui a uns tempos.

novembro 13, 2004

Excentricidades inofensivas que não fazem escola


paralaxe cronológica No Inverno não há nada como deixar o relógio na hora de Verão. Apercebi-me disto por acaso, o que é bom sinal. Não equivale ao truque da gente pouco pontual que, cheia de boas intenções, adianta o relógio 10 minutos. A ideia não é chegar a horas, mas experimentar a sensação de que se ganhou uma hora. Ao deitar e ao acordar os respectivos "afinal ainda não e tão tarde" e "afinal ainda tenho mais uma hora" dão imenso gozo. Daqui a uns meses os astros corrigem a coisa, mas no Verão ninguém se preocupa em ir cedo para a cama e acordamos já tão tarde que ninguém quer ganhar mais uma hora de ronha.
Alíquotas de cerveja Eis a revelação menos máscula desde que o MI começou. Se o meu colega irlandês lesse isto deixaria de me falar. Aqui vai:comecei a fazer alíquotas de cerveja. De uma garrafa de 33 centilitro faço seis porções, despacho uma e guardo as restantes cinco no frigorífico. A explicação? O prazer do primeiro gole de cerveja gelada só é anulado pela desilusão do segundo gole da mesma cerveja. Defendo que as garrafas de cerveja deviam ser muito mais pequenas, como as garrafinhas de whisky dos aviões. De três em três horas apetece-me um gole de cerveja, mas apenas um, daqueles que fazem a boca explodir de satisfação. Durante anos derramei litros de cerveja choca pelo ralo da pia da cozinha. As canalizações da minha casa viveram em permanente embriaguez até ontem. Agora tenho alíquotas de cerveja no frigorífico. O mundo parece-me um lugar mais lógico.

Um homem na cidade

Não o conheço. Seria uma contradição. Este homem não conhece ninguém, mas não se queixa. Às vezes procura uma grande escadaria, que desce lentamente com o dedos a tocarem levemente o corrimão; com a discrição controlada bons bons actores apressa-se a ganhar o lugar que vagou no autocarro, só para receber o calor dos estofos aquecidos por outro corpo; faz roçar o seu reflexo numa poça de água no de uma mulher também parada na calçada; demora-se nos vidros das montras de lingerie à procura da dedada que recebe as suas impressões digitais com um encaixe perfeito; lembra-se com saudade dos hálitos alheios que respirou. Mas é só às vezes que se alimenta das sobras de uma cidade com 10 milhões de almas. E esta frugalidade social- que outros se apressariam a qualificar de patológica- basta-lhe. Se houvesse necessidade, não lhe custaria fazer umas contas de cabeça e admitir que os momentos mais felizes que teve aconteceram quando estava sozinho. Para lá se caminha, mas isto ainda não é confissão de crime.