"Não vou dizer nomes", mas quando um gajo tira o MI da lista de links que tinha no seu blogue fico lixado. Gosto de ver o MI presente em muitos blogues. Gosto de ver o MI nos blogues de que gosto. E gosto de não ver o MI nos blogues de que gosto mas com tendência para julgamentos sumários (não, "não vou dizer nomes"). Ao fazer um enlace um tipo não deve justificações a ninguém e já estou a ouvir dizer que ao retirar o enlace também ninguém fica subitamente em dívida. Errado. Por uma exigência de boa educação, o enlaçado censurado julga-se merecedor de um insulto. Aqui no MI, sempre que retiramos ou recusamos um link (situações que ocorreram uma só vez até agora), justificamos a coisa. Haja elevação na blogosfera. E anda esta gente a educar as gerações futuras. Quem? Não, "não vou dizer nomes".
E um dia chegou o primo americano, um miúdo bonito e loiro que só queria ir ao Éden ver filmes do Bruce Lee e dava-me umas valentes coças sempre que brincávamos às lutas. "Give it up, man!" gritava ele, enquanto me apertava o pescoço e me mantinha com as espáduas no chão, greco-romanicamente vencido. E eu desistia, claro, fodido, mas inteiro. E fui acumulando derrotas atrás de derrotas sem um plano de vingança, até que me lembrei de o convidar para uma peladinha, coisa que fiz já à tardinha, para que ao serão pudesse desfrutar a véspera do payback day. O dia seguinte chegou. Estava uma tarde de Verão propícia para a prática do futebol, como então já se dizia. Seis contra seis, com guarda redes, o meu primo a atacar na equipa adversária e a entrar pelo meu corredor. Babei-me de excitação. Pensei nas mil e uma formas de lhe roubar a bola, de o humilhar com umas ratase de o magoar com uns balázios em jeito de alivianço defensivo. Duas horas depois, exausto, estava com as espaldas assentes no relvado, humanamente vencido e a olhar o céu. O cabrão do primo americano tinha sido o melhor jogador em campo. Ele não sabia jogar à bola mas corria mais, tinha mais força e a sorte dos principiantes. Marcou golos incríveis, sem nunca saber muito bem o que fazia. Digo eu. Os deslumbrados do bairro quiseram logo contratá-lo para a equipa do bairro e vieram falar comigo no final do encontro. Em duas horas passei de bestial a empresário. Por sorte o primo americano regressava a Boston no final do Verão. Lembro-me de me despedir dele no aeroporto, desportivamente e justo, como sempre, falando muito depressa e baixinho, para que ele não me percebesse. O meu adeus português, textualmente "Adeus, meu cabrãozinho, não jogas um peido..." é, ainda hoje, a marca de um povo com fome de glória e um difuso desejo de vingança.
É verdade que não estando ninguém ali se torna mais fácil não ter medo de cometer infracções ou revelar fraquezas. Os objectos da sala, imóveis e desmemoriados, são testemunhas ideais das representações dos sonhos que vai fazendo, como se o sonho tivesse necessidade de sair para fora, não na forma de palavras, mas através da mímica e da construção das personagens. Costuma correr os cortinados, numa rotina adequada, ou não fosse o espectáculo que se segue um encadeamento de inversões que não se anulam mas constroem um mundo às avessas. Ele actor, representando-se; os sofás vazios e uma plateia dentro da cabeça; um ensaio cada vez mais afinado, que se eterniza como ensaio geral. Se houvesse pancadinhas acordaria o vizinho de cima. Mas já lhe chega trocar o riso pelo choro. Se o objectos da sala falassem muito teriam para contar. Mas nem todos estão dispostos a fazer o sacrifício daquela jarra chinesa que na manhã seguinte estava feita em cacos espalhados pelo parquet.
La auto pista del sur, de Julio Cortázar (texto completo aqui), é um compêndio da arte do conto.
Uma forma de resistir ao ataque à solidão, também. Uma resistência aparentemente cobarde, é certo, mas a tal vitória por falta de comparência do adversário parte de um pressuposto belicista que nem a todos se aplica. Um tipo que se mete debaixo do chuveiro, às escuras e a altas horas da noite, só quer que o deixem em paz. Foge das excursões turísticas, dos assentos nos transportes públicos que recriam o ambiente de sala de estar, dos telefones por todo o lado e da ladainha contra a internet e outros vícios solitários. Não desabafa, mas pressente-se que se queixa da falta de lugares ao balcão nos restaurantes bons, que se aborrece com os fóruns de discussão, com as discussões e com os diálogos. Gosta de monólogos e de entrevistas bem feitas, que no fundo são monólogos telecomandados. Acredita que o melhor dos homens se manifesta em solidão, de forma pouco espectacular mas consequente. Acredita que a construção da humanidade tem sido uma generalização contínua de labores solitários. Tudo isto lhe parece evidente e não lhe inspira grandes angústias. Apenas a constatação de que tem instantes de pura felicidade quando está sozinho, e simplesmente por estar sozinho, o deixa perplexo, porque não se enquadra com a definição de misantropo. De madrugada a solidão por defeito é, afinal, uma qualidade.
Nos Olivais nunca consegui grande fama como jogador. Era um tipo aplicado, que suava a camisola. Jogar com o pé esquerdo dava-me alguma vantagem, mas faltava-me talento. Foi preciso viajar para ser craque. Vivi o Outono de Praga com intensidade. Não erro na estação. Para mim foi no Outono. Em Praga, num fim de tarde pós-revolução de veludo, com o sol já frio e rasteiro, fiz num campo de futebol de salão o jogo da minha vida. Provei a glória e só na manhã seguinte admiti que tinha jogado contra um bando de toscos. Nove a um e sete foram meus. Com os meus túneis, bolas em arco a entrar no canto superior direito e slaloms, fui um gigante naquela tarde. O meu génio contagiou até o mulherio que assistia à partida e me elogiou os caniços. Infelizmente, foi esse elogio que faria transbordar o copo de ilusão que fui bebericando pela noite fora. Na manhã seguinte, ainda na cama, ao olhar para a cruel realidade das minhas pernas- o défice de musculatura e o magro perímetro de coxa- comecei a ressacar a glória da véspera. Lembranças tristes, estas, que nos dias que correm servem de pouco consolo para o leitor. É que nenhum dos toscos que venci era checo. Os checos têm jeito para jogar à bola, como jeito têm as checas para gozar com estrangeiros em pico de megalomania.
Nos Olivais nunca consegui grande fama como jogador. Era um tipo aplicado, que suava a camisola. Jogar com o pé esquerdo dava-me alguma vantagem, mas faltava-me talento. É curioso como por vezes a vida funciona ao contrário: foi preciso viajar para ser craque. Vivi o Outono de Praga com intensidade. Não erro na estação. Para mim foi no Outono. Em Praga, num fim de tarde pós-revolução de veludo, com o sol já frio e rasteiro, fiz num campo de futebol de salão o jogo da minha vida. Provei a glória e só na manhã seguinte admiti que tinha jogado contra um bando de toscos. Nove a um e sete foram meus. Com os meus túneis, bolas em arco a entrar no canto superior direito e slaloms, fui um gigante. E a cidade pareciater sido escolhida a dedo. Não se sabe por que acaso genético e cultural, mas aos olhos de um português pouco dado a exotismos Praga tem provavelmente a melhor concentração natural de mulheres deslumbrantes. Naquela semana, ainda sem a prática para decifrar as pistas do amor, cheguei a apaixonar-me duas vezes no mesmo dia. Naturalmente, foi com indisfarçável satisfação que notei ter o meu génio contagiadoo mulherio que assistia à partida. Foram ao ponto de me elogiar os caniços. Seria esse o comentário a fazer transbordar o copo de ilusão que fui bebericando pela noite fora. Na manhã seguinte, ainda na cama, ao olhar para a cruel realidade das minhas pernas- o défice de musculatura e o magro perímetro de coxa- comecei a ressacar a glória da véspera. Lembranças tristes, estas, que nos dias que correm servem de pouco consolo para o leitor. É que nenhum dos toscos que venci era checo, antes estrangeiros como eu, mas de países sem tradição no futebol. Como se sabe, os checos têm jeito para jogar à bola, como jeito têm as checas para gozar com estrangeiros em pico de megalomania, o que talvez não seja do conhecimento geral.

É uma péssima estratégia começar aos berros perante a possibilidade de Santana Lopes vir a ser o novo primeiro-ministro. Convém deixar claro que Santana Lopes é uma consequência do problema e que se condena, a montante, a fuga de Durão (percebes, John?).
Ver na fuga de Durão uma promoção para o próprio e para o país é coisa que só se admite a familiares do ainda primeiro e a gente tola, respectivamente. Por um lado, se é verdade que Durão é bom para o cargo porque fala línguas estrangeiras (Saraiva), convém lembrar que esta é uma condição necessária para fazer de um papagaio um bom animal de estimação e manifestamente insuficiente para garantir uma liderança forte no meio de gigantes. Por outro, quem pensa que ter um português como presidente da comissão europeia é bom para Portugal admite que a isenção é coisa para um Pierluigi Collina e não para corromper a alta esfera da política.
Quem ouviu ontem o nosso presidente, só pode desconfiar que Sampaio está a tentar marcar um ponto de honra mas que a decisão quanto à eventual realização de eleições antecipadas já está tomada. Caso contrário, só pode pensar que Durão é mentecapto e/ou egoísta.
A sensação de se estar a caminhar de uma forma absolutamente legítima para um cenário de completa falência democrática (um governo impopular que se dá ao luxo de uma completa remodelação sem ir às urnas) só põe a nu os pobres do nosso sistema político, nomeadamente a cedência do poder a clubes que entregam a governação ao melhor dos seus sócios a conseguir ser eleito na qualidade de melhor dos sócios para ser eleito pelos pares (Rumsfeld não teria sido mais claro).
Como é que se vence isto? Mobilizações a SMS não chegam, apesar do que aconteceu recentemente na Espanha. Só mesmo uma greve, mas uma greve total, é que levaria Sampaio a fazer o que Sampaio provavelmente nunca fará.
A seguir com atenção o que se escreve na Praia, no Barnabé e no Causa Nossa.
A fase autista do MI acabou. Regressam os comentários. Regressam também as cores que nunca chegaram a gerar consenso. Caprichos são caprichos.
Jolly Santana I

O lema de Difool é nunca abrir a boca até ter algo de concreto para dizer. Por isso, só agora me junto à longa discussão sobre a bandeirite que tomou conta de Portugal, simplesmente para propor uma nova bandeira. A Jolly Santana reflecte hoje a verdadeira essência da pátria, dos seus costumes e da sua política. É uma bandeira para o tempo que vivemos. A sua oficialização traria inúmeras vantagens, que passo sumariamente a listar.
1. Pico de auto-estima: um povo precisa de um líder e uma interpretação errada da essência da democracia levou-nos a décadas de liderança anónima, deixando o povo como um rebanho sem pastor. A imagem de Santana na bandeira corrige este lapso.
2. Pressão psicológica sobre o adversário. Afinal, a Jolly Santana cumprem também a função original das Jolly Roger dos piratas.
3. Retoma económica, que assenta nos seguintes eixos: a) realização de cerimónias fúnebres oficiais honrosas mas a preços módicos; b) spin-offs da pátria, com ênfase para o rótulo "dead in Portugal", que penetrará facilmente nas franjas gótica e urbano-depressiva; c) harmonização cromática com os símbolos do fado, o que facilita a mensagem comercial associada à marca "Portugal".
4. Dívida moral. A Jolly Santana restaura a honra das inúmeras gerações de descendentes de piratas portugueses, que numa infame tentativa de branqueamento a história oficial ignorou.
(A imagem oficial do líder que figura na Jolly Santana foi pirateada da colecção de caricaturas de António, cartonista do Expresso)
Cheguei a ter umas luvas amarelas. Eram umas boas luvas, embora modestas. Sobre a malha amarela havia fileiras de pontos negros de borracha, que me fizeram um pouco menos frangueiro. Mas fui sempre frangueiro, pelo menos até começar a ser um defesa esquerdo. Só gostava de defender remates de longa distância. Faltava-me instinto e a confusão dentro da área não era para mim. Dos remates à queima-roupa tinha também algum receio. Ponhamos o dedo na ferida: a coragem física é essencial num guardião. Por isso, de nada valia o vício das defesas de pontapés de longa distância. E não se podia pedir ao avançado que só rematasse de longe e ao ângulo esquerdo, só porque para o esse lado voava mais facilmente e aí a relva era mais farta. Aliás, pensava demasiado na estirada que iria fazer e, como se percebe, com tanta preparação as luvas amarelas não chegaram a perder a cor. Ainda fiz umas boas defesas e com o tempo consegui esquecer todos os frangos que comi. De certa forma, tornei-me um guarda-redes muito melhor a posteriori. Foi uma decisão acertada, mas ainda hoje a posição de guarda-redes é a que mais respeito. Um jogador singular, o guardião, com um fardo pesado sobre os ombros, bode expiatório até prova em contrário. Ponhamos o dedo na ferida: a coragem é essencial. Era essa dimensão trágica que me atraía. Mas faltava-me a queda. Nunca me ocorreu tirar as luvas amarelas num momento crucial e defender o remate com as mãos nuas. São estes instantes que fazem um herói de bairro até de um frangueiro.
As crianças querem ser adultos, alguns adultos gostariam de voltar à infância e ninguém quer ser velho. A frase resume bem o trânsito de desejos e invejas entre as gerações, mas há sempre lugar a excepções. Ele, por exemplo, gostaria de ter todas as idades ao mesmo tempo. Em todas reconhece virtudes e não hesita em destruir alguns lugares-comuns. "Ai o sorriso das crianças, o sorriso das crianças... Quem espalhou a ideia do absolutismo do sorriso das crianças deve ter tido avós muito carrancudos. Um velho a sorrir é uma conquista da humanidade". Mas se reconhecer qualidades em todas as idades é uma virtude, não conseguir optar por uma tornou-se um problema. As crianças que brincam no parque puxam-no pela mão para um lado, um casal de velhos em cumplicidades de elevador toma-lhe a outra mão, um tipo que se mete num veleiro aos cinquenta anos enlaça-lhe o tornozelo com um lás-de-guia e o jovem pai à saída da maternidade e tonto de alegria abraça-o com violência pela cintura e arrasta-o como se o quisesse placar. Tudo isto ocorre com os estímulos de um mesmo dia. Estar acordado de madrugada não obedece tanto a uma pulsão do espírito como a uma necessidade física, de relaxar os tendões e reaproximar as vértebras. Parece que de manhã as pessoas são mais altas que ao princípio da noite. Com ele acontece o contrário, mas é de uma tortura que falamos, de uma tortura por estiramento. Os cavalos são os outros.
O mítico Maracangalha, um parque de estacionamento a céu-aberto e sempre vazio de uma garagem local, era um imenso campo de cimento, particularmente cruel para os joelhos. Um bom guarda-redes ali era louco e só depois herói. O Maracangalha estava reservado para torneios, pois tinha um ar de coliseu romano e deixava sempre alguém todo esfolado e a sangrar, o que melhora qualquer espectáculo. Para peladinhas e jogos dominicais, preferíamos os relvados. Na verdade, estamos a falar de relvados preparados, que tal como o piano preparado prolongam e pervertem os recursos expressivos das simples quatro linhas. Com faias, plátanos e arbustos, atravessado por velhinhas carregadas de compras, perto de uma avenida por onde passavam muitos autocarros e com o lancil do passeio a fazer de linha lateral, jogava-se futebol num cenário digno dos ridículos Jogos sem Fronteiras. Mas, apesar das -"deixa a senhora passar" - interrupções e dos caprichos do campo, habituámo-nos - "ajuda-me aí a subir à árvore" - a jogar ali, sabíamos de cor onde os arbustos e os troncos - "O cabrão do motorista... Lá foi mais uma bola p'ró caralho" - estavam, ao ponto de nunca ninguém ter sido placado pela vegetação - "ressaltos de merda" - numa arrancada -"qual é a tua? Isso é anti-jogo, pá. Sai lá detrás da árvore". Mesmo na madrugada em que decidimos desbastar pela raiz um arbusto com picos, que repetidas vezes nos ferira os antebraços no acto de recuperar a bola, houve uma certa nostalgia. Era uma planta que tinha crescido connosco, literalmente ao mesmo ritmo que nós. Talvez por isso as machadadas tivessem saído tão frouxas. E quando o guarda nocturno se aproximou e nos perguntou o que estávamos a fazer, vimos ali uma desculpa para abortar o projecto, pese embora a resposta cheia de espírito do Afonso - "ratazanas, seu guarda. Têm aqui debaixo uma toca enorme e já morderam o meu irmão mais novo. Vamos inundar isto". O arbusto ferido resistiu mais uns anos, mas deve ter parado de crescer. De outra forma a miudagem mais nova não teria sido tão eficaz a dar cabo dele de vez, uns anos depois.
Portugal ganha por 2-1 à Inglaterra. Não digo quem marca os golos porque levo as previsões muito a sério. Só tenho uma dúvida: não sei se há prolongamento. Quanto ao resto, podem confiar.
92% de acordo com a análise do Ivan. Fica por explicar aquela do golo fortuito. Será um golo contra a corrente do jogo, um golo que desafia as leis da física, um golo que vai contra as probabilidades e a estatística, um golo injusto (riscar o que não interessa)? E os argumentos a posteriori também não valem nada. Vamos supor que não tinham entrado dois defesas. Vamos supor que a Espanha empatava. Mudava tudo. O Ivan tenta fazer-nos ver a escuridão onde todos só querem ver luz, como o JPC, a propósito do resultado eleitoral da direita tentou fazer luz da escuridão. São exercícios porreiros, lógicos, bons para brilhar e inúteis. Neste momento só quero que Portugal volte a jogar bem e que o PSD/PP volte a perder bem. Não compliquemos o que não é para complicar.
Aqui vai uma confissão pouco espectacular. O primeiro colunista que leio quando apanho o Expresso à mão (geralmente é online) é o João Pereira Coutinho. O único colunista do Independente que reli algumas vezes é o Pereira Coutinho. O Coutinho é um gajo que pratica uma prosa que dá vontade de copiar. Isto é- digo eu- um elogio. Mas sobretudo, as crónicas do JPC despertam um largo espectro de reacções. Não é tanto o "ou se gosta ou se detesta". Comigo é mais o "gosto e detesto", das ideias aos vícios de estilo.
Estou à vontade para dizer estas coisas pouco originais. Deixei Portugal quando o JPC ainda não era famoso ao ponto de ser conhecido por uma sigla. Lembro-me de estar já aqui, em Nova Iorque, e de ter ganho o vício de ler a imprensa nacional na internet. Naquele tempo ir ao Independente on line era um exercício penoso. A página tinha sido mal parida e a um defeito congénito juntava-se ainda uma equipa de cronistas muito fracos. Havia um meteorologista que tinha a mania que tinha graça, uma rapariga a destilar sionismo e uma série de gente que já esqueci. Um dia dei com um texto do JPC e acusei alguma surpresa. Primeiro pensei que se tratava de um caso de reinado de zarolho em terra de cegos. Mas não. Semana após semana, o JPC não desiludia. Fiquei adepto. Eu sei. Eu sei e até concordo. Pois há. Há gente da geração dele com o mesmo calibre e muito menos exposição. Para o caso, é irrelevante. As nossas preferências não servem para equilibrar o mundo. Sim, também sei. Sei e até discordo. Tentar apresentar o JPC como clone do VPV e de cronistas anglo-saxónicos foi calúnia que pratiquei mas que não lhe faz justiça.
Esta declaração pública serve para avisar amigos próximos e familiares do gozo que me daria ter o livro de Crónicas do JPC que, ao que julgo saber, acompanha o Independente desta semana. Depois acertamos contas...
De uma cidade em quadrícula só me lembro das esquinas. Todas as fachadas dos edifícios são comprimidas na memória à dimensão de uma folha de papel, mas as esquinas não. As esquinas guardam-se em vários tomos, para levar e consultar nos lugares inóspitos, sem esquinas, como os desertos, os prados e o mar. Passeio pela cidade durante horas, entro em casa e só recordo o café da esquina, o anúncio luminoso a ameaçar entrar no cruzamento pelo enfiamento da aresta, o vício de antecipar os encontros fortuitos topando a rua perpendicular através das montras, o espanto e a surpresa sempre que abro o ângulo ao dobrar as esquinas opacas. Prostitutas, polícias, vendedores de fruta, gente perdida ou à procura de táxi, todos gostam de esquinas. Os delinquentes sofrem da mesma apetência. A esquina oferece múltiplas possibilidades de fuga e algumas oportunidades de negócio. É também um lugar ideal para confrontos urbanos.
A polícia chegou com o proverbial atraso. Até a assistência já tinha dispersado. O criminoso voltaria instantes depois ao lugar do crime, de novo livre de polícias. Continuemos com os clichés. O mau da fita foi um preto e estávamos acima da rua noventa. A vítima foi um porto-riquenho, feio e gordo. Havia uma rapariga, que não saiu do carro. Não se chegou a esclarecer o que fez com que o preto tivesse amolgado duas das portas laterais do carro à custa de violentas cacetadas com um taco de baseball. Também não se ficou a saber se a arma que o porto-riquenho tinha quando saiu do carro e tentou assustar o tipo do taco era verdadeira. Eu digo que sim. Motivos? Dois: quando disparou parecia barulho de arma de fogo e quando ele apontava a pistola para a frente, inclinava-a a noventa graus para um dos lados, ao jeito dos marginais da televisão. Não houve feridos nem mortos. O incidente durou cinco minutos. Cacetadas na porta do carro, ameaços do porto-riquenho, que saía e voltava a entrar, um tiro disparado, o carro em fuga e um gesto técnico impressionante do agressor, com o taco a ser lançado pelo ar animado por um movimento de rotação e a atingir o carro em andamento, já ao fundo de uma das ruas. É impressionante como a excelência técnica, mesmo quando usada para fins condenáveis, me leva imediatamente a ganhar uma certa simpatia pelos canalhas. Essencialmente foi isto o que aconteceu. Estava com um amigo e as nossas companheiras. Assistimos sem intervir do outro lado da rua, obviamente por causa das mulheres, que era necessário proteger. Que mais? Alguns elementos cénicos: o preto tinha um corpo enxuto e a musculatura jogava bem com as luzes. Às vezes parecia um marginal, outras vezes um herói da Marvel. Estas maravilhas da luminotecnia ligam bem com outra perplexidade: foi preciso encontrar um tipo pequeno e enfurecido numa das noites bêbadas das Sextas para dedicar alguma atenção a um taco de baseball. A minha aculturação prossegue, suave e imprevísivel...
O gabinete jurídico MI esteve reunido à porta fechada até altas horas da noite, procurando resolver a polémica sobre os direitos do autor e os deveres de quem o cita no universo blogosférico. A meio da reunião encomendou-se uma pizza familiar com manjericão, anchovas e azeitonas, de massa fina e estaladiça. A pizza foi aprovada por unanimidade. As conclusões da reunião também geraram consenso. Passo a transcrevê-las:
1. Qualquer obra, enquanto criação intelectual do domínio literário, científico e artístico, por qualquer modo exteriorizada- mas excluindo-se aquele a que o uso mais vernacular do verbo "obrar" faz alusão- encontra-se protegida por lei cuja violação pode fazer accionar os mecanismos de responsabilidade penal, contra-ordenacional e/ou civil.
2. É igualmente indiscutível que o n.º 1 do art. 1.º do Código do Direito de Autor e dos Direitos Conexos (CDADC), ao definir naqueles termos o que deve ser considerada uma obra protegida e ao não excluir, nos preceitos que se lhe seguem, a criação intelectual que seja primeiramente divulgada, publicada, utilizada ou explorada na Internet, determina a aplicação do mesmo regime – e entramos, agora, na questão de fundo – aos textos produzidos para publicações não digitais e para publicações digitais (nomeadamente, para blogs) cuja autoria seja conhecida, ainda que mediante a utilização de iniciais, um pseudónimo ou um sinal gráfico.
3. Por outro lado, de acordo com os arts. 11.º e 12.º do CDADC, o direito de autor pertence ao criador intelectual da obra, salvo disposição em contrário, sendo aquele reconhecido independentemente de registo, depósito ou qualquer outra formalidade (toca a ir ler o art. 213.º).
4. Acresce, ainda, que é ao titular do direito de autor (que pode não coincidir com o autor, mas optou-se por não desenvolver o tópico por falta de trocos para encomendar a ceia) a quem cabe a autorização da utilização da obra por terceiros (art. 40.º) e que é o autor, nos termos do art. 67.º, quem detém o direito exclusivo de fruir e utilizar a obra (o que compreende, entre outras, as faculdades de a divulgar, publicar e explorar economicamente por qualquer forma, directa ou indirectamente).
Feito o devido enquadramento jurídico-legal, passemos ao ataque:
1. Pese embora a protecção conferida à criação intelectual, o CDADC considera lícitas certas utilizações da obra sem que para tanto exija o consentimento do seu autor.
2. Assim, e segundo o art. 76.º, não carecem de consentimento de autor a selecção regular dos artigos da imprensa periódica, sob forma de revista de imprensa (al. b)); a fixação, a reprodução e a comunicação pública, por quaisquer meios, de curtos fragmentos de obras literárias, quando a sua inclusão em relatos de acontecimentos de actualidade for justificada pelo fim de informação prosseguido (al. c)); a inserção de citações ou resumos de obras alheias, quaisquer que sejam o seu género e natureza, em apoio das próprias doutrinas ou com fins de crítica ou discussão (al.f)); e, por fim, mas não menos importante, a reprodução – integral ou não – de artigos de actualidade, de discussão económica, política ou religiosa, se não tiver sido expressamente reservada (al. i)).
3. Esta utilização livre não prescinde, naturalmente, da indicação do nome do autor, do editor, do título da obra e demais circunstâncias que o identifiquem (art. 76.º, n.º 1, al. a)). No que respeita à al. f), haverá que assegurar, ainda, que as obras reproduzidas ou citadas não se confundem com a obra de quem as utiliza, e que a reprodução ou citação são tão extensas que prejudicam o interesse por aquelas obras.
E para que não fiquem dúvidas, o gabinete viu-se no dever de assumir um tom vagamente professoral. Toca a abrir os caderninhos e a lamber grafite:
1. Importa ter em conta uma distinção basilar em matéria de violação de direitos de autor: os crimes de usurpação e contrafacção não se confundem. O primeiro corresponderá àquilo a que, de forma genérica, podemos chamar “reprodução abusiva ou não autorizada”; já o segundo remete para o que vulgarmente se designa por “plágio”. São tipos penais que correspondem a conceitos distintos.
2. Por outras palavras, e salvo melhor e mais douta opinião, a reprodução integral de um texto – jornalístico ou não, escrito por um blogger ou não – não deve ser confundida com a utilização de obra alheia como sendo sua. E para que esteja afastada a aplicação do tipo contrafacção, basta a identificação do autor em causa, nos termos atrás definidos; pouco importa se as pessoas lêem mal e se se conhece bem ou mal o e quem se reproduz. Se a obra está identificada e se a reprodução é feita dentro dos limites permitidos por lei (maxime, art. 76.º), não há cá lugar para sermão sobre autoria, direitos de autor e sobre o que sejam «ideias alheias que são desenvolvidas noutros blogues».
Se me é permitida uma nota pessoal a rematar o comunicado do gabinte jurídico MI, em mais de um ano de andanças pela blogosfera jamais encontrei um caso de apropriação deselegante da produção alheia. Considero infeliz o uso do termo "desonesto", a menos que haja matéria para tal acusão.
Contra a corrente, aqui vai o prognóstico: Portugal dá dois secos sem resposta à Rússia e ganha por um golo de diferença à Espanha. Podia explicar tudo isto recorrendo a esquemas tácticos, a detalhada informação atmosférica (que não dispensa a consulta da tabela de marés) e a cartas astrais. Fico-me pelo essencial: quem não está de acordo só tem de escrever para endereço indicado, para combinarmos os detalhes da aposta. O guichet fecha às 4 da manhã desta Quarta.
"Sobre as poucas coisas que me enervam como se tivesse uma agulha espetada no pulso: a cópia integral de textos escritos por outros blogueadores ou por jornalistas nos respectivos blogues ou jornais. A questão da autoria é muito séria e é muito séria para todos. Nem sequer digo que devia ser, porque simplesmente é. Quem nunca ouviu falar de direitos de autor, que se informe. Quem nunca ouviu falar de plágio, que se informe. Quem nunca ouviu falar de coisas como propriedade intelectual, que se informe. A menos que se conheça muito bem o blogueador, cujos textos são reproduzidos no blogue, será melhor pensar-se duas vezes em escarrapachar um texto que é de outra pessoa, como se fosse do blogue que o copia. Mesmo que lá esteja o linque, todos sabemos que as pessoas lêem mal e que podem não perceber quem escreveu aquilo que ali está. Tornem lá isso mais claro. Não controlamos a interpretação do leitor, mas devemos ter todos os cuidado possíveis com o autor. E o mesmo é válido para as ideias alheias que são desenvolvidas noutros blogues. Já que não são criativos, ao menos que sejam honestos."
Esta defesa fundamentalista e musculada dos direitos de autor, que não é da minha autoria, corre o risco de ser tomada como minha, apenas porque a citei na íntegra. Esta defesa fundamentalista e musculada dos direitos de autor não é da minha autoria, mas ao citá-la na íntegra quem corre todos os riscos sou eu. O assunto vai explodir e não queria desequilibrar este post à Delgado: 80% de citação e 20% de reflexão. Mais logo conto desmontar esta defesa fundamentalista e musculada dos direitos de autor, que não é da minha autoria mas que, a acreditar no que se escreve, eu queria que fosse.
Esforço-me por não ver do serpenteado daquelas ruas mais do que um labirinto suburbano. E por não fazer do labirinto mais do que um local onde estranhos e taxistas debutantes se perdiam com facilidade. Há anos que não me demoro pelo bairro. Às vezes, sentado na cama de um quarto de hotel, de pé do outro lado do mundo - não domino estas coisas - regressam os troncos de plátanos com declarações de amor gravadas a canivete, os rostos dos condutores da carreira do 21, mas de bigodes trocados, a menina feita mulher da caixa registadora número 2 do supermercado, mas sem precisar a cor da roupa. Lembro-me de onde comprar tubos de plástico a metro para fazer zarabatanas amazónicas, como se ainda precisasse disso. E penso no João, do tempo em que era novo e já maluco, um homem de genealogia censurada, a fazer do bairro aldeia perdida na serra, com o primo a lançar mão à prima e a prima a deixar-se apanhar. Sei evitar os Candeeiros, lugar mal frequentado, mercado de sonhos a prazo e ressaca garantida, que resistiu mais que a praça, mesmo ao lado, agora terra plana à força mas onde, entre tantas peixeiras iguais no arcaboiço e pujança vocal, ia à singular florista comprar cravos, as mesmas flores que aprendi a esconder à passagem do café do retornado de Angola, desde o dia em que ele quase investiu contra mim, como um touro excitado. As silhuetas das faias domesticadas pela poda são termo de comparação e surgem também os plátanos, os abrunheiros e os arbustos, que se enchiam de bagas laranja na Primavera. As oliveiras de outros tempos já então não chegavam para encher a avenida. E o Tejo, ao fundo, encerrava uma promessa de brisa fresca e imutável, apesar da cintura industrial que nos apertava. Acelerados pelos declives suaves vejo bicicletas sofisticadas, skates e patins de linhas futuristas. Mas se espero mais um pouco, oiço também o inconfundível ruído dos rolamentos sobre o asfalto do primeiro carrinho de esferas para três passageiros com molas de colchão convertidas em suspensão traseira. Como se organiza um bairro na cabeça? Se são inúmeras as imagens de fabulosas jogadas que tiveram lugar nos relvados dos Olivais, talvez por aí. As fintas em situação de aperto do meu irmão, os pontapés estratosféricos do Afonso Melo, os raides geniais do gajo mais inteligente que vi a jogar à bola: Diogo Pipa. Havia um tipo, baixinho e entroncado, que se especializou naquele gesto técnico de avançar um pé, encostar-lhe a bola ao calcanhar com o pé traseiro, que depois roda sobre ela e a faz subir um pouco, apenas o suficiente para ser catapultada quando a perna direita dá um coice em colherada, fazendo-a descrever um arco que sobrevoa o corpo do jogador e do defesa, surpreendido e ultrapassado pela bola, que lhe faz um chapéu, e pelo jogador, naquele caso baixinho e entroncado, que o ultrapassava por um dos lados e recuperava o esférico mais à frente. Havia mulheres que tomavam banho a meio da tarde, enquanto jogávamos. Houve noites de Verão com jogatanas em que os petardos do Samagaio por certo baralharam o sonar do morcego solitário que fazia círculos ao candeeiro público. (reformular)
São muitos os anos e pouca a experimentação. Ninguém gosta de se tomar por cobaia. Prefere-se a intuição e insiste-se nas certezas, na rotina, no conformismo. Quando tudo falha, prolonga-se o mistério. Estranhamente, a altas horas da noite ele sente-se tocado por uma omnisciência que lhe dá uma ilusão de coragem. Tudo fica ainda por explicar, mas não há zonas interditas. "O insondável desaparece com a generalização da sombra" é uma tirada que tipifica a sua produção das madrugadas. Veja-se outra: "é preciso desmontar a eternidade do amor sem recorrer a caprichos pirómanos". Há ali uma certa dose de loucura e desprendimento que liga mal com o dia e os horários. "Aprendi depressa que não devia tirar apontamentos. Nada resistia após uma noite bem dormida. De dia acho ridículas as minhas noites e vice-versa. Percebes a armadilha em que me meti?"
A técnica também conta. Cedo se livrou do inocente contar de carneiros. Fascinado pelo raciocínio, viciou-se em esperar o sono praticando a série de Fibonaci. 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34... Meses depois, apercebendo-se de que até ao número 75025 a sua memória já levava de vencida o cálculo, mudou para os números primos. Estas práticas, reveladoras de uma íntima arrogância intelectual, eram francamente estúpidas. Ainda criança, não percebera que o exercício de contar carneiros deve ser aborrecido, para que cumpra a sua função. A atracção por um virtuosismo contemplativo afastá-lo-ia depois ainda mais do sono. Adolescente, fascinado com a descoberta do sexo, fazia listas das coisas em que reconhecia algum potencial erótico e, sem o saber, inventariava o mundo. Anos depois, mais calmo e exigente, passava em revista todas as mulheres bonitas que conhecia ou gostaria de conhecer. A lista encurtou-se. Porém, ainda com os vicíos de sempre, começou a arranjar forma de entrar pelas madrugadas construindo mulheres quiméricas. Versado que era no cálculo combinatório, o sono voltou a tender para o infinito. Há uns dias perguntei-lhe no que pensa agora, mas ele apenas sorriu.
Justificar pela negativa é uma forma menor e pouco respeituosa de ordenar o mundo, mas devo assinalar o seu lapalissiano "durmo, para poder estar acordado". Sempre o sono, um deserto de tempo que para alguém impaciente e desmemoriado de sonhos só vale nos instantes raianos. "Ceder ao cansaço, experimentar a preguiça, e que mais, diz-me?"
Como interrupção de vida sempre lhe pareceu uma aproximação grosseira. Não se rouba tempo à existência, nem se pode suspendê-la. "Onde está o botão do pause?", costuma peguntar-me, percorrendo as mãos pelo corpo. A sua teatralidade levou-o um dia a pegar num pequeno leitor de cassetes e a atirá-lo com violência ao chão. Hoje já não usa adereços, mas ainda ensaia o mesmo monólogo quando falamos destas coisas. "Só um idiota pensa no botão do pause. Como sabes, uma pessoa avisada procuraria o do rewind". A sua insónia não é a pausa possível, é um regresso rotineiro a um outro registo. "Pela noite dentro, vejo a cobra de luzes na via rápida e aquilo nunca pára. Mas com o tempo percebi que o que me sobressalta de dia acalma-me de noite".
Não gosto de relvados ondulados. Um relvado ondulado é a marca de um capricho. Também não gosto de vidas onduladas. Uma vida ondulada desperta-me uma certa desconfiança. A minha vida tem sido ondulada. Por isso gosto de ficar a ouvir Z. O relato de uma vida depende muito da vida em si e de quem a conta. Z. faz um relato com economia de palavras e gramática, o que o torna mais verdadeiro. A sua vida desenrolou-se em ângulos rectos. Guerra, filhos, 700 dólares no bolso, América, trabalho duro numa padaria, trabalho mais decente depois, filhos crescidos e a preocupação com a educação deles, Belgrado cada vez mais longe, mãe e irmã cada vez mais longe, um labrador bem alimentado que se passeia com a trela em horário pós-laboral pelo Upper East side e 3000 páginas perdidas em Nova Iorque, escritas numa língua estranha. Serão aquelas boas páginas, merecedoras de editor? Não quero saber, a menos que as publiquem de facto. Admiro em Z. uma série de coisas, mas sobretudo a possibilidade de ensaiar o sonho americano e a técnica nos grelhados. Como ele, gostaria de ter começado de novo, verdadeiramente de novo, com um país destruído atrás de mim e 700 dólares no bolso. Gostaria também de saber escolher e salgar a carne para um bom churrasco sul-americano. Z. é sérvio e sabe fazer estas coisas. Tudo isto me ocorre numa festa ao ar livre no meio de Nova Iorque. Há uma banda de covers que toca muito bem. Num relvado ondulado, há crianças chinesas nascidas nesta cidade que brincam com crianças alemãs, aqui nascidas também. Há um tipo com pinta de aristocrata italiano decadente; chego a dizer-lhe que tem pinta de aristocrata italiano, mas censuro o "decadente". Há uma portuguesa que viveu em Salamanca e me tenta explicar como enrolar o "r" para dizer "rioja" como a rapariga de Madrid, que está mesmo ao lado. A dez passos de mim, em todas as direcções, tenho um representante de remotas regiões do globo terrestre. Em três trocas de palavras, posso ficar a saber inúmeras coisas sobre os subúrbios de Wellington, na Nova Zelândia. Mas a sabedoria é essencialmente a noção de que podemos aceder ao conhecimento em qualquer momento, o que me faz insistir no "r" de "rioja" e desprezar Wellington, como antes desprezei Joanesburgo e uma exposição sobre o Apartheid. Estar no num grupo de gente tão diferente de mim e, ao mesmo tempo, tão igual, leva-me muitas vezes a querer baixar a guarda e perguntar o que nos fez vir para aqui. Há uma resposta standard, que evito, como se esperasse que alguém me esclarecesse sobre aquilo que não fui capaz de resolver por conta própria. Felizmente, quando fico suficientemente bêbado para entrar neste registo, ainda estou suficientemente sóbrio para perceber o ridículo que é andar a perguntar estas coisas a pessoas demasiado embriagadas para perceberem o ridículo da pergunta. Volto sempre ao "r" do "rioja". Não faço progressos assinaláveis, mas como se diz por aqui, "it builds character"...
De manhã, ao acordar, é um psicopata em potência. É só diante do espelho que se inicia a longa metamorfose que fará dele um funcionário público afável e em tons de azul. À medida que o dia avança vai melhorando na disposição, mas também como pessoa. Os instintos e impulsos que o dominam, quase todos condenáveis, são domesticados com o passar das horas. Por volta do meio-dia, já não será difícil encontrar quem o queira ter por amigo. Às cinco da tarde experimentou alguma bondade, a onda boa a subir pela espinha que vem com as ideias promissoras, uma certa paz em quem julga ter percebido o mundo. Mas será de noite que igualará o seu máximo. Como não aceitar que ele queira prolongar o momento, se sabe que na manhã seguinte terá de se refazer? De se refazer de novo. Os dias? Os dias são penedos.
O rosto que ama dorme. É um rosto branco na escuridão dos lençóis de cor. Vigia-lhe a respiração, beija-lhe a face levemente. Afasta-se depois até à sala, encosta a testa à vidraça e ali fica, como se tivesse montado guarda e o turno fosse eterno. No quarto, respira-se por ele, sonha-se pelos dois. A vidraça não cede. Ele fica.
Quando decide pendurar as chuteiras e nos poupa às suas reflexões sobre futebol, o Ivan da Praia faz análises que são do melhor que se publica aí, nesse país onde estão. A propósito do cozinheiro do Bloco de Esquerda escreveu um texto exemplar. Não corrijo nada e sublimo tudo. Em todo o caso, a hipocrisia do Bloco de Esquerda é coisa bem benigna quando comparada com a colagem ao Europeu de Futebol que a coligação PSD/PP fez, ao usar o slogan "Força Portugal". Ladrões são eles, de facto, aos olhos de toda a gente, menos do tribunal constitucional.
E como não? Se gosta de sentir o corpo extenuado e de o provocar com o descanso que vai adiando. Se sabe que foi de madrugada que viu as paisagens mais belas e as pessoas enfim nuas. Se, acreditando na tal regra de que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes, faz notar o seu carácter geográfico, só para pôr a salvo todas as madrugadas futuras.
Franz Kafka pegado, ou seja Franzkafka, levou-me a um lapso revelador. Li Frank Zappa, à primeira e à segunda também. Concluo com alguma melancolia que não há conto, reflexão, Amerika ou metamorfose que resista a uma boa malha. E que ainda devo guardar algures, em formato recalcado, o sonho de chegar a guitar hero. Uma coisa é certa: já não será nesta reencarnação... Entretanto, Shup up ´n´play yer guitar some more...
Disse-me que é uma aproximação à imortalidade, a que não é real mas também a única que se pode gozar; uma forma de atrasar o tempo, apressou-se a esclarecer. Para tal aconselhou-me treino específico e alguma crença. Antes de mais, é preciso acreditar que só o tempo psicológico importa, o que não custa nada, garantiu-me. Mais difícil é manter a cabeça arrumada e dividida em duas partes, fazendo com que uma controle a outra, que obedece sem saber estar a cumprir ordens. Este exercício já não é para todos, adiantou-me. Creio que o percebi. A parte que dita ordens deve permanecer discreta, tão discreta que logo se esquece. A outra parte pode então gozar em função do que dita a razão, julgando estar a passar por estados de alma. É um esquema complicado e difícil de explicar, que só mesmo de noite se pode ensaiar. A noite convoca o silêncio e a solidão necessários para uma empreitada destas. O foco da luz do candeeiro de mesa, perdido na penumbra e debruçado sobre a sua própria luz, é uma imagem da concentração que se deve atingir. Quando funciona é muito bom, como uma bebedeira sem ressaca. Mas só de noite, só de noite, ou ainda se corre o risco de nos estranharem. Sim, disse-me ele a experimentar um certo nervosismo, às vezes dá para fazer umas caretas estranhas. Enfim, não estou a ser nada claro, mas ele também não ajudou muito. Lá está, falávamos de dia. Talvez voltemos a tentar mais tarde.
Olha aí a assistência para o Filhos de Viriato, o blogue amigo. Átila disserta sobre o voto, o voto em branco, a divisão esquerda-direita e, sobretudo, o que ficou no meio e não existe num mundo de chaves dicotómicas e definições pela negativa. Segue assim mesmo, críptico. É marketing, pá, é marketing. O Átila explica. Alguém me faz o favor de enviar o url do Filhos ao auto-proclamado inventor do voto em branco, Saramago, José?
Nunca se lembrando dos sonhos, dormir surgia como uma miraculosa catástrofe aeronáutica, em que o avião se despedaça, todos acordam ilesos e a caixa negra nunca chega a ser encontrada. A catástrofe concretizava-se por falta de opção, mas sempre com resistência.
Porque quando estava muito excitado não conseguia acalmar-se o necessário para adormecer e quando estava muito frustrado alimentava a ilusão de que o dia ainda não tinha chegado ao fim. Vivendo entre estes dois estados de alma, dormia pouco.
Fascina-me a sapiência dos objectos. Que muitos são manifestações do nosso engenho é trivial, mas não é disso que se trata. Acredito que uma cadeira pode ganhar a substância de uma personagem, chegar a gente, a imigrante e mesmo a cidadão. Basta ficar a olhar tempo suficiente para eles, os objectos. Um sofá demora 15 minutos a levantar-se, pachorrento. Para outros objectos é preciso treinar a vigília. O sabão azul, por exemplo, requer duas directas, embora o sabonete se manifeste logo de madrugada. Às vezes tento encurtar a espera, tentando o flagrante. Salto do quarto para a sala como um tigre da Malásia, mas, para mal das minhas costas, só o tapete se anima, desequilibrando-me a recepção. Toda a mobília assiste impávida e serena à minha queda. Podem ser cruéis, os objectos. (continua)...