Aprende-se a olhar no escuro. A luz é para ser gozada da penumbra para fora. Comecemos pelo reverso de uma pálpebra de súbito fechada. Há ali mil imagens que nos fogem: cornucópias efémeras de um psicadelismo discreto e círculos excêntricos que lembram fogos-de-artifício. De onde surgem estas visões? Provarei um dia que são as sombras em negativo das imagens da memória. Que são sinais de rebelião. Dentro da cabeça comandamos as imagens como marionetas, menos o espectro delas, que brinca no reverso das pálpebras e parece querer rasgá-las.
O Conta Natura (link aqui ao lado), um dos muitos blogues fantasma que por aí andam, já morreu várias vezes antes de ter nascido. Percebendo finalmente que não tem fôlego para a empreitada, o autor resolveu convencer uns amigos a entrar nesta aventura. Seremos cinco ou seis e aceitamos contribuições, ao jeito dos famosos itálicos do BdE. Nas próximas semanas o Conta Natura arranca. Vamos ver se é desta (aceitam-se apostas)...
Aprendi a dizer "Obikwelu" ontem, enquanto jantava com amigos. Já tinha ouvido falar do atleta mas desconhecia os detalhes mais épicos da sua vinda para Portugal. A história de Obikwelu, filho de Obikwelu (gosto deste nome, como se percebe), é inspiradora. A reacção da malta é reveladora e não surpreende. O Eusébio, os dentistas brasileiros, Deco, arquitectos estrangeiros e Obikwelu, o Francis Obikwelu, despertaram reacções que misturam partes desiguais de colonialismo, paternalismo, corporativismo, racismo, xenofobia, mediocridade, hipocrisia e esperteza saloia. Epur, continuo a gostar da pátria. Eis o mistério da lusofilia.
Para os amigos das Caraíbas é o tubarão-gato. Nós chamamos-lhe peixe-gato. Mas é um tubarão a sério, apesar de pacífico. O tipo que nos alugou o material de mergulho disse-nos que os podíamos ver na Salt Pound bay e eu fiquei a balançar no fulcro (então, Ivan, não te vais amedrontar agora, pois não?). De noite tive um sonho estranho: dois homens excêntricos e ricos discutiam sobre qual seria o predador mais temível, se o tubarão branco ou a leoa. O argumento de um era que um tubarão branco abandonado na savana não resistiria muito tempo e seria carne para hienas e abutres, ao passo que a leoa jogada ao mar daria nobre luta ao tubarão, antes de morrer. O argumento pareceu-me absurdo, mas acordei antes de ouvir a resposta do outro rico excêntrico. Cheguei a Salt Pound bay de manhã. A água é azul-turquesa, como nos postais das ilhas tropicais. Calcei as barbatanas, ajustei a máscara e o tubo e mergulhei. Tentei não me concentrar no barulho da minha respiração, que soava um tema famoso de John Willliams. O medo do tubarão talvez explicasse os rodopios que espaçadamente ia fazendo dentro de água, tentando dominar os 360 graus do espaço circundante. Tudo isto até ver o primeiro peixe tropical e depois o segundo, até à trintena de espécies diferentes. Eu, que me encanto com os reflexos do sol no dorso da tainha, não tenho recursos para explicar aquele espectáculo. Imaginem-se a nadar dentro do aquário tropical mais bonito que viram até hoje, mas sem nunca chocarem com o vidro. O tubarão que nadava dentro de mim foi minguando e ficou inofensivo como uma sardinha. Não cheguei a ver o Ginglymostoma cirratum, mas deixei de vê-lo em Salt Pound bay.
Sou ateu. Foi uma conquista fácil à biografia que ainda não era minha. Era inevitável, qualquer que fosse a religião de origem. Mas, pudesse eu ter escolhido, teria sido judeu antes de ser ateu. Esta explicação já leva anos de atraso. Devo-a a mim próprio. O ateísmo surge-me como uma evidência, um corolário de um teorema cuja demonstração é embaraçosamente simples. A atracção pelo judaísmo é mais complexa. Não sei como explicar a frustração que senti quando olhei para a árvore genealógica da minha família e não descobri um pingo de sangue judaico. Li recentemente que há pelos judeus "um interesse quase pornográfico" e o meu corpo estremeceu, mesmo se a expressão me pareceu desajustada; afinal, o meu interesse pela pornografia é primário, quase puro, muito fácil de explicar. Quanto do meu fascínio pelos judeus é ainda o eco dos gritos do passado e do remorso de gente que um dia foi inocente? Quanto desse fascínio não nasce como reacção ao ódio sublimado que identifico na gente próxima? Eu queria fazer disto um fascínio natural, pela coragem, resiliência e brilhantismo de um povo, sem que as dúvidas me assaltassem. E isto perturba-me quase tanto como as certezas alheias que vou lendo, de todos os lados.
O MI volta no fim de Agosto. Perante a iminente chegada a Nova Iorque dos republicanos, a nossa equipa retira-se em peso para o mar das Caraíbas. Natação sincronizada é isto, meus amigos. Não dá medalhas, dá saúde.
Até lá, apreciem este rosto.

Com a ida do meu arqui-inimigo Adérito Silva a banhos para uma aldeola sem cibercafé e depois do armistício com o Miguel Góis isto anda uma pasmaceira. Para voltar a bombear sangue na guelra, chamo a atenção para um kalkito do Mexia no DN de hoje:
OU HÁ MORALIDADE Muitas vozes denunciam a vileza do canal Fox News, do senhor Murdoch, acusado de promover a visão bushista da «guerra ao terrorismo» e outros desmandos. Pelo que nos chega da Fox, não há dúvida de que se trata de uma TV alinhada e assumidamente parcial. Isso é mau para o jornalismo? É inaceitável para a democracia? Talvez. Tão mau e tão inaceitável como, digamos, o Monde Diplomatique.
Não sei o que é que chega da Fox a Portugal, mas se o Mexia conclui que a Fox é assumidamente parcial devemos estar a falar de outra estação. Basta olhar para o slogan daquela malta: fair and balanced... O "balanced" da Fox consiste em ter no ar um "tradicionalista" como o Bill O´Reilly em horário nobre, que tem sempre a última palavra, seguindo-se um gajo com olhinhos muito brilhantes que responde pelo nome de Sean Hannity e que anda há três meses a minar a imagem de herói de guerra que o Kerry tem, já para não falar do nosso querido Oliver North (sim, sim, esse mesmo), a fazer de cicerone em todos os teatros de guerra do século XX onde estiveram marines. Nos noticiários não pode faltar o caso do preto que violou/roubou/matou/ e está em fuga/foi solto/foi visto num bairro perto de si. Quanto ao "fair", sinceramente, hesito. O problema é que o Monde Diplomatique é para intelectuais e a Fox, populista e televisiva, invade todas as casas e já é líder de audiência.
Ângulos só meus naquele rosto
A assimétrica simetria que nem espelhos
Revelam muito os reflexos nos vidros escuros
Mas é uma arte e outros teriam visto
Um rosto banal, à janela como no subsolo
Livres do azar da descoberta acidental
Do encanto das opiniões minoritárias
Não lidam com esta musa na enchente do metro
A pairar sobre o mau cheiro da estação
Não tenho vagar para acidentes em dias úteis
E esta charlatanice automedicada e repetida
De querer ver em certos acasos da carne
Algo para lá do forro dos ossos
Um estandarte da alma a meia haste
Qualquer dia ainda acaba mal
Se a justiça divina aqui não intervém
Que fazer dos rostos feios que juntei?
Da janela do meu quarto fugi muitas vezes de casa. Acontecia de noite, muito depois do fecho da emissão televisiva. Dormia-se lá em casa e eu atava as pontas dos lençóis com nós cegos. Fazia-o confiando no tacto e na luz que vinha da rua, que trazia para o quarto uma atmosfera de sépia soturna. O reflexo do meu rosto no vidro da janela entreaberta apagava-se à passagem dos carros dos noctívagos mas tornava sempre a reaparecer, com uma dureza de ângulos artificial. Ao espelho tinha cara de bom rapaz mas a imagem no vidro da janela era a de um marginal. O plano era simples: a uma trave de madeira que fazia de parapeito da janela amarraria a corda de lençóis e por ela desceria até à rua. Da rua chegaria ao mundo. Ainda hoje tenho presente as inúmeras vezes em que me projectei para fora da janela e confiei nos lençóis. Depois começam as dúvidas. Nunca me lembro se alguma vez cheguei ao chão. E de que fugia eu, sendo feliz ali? É pouco provável que tivesse tido coragem de descer de um terceiro andar por uma corda de lençóis, a altas horas da noite. Mas lembro-me de ter dado aqueles nós gordos, do barulho que o lençol fazia a roçar na trave de madeira. Lembro-me de sentir o relevo da tinta areada da fachada do prédio nas palmas dos meus pés nus e lembro-me de me sentir vulnerável, vestido de pijama num bairro suburbano, confiando a vida a corda de lençóis e imóvel, entre dois andares, a uns metros de um chão de cantos mijados por onde passavam ratazanas. Se foi sonho a lembrança só chegou muitos anos depois. Se foi memória plantada, quem a plantou? Ainda hoje, ao mudar os lençóis da cama, penso se alguma vez voltei a desatar aqueles nós.
Acabo de descobrir uma colecção de entrevistas de rádio a escritores que teve entrada directa no Labirinto da Dispersão e não deve ficar sem aviso. É francamente superior ao arquivo da BBC.
Um acorde de piano manco na avalanche sinfónica
Um crescendo regravado
Ter virado à esquerda naquele dia chuvoso
O “desculpe, foi engano” ao telefone
Erros sem errata, sem remorso e sem lembrança
Maria Filomena Mónica (MFM) já disse que o país lhe tinha dado muito pouco. Queixava-se em particular de ter crescido a falar uma língua pouco competitiva. Ora, é da mais elementar justiça reconhecer que a língua portuguesa também tem razões de queixa de MFM. A título de exemplo, compus a seguinte frase segundo as regras ortográficas que MFM pratica na sua última crónica: o meu crâneo é o reverso da antiquidade pois dele saiem palavras por inventar. Na crónica em questão, MFM falha um exercício de ficção ao procurar escrever na pessoa de Pedro Santana Lopes. É claro que podemos sempre colocar uma hipótese redentora: teria tido MFM o requinte de introduzir alguns erros ortográficos propositadamente, para legitimar a crónica como produção do homem das gaffes? `Tá bem, tá...
The Big Lebowski é um filme cujo culto percebo e pratico. Estão todos convidados para o Lebowski Fest.
Haverá temas proibidos no humor? Não. Mas quanto mais delicado é o tema mais exigente nos tornamos em relação à piada. Era bom que alguns humoristas encartados percebessem isto.
Novos desenvolvimentos: o Miguel Góis fez a apologia da piada que escreveu nos comentários a este post e no Gato Fedorento.
Concluía-se do seu choro público que a mágoa era imensa
E perguntava-se se ria sozinho, para aferir do grau de loucura
A conclusão e a pergunta mereciam-se
Ambas estavam erradas
Citar é reconhecer a inutilidade de tentar o que outros conseguiram de modo insuperável. É uma forma de prestar homenagem e de respeitar o leitor, também. Temos evitado abusar da citação. O MI é uma fortaleza idiossincrática de paredes fragéis. Mas temos sido muito tentados. "Pertinências" será a válvula de escape, mais uma série condenada ao abandono futuro. Todas as escolhas serão difíceis, mas só a seguir às que agora se seguem.
Não há maior tragédia do que a igual intensidade, na mesma alma ou no mesmo homem, do sentimento intelectual e do sentimento moral. Para que um homem possa ser distintivamente e absolutamente moral, tem que ser um pouco estúpido. Para que um homem possa ser absolutamente intelectual, tem que ser um pouco imoral. Não sei que jogo ou ironia das coisas condena o homem à impossibilidade desta dualidade em grande. Por meu mal, ela dá-se em mim. Assim, por ter duas virtudes, nunca pude fazer nada de mim. Não foi o excesso de uma qualidade, mas o excesso de duas, que me matou para a vida.
Barão de Teive (A educação do Estóico)
So, oft it chances in particular men,
That for some vicious mole of nature in them,
As, in their birth--wherein they are not guilty,
Since nature cannot choose his origin--
By the o'ergrowth of some complexion,
Oft breaking down the pales and forts of reason,
Or by some habit that too much o'er-leavens
The form of plausive manners, that these men,
Carrying, I say, the stamp of one defect,
Being nature's livery, or fortune's star,--
Their virtues else--be they as pure as grace,
As infinite as man may undergo--
Shall in the general censure take corruption
From that particular fault: the dram of eale
Doth all the noble substance of a doubt
To his own scandal.
Shakespeare (Hamlet)