Levo uma vida pacata em NY. A maior parte das pessoas que vivem aqui tem uma existência normal, quando não aborrecida. O que se vê nos filmes é uma distorção da realidade. Em três anos não cheguei a conhecer ninguém com um crocodilo em casa, nem um mormon no pleno exercício de uma poligamia urbana ou uma stripper que se dedique a causas humanitárias. Cruzei-me uma vez com a mafia ucraniana mas foi literalmente de raspão, num bar, e o brutamontes nem sequer estendeu a mão para me levantar do chão. Não privo com os muito ricos nem com os muito pobres; na verdade, nem sequer conheço os ricos e os pobres. Trabalho, vou jantar for a de vez em quando e tenho uma casa mobilada a IKEA. As poucas discretas excentricidades que pratico ou não são muito originais (pago para um ginásio que não frequento) ou só são incompreensíveis para alguns grupos profissionais (chego sempre atrasado à consulta com o meu psiquiatra e ele insiste em gastar os 10minutos que sobram a discutir do meu atraso).
Mas de vez em quando, poissoniamente, algo rompe esta sucessão de dias e noites. Então NY é mesmo NY, isto é, como nos filmes. Há uns dias recebi um convite redigido de um modo algo críptico para uma recepção na casa de Andrew Lloyd Webber. Webber- apresso-me a esclarecer para os não melómanos e, eventualmente, para os melómanos com bom gosto- fez uma das maiores fortunas de Inglaterra à custa de escrever musicais como Cats e The Phantom of the Opera. O equilíbrio entre a curiosidade e apreensão foi rapidamente desfeito quando me esclareceram que o cocktail attire não implicava necessariamente a compra de uma gravata. E assim, num memorável fim de tarde, equipado com o meu único blazer e a minha única namorada, precipitei-me o apartamento duplex do Webber na Trump Tower da Quinta Avenida. Duas frentes de porteiros, muito mármore e dourados, mais 60 andares em elevador supersónico não chegaram a funcionar como câmara de descompressão. Entrar no duplex do Webber é penetrar num mundo que desconhecia. Da janela temos NY aos nossos pés; a Quinta Avenida convertida numa esteira de luzes vermelhas ganha finalmente algum interesse; o Central Park é como uma mancha negra, quase à Incal, não fossem as luzes dos candeeiros públicos, mal filtradas pelas copas. Do apartamento prefiro não falar, por pudor. Fica assim, meio vago: mobília de outros tempos, muitos quadros do século XIX Inglês, uma colecção de CDs 100% webberiana. As pessoas? Bem, eram todos conhecidos meus... A fina flor de NY só aparecia nas fotografias expostas nas mesas da sala. E o Webber? Não estava. Quase nunca está, segundo parece. O homem vive no Reino-Unido e o apartamento de $8 000 000 em NY só é por ele usado duas a três vezes por ano, sempre por pouco tempo. Como tinham ido ali parar os meus amigos? É complexo... Enfim, certas acções praticadas na adolescência gozam de um estranho estatuto, algo entre o flirt com a deliquência e o crime menor com intuitos retrospectivamente formativos. Há depois outras acções que, praticadas em qualquer idade, pelo estilo suavizam o delito. Esta regra pode não ter grande enquadramento legal, mas funciona ao nível das consciências. Admitamos que um de nós tinha a chave da casa e algumas liberdades que não procurei esclarecer. Tenhamos também presente que uma certa noção de classe musculada por uma interpretação facciosa da história de Robin Wood nos dava algum conforto. Enfim, estávamos ali para um fim de tarde em grande estilo. Uma miúda bonita sentou-se ao Steinway & Sons e começou a tocar Mozart; passaria mais tarde por Bach, mas com demasiadas fífias... A culpa foi certamente do vinho. Aliás, o vinho trouxera-nos até ali e iria tomar conta de nós. A garrafeira do Webber era o nosso grande objectivo. Guiados pelo nosso sommelier, atacámos um Grand Vin de Léonville, Saint-Julien, 1978. Passámos depois para um Clos de Vougeot, 1996. O Bach com fífias precedeu o Montrachet,1996. Antes do Château Cheval Blanc, 1985 já se dançava sem música. Veio então o Geoffrey Chambertin 1er Cru, 1985 e lembro-me de ter tido uma discussão séria sobre os mistérios da vida conjugal. O Château Haut Prion, 1982 acompanhou outra discussão sobre carreiras. A partir do Grand Vin de Leoville, 1978 tudo deixou de fazer sentido e optámos sabiamente por começar a discutir as eleições presidenciais americanas. O Château Cheval Blanc, 1985 chegou numa altura difícil mas cumpriu e não deixou ninguém tombar no poço da melancolia. E assim, magnificamente bêbados, chegámos ao Château Margaux, 1982, eleito por unanimidade (descontando uma abstenção por incapacidade física) como o melhor néctar do serão. Infelizmente alguém teve a má ideia de rematar a noite com um Cuvée Don Perrgnon Vintage, 1990, mas eu, que continuava sem perceber muito bem como tinha ido ali parar, calei e bebi. Acordei na manhã seguinte em casa, sem ponta de ressaca, o que admite duas explicações não mutuamente exclusivas: ou tudo não passou de um sonho, ou os muito ricos são mesmo privilegiados. Fica assim...
Sozinho em casa, Outono lá fora, Tom Waits a tocar, televisão avariada. Hoje vamos para record de posts...
Para quê forçar a natureza humana? Cedo ou tarde, ela revela-se. Mas é preciso saber esperar, como um bom pescador. E não há banco de pesca melhor que o mundo dos colunistas. As suas tricas interessam-me, pela trica em si (uma fraqueza, reconheço) mas também -e sobretudo, gostaria de pensar- pelo timing com que a trica se desenvolve na praça pública, pela espera paciente até ao momento em que se aplica a bofetada que se guardava com considerável energia potencial elástica e pelo modo como raivas pessoais inquinam as análises, sem que o leitor menos prevenido perceba. É absolutamente fascinante...
Escrevo de cor, sem ter consultado a imprensa europeia e os blogues portugueses sobre a campanha presidencial americana; corrijam-se se estiver enganado. A pergunta é esta: sem contar com o Vasco Rato, que há uns tempos escreveu um artigo intitulado "Bush não é estúpido" (ou qualquer coisa assim) e com o Delgado (... por essas razões, claro), haverá em Portugal algum simpatizante dos republicanos, apoiante da invasão do Iraque e da política da Casa Branca dos últimos 3 anos, a defender Bush? Não falo de uma defesa da política do governo americano. Não me refiro a uma defesa da política de Bush. Não, falo de Bush, do presidente Bush, da pessoa que está à frente dos destinos do mundo. Se há alguém a elogiar este homem, digam-me, por favor. Não tenho grande quilometragem nisto de acompanhar campanhas eleitorais, mas o exercício de desfulanização da política americana a que os intelectuais europeus se entregaram com afinco durante 4 anos deve ter atingido o patamar mais elevado agora, depois dos três debates presidenciais. E isto é grave, muito grave até, excepto para quem gosta de eminências pardas.
Quanto a uma das magnas questões recorrentes, ao contrário de 95% dos meus amigos não acho que Bush seja estúpido, mas é evidente que um presidente deve ser mais esperto do que Bush.
A não perder (nos próximos dias): a história do gigante etíope que em 2034 acabou com o tennis, literalmente single-handedly...
Ando a montar o estaminé aqui do lado e o tempo não chega para tudo. Daqui a uns dias o MI voltará ao ritmo normal.
O blogue Conta Natura volta a navegar. Para já não há muito a assinalar, mas foi impossível não reparar na composição da redacção... Caramba, rapazes, 9 gajos e nem sequer uma moça!? Estão a fazer-se a um patrocínio do BCP, é? Então, pá? Não há quotas? Não há respeito pelas conquistas dos movimentos feministas? Não há respeito pela Barbara McClintock? Não há respeito, sei lá, pela Clara Pinto Correia? Fica o enlace, mas exijo uma explicação...
Quando regresso de Portugal (estranha formulação) sinto-me obrigado a ocupar as horas no avião a ler os nossos autores. Desta vez escolhi Alberto Pimenta e Rui Zink. O primeiro (Deusas Ex Machina) esforça-se por ser chato, conseguindo o objectivo do segundo (Dádiva Divina), que era ter graça (e vice-versa).
Fora de brincadeiras, o livro do Pimenta tem momentos muito bons, apesar da fixação totalmente anacrónica na numerologia (só mesmo alguém de letras para explorar tão mal o mundo dos números). O Zink conseguiu um livro de leitura viciante, apesar da falta de cuidado com o estilo. Zink tem com a piada a mesma relação que Lobo Antunes tinha com a metáfora (Os cus de Judas, por exemplo). Parece que o seu ideal é conseguir saturar a página com momentos de humor. A nossa sorte é que Zink não é um humorista genial. A leitura acaba assim por fluir sem grandes interrupções e a cada 10 piadas más lá surge uma francamente boa. Ainda não sei como acaba o livro, mas estou curioso.
Parece que a conjuntura transformou Marcelo Rebelo de Sousa numa vítima da censura. A coisa está já a assumir proporções tais que, daqui a uns tempos, olhando para os últimos vinte anos, Saramago (episódio Sousa Lara) e Marcelo serão os ícones da luta pela liberdade de expressão. Ambos os episódios aconteceram com a direita no poder, o que, seguramente, é uma coincidência. Mas estes dois mártires da censura são maus exemplos, pois de vítima têm muito pouco. Há censuras que dão muito jeito. São como as cicatrizes ganhas numa guerra justa, mas sem dor. Saramago capitalizou e Marcelo fará o mesmo, ganhando prestígio e subindo o cachet. Outros se ocuparão das ramificações de toda esta pouca-vergonha. Pessoalmente, deixo aqui uma palavra de apoio a Manuel Alegre, o homem que mais vontade tem de ser amordaçado, mas que não apanha quem lhe faça a vontade. Isso sim, é uma tragicomédia.
No Algarve descobri que sou francamente bom a fazer carreiras. Nas praias perto de Nova Iorque confirmei que se trata de um talento à escala planetária. Se a carreirinha fosse modalidade olímpica teríamos mais uma medalha. De ouro, obviamente. Bem, talvez tirasse prata, mas a pátria continuaria a ganhar, pois só o meu irmão ficaria à minha frente. O meu talento natural para a carreirinha leva-me a desprezar gente que se faz à custa do talento natural. Mas também sei que se um dia a carreirinha passar a modalidade olímpica vou perder esta doce ilusão, extrapolada de uma frágil hegemonia bairrista e familiar (sendo que esta é, para mais, polémica). O problema da aldeia global é que os lugares de topo já estão todos tomados. O louco da aldeia, por exemplo, é um personagem respeitado, lembrado e retratado. Só que não há literatura nem cinema que honre o trigésimo quinto louco da aldeia. Moral da história: toca a preservar a estrutura fractal das sociedades e das relações.