Afinal não sou o único a não ligar a mínima importância às letras das canções pop-rock, um segredo que guardei na convicção de ser uma espécie rara. E só mesmo gajos não alinhados com a estatura do maradona me levam a sair do armário. Sigo agora na esteira do diego e reafirmo: as letras das músicas pop-rock não têm a menor importância. Radiohead? É uma banda fabulosa. Tenho quase todos os álbuns, toco umas malhas na guitarra, vou aos concertos deles. O que diz Tom Yorke? Não faço a menor ideia. Quando Yorke canta tenho uma relação orgânico-sensorial (hum?) com a música e a razão concentra-se apenas apenas na qualidade dos arranjos e da execução. Se sou distraído pela letra da canção fico irritado. É por isso que prefiro música estrangeira, mas numa língua que conheça. Não há aqui nenhuma contradição. O inglês é superior ao japonês, porque sei que a qualquer momento posso prestar atenção à letra. A competência para poder desprezar uma letra é fundamental. Com o japonês fico sempre com a sensação de que estão a esconder-me algo e há um lado exótico que aproxima a experiência auditiva do desfrute circense. A canção ideal não impossibilita mas protege o significado da letra da apreensão imediata, distinguindo-se assim do slogan. Importa o sotaque do cantor, a sua dicção, a rapidez com que a frase sai e a forma como tudo isso se articula com o conteúdo da mensagem, nomeadamente as partes mais crípticas, que travam o entendimento. Só assim se pode gozar uma canção pop-rock na sua plenitude. É por isso que é tão difícil para mim gostar de pop português ou brasileiro, o que me leva a multiplicar por muitos a admiração rara que tenho pelo tipo que escreve as letras dos Ornatos Violeta.
Aproveitando o embalo, haverá mais alguém na blogosfera sem pachorra para as irrepreensíveis crónicas do Bérnard da Costa?
Hoje, no Expresso, JPC equipara os fogos que queimam Portugal a "... terramotos, maremotos, erupções vulcânicas, ciclones, tufões, inundações e outras misérias naturais..." que ele, pessoalmente, considera imprevisíveis. A imprevisibilidade com hora marcada que caracteriza os fogos em Portugal é um conceito que o comum dos mortais domina com dificuldade. A falta de preparação para catástrofes anunciadas e para o incumprimento de promessas feitas todos os anos no período de rescaldo não deve suscitar indignação. Afinal, somos todos, cidadãos e governantes, feitos da mesma vil matéria, por sinal combustível. É o pessimismo antropológico ao serviço do Estado, coitado, esse bode expiatório de todas as nossas frustrações. Eu, pessoalmente, também aponto o dedo à falta de capacidade de mobilização da sociedade civil lusa. Eu, pessoalmente, não poderia estar mais de acordo e exponho os meus remorsos a céu aberto. Sim, se tivesse tirado duas semanas de férias para limpar a mata do meu falecido avô em vez de ter ido para a Argentina empernar com as porteñas podia dizer que o país não arde por minha culpa. Agora só me resta o lamento sazonal: Ó Portugal ardido, quantas das tuas cinzas não são o dever não cumprido? Pessoalmente, claro.
Em resposta ao apelo feito pelo Nuno Guerreiro, aqui fica uma cronologia breve e incompleta do horror pós-1900:
1915-1923: mais de 1 milhão de arménios são dizimados pelo governo Turco do Império Otomano
1932-33: 7 a 10 milhões de ucranianos são esfomeados até à morte por Staline.
1942-45: quase 6 milhões de Judeus da Europa são vítimas da Solução Final da Alemanha Nazi
1975-1979: 1.7 milhões de cambojanos são mortos pelos Khmer Vermelhos de Pol Pot.
1975-1999: a repressão da Indonésia em Timor-leste fez mais de 200 000 vítimas.
1987-1989: entre 50 000 a 100 0000 Curdos são eliminados durante a ditadura de Saddam Hussein, no Iraque.
1991-1999:1994: "Limpeza étnica" entre diferentes populações depois do fim da Jugoslávia faz milhares de mortos e de refugiados, na Croácia, Bósnia e no Kosovo.
2004-?: genocídio de Darfur (Sudão)... .
Em 1998, a propósito da tragédia no Ruanda, o secretário geral das Nações Unidas terá dito: "... The world must deeply repent this failure. Rwanda's tragedy was the world's tragedy. All of us who cared about Rwanda, all of us who witnessed its suffering, fervently wish that we could have prevented the genocide. . . Now we know that what we did was not nearly enough--not enough to save Rwanda from itself, not enough to honor the ideals for which the United Nations exists."
Uma coordenada a reter para quem não quer manchar umas férias em grande estilo nesta cidade: o cruzamento da rua 64 com a Primeira Avenida. Aí o turista incauto encontrará um mendigo sem pernas, homem velho e magro, equilibrando-se pelo pélvis numa cadeira de rodas. (Percebendo que este post irá puxar o fio de um gordo novelo, o blogger adia a continuação da prosa para momento mais oportuno, em horário pós-laboral, deixando apenas as linhas introdutórias. Isto não é um post, nem sequer mais um post inacabado; é um post it amarelo).
Três trajectórias mágicas que ninguém arquivou: os arcos em voo rasante das andorinhas, o livre directo em arco do "Corso" e o perfil de mar picado desenhado no ar pela oscilação vertical e com arrastamento dos peitos da prostituta, quando se passeava junto à linha lateral. As primeiras noções de geometria descritiva foram adquiridas naquele relvado. Mas em boa verdade, por maior que fosse o esplendor da Primavera e a inspiração do "Corso", os erros defensivos deviam-se em exclusivo a faltas de atenção provocadas por aqueles peitos que, contrariamente ao que se diz, não desafiavam a gravidade, mas com ela brincavam. Prostituta das redondezas e a única a trabalhar a céu aberto naquelas bandas, a rapariga especializara-se em pernetas motorizados, que recebia junto à linha lateral, apenas meio protegida pelos troncos das faias. Com um repertório de gestos técnicos limitado, o quarteto defensivo não deixava por isso de apreciar as nuances com que a clientela mergulhava a cara naquele rego profundo, que ela, ao colo deles, oferecia. Uma das consequências mais inesperadas desta rotina, que se prolongou durante quase três anos, foi a progressiva e inconsciente valorização de quartetos defensivos extremamente jovens, formados por uma canalha em quem a revolução hormonal ainda não tinha ocorrido e que depressa ganhava indiferença por aquele espectáculo marginal. A libido atiraria depois muitos desses miúdos para o banco dos suplentes, na verdade um lancil de passeio num ponto que abria um ângulo perfeito entre duas faias e deixava ver quase sem ser visto. Gozava-se em silêncio, na certeza de que ao menor comentário o pano cairia. Sentíamos que aquele sim, era o maior espectáculo do mundo e, talvez por estarmos equipados, não víamos ali grande traição ao desporto-rei.
Anda por aqui um pequeno marinheiro cubano teso como um carapau e quase tão pequeno como um anão grande. Percebe-se que foi marinheiro pelo chapéu, apesar do seu ofício ser agora o de despejar caixotes do lixo ao fim da tarde. Este homem ama a América como ninguém que tenha vivido o sonho americano pode amar. É um amor incondicional, que prolonga a esperança até ao infinito. Às vezes tem tiradas espantosas. Enfim, tiradas espantosas para quem despeja caixotes do lixo. Na sexta-feira passada, por exemplo, dizia-me: “a minha memória é má. Lembro-me de tudo. Mas trago comigo as chaves da tristeza e da felicidade. É tudo uma questão de montagem, como no cinema. Escolho os melhores momentos da minha vida, percebes? Aqueles instantes em que tive espírito, fui generoso, corajoso, humilde ou magnânimo. Os instantes de paixão, também. Mas a paixão não basta... Bem, ponho tudo numa sequência de 30 segundos em circuito fechado e aquilo dá-me uma força bestial. É uma tela para a felicidade. Só assim consigo mergulhar os braços no lixo sem perder o sorriso. Há o outro lado, claro. O filme negro: os instantes em que fui canalha, mesquinho, mentiroso, fraco. Aí faço uma montagem de apenas 20 segundos. Não que não haja material para mais. Não estás a olhar para um santo, rapaz. Não sou é masoquista; 20 segundos são suficientes. O filme negro surge nas alturas mais inconvenientes: no casamento do meu filho, durante a visita de familiares, quando os Yankees ganham. Mas só podia mesmo aparecer nessas alturas, caso contrário... Bem, o resultado final sou eu, um tipo equilibrado, que põe as mãos no lixo com compostura e não se desmancha de alegria no dia do casamento do meu filho. Deve ser por isso que gosto do futuro. Em relação ao futuro posso ser desequilibrado. A esperança para mim não tem reverso...”
A Voz do Deserto é mais um dos nossos, um orgulhoso membro dessa classe órfã de líder e de causas que são os naturalmente magros. Também ele soube construir uma consciência cívica sob a suspeita ignóbil de uma convivência íntima com os grandes platelmintes e resistindo à saravaida de insultos gratuitos, que podiam ir da sofisticação com que se empregava a noção de potencial forrageiro ao escatológico e boçal "fábrica de esterco" (parcialmente censurado). Aprendam com o rapaz: "A magreza excessiva já não me atrapalha tanto. A puberdade distante e a descoberta ofegante de uma espécie de mulheres que aprecia rapazes escanzelados foram o suficiente para me aquietar". Confere. Já não é de agora que a Voz do Deserto merece ser conhecida simplesmente como a Voz.
Distingo dois tipos de surpresa nos caminhos que percorro todos os dias. Há uma surpresa mais espectacular, menos pessoal e que, por não se destacar do acidente, tem pouco de construção. Surge geralmente associada a objectos em movimento, pessoas raras com quem me cruzo ou episódios insólitos (uma equipa de filmagem que grava uma cena na minha rua, por exemplo). Há depois um outro tipo de surpresa, mais subtil e idiossincrática, muito difícil de partilhar com os demais. São as surpresas que prefiro e presumo que quase toda a gente pensará o mesmo.
Ontem regressei a casa pelo caminho de sempre. Já o fiz mais de 1000 vezes mas só ontem, por um acaso que o crepúspulo e a água a correr de uma fonte não desmontam completamente, reparei na porta envidraçada de um edificio que deixa ler, na penumbra do interior, a palavra "exit". Sucede que aquelas letras vermelhas e luminosas estão ali para serem lidas por quem se encontra dentro do edifício. Ler a palavra da rua é lê-la pelas costas. Associado à semântica, aquele reflexo sem espelho que faz um "E" insólito deixou-me com um princípio de enjoo a depois num estado vagamente contemplativo. Não cheguei a parar, mas abrandei o passo. A brisa deixou de ser a mesma brisa, de repente o ar livre pareceu viciado e houve lugar para a tolice mística de começar a ver sinais naquele aviso de segurança. Passou-me depressa, mas o enjoo ainda durou umas passadas.
Julgando-me refeito daquela armadilha óptica, percebi hoje de manhã que não estava preparado para o colega russo, que vestiu a T-shirt com as costas voltadas para a frente e se passeava com um bolso cosido na omoplata esquerda. Como o rapaz é novo e muito branché, hesitei no reparo. Não só não excluira de todo a possibilidade do efeito ser intencional, coisa de estilista ou improviso do miúdo, como, de novo mareado, só me apeteceu procurar o refúgio na paisagem segura que é um céu limpo, sem assimetrias, sem nuvens e sem aviões.
Voltemos então ao terraço e ao 4 de Julho que passou. Em matéria de fogos de artifício esta gente deixa muito a desejar. Há uma China Town por aqui mas nenhuma pirotecnomestria . Em Portugal qualquer aldeola produz uma fogo de artifício que envergonharia Nova Iorque, se bem que à custa de uns quantos mártires por ano. Salvou-se assim o terraço, pouco iluminado pelos foguetes, a parecer menos precário do que ao meio dia.
Na East Village é impossível não reparar na má qualidade da construção. Salta à vista. Menos óbvia é a sujidade, mas bastaria olhar para os cantos ou passar os dedos por superfícies pouco acessíveis. E dos tijolos tento chegar às pessoas, passando pelo lixo, correndo o risco de cometer uma enorme injustiça. Porém, a precaridade das relações na East Village antecipa-se logo. Há demasiado cosmopolitismo, muitos sonhos pendurados nas paredes dos quartos, um exagero nas amizades e um prolongamento impossível da adolescência. Sei que faço uma quase apologia da burguesia, por exclusão de partes, mas às vezes escreve-se para se ficar livre dos pensamentos e não propriamente para os guardar.
Desisto de desistir, o que me parece ser a menos penosa das desistências. Sem conserto fica esta prova de instabilidade emocional, que não deve ser confundida com um tirocínio para primeiro-ministro. É mesmo fraqueza. Em nossa defesa apenas podemos invocar a absoluta sinceridade com que declarámos o fim do MI.
Feitas as contas, acabar agora seria prematuro. Estar longe da blogosfera não teve o efeito esperado, antes pelo contrário. Por isso vamos continuar por mais uns tempos, em horário pós-laboral e a um ritmo estival.
Sem pretender exagerar a importância deste episódio, a forma simpática como muitas pessoas reagiram ao anunciado fim do MI causa-nos agora algum embaraço. Na prática satisfazemos os apelos para que regressássemos mas, na verdade, não é por isso que regressamos. O MI nunca foi um serviço público, como alguns blogues por mérito próprio hoje são. Regressamos porque gostamos disto, o sendo uma razão suficiente não deixa de pôr a nu a leviandade e displicência com que anunciámos o fim do MI. Aos nossos leitores deixamos aqui um pedido sincero de desculpas. Da próxima vez prometemos tentar antecipar o recomeço do blogue ao anúncio do seu fim...
Na ordem de trabalhos temos agora uma série de afinações decorrentes do novo horário de escrita (pós-laboral) e uma tentativa de reanimação miraculosa do John, tecnicamente morto.
A redacção
O MI acaba aqui. Obrigado a todos, pela atenção e pelo gozo desta brincadeira colectiva.
Jantamos um destes dias As despedidas não são para mim. Saio das festas sem me despedir. Não me despeço de amigos que fico depois sem ver durante um ano. As despedidas, como as saudações, não são para mim. Nunca sei se dou um, dois, três, quatro beijos ou nenhum. Por isso adoptei o mínimo denominador comum e no estrangeiro estendo sempre a mão às raparigas. Perdi conta às faces rosadas que me escaparam devido a esta falta de ambição. Mas releva tudo do mesmo: uma vontade de viver em contínuo e sem quebras, como se uma ausência de um ano pudesse ser cortada com a retoma imediata da conversa que ficou interrompida. Os meus amigos já perceberam. Digamos que foram seleccionados para lidar com esta inabilidade para as despedidas e para ir dando notícias. No meu mundo umbiguista, quando volto para as pessoas elas estão como quando as deixei e todas as surpresas são intrinsecamente surpreendentes.
Acabamos agora. A blogosfera foi uma experiência muito importante para mim. Aqui baixo as defesas, porque todas as declarações de amor... Enfim, o Tulius diz que foi uma brincadeira e eu estou de acordo, mas convém precisar que foi uma coisa lúdica com substância, uma espécie de Lego para depois dos trinta anos. Comecei por esvaziar as gavetas, literalmente. Depois pensei que já não tinha nada para escrever, mas havia sempre qualquer coisa e o tempo que gastava a escrever um parágrafo foi sendo cada vez mais curto. Se houve alguma mudança ao longo destes 16 meses foi essa: uma desmistificação do acto de escrever. Mas tudo não passou de um treino. O MI foi muito mais um espaço de quem escrevia que de quem nos lia. Abusámos dos textos incompletos que depois nunca chegámos a terminar. Respondemos a poucos comentários. Na prática, o MI foi um caderno de notas. Chegou a altura de pegar em algumas dessas entradas e ver se consigo ir um pouco mais longe. Para o fazer, não posso continuar a acumular "começos". Assim se explica a fim deste blogue.
Agradeço a todos os quase-amigos ocultos que por aqui foram passando. Como os textos, estes contactos foram "começos" que gostaria de explorar, quem sabe se daqui a uns tempos, sem um oceano a atrapalhar. Jantamos um dia destes. Eu chego, pergunto ao maradona: "mas tu achas mesmo que o Barbosa era genial?" e a seguir tudo vai fluir, sem saudações e sem despedidas, como se já nos conhecêssemos há muito tempo.
A mim ninguém me cala! Efeitos de Águeda, malta, ainda são os efeitos de Águeda. Na verdade, o meu grito é pouco ipiranguense. Amochei e já tenho bilhete para Puerto Rico. Respeito a decisão do Tulius. Não tenho respeito nenhum pelo gajo mas respeito a decisão. Lembram-se? O Guterres é que era bom neste tipo de julgamentos. O gajo distinguia o indivíduo dos seus actos e os muitos indivíduos que existem dentro de cada um de nós. Nunca era incoerente, antes plural. Bem, velhos tempos, velhos tempos, 1998 ano mágico: Sónia oferecia-me o rego à janela, eu subia os lances de escadas e consultava as cábulas do kamasutra para que tudo saísse de cor; tripávamos com mescalina no Príncipe Real; fazia um novo amigo de manhã, dois à tardinha e três antes da meia noite; os mapas e as estradas tinham montes de setas a dizer "futuro". Fónix, olha aí a lagrimazinha a ameaçar o curto circuito no teclado do Macintosh... Bem, já se percebeu que estou meio perdido. Tenho a cabeça a abarrotar de posts e começo a contorcer-me todo. Isto é uma ressaca invertida, pá. Não quero meter pr'á veia, eu quero tirar isto do sangue. Sanguessugas a bom preço? Talvez em China Town. Mas é complicado, meus. É muito complicado. Corto relações com o Tulius, dou um sopapo no Ivan. Trivial. Mas e a seguir? A seguir? Bem, a seguir morro. No fundo, dos três só eu morro. O Tulius continuará a pagar contas, o Ivan a ler umas tretas, mas eu só existia aqui. Nisso os gajos não pensaram. O Tulius disse-me que isto de acabar com o MI era uma variação da chicotada psicológica na versão auto-flagelatória. Bah! Felizes aqueles que têm costas. Eu desapareço. Para sempre? O Tulius falou também de um esquema de sementeira e pousio, coisa que não percebi bem. Parece que podemos voltar daqui a uns tempos. O gajo depois explica. Cheira-me a santanice, dito por não dito, "pronto, pronto, eu volto", enfim, coisa de invertebrado. Eu não volto. Só uma dream team de argumentistas seria capaz de ressuscitar John Difool. Morro, não sem antes deixar um testamento com todas as exigências para uma existência futura mais espiritual e profunda: diâmetro de peito apreciável, capacidade de nadar em estilo mariposa, performance sexual naturalmente tântrica, garantia de não vir a sofrer de halitose e de guardar do pé-de-atleta o prazer secreto da comichão moderada, etc...
A redacção
Usei os 4 minutos do prolongamento para treinar o fairplay, tendo em conta a possibilidade de me cruzar com um grego. Meti-me a seguir numa sala de cinema com a miúda. O cinema, como se sabe, é uma droga legal. Regressei depois a casa, para trocar a camisa vermelha e as calças verdes por roupa preta. E assim consegui relativizar tudo. De resto, a minha miúda está com uma grande pinta, vestida de preto. Parecemos um casal de góticos, mas de góticos felizes que conseguiram dizer não ao lítio. Agora, se encontrar um colega grego até o conseguirei abraçar. E se encontrar a Xenia Papavasiliou das mamas ninho-de-andorinha prometo abraçá-la duas vezes. Vamos para casa de uns amigos, ver o fogo de artifício do 4 de Julho. Tinha pensado em usurpar este fogo para a nossa festa e vou tentar fazer o mesmo. Ainda é um dia de festa. Para quem ainda sofre, talvez esta pastilhinha ajude a restaurar a auto-estima. Parabéns à Grécia. Parabéns aos nossos.
Uma jarra com girassóis, as flores desorientadas e suas sombras na parede, vivendo da luz amarelada dos candeeiros públicos, imóveis, protegidas dos faróis dos boémios e madrugadores por prédios altos. Uma lesma que atravessa o passeio deserto e demora três minutos e doze segundos a percorrer 2 metros. Ele gosta da lentidão da noite, das possibilidades infinitas da noite. Entre as três e as quatro da manhã os relógios são mais lentos. É quase uma evidência, mas complicada de testar (...pega em dois aviões supersónicos e deixa-os a voar à mesma velocidade de Este para Oeste -nem precisa de ser a velocidade da luz, bastando que se iguale a velocidade com que a luz vai iluminando a superfície da terra-, de forma a que um esteja sempre entre as quatro e as cinco da manhã e o outro, por exemplo, entre as 2 e as 3 da tarde. Terminado o voo, se o relógio que voou entre as 4 e as cinco... ). O nascer do sol, bem como o poente, são períodos de aceleração e desaceleração do tempo, respectivamente. É por isso que ele só usa "crepúsculo", uma palavra lenta, para o poente. É por isso também que é sempre dominado por algum nervosismo quando espreita o nascer do sol, pois há um momento em que o astro, já amarelo e agressivo, espalha a azáfama. Os girassóis na jarra, quase mortos, condenados e desorientados são, na verdade, livres e felizes de noite.