Ontem, quando já estava quase adormecido pela pessegada cinemascópica que é o Cleópatra, fizeram-me notar que um dos senadores que conspiram contra César era representado pelo actor que se celebrizou no papel de Archie Bunker. Algumas cenas depois o Archie volta a aparecer e é mesmo o primeiro a cravar a adaga no imperador. É claro qe depois vi o filme até ao fim, à espera de apanhar a Edith, mas a senhora optou por não comparecer e obrigou-me a aturar a Elisabeth Taylor durante mais duas horas.
A cidade às cinco e meia da madrugada e as canções erradas na cabeça: o Dutronc e Paris, o Godinho e Lisboa. São canções de boémios que chamo para mim, mas eu não sou um boémio. Regresso a casa, é certo, mas vindo do escritório. Não fica bem falar do cansaço bom de um fim de serão de trabalho. A malta prefere discorrer sobre o caudal de cerveja da garrafa tombada misturando-se no passeio com a cerveja mijada contra a parede. O Dutronc e o Godinho falam dos travestis, mas no meu bairro só vejo mulheres que são mulheres, que passeiam cães e comeram uma taça de cereais, já meio frenéticas embora a 3 horas do nine to five. É a milha e meia de jogging, os miúdos ainda por acordar e vestir, as instruções a dar à colombiana, o beijo na testa do marido, a rotina dos quatro vestidos e combinações antes do eureka e a meia hora de produtos de beleza. Perante isto, o Dutronc só se lembra de dizer que os travestis vont se raser. E o Godinho não se lembra do Dutronc e sai-se com o Necas que julgou que era cantora, que as dádivas da noite são eternas e mal chega a madrugada tem que rapar as pernas para que o dia não traia Dietriches que não foram nem Marlénes? Então ninguém canta a alvorada num bairro aborrecido e incaracterístico? Um motorista a bocejar com a amplitude de um hipopótamo não serve para versejar? A minha rua não cheira a pão fresco, não há carrinhas do leite, nem um guarda-nocturno cambaleante, nem putas espancadas. São cinco e meia da manhã e só penso na minha cama (sem travestis). A propósito, a letra do Godinho é melhor, mas é o ritmo da do Dutronc que agarra a trepidação crescente que acompanha a alvorada. Percebeste, Sérgio?
Em boa hora surgiu o Anacleto, um blogue satírico feito com cuidado e francamente melhor que o outro espaço de sátira política da blogosfera, o Blogue do Caldas. Estamos quites.
O meu amigo Rui Martinho deve ser o português que mais blogues tem, mas um pouco na linha do construtor civil que deixa o prédio pelo quarto andar e sem tijolo, o que, curiosamente, é também bem português. Não há nenhuma razão objectiva para eu fazer publicidade ao blogue do Rui, que não deve chegar ao Natal (nisso ultrapassa as esperanças dos sportinguistas). Em todo o caso, ele pediu-me para eu meter uma cunha e disse-me que esta noite pagava a primeira rodada de Guinness. O blogue podia chamar-se o "Sono da inocência", mas acabou por se tornar na Vigília da Devassidão. Os queirosianos topam logo. Os outros não. Para ambos fica a foto, em jeito de publicidade enganosa.
Haverá vida na Terra depois de se chegar ao céu? Não há. O legado de uma vida é imediatamente canabalizado ou esquecido. Veja-se o caso do meu herói homónino, Difool, John, desprezado olimpicamente pela blogosfera lusitana. A blogosfera lusitana é tradicionalista e só cede aos encantos de heróis plebiscitados e de largo espectro, como o Corto Maltese, que seduz donzelas e cotas de bigode farfalhudo. Eu curto o maltês, mas há no meu homónimo uma mensagem muito mais pós-moderna (hum?). É um herói para os tempos que correm.
No Brasil conheci a minha mulher e encontrei um modo de vida. Foi em Pernambuco... O modo de vida, quero dizer. A mulher fui descobri-la no Rio. Há um cemitério em Pernambuco que fica numa colina e aquele polvilhado de campas sobre o suave declive da montanha faz um efeito curioso quando visto de longe, da estrada. Mais perto o cemitério perde algum encanto. São campas de gente pobre ou de famílias sem gosto. Mas ainda mais perto o encanto renasce. Não é preciso discorrer sobre as virtudes do português do Brasil, pois não? Você sabe, aquele virtuosismo desprendido, o vocabulário extenso, a imaginação desconcertante... Cruze isso com uma religiosidade mestiça, um acontecimento dramático como a morte e a responsabilidade de honrar para a posteridade quem parte. Pois é, o epitáfio. Os epitáfios brasileiros são extraordinários. Quase renasci a passear pelas ruas estreitas daquele cemitério. De campa em campa vai-se do sorriso ao desespero, fica-se atrapalhado, intrigado ou estupefacto. A ideia de criar a Epitafando surgiu naquele dia. Escrever um epitáfio não é tarefa menor, nem é para todos. Há uma técnica, que se aprende, e um jeito natural, que é preciso descobrir. Eu, por exemplo, sou incapaz de escrever um bom epitáfio, mas sei reconhecê-los. (continua)
A culinária sempre me fascinou e tenho um percurso interessante: curso de hotelaria na Suiça, escola de culinária em Paris, uns anos em Nova Iorque como chef. Em poucos anos fiz umas massas e fartei-me da grande metrópole. Fartei-me depois da haute cuisine . A haute cuisine entrou num beco sem saída, meu amigo. Aconteceu-lhe o mesmo que sucedeu com a música tonal há um século. Reinventá-la implica acabar com ela. O que se faz por aí é um logro. Há outro problema... O paladar e o olfacto já foram explorados até à saturação. Sim, claro, as combinações ingredientes são infinitas, mas o cidadão comum não tem capacidade de discriminar todas as diferenças. Da mente do criador à língua do cliente há uma redução absurda de informação. Chega a ser ofensivo e não há dinheiro que compense esta frustração. O cliente precisa de ser educado, mas isso é coisa que vai demorar gerações e esse trabalho não é para mim. Não acredito em reencarnações e sou demasiado egoísta e ansioso... Resolvi furar o esquema. Saí do circuito. Regressei a Portugal e tirei umas férias. Fui velejar com uns amigos, uns alemães, antigos clientes em Nova Iorque... uns analfabetos à mesa, mas gente simpática e educada. Foi então que, rodeado de mar e céu, tive uma epifania. O que falta reinventar na cozinha é a cor. Há uma cor que é excluída de toda a cozinha ocidental e essa cor é o azul, a cor que domina as paisagens, a cor mais preferida entre as cores preferidas e a cor da Terra vista do espaço, que dá nome ao planeta. Não acha isto extraordinário? Rumei a terra decidido a explorar esta ideia e fundei a Condão Bleu. O nosso objectivo? Criar pratos em que o azul está presente, vencendo a hegemonia do vermelho- a carne em sangue, o tomate, o pimento, os morangos- do amarelo- o arroz de açafrão, a gema do ovo- o verde das saladas, o negro dos enchidos, o castanho do chocolate... Repare que nem com os corantes artificiais o azul conseguiu penetrar. Porquê? Porque o corante artificial apenas imita. Repare que o fromage bleu é, na verdade, verde. Nós seríamos os primeiros a criar toda uma cozinha baseada no azul, mas sem recorrer a truques baixos. Era um desafio à minha medida, perdoe-me a imodéstia. Seria o meu legado... (continua)
Foi já há alguns anos. Por essa altura andava toda a gente fascinada com um romance sobre cheiros. Tratava-se de uma obra talhada para best-seller, honesta como os bons vinhos e com final apoteótico e lascivo. A ideia era muito simples: oferecer os aromas que nos marcaram, sobretudo os aromas da infância. Veja se percebe, um aroma é um fortíssimo mobilizador de memória. Todos nós acumulamos uma colecção de cheiros que nos transportam instantaneamente para outros lugares, que convocam imagens precisas, etc. A biologia explica alguma coisa. Como primatas, tornámo-nos sobretudo dependentes da visão mas não nos desenvencilhámos do cérebro reptiliano. Não sei se me entende... O problema é que quase nunca conseguimos controlar os aromas. Não sabemos de onde surgem, qual das ervas do prado cheira a prado. Percebe? O cidadão comum não domina a arte de combinar as essências para se obter uma fragrância. Não sabe decompor um cheiro. Pois bem, a minha empresa oferecia esse serviço: engarrafar o mobilizador de memória. Contratei uma equipa multidisciplinar, como se diz agora: bioquímicos, um detective e gente da indústria dos perfumes, com um nariz treinado. Para que o projecto funcionasse a excelência técnica era crucial. Mas a equipa passou no teste com distinção. Conseguiram isolar o cheiro que lhes pedi em menos de uma semana. Era um cheiro complicado, algo que defino como um misto de aroma de serralharia e de garagem. Coisas da infância, percebe? A minha gente foi brilhante na forma como foi afinando o cheiro segundo as minhas indicações, comentários extremamente vagos, de leigo. O que se conseguiu no fim era uma espécie de retrato robot de aromas quase perfeito. Por vezes ainda abro a garrafinha. É uma doce evasão. Não demorámos a ocupar um antigo armazém junto ao rio. Aí montámos escritório e laboratório. Não gastei dinheiro em publicidade, mas consegui convencer algumas pessoas influentes e houve 4 jornais que fizeram trabalhos sobre nós. “Fragmemo” em letras garrafais provoca alguma curiosidade e não tardou a aparecer o primeiro cliente . Deixe-me precisar que a autoria do nome pertence ao detective que contratei, um rapaz de poucas falas mas com alguma experiência. Fragmemo: “fragmentos de memória” ou “fragrâncias memoráveis”, a escolha é sua. O nome pegou. (continua)
Perdi o post relativo ao blogue do Adérito... Quem estiver interessado nas gralhas e erros ortográficos que vamos dando pode procurar no google pelo Irrita-Censores. Sim, é mesmo verdade que há um tipo que fez um blogue só para juntar as nossas calinadas.
Samba, samba-canção, choro, chorinho, samba, samba-canção, choro, chorinho, samba, samba-canção, choro, chorinho. Já se ouve o cavaquinho e o pandeiro? Ainda não? Repete: samba-canção, choro, chorinho, samba, samba-canção, choro, chorinho...
A sorte não é para todos mas não escolhe a quem não calha.
(Paulo Vanzolini)
Recomendo vivamente a colecção de entrevistas a escritores feita por Don Swain. São dezenas e dezenas de autores, sobretudo americanos, uns muito famosos (Asimov, Auster, Burguess, Burroughs, Crichton, Fuentes, Ginsberg, Highsmith, Irving, Oz, Styron, , Updike, Vidal... ), outros nem por isso e alguns que viriam a sê-lo (Bret Easton Ellis), ouvidos ao longo da década de oitenta. Ainda não esgotei o espólio, mas aproveito para recomendar as entrevistas a Jerzy Kosinsky, Richard Nixon (o próprio), Dimitri Nobokov (sobre Vladimir Nobokov), Amos Oz e Gore Vidal. Em toada relaxada, mais virada para a anedota do que para a análise profunda, duvido que alguém se aborreça a ouvir estas conversas, mas faço notar que o Martin Amis em discurso oral está a anos-luz da sua prosa. Um ofício é um ofício.
O melhor antídoto para o João Pereira Coutinho é o Luís Rainha. Eu explico. Um tipo que fique irritado com um parágrafo do JPC só tem que se confrontar com um post do Rainha para recuperar a calma por irritação contrária. O nosso Rainha desta vez resolveu achincalhar o flamenco e o Rui Veloso. Vamos por partes. Em relação ao flamenco ainda lhe dou o benefício da dúvida. Deve estar a falar de flamenco pimba, ou seja, de rumbas açucaradas à Gipsy Kings. Mas esqueceu-se de fazer a ressalva. O flamenco é das poucas formas de expressão musical decentes que a Europa soube produzir e experimentou uma revolução bem sucedida nos últimos 50 anos. Adiante. O caso Veloso é mais difícil de defender. O Rainha escreveu que "no que toca à música nacional, os ouvintes da TSF também levam que contar: Represas, Velosos, Joões Pedros Pais, Toranjas e quejandos". Colocar Rui Veloso ao nível de um João Pedro Pais é um insulto que não merece sequer resposta, mas é sintomático. Quase nenhum dos meus amigos gosta do Rui Veloso. Os poucos que gostam acrescentam que o fulano é um grunho. Eu gosto ouvir o Rui Veloso cantar e acho-lhe graça quando ele fala. É um tipo convencido e sem peneiras, o que me parece uma combinação rara. Digo mais: a melhor voz de Portugal é a do Paulo de Carvalho (elementar) e o melhor cantor ainda é o Veloso. É certo que como criador o homem fez aquilo que qualquer estrela pop decente faz ao fim de alguns anos: aburguesou-se, engordou e entrou em decadência, juntando-se a outros grandes como, por exemplo, Stevie Wonder. Mas o vinil não mente. Basta ouvir as grandes canções do princípio.
Acabo de ver Vincent Gallo no programa do Howard Stern. O Stern, como se calcula, só estava interessado no fellatio que aparece na última criação do Vincent, o The Brown Bunny (filme que ainda não vi). Ficámos a saber que houve dois takes. Confirmei também uma suspeita antiga. O Vincent é incapaz de defender as suas obras. Dir-me-ão que um artista não é obrigado a argumentar bem sobre o que faz, da mesma maneira que num tribunal um acusado não é dado como culpado se não for capaz de se defender sozinho. Estamos de acordo. O problema é que não apetece nada alargar a presunção de inocência, que é regra nos tribunais, a tipos como o Vincent Gallo.
A fome de bola podia surgir a qualquer altura; por exemplo, na cozinha. Sem uma bola por ali, apanhava uma aresta a jeito e dava-lhe um chuto com o peito do pé, como se me pedissem um livre directo. Ficava depois a olhar para o frigorífico, a voar cheio de momento e suficiente rotação para descrever um arco magnífico. Nunca pensava no reboliço das hortaliças. O electrodoméstico levava selo de golo. Nada daquilo faz muito sentido agora. Ainda não consigo perceber o encanto de certas arestas, mas havia dias em que apetecia mesmo aplicar-lhes um pontapé. Via a aresta e imaginava logo uma bola. Perante esta pouco sensata busca da esfericidade do poliedro, a quadratura do círculo nunca me pareceu um problema transcendente. Estava claramente a roçar a patologia, mas acrescento, em minha defesa, que não era coisa para todos os dias. Surgia raramente e logo pela manhã. Saía então para a rua com uma vontade irreprimível de fintar os postes e as velhinhas. Tornava-me num jogador praticamente genial. Sozinho no elevador, muitos anos depois, ainda por vezes ignoro o circuito interno de vídeo, faço malabarismos com uma bola invisível e lembro-me de ir visitar o James, que trabalha num trigésimo quinto andar, para assim bater o record pessoal de toques sem a deixar cair. Mas o problema agora está controlado. Há uns anos era uma doença. Apanhava uma porção de passeio desimpedida e ganhava vontade de correr com a bola que mais ninguém via. Surgia então o festival de truques à Maradona e variações de velocidade à Butragueño, para acabar em apoteose com uma papinade, mesmo depois de ter estilhaçado uma costela flutuante à custa dessa brincadeira. Eu sei que é difícil perceber estas coisas, até porque nunca fui um grande jogador de futebol. A verdade é que não tinha o génio abstracto de um Néné, que tinha o enigmático mas lógico nome de melhor jogador sem bola a pisar os relvados de Portugal. Eu precisava de ver sempre a bola, mesmo quando a bola não estava lá.
Em Novembro de 2003 fui assistir à projecção do documentário Under Strange Skies, de Daniel Blaufuks. Sob um ângulo muito pessoal, o Daniel relata a experiência dos judeus que chegaram a Portugal durante a segunda grande guerra. O documentário tem um tratamento de imagem muito cuidado e desvenda uma história que é uma miríade de histórias pouco conhecidas entre os portugueses. Ainda assim, o momento mais memorável da noite aconteceu já depois da projecção. Discutia-se o trabalho do Daniel. Perguntou-se, por exemplo: "por que motivo não recorreu a testemunhos de pessoas ainda entre nós que viveram aquela experiência? Será que evitar o testemunho foi uma forma de preservar a juventude dos intervenientes na história que, caso contrário, teriam aparecido como velhos..." Com outras perguntas ainda a ecoar, uma senhora levanta-se, pede a palavra e começa um relato, num inglês fluente mas com um ligeiro sotaque. Aos poucos fomos percebendo que tinha fugido de França para a Península Ibérica, embarcando depois para Nova Iorque. A senhora não se cansou de elogiar o documentário, pela forma rigorosa como evocava experiências com 60 anos mas que estavam bem presentes na sua memória. Terminou a agradecer ao Daniel. Daqui a 20 anos não haverá ninguém no mundo capaz de proferir proferir tais palavras de gratidão e aquele comentário, longo, terno e tenso foi um remate tão perfeito que parecia coisa combinada. Lamento que não possam partilhar a experiência que relato mas se puderem ver o documentário (ainda que incompleto), não deixem de o fazer.
Este camarada cumpre. Cumpre sempre. Quando o pessoal começa a ficar algo entediado e habituado às suas diatribes, JPC faz-nos de novo estremecer. A tese já é velha: quem condenou a guerra no Iraque está do lado dos terroristas. Só que desta vez JPC diz-nos que essa gente- uma maioria, segundo ele- só não é terrorista presumivelmente por não ter passado nos testes físicos. Assim, esses "filhos da puta nazis" de "gargalhadas sinistras", esses "capos nazis" (a tosquice que é recorrer aos mesmos insultos é da responsabilidade de JPC e reveladora, como se verá) continua a "afocinhar com deleite" na "banalidade do mal". Ora bem, não sei em que grupo JPC me colocaria, mas estatisticamente sou obrigado a encaixar o difuso insulto. Esta mania que os nossos jovens de direita têm de usar a tragédia do 11 de Setembro como uma coutada começa a irritar. Parece que a legitimidade de chorar as vítimas é só deles. Qualquer crítica aos EUA é vista como anti-americanismo primário, cegueira, niilismo, you name it. Ouvi esta conversa a quente, na altura dos atentados terroristas. Três anos depois, a dose é de novo servida, mas sem ter arrefecido, antes pelo contrário. Veio a escaldar. Como explicar este paradoxo? Há uma hipótese académica, que passo a propor: meio afogado na baba de raiva que produziu, JPC escreveu o texto sob hipóxia cerebral.
Num agitado artigo (3 exclamações e 15 interrogações) Mário Pinto
"A ciência e as técnicas estão fazendo progressos notáveis no conhecimento dos começos da vida intra-uterina e do desenvolvimento do embrião. Eu só queria deixar aqui uma interrogação, com toda a seriedade. Pergunto o seguinte. À imagem do que aconteceu no tabaco, em que as tabaqueiras foram obrigadas a indemnizações milionárias, pergunto: se dentro de algum tempo a ciência vier a fundamentar que o aborto deve ser considerado um crime porque cientificamente o embrião já tem vida que não pode deixar de se considerar igual à humana, e sendo que, além disso (como já muitos cientistas admitem), o aborto é causa de aumento do cancro e tem efeitos graves na saúde e na vida das mulheres , admitindo isto, as pessoas e instituições que agora defendem o aborto estão dispostas a assumir as respectivas responsabilidades jurídicas, penais e civis? Ou não?"
Duas notas breves apenas:
1. Como pode este senhor reclamar "seriedade" e logo depois afirmar que "o aborto é causa de aumento do cancro"? O que quer dizer com o críptico "como já muitos cientistas admitem"? Será uma forma sub-reptícia de sugerir uma tendência e de apenas deixar implícito que "ainda há alguns cientistas que não admitem". Em qualquer dos casos, a seriedade não passou por aqui. Os últimos estudos indicam que abortar não aumenta o risco de cancro e este argumento tem vindo a ser abandonado nas discussões sérias.
2. Duvido que venhamos a saber "cientificamente" quando o embrião começa a ter vida humana. Estamos perante um problema ético, moral e filosófico e não diante de um enigma da ciência. Em todo o caso, haverá certamente por aí cientistas que o admitem. Admitem o quê? Admitem o que a Mário Pinto dá jeito admitir.
"No fundo és de direita", diz-me um amigo. "No fundo ainda gostas dela", disseram-me em tempos. "No fundo sou um palerma", vou dizendo às vezes. "No fundo, ele é bom tipo", dizemos de um canalha. Que fundo é esse? O âmago do ser? Uma praia remota onde vão dar os destroços dos sucessivos naufrágios? Tal fundo não me interessa. Venho do fundo para a superfície e quero aqui ficar, num megulho em apneia invertido. De noite é mais fácil. Qualquer luz azulada de apartamento com a televisão ligada deixa-me colado à janela. Mas é sabido que as lulas também se pescam de noite, com lâmpadas fortes.
Da janela do meu quarto fujo muitas vezes de casa. Acontece de noite, muito depois do fecho da emissão televisiva. Ato as pontas dos lençóis com nós cegos, confiando no tacto e na luz que vem da rua, que traz para o quarto uma atmosfera de sépia soturna. O reflexo do meu rosto no vidro da janela entreaberta apaga-se à passagem dos carros dos noctívagos mas volta sempre a reaparecer, com uma dureza de ângulos artificial. Ao espelho tenho cara de bom rapaz mas a imagem no vidro da janela é a de um marginal. O meu plano é simples: amarrar a corda de lençóis a um dos pés da cama, pela corda descer até à rua e da rua chegar ao mundo. É um exercício que pratico depois de lavar os dentes. De dia só me lembro da criança que se projectava para fora da janela, confiando nos lençóis. Depois começam as dúvidas. Nunca me lembro se a criança alguma vez chegou ao chão. E de que fugia ela, se era feliz ali? É pouco provável que tivesse tido coragem de descer de um terceiro andar por uma corda de lençóis, a altas horas da noite. Mas lembro-me dela a dar aqueles nós gordos, do barulho que o lençol fazia a roçar na trave de madeira da janela. Lembro-me de sentir o relevo da tinta areada da fachada do prédio nas palmas dos meus pés nus e lembro-me de me sentir vulnerável, vestido de pijama num bairro suburbano, confiando a vida a uma corda de lençóis, imóvel entre dois andares, a uns metros de um chão de cantos mijados por onde passavam ratazanas. Aqui as paredes são de tijolo exposto, não há cães nem bêbados, nem ratos; apenas as lesmas cruzam o passeio. Se foi sonho a lembrança só chegou muitos anos depois. Se foi memória plantada, quem a plantou? De manhã, ao compor os lençóis da cama, penso se alguma vez voltei a desatar aqueles nós, mas nunca são os nós da última madrugada.
Cada vez que conto onde estava no dia 11 de Setembro de 2001 encurto a versão. Já foi história que começava às oito da manhã do dia 11 e acabava com o trovão que acordou a cidade às duas da manhã do dia 12. Três anos depois limito-me a dizer: "estava lá". Aqui. Depois remeto-me ao silêncio e lembro-me cá dentro.

A equipa do MI junta-se à festa e daqui envia os parabéns ao Barnabé pelo seu primeiro ano de vida. As estatísticas daqueles rapazes são brutais e há por lá muito post de antologia.
Esta moça também voltou a marcar pontos. Só lamento que ao quarto post sobre Cuba ainda não tenha referido Silvio Rodriguez. Enfim, só me resta corrigir o lapso. Aqui fica:
Si no creyera en la locura
de la garganta del sinsonte
si no creyera que en el monte
se esconde el trino y la pavura.
Si no creyera en la balanza
en la razon del equilibrio
si no creyera en el delirio
si no creyera en la esperanza.
Si no creyera en lo que agencio
si no creyera en mi camino
si no creyera en mi sonido
si no creyera en mi silencio.
Que cosa fuera
Que cosa fuera la maza sin cantera
un amasijo hecho de cuerdas y tendones
un revoltijo de carne con madera
un instrumento sin mejores resplandores
que lucecitas montadas para escena
que cosa fuera -corazon- que cosa fuera
que cosa fuera la maza sin cantera
un testaferro del traidor de los aplausos
un servidor de pasado en copa nueva
un eternizador de dioses del ocaso
jubilo hervido con trapo y lentejuela
que cosa fuera -corazon- que cosa fuera
que cosa fuera la maza sin cantera
que cosa fuera -corazon- que cosa fuera
que cosa fuera la maza sin cantera.
Si no creyera en lo mas duro
si no creyera en el deseo
si no creyera en lo que creo
si no ceyera en algo puro.
Si no creyera en cada herida
si no creyera en la que ronde
si no creyera en lo que esconde
hacerse hermano de la vida.
Si no creyera en quien me escucha
si no creeyera en lo que duele
si no creyera en lo que queda
si no creyera en lo que lucha.
Que cosa fuera...
O nosso Macguffin flashou parte da sua biblioteca. Ficamos a saber que tem resmas e resmas de Paul Johnson numa estante com bons acabamentos. Mas o que a fotografia tem de mais penetrante é o livro incógnito no canto inferior direito. Livro técnico que os doutos bloguistas desprezariam? Literatura subversiva? Vamos, Macguffin, que tratado é aquele? Assume essa lombada com frontalidade...
Apesar do Bde, do Barnabé, do Janela Indiscreta e, também, por causa do Difool e do Ivan, não sou grande apreciador dos blogues colectivos. Têm uma produção de posts imparável, o que é um trunfo num meio em que todos andam à procura de prosa fresca. A equipa acaba também por atenuar as limitações de cada um e criar sinergias. Porém, do que eu gosto mesmo é de blogues individuais e umbiguistas. O principal gozo que retiro da estrutura dos blogues colectivos é poder tentar adivinhar quem escreveu o post que se lê. Ao fim de uns dias, em regra, é difícil falhar. A prosa do José Mário, do Filipe Moura e do Rui Tavares topa-se a milhas.
Trabalho com uma judia que fugiu da URSS para Israel e depois decidiu vir para Nova Iorque. Em Israel foi sargento mas a experiência não diminuiu o seu apurado sentido de humor. Volta e meia conta-me piadas sobre judeus, rematando sempre "só eu é que posso contá-las. Tu deves rir, por uma questão de educação".
Viajo enquanto janto. O meu atlas tem manchas de gordura na Mongólia e há arroz seco no Canadá. Ontem enchi-me de altruísmo e mudei o bago de arroz seco para África. Hoje o arroz ainda lá estava e optei por não consultar os dados demográficos daquele continente. Não se pode pedir de um atlas mais do que o atlas pode dar... Consta que a muralha da China pode ser vista do espaço e que o Everest não é difícil de escalar quando faz bom tempo. Disseram-me que Machu Pichu é deslumbrante. Já confirmei a beleza do mar das Caraíbas e tirei as medidas a um Anapurna. Falta quase tudo. A Europa não conta. A Europa é para visitar quando já não temos forças. Fiquem com os museus e a descobrir minúsculas diferenças entre os povos. Enquanto esta sobremesa durar vou andar pela amazónia e conto não voltar.
Parece que o nosso governo está a preparar uma lei que proíbe fumar em lugares públicos. O Daniel Oliveira do Barnabé avançou logo com uma distinção e uma condição. A distinção: deixar de fumar nos lugares de trabalho, mas não nos restaurantes. A condição: criar salas de fumo decentes nos locais de trabalho. Com o devido respeito, o rapaz não pode estar a falar a sério. Pela lógica do Daniel parece que os restaurantes não são locais de trabalho para os empregados de mesa e cozinheiros que nos servem. A sugestão das salas de fumo decentes é igualmente absurda, por variadíssimas razões, sobretudo num país que tem um clima ameno. A melhor sala de fumo é a rua.
Quando a discussão avançar vamos ouvir os queixumes do costume e as acusações de fundamentalismo anti-tagagista. Mas basta um pouco de bom-senso para perceber que esta é mais uma daquelas leis que mais tarde ou mais cedo vão entrar em vigor. Sabes, Daniel, em Nova Iorque já não se fuma nos locais públicos (incluindo bares e restaurantes sem esplanada) há algum tempo. E não é que os fumadores e os não fumadores continuam felizes, saem à noite e ainda se conhecem?
Um colega de profissão passou uma semana deprimido quando soube que não ia poder alugar um estúdio num bairro modesto de Queens. O senhorio disse-lhe que apesar de tudo (tradução: apesar de ele ser branco e educado) não podia alugar a casa a alguém que ganha menos do que um homem do lixo.
Eu: Mas que desperdício de depressão, pá...
Ele: ?
Eu: Uma semana de depressão deve ser gasta com temas nobres: amor, remorsos, luto, futebol.
Ele: Então e o pesadelo americano? Não conta?
Eu: Não estás a ver a coisa pelo ângulo certo. Pensa que estamos a viver a primeira parte do sonho americano. Começamos por baixo, no lixo.
Ele: Soterrados no lixo...
Eu: Melhor ainda. A dimensão do sonho americano é sempre relativa. Temos uma margem de progressão infinita.
Ele: Pois. The sky is the limit...
Eu: Mais ou menos. Há outra forma de sublimar a comparação. Um homem do lixo é mais importante do que nós. O homem do lixo concretiza uma função. Nós vivemos de projectos. Sacamos dinheiro escrevendo sobre o que queremos vir a fazer e em regra descobrimos coisas que não servem para nada... A norma é essa, certo? Temos importância como comunidade, mas o cientista médio enquanto abstracção estatística não vale um centavo. Um homem do lixo é... Epá, o homem do lixo é um valor concreto. Nós vivemos à custa de um futuro hipotecado, de projecções que vamos fazendo, para nós e para os outros. Eu, por exemplo, só me alimento das coisas que ainda não fiz. O homem do lixo não se pode dar a tais luxos e deve ser devidamente recompensado. A coisa funciona porque gostamos de fazer o que fazemos, porque em qualquer roda de desconhecidos numa festa temos uma clara vantagem sobre o homem do lixo e porque a sociedade sabe que pagando mal a 100 vai seleccionar 10 muito bons e cortar nas despesas.
Ele: Mas eu só queria um cúbiculo em Queens, pá!
Eu: Esse foi o teu erro. Pensaste como um homem do lixo. Devias ter tentado um T2 no Soho. Terias sido igualmente desprezado, mas a salvo de depressões.
25 depois da "explosão" do rock lusitano, já ia sendo altura de reconhecer um dos poucos talentos fora-de-série que ficarão para a história: João Cabeleira, o discreto guitarra solo dos Xutos e Pontapés.

Gosto da simbologia na berma das nossas estradas e sinto falta dos nossos sinais de trânsito, nomeadamente dos que têm moldura vermelha. Aqui, nesta terra onde tudo é proibido por defeito e impera o pragmatismo, os sinais de trânsito são surpreendentemente simpáticos e palavrosos. Trocava já o sinal com uma vaca desenhada pelo sinal com veados que tantas vezes vejo aqui. E lembro-me agora do sinal que anuncia a passagem de nível. Lembro-me também daquele que indica a inclinação em percentagem, a branco, preto e vermelho. Nos EUA os sinais são escassos em desenhos e quase sempre amarelos, o que só pode ser um anticipadíssimo prenúncio de alerta terrorista. De vez em quando aparecem uns avisos desgarrados que fazem um tipo pensar duas vezes ("aquilo é comigo ou com o meu carro?") e induzem umas guinadas introspectivas: "Dead end" e "Road narrows", por exemplo. Mas tais deslizes poéticos são logo compensados pelo sintético e horrível "E-Zpay", a anunciar a via verde ("via verde", que maravilha de nome) local. Se conduzir não beba, deleite-se com os nossos sinais. É sabido que um sinal de trânsito lusitano serve para muito pouco. Mas são bonitos, acreditem.
Passo dois dias nos arredores de Nova Iorque, numa casa de amigos, gastando o tempo em caminhadas, braçadas no lago, churrascos e conversas. A paisagem, paradisíaca, não deixa de trazer à lembrança cenas de filmes; o inevitável assassino em série parece esconder-se por detrás dos carvalhos e o cadáver esbranquiçado pode emergir a qualquer momento do negro das águas. Na casa, modesta e de madeira, com uma colecção de discos de vinil e prato ainda no activo, a atmosfera também é familiar, por causa dos filmes (The Big Chill?) e da música (Talking Heads, U2... Michelle Shocked?). Conheço a rapariga que mais vezes lavou a loiça há 15 anos. Partilho com outra rapariga os planos para a casa de campo possível, num lugar distante. Um tipo estica o espaço, vive os serões como se fizesse uma revisão, atira-se para desconhecido a dois e julga que conseguiu agarrar o mundo. A seguir o disco chega ao fim e a agulha do prato fica a insistir num trilho sem música.
Por motivos alheios à nossa vontade, o MI deixará de ter comentários. O nosso email passará a ser o veículo de comunicação deste blogue. A todos os que apreciavam as vantagens da caixa de comentários, aqui ficam as nossas desculpas.
De dia em dia até à desilusão final, há semanas assim. Busca-se energia, faz-se o necessário, mas na hora que se segue ao fim despacha-se o antecipado gozo do prémio de consolação e só então se fica livre outra vez. É preciso alguma experiência para chegar aqui, para gerir os humores e espaçar estas provas com o discernimento com que um maratonista olha para o calendário. A batota permitida acontece de noite. Um pouco de sonho acordado, só um pouco, uma pitada de especiaria, umas moléculas de perfume, um fotão da luz do túnel, como se a luz dobrasse as esquinas. Eis o nosso dirty little secret. Enfim, falo por mim.
Sobre a polémica desencadeada pela traneira da IVG, li o seguinte no O ocidental: "o Estado tinha por isso duas opções: deixar o barco fora de águas territoriais, ou deixá-lo entrar, arriscando-se seriamente a fazer figura de pateta durante quinze dias". Tal análise não teve em consideração o virtuosismo dos nossos governantes, que fizeram o pleno nesta matéria, ou seja, deixando o barco ao largo conseguiram andar a fazer figura de parvos durante vários dias .
Sem pretender voltar à discussão sobre o aborto (a minha posição pode ser lida aqui) e apesar de concordar com o grosso das críticas feitas à Women on Waves, não sei se subscrevo a tese de que as acções mais radicais têm sempre efeitos contrários aos pretendidos. A ideia é que aqueles com posições mais moderadas se assustam com as acções dos radicais e lhes retiram o apoio potencial. Sinceramente, gostaria que me indicassem situações concretas que ilustrem tal efeito. Olhando para a história, o que salta à vista é que todas as conquistas sociais foram acompanhadas por acções radicais. Enfim, admito estar errado e reconheço que recordamos o que supreende, choca e sai da norma. Ainda assim -e até prova em contrário-, em sentido lato tal argumento soa a reaccionarismo encapotado. Em sentido restrito soa a raiva contra o Bloco de Esquerda...