abril 30, 2004

Desmontar Abril


De tudo o que li na imprensa portuguesa nos últimos tempos sobre o 25 de Abril, destaco o ensaio de VPV publicado no Diário de Notícias. É provavelmente o único texto que sobreviverá, visto que muitos preferiram gastar prosa na polémica do "r" e, como seria de esperar, houve também muita lágrima ao canto do olho. Era importante que alguém autorizado comentasse o texto de VPV, uma tarefa que, por razões óbvias, me ultrapassa. Deixo apenas duas notas. VPV escreve com um plano- desmistificar a revolução de Abril-, o que permite uma síntese fácil do texto: os capitães de Abril são pouco mais que idiotas, a democracia não fazia parte do plano inicial e Mário Soares é o maior. Estará VPV na posse dos resultados dos testes de QI dos capitães de Abril (e, já agora, de Francisco Louçã, uma "cabecinha tonta")? O fascínio de VPV pela estupidez alheia trouxe-lhe notórios dividendos estilísticos, mas parece-me uma forma desastrada de escrever história. Mais grave é o empenho desmistificador que, a ser aplicado a toda a história de Portugal, deixaria José Hermano Saraiva na prateleira por míngua de heróis. Enfim, isto é só golpe de vista, mas parece-me que a verdade sobre o 25 de Abril está algures entre a versão romanceada da esquerda e o desencanto metódico de VPV.

O sexo nos Anjos


Em Janeiro meti na cabeça que era importante ter uma casa em Lisboa, apesar de não saber se alguma vez poderei trabalhar em Portugal. Apertado pelo tempo, vi cerca de 15 casas e decidi depressa. Decidi mal. Podia dizer agora que estou a apostar na reabilitação do Intendente e dos Anjos e que fiz uma grande jogada, mas isso seria condenar-me a um estado de eterna parvoíce. É pois preferível assumir a estupidez e andar para a frente (com uma mão atrás). O meu irmão refere-se ao meu investimento como a casa de chuto. O nome foi bem metido. A pouco mais de cinquenta metros, no Regueirão dos Anjos, há um pronto a consumir heroína que funciona a céu aberto. O espectáculo é arrepiante. A uns trezentos metros, em pleno Intendente, é possível fornicar a 15 euro; o preço baixa para 11 em menos de 3 segundos, se não se disser nada. É claro que nada disto é novidade para quem vive em Lisboa. Nem sequer é novidade para mim, que deixei a cidade há dez anos mas ainda me lembrava do Intendente. Uma coisa é certa: não se recupera um bairro com uma demão de pintura. Nem com duas.

abril 29, 2004

Um dia nas corridas

Um brilho nos olhos é ainda um brilho nos olhos, mesmo se alimentado a néons, certo? É que do outro brilho nos olhos, o brilho que durou a tarde toda, não sobrou nada. E tinha sido um brilho tão intenso... Um brilho de demente, é certo; uma daquelas expressões de exoftalmia, clinicamente previstas, se esquecermos a nuance do cristalino aguçado. Brilhar agora à custa dos néons, procurando ali o conforto que o crepúsculo não dava, parecia uma forma pouco nobre de acabar o dia. Reparei a seguir no porto-riquenho que limpava o chão com uma daquelas vassouras largas que não varrem, empurram. Julguei ter visto a minha senha perdida no monte de talões que se acumulavam e avançavam como a babugem de uma onda na praia, mas tive vergonha de me ajoelhar para vasculhar no lixo. E os $10 000 lá foram, empurrados pela vassoura. Ou então foi apenas uma impressão. Tinha sido uma tarde de ilusões e aquela podia ser mais uma.
Chegámos cedo. O Thiago repetia-me "We must find a system. If you have a system you can´t lose." O Thiago sempre foi assim, um concentrado de ironia, perfeito a misturar optimismo e fatalismo, que depois serve com fluência verbal desconcertante. Tínhamos encontro marcado com o Sebastian, um matemático. O Thiago continuava, entusiamado: " Juntos temos mais de 10 anos de estudos doutorais... Dois biólogos e um matemático... Nós tratamos de avaliar os cavalos e o Sebastian calcula as probabilidades. Percebes de cavalos, não percebes? Só pode mesmo funcionar. We have a system, my friend. We can´t lose".


Há na manhã uma frescura que facilmente se toma por esperança. O corpo descansado, os cabelos molhados, um hálito fresco restaurado a pasta dentífrica e detalhes acidentais, como o contacto com um corrimão de metal ao sol mas ainda frio, tudo contribui para um estado de optimismo que raras vezes passa do meio-dia. Talvez isso explique que tenhamos subido tão alto, mal ali chegámos. O homem do elevador, que parecia saído de uma história de cinema americano independente com acção num estado difícil de apontar no mapa, levou-nos até ao último andar, sem nunca tirar os olhos de uma revista em que todas as páginas tinham mais de 5 cores. Em rigor, o último andar era uma espécie de dinner em socalcos, com janelas enormes que mostravam a pista oval de terra batida. Comia-se em família ou entre amigos, de fato de treino ou fato apenas. A probição de fumar preservava o ar e os perfumes e fazia do lugar um aquário de água limpa. Nos guichets a aposta mínima de $50 foi motivo para a primeira troca de olhares com o Thiago, em jeito de quem pensa mas não diz: "somos um erro de casting". Um tipo enorme que tresandava a riqueza e crime miúdo passou por nós com ar altivo e quase escondemos as mochilas, envergonhados. Foi então que percebemos que tínhamos subido demasiado alto e resolvemos descer um andar, para logo concluir que ainda estávamos a pairar. Após termos repetido este exercício mais umas duas ou três vezes, chegámos ao piso térreo e então sim, a aposta mínima de $5 fez-nos sentir (como direi?) em casa. O ambiente mudara. Escasseavam os brancos e os que havia tinham mau aspecto. Pretos, hispânicos, white trash e nós, tecnicamente entre o hispânico e o white white trash, da etnia ao paycheck. Deambulámos por ali. O lugar tinha o encanto de um oásis de pecado. A higienização da vida nocturna de Nova Iorque trouxe a qualquer ida à Europa a excitação do adolescente que se estreia num bordel, mas a verdade é que ali, a uma hora de comboio de Manhattan, fumava-se e bebia-se a sério, dentro de portas e ao ar livre. Tínhamos álcool, fumo, jogo e só faltavam as mulheres. Corrijo: Sebastian irrompeu da multidão cheio de mulheres, mas era um daqueles grupos impenetráveis como uma formação tartaruga de legionários romanos. Todos se conheciam há muitos anos, falavam com os seus códigos, vinham aos pares ou faziam referências constantes a amigos e namorados ausentes. Muito ao seu estilo, o Thiago apressou-se a resumir a situação: "prefiro perder meu dinheiro nos cavalos". Para efeitos práticos, Thiago referia-se ao meu dinheiro. Apercebendo-me do estado de desolação financeira da carteira dele, propusera-lhe, já imbuído do espírito de jogador, dar-lhe $60 na condição de ter direito a metade dos eventuais lucros que ele viesse a ter. O dinheiro serve para estas coisas e ser estúpido mas magnânimo é uma condição que prezo. Escusado será dizer que o Thiago não hesitou, soltando um "Oba!" como se ainda vivesse no Rio. Bebemos, bebemos e depois consultámos as tabelas com todas as estatísticas e o histórico dos cavalos naquela e noutras pistas. Após cinco minutos de consulta, resolvi apostar na intuição, por uma questão de preguiça. O Sebastian e Thiago fizeram o mesmo, mas todos desenvolvemos tácticas diferentes (a hipótese da sinergia morreu antes da primeira aposta). A minha táctica consistia em apostar em dois cavalos do meio da tabela. O Sebastian, com a Argentina em chagas, apostava em jockeys com nomes hispânicos. E o Thiago, eternamente deslumbrado, apostava no cavalo com o nome mais inspirador (no universo dele, qualquer lista de nomes de cavalos por ordem decrescente de poder de sugestão começa em Elvis e acaba em Reagan. Ronald Reagan). O empregado do guichet topou que éramos estreantes naquelas andanças, mesmo depois de eu ter praticado a frase com que compraria as minhas apostas (na prática, a ideia é transmitir a informação da forma mais condensada que se consiga; qualquer palavra a mais denuncia o novato). Voltámos para perto da pista, ao ar livre e esperámos pelo toque da partida... (continua)

A voz de Roma

Estive hoje ao telefone com um amigo que se mudou para Roma. Este moço é compositor e anda agora a escrever uma Ópera. Seria deselegante revelar aqui pormenores sobre o projecto mas lembro-me perfeitamente de, há uns 5 anos, ele ter partilhado comigo a sua ideia. Foi numa tarde solarenga, em Paris, enquanto carregávamos mobília pelas escadas, até umas águas furtadas no sexto andar de um prédio perto de Saint Michel. Estávamos ofegantes, desidratados, cobertos de pó e com as mãos cheias de vincos, mas à custa do entusiasmo dele sentámo-nos numa cómoda, para que ele pudesse falar e eu pudesse ouvir. Por vários motivos, alheios à nossa vontade ou nem por isso, houve uma altura em que não passavam 3 ou 4 meses sem que um de nós não mudasse de casa. Transportar mobília tornou-se assim quase um ritual e é hoje uma referência aos anos de Paris bem mais impressiva que o acordeão. Bastam algumas horas de conversa para que nos lembremos da Amaral & Barreto, démenageurs, com a cumplidade e bonomia de quem, à falta de uma tatuagem ou de um brinco para celebrar uma amizade, sabe que partilha a origem da escoliose que hoje nos martiriza. Esperando que este episódio anedótico sirva para cortar a gravidade do remate que se segue, atalho já para dizer que na conversa de hoje, para lá da voz do interlocutor vir de Roma, apreciei a manifestação de uma tranquila persistência, em quem sabe que as ideias mais grandiloquentes evoluem naturalmente para desafios concretizáveis. Conheço cada vez menos pessoas assim, mas na verdade basta conhecer apenas uma.

abril 26, 2004

Under the influenza

A gripe perdeu todo o encanto que tinha. De pouco valem as torradas e o chá que, de resto, já não existem. Quando havia todo o tempo, ter gripe era uma forma de adiar a vida. Um gajo era puto e não o sabia, mas estava a abrir um parêntesis que só fechava quando voltava aos 37° C. Não nos pediam nada, apenas que ficássemos bons. Eram uns dias em que o tecto branco do quarto se transformava numa tela para inúmeros rascunhos de metafísica; os calhamaços das colecções de banda-desenhada eram vistos e revistos até ao rebentar das lombadas; achava-se graça a fazer dos lençóis e cobertores a lona de uma tenda. Acima de tudo, o estado febril não induzia a menor irritação, nem suscitava grandes críticas. Vinte e cinco anos depois, mudou tudo. O tecto do quarto ainda é branco, mas só consigo reparar na fraca qualidade do trabalho de pintura; não consigo ler, porque me dói o olho esquerdo ou então dói-me a cabeça; um édrodon é um edredão e não se fala mais nisso. Quero trabalhar, mas como não posso começo logo a ver os prazos limite através de uma tele-objectiva. Perco os dias a arrefecer em banhos de chuveiro com água a escaldar, para depois ir dos 37°C aos 39ºC nas meias horas que gasto a ver televisão (mais três dias nisto e tornou-me fã de uma telenovela americana). Como se não bastasse, ainda tenho que fingir algum fairplay quando fazem pouco do meu sistema imunitário. É a mesma gente que me deseja as melhoras, deixando sempre a impressão de que me criticam por ter adoecido. E assim, dominado pela lógica do paciente (refém de alguma paranóia e inveja, reconheço), mente cínica em corpo são faz muito mais sentido, como expressão, do que a versão que se popularizou, que me parece tão falsa como um slogan de campanha eleitoral...

O dia seguinte


O 25 de Abril não nos passou ao lado; passou-nos por cima. A gripe de Quinta-feira teve uma evolução pouco favorável e fez com que ontem, 25 de Abril de 2004, toda a equipa do Memória estivesse acamada e sem energia para folias. Os projectos de lançar uns cravos ao East River e de beber uns copos com amigos foram adiados. É uma constante nas nossas vidas, isto de falhar as datas importantes. Se uns têm existências ricas em dias D, no nosso calendário impera a letra E. Chegamos, mas sempre no dia seguinte. Só nos resta mesmo agradecer a todos aqueles que há trinta anos e um dia fizeram uma revolução, tornando possíveis, desde então, os nossos dias seguintes. É uma vida quase toda.
A redacção

abril 22, 2004

Difool e a língua portuguesa

Interrompo um mês de férias à conta da herança de um tio rico que quinou a fazer asa-delta e aqui estou, de mangas arregaçadas (e sem seringa, note-se), para dar o meu contributo ao estudo que o Bomba iniciou: a lista exaustiva de expressões a erradicar do espaço lusófono. Eu, Difool, John, sempre preocupado com a língua das portuguesas, não podia alhear-me desta discussão, pá. O meu interesse por outras línguas fez de mim um poliglota, mas deixem-me confessar-vos que não há língua como a primeira, mesmo quando as outras línguas trazem, assim constitutivamente, um par de argumentos irrefutáveis e a impetuosidade das altas latitudes (uuuuuuui, que saudades de Paris e das moçoilas que na cidade universitária, à janela dos quartos da casa da Suécia, se despiam em contra-luz; era o nosso Playboy late night mas ao vivo, éramos jovens, éramos felizes, viva Estocolmo). Bem, Difool, John, não precisa de provar a ninguém o seu amor pela língua lusa. Pessoa, o Fernando, complicou a vida a toda a gente, é sabido. Topa aí: à custa das brincadeiras do menino, a língua portuguesa é pátria de um tipo apenas, ou, na melhor das hipóteses, de um gajo (o Nando) e de uma multidão de plagiadores. Ora, uma pátria assim mete nojo. Para desenrascar, bem, sobra a paráfrase. Vamos a isso, Difool: o meu pranto é a língua portuguesa (factual, factual, pá; Difool tem a complexidade do personagem shakespeareano: chora, ri e, dependendo das produções, é javardo a comer ou não); a minha mátria é a Natália Correia (incompreensível para menores de 25 anos); a minha pátria rima com beleza (fóniz...); a minha pátria é uma longa incerteza (mau...); láctea é a via portuguesa (é melhor parar, que isto não engatou). O estudo do Bomba é mais importante para a pátria que, sei lá, a compra de dois submarinos (hipoteticamente falando, é claro, até porque ninguém em Portugal tem carta de submarino e seria estúpido comprá-los). Atalhando a cena, eis a minha lista de expressões e vocábulos a lançar à fogueira, o auto de fónix de Difool, John:



"abraço de urso": é uma expressão de baixa tiragem (felizmente!), mas em expansão. Usa-se de forma amistosa. É mais um exemplo de quão ternurenta a ignorância pode ser. Um gajo que envia um abraço de urso a um amigo só pode ter aprendido zoologia a ver a produção animada da Walt Disney. Se não respeitam aqui o Difool, ao menos tenham respeito pelo legado de Félix Rodriguez de la Fuente, seus ursos...
"índices" e "parâmetros": só existe um homem em Portugal autorizado a usar estas duas palavras na mesma frase e, até, consecutivamente: Gabriel Alves. Todos os outros devem ficar caladinhos. Estamos perante um dos problemas que as ideias de democracia e de liberdade individual forjaram, meus: o pessoal pensar que pode fazer tudo. Meus amigos, o terceiro concerto para piano do Rachmaninov não é para ser tocado por toda a gente. E dirigindo-me aos meus, acrescento que solos à Petrucci e à Malmsteen não são democráticos...
"derivado de/a que": esta é uma das expressões que convoca todas as ferramentas análise da epidemiologia, tal o sem grau de virulência. Devemos irradicá-la quanto antes e só depois pedir contas à indústria do leite e dos seus derivados, o responsável óbvio por esta calamidade.
"portanto": uma palavra que aqui aparece como mensagem de esperança. O "portanto" está para esta lista como a varíola está para as doenças infecto-contagiosas. Há pouco menos de 15 anos, era possível ouvir nos media "portanto" ser dito 14.5 vezes por minuto. Hoje, não estando irradicado, "portanto" apresenta-se sob controle e persiste apenas em algumas franjas populacionais.
"era uma bica, s.f.f.": creio que o Pedro Mexia já comentou este curioso uso do pretérito. Percebe-se a ideia, mas a estratégia do cliente -tentar iludir o empregado e assim encurtar o atraso com que a bica é servida- é demasiado optimista, como qualquer um já pôde constactar.
(continua)



abril 21, 2004

Caetano sem Byrne

CAETANO.gif
Houve uma altura em que alguém me passou de novo os binóculos e, daquela vez, por puro engano, espreitei por eles ao contrário. Se disser que parecia que a luz andava para trás, ninguém vai acreditar, mas era como se espreitasse através de um caleidoscópio e presenciasse um festival de luz insuspeitado. Como poderia não prolongar aquele momento? Ouvi toda a canção com os binóculos invertidos. O já franzino Caetano, lá ao fundo, a uns bons 80 metros de distância, reduziu-se então a uma insignificância microscópica e tornou-se, todo ele, literalmente canto. De uma estranha forma, os binóculos ajudaram-me uma vez mais a ver melhor.
É preciso lembrar que o palco do Carnegie Hall faz lembrar o salão de festas de um palácio neoclássico depois da visita de uma quadrilha da ladrões. As paredes têm um ar desolador e austero; pedem quadros com moldura de talha dourada e dão-se mal com o Tropicalismo. Esclareço também que o fundo de paciência que reservo para tudo o que o Caetano Veloso diz apresenta um saldo negativo há já uns anos. Para mim, como para tantos outros, o cantor sofre de excesso de opinião. Registe-se ainda o péssimo trabalho de luminotecnia. Das duas uma, ou o técnico de luzes era incompente ou vinha do Midwest e treslera o comentário aparentemente elogioso de Caetano à aparência de Bin Laden. Para rematar, a mania que Caetano tem de cantar em inglês é algo que apenas tolero. Trata-se de mais uma manifestação do Zelig que há em Caetano; não é que ele cante mal em inglês, mas aborrece vê-lo reduzido a um irrrepreensível cantor do circuito dos bares, sabendo que aquela voz é absolutamente genial noutras línguas. Impunha-se dizer tudo isto, porque o que se segue é puro elogio.

Ao contrário de quase todos os meus amigos, cheguei tarde à MPB. Aos quinze anos ouvia Iron Maiden e seria capaz de perguntar, convictamente: “quem é o Bossa Nova?” Comecei depois a estudar guitarra. A ideia inicial- tornar-me um
guitar hero- não tardou enredar-se na lentidão dos meus dedos e fiquei nas covas, a decifrar partituras obscuras. Uns anos depois, o agora respeitado compositor de música contemporânea João Madureira, que então alinhava comigo num coro, propôs dar-me aulas de “composição”. O método do João era pouco ortodoxo, mas muito interessante (não produziu grandes resultados porque eu era um cábula). Em vez de usarmos o material do costume (corais de Bach e coisas desse estilo), escolhíamos standards da bossa nova e da MPB. A primeira música harmonicamente esmiuçada tinha um nome assustadoramente profético: Insensatez. Insensatos ou não, a verdade é que há naquele material pano para mangas e o João, que aliava já um conhecimento teórico muito sólido à mestria com que sacava de ouvido as malhas de João gilberto, perdia-se em explicações enquanto me abria os ouvidos para a música do Brasil. Meses depois, terminado aquele efémero período de formação, resolvi dar descanso ao tema Travessia, de Milton Nascimento, e, sem o saber, encontrei uma canção perfeita: Coração Vagabundo, de Caetano Veloso. Esta é, para mim, uma canção insuperável, objectiva e intrinsecamente perfeita. Persiste na memória sem o insidioso legado da adolescência que nos transforma em cães de Pavlov. Longe de tudo isso, o meu Coração Vagabundo não se compromete com lembranças de namoradas, do tal slow, do tal beijo, do tal fim de semana ou de qualquer outro acontecimento relevante. Em suma, não faz de marco biográfico. Ali está, sempre presente e a chamar por mim quando há uma guitarra por perto, para me lembrar que não há uma sílaba a mais e que o seu ritmo é uma prisão sem grades... (continua)

Manutenção MI


As imagens regressaram ao Memória. Não mexi uma palha e o problema resolveu-se. Retiro deste episódio uma lição para a vida, mas agradeço também a todos os que enviaram sugestões de locais onde alojar imagens.
Resolvi retirar o pedido de ilustrações originais para colocar no Memória. Em mais de três meses não tive uma única resposta. A única conclusão possível, na onda da lógica "uma mosca sem asas não ouve", é esta: os leitores deste blogue não sabem desenhar. Ensaiando uma fuga para a frente, troco o pedido por uma exigência: a partir de agora, ninguém conseguirá publicar uma ilustração no Memória, a menos que rapte algum familiar chegado (primos não contam).
Regressa também a vastíssimo repertório de canções do Ivan. A ideia é acumular vergonha suficiente para vencer a inércia e assim gravar e regravar mais umas brincadeiras acústicas.
Registe-se também a entrada para a lista dos enlaces de My Moleskine e de \«(.)(.)»/. Porque sim.

abril 20, 2004

Plágio?


Sampa (Caetano Veloso)

Ronda (Paulo Vanzolini)

Só para rematar a questão do plágio de Caetano a um tema de Paulo Vanzolini, comparei as duas canções (no irritante mas depurado formato midi). As melodias são idênticas na parte que no tema de Caetano corresponde à letra "... que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João". Nessa parte a melodia é, sem sombra de dúvida, a mesma. É impossível tratar-se de uma coincidência. Sucede que o tema de Vanzolini é, como o de Caetano, sobre São Paulo. Já era, de resto, uma canção emblemática quando Caetano escreveu Sampa, igualmente uma homenagem à cidade de São Paulo. Fará sentido, também aqui, colocar a hipótese da coincidência? É claro que não. E assim, perante este encadeamento de duas não-coincidências, aos que embirram com Caetano só resta conceder a este "plágio" o vazio moral da simples coincidência. Todos os outros podem seguir caminhos menos tortuosos e ver o óbvio: que se tratou de uma homenagem.

abril 18, 2004

Spot the celebrity

Os mais atentos lembrar-se-ão do meu paupérrimo currículo de observador de celebridades em circunstâncias acidentais. Em mais de dois anos a viver numa cidade farta em gente famosa, David Byrne era a única celebridade que eu tinha visto até há umas horas atrás. Cruzei-me hoje com a segunda presa. Infelizmente, não era nenhuma top-model, mas sim o maestro James Levine, irrepreensivelmente desgrenhado e algo ofegante, no cruzamento da rua 63 com a Avenida Madison. Continuo sem perceber como é que todos os amigos que me visitam conseguem ver tanta gente conhecida em apenas uma semana. Chegam a casa excitadíssimos e eu lá tenho que camuflar um misto de inveja, estupefacção e aborrecimento, quando me falam (e os exemplos são factuais) que viram o Cruise, o Rushdie, o Anan, o Cage, o Bowie, o Freitas do Amaral, a Sarandon, o Robbins, os Coen, as Arquette, etc... Quando tinha a mania que gostava de ornitologia acontecia a mesma coisa. Concluo que um tipo fraco a ver pássaros também não se safa com passarões.

(F)estival

Natfalina pelo ar e novas colecções, magnólias em flor, peitos desabrochados, mamilos espetados, bebedeiras de T-shirt, janelas escancaradas, tardes lentas, sombras longas, bronzeados de solário reabilitados, pôr do sol às tabelinhas pelas ruas, pé de atleta na relva virgem do Parque com atletas, tatuagens no lombo e nos tornozelos, rabos de cavalo e mini-saias sem brisa, umbigos que brilham, barrigas contra-naturalmente chatas, gajos ricos ainda mais ricos e até à pele, gajos pobres ainda mais pobres até à ponta dos cabelos, coisas artificialmente frescas, fruta enterrada no gelo, pernas longas dos calcanhares à contra-luz, barulho de insectos, smoking ao lusco-fusco com o olhar perdido num whisky aguado, avenidas ensombradas, respiração ofegante depois de uma corrida, respiração ofegante, respiração, respingo de fonte, pingo de suor a deslizar pelas costelas sem nervoso miudinho...

Dúvida existencial


Serão certamente efeitos colaterais dos fabulosos concertos de Caetano Veloso a que assisti nos últimos dois dias, mas estou a ser consumido por uma dúvida que se alastra na minha cabeça com a velocidade de uma praga de jacintos-de-água. Leio no Aviz que o Caetano surripiou os acordes da canção Sampa ("Alguma coisa acontece no meu coração...) a Paulo Vanzolini. A afirmação não é nova (veja-se, por exemplo, esta discussão) e o que o Francisco José Viegas entende por "surripiar" daria pano para mangas, mas é, por agora, acessório. A minha dúvida é esta: Sampa foi musicado por Gilberto Gil ou por Caetano? A letra é de Caetano, mas sempre pensei que a melodia e os acordes eram de Gil. No songbook de Caetano, como na internet, a autoria de Sampa é dada exclusivamente a Caetano, mas não arredo pé! Se não estou em erro, no disco de Gil "Unplugged" ele diz que fez a música (antes de arrancar uma versão fabulosa, diga-se de passagem). Como não tenho aqui o disco, faço um apelo veemente aos leitores do Memória, para que confirmem ou desmintam esta impressão. O tipo de melodia e a harmonia são muito à Gil, mas convém ter presente que foi Gil quem ensinou Caetano a tocar "violão", pelo que esta observação pouco adianta. Enfim, desespero...

abril 17, 2004

Aquele encolher de ombros...


Impõe-se uma pequena correcção ao post "Aquele abraço..." Recebi o Isaiah e o Prado Coelho, mas o romance de Saramago foi enriquecer o mercado negro de Newark ou a estante de algum lusófono. Mantenho o abraço à TAP e o slogan fatela. Acho até alguma graça ao sucedido, por vários motivos. Em primeiro lugar, não se tratou de um roubo ou de um furto. É também de louvar a complexidade ética deste patife (é mais interessante admitir que o palmanço e a devolução dos outros dois livros foram acções de uma só pessoa); terá havido algum conflito interno ou estaremos na presença de um intransigente ateu comunista (os livros devolvidos são sobre a fé e o liberalismo)? Por fim, não andava com vontade nenhuma de ler o Saramago...

Um exclusivo MI


Acabo de ver o Ivan a escrevinhar qualquer coisa na sebenta, entre os dois concertos de Caetano Veloso no Carnegie Hall. O exclusivo MI "Caetano sem David" e "Byrne com Veloso" vai para a net já amanhã.

Equívocos e equívocos


Ladyana, do blogue The palace of desire, não apreciou a ironia do post urbanidade e censurou o enlace que tinha colocado para o Memória. En passant, destila algum veneno, faz acusações e deixa algumas provocações.
Adio para ocasião futura uma resposta fundamentada à insinuação mais pertinente que se lê no Palace: "e isso [a legalização da prostituição] altera alguma coisa?". Com o devido respeito, não altera o preconceito existente, mas seria fundamental para assegurar os direitos laborais da classe e teria repercussões óbvias na melhoria das condições de higiene e segurança com que as prostitutas trabalham. Estes detalhes serão provavelmente insignificantes para si e, como tal, no dia em que todas as prostitutas citarem Agustina Bessa-Luís prometo rever a minha posição. Mas não vale a pena juntar mais linhas sobre esta questão agora, já que o que aqui houve foi um choque de egos, nada mais.
Ladayana acusa-me de ser preconceituoso. Tem toda a razão. Se a senhora trabalhasse como "caixa" no Pingo Doce ou desse aulas na Universidade Nova, o aparecimento de um enlace para o Memória não seria motivo para um post meu. Mas fui eu o primeiro a reconhecer o preconceito, quando escrevi que seria desonesto ignorar o enlace só para fingir um à vontade que não tenho. Pelo contrário, a acusação de ter sido indelicado resulta sobretudo de um mal entendido e de uma susceptibilidade exacerbada. Entendo a susceptibilidade, mas dela não me sinto responsável. Quanto ao mal entendido, vou procurar ser mais claro, pois reconheço que a prosa do post em questão é algo dúbia. Como a Ladyana, também eu hesito sempre que se trata de escrever a minha profissão num documento qualquer (daí a expressão "quando a burocracia chama por mim"). Como vê, não há nada de insultuoso nestas palavras. Já o uso da expressão "puta urbana", para mais enlaçada (assim ganhando relevância), é claramente uma jogada espertalhona para ganhar algum impacto a custo zero, uma vez que me limitei a usar a sua terminologia. Admito que possa ter ficado irritada e sei que temos o direito de não admitir que outros nos tratem como nós próprios nos tratamos. Se ficou ofendida, ou simplesmente irritada, peço-lhe que me desculpe.
Escrevi aquele post porque me pareceu singular e interessante ter um enlace para o Memória no blogue de uma prostituta. A Ladyana irritou-se com o que eu escrevi e censurou o enlace. Está no seu direito. Mas até ter retirado o enlace, como agora, não perdíamos o nosso sono nem temíamos "contágios" e "contaminações". É até frustrante ver o enlace desaparecer, pois o nosso post pretendia ser uma saudação e não tinha "intento censório". Com o devido respeito, a censura foi toda sua.
Sobra a questão mercantilista, que parece preocupá-la de sobremaneira. Esta discussão acaba sempre nas mesmas trapalhadas. De uma vez por todas, vamos lá ver se nos entendemos:
1. Gosto que a blogosfera seja uma sinergia de projectos amadores.
2. Se alguém faz um blogue para com isso ganhar dinheiro de forma directa, não vou lá como "blogger". Para mim, tal blogue passa a ser uma página da internet com intuitos comerciais, a que posso recorrer ou não, em função dos meus interesses (e certamente sem recusas de tipo fundamentalista).
3. Como blogger, o meu único objectivo mercantilista é não perder muito dinheiro.
4. Se surge a oportunidade de transformar o material ou o potencial revelado no blogue num produto (um livro, por exemplo) ou numa actividade remunerada, creio que só faz sentido o blogue continuar a existir se acrescentar algo mais à produção que é paga (o que não passa exclusivamente pela publicação de material original e pode ficar apenas pela exposição de rotinas e métodos de trabalho). Se, pelo contrário, o blogue é apenas uma montra, para mim, enquanto "blogger", perde interesse.
5. Não me cabe definir nada na internet, nem na blogosfera. Mas sou livre de seleccionar os blogues segundo os critérios que estabeleço, como também tenho o direito de divulgar a minha opinião. Não me passa pela cabeça impôr seja o que fôr. Uma opinião é uma opinião e a carga moral do que discutimos aqui é quase imponderável. Não há motivo para grandes excitações.
6. Às suas insistentes insinuações, só me resta responder que o Memória existe porque me incentiva a escrever. Não lhe devo nenhuma outra satisfação. Porém, se no futuro me apanhar em contradição com o que agora escrevi, não hesite. Tem aqui munições preciosas e só precisa de uma memória privilegiada...

abril 16, 2004

Aquele abraço...

Há anos que me debato com o vício terrível de semear livros pelo mundo. A única forma possível de sublimação é esquecer o involuntarismo de tal prática, para poder concluir que, objectivamente, o bookcrossing começou comigo. Mas o consolo que daí retiro é fraco, sobretudo quando o livro que perco é o que estou a ler. No último voo Lisboa-Nova Iorque bati o meu record pessoal. De uma assentada, perdi um Saramago, um Prado Coelho e um Isaiah Berlin. Quando já estava conformado com a perda daquele trio bizarro, recebo uma mensagem electrónica de um funcionário da TAP. Por um acaso, tinha deixado o meu endereço electrónico num dos livros. O funcionário da TAP prontificou-se a enviar os livros pelo correio, sem custos adicionais para mim. Não sei se esta é uma prática comum, mas aqui fica um abraço e um slogan fatela: "eu voo TAP. E você, como vai?"

Urbanidade


O Memória é um espaço familiar, para ser visitado por gente dos 11 aos 110. Somos pouco dados a filosofias de ponta. O Ivan é um pudico. O Difool acha um desperdício de tempo falar e escrever sobre sexo. No que me toca, não quero aborrecer o leitor com prosa erótica (género que nunca conseguiria dominar), nem ouso fazer humor tendo o sexo por tema, pois a comparação com o inultrapassável Pipi seria cruel para mim. Também ainda não calhou desenvolver as minhas opiniões banais sobre a educação sexual no liceu, a legalização da prostituição e a tolerância em relação ao sexo praticado entre homens ou entre mulheres. A isso tudo respondo apressadamente com um "sim", em tripla, para logo regressar às águas mansas do costume. Porém, seria desonesto não assinalar o insólito, só para fingir uma certa descontracção. Passo a explicar: o Memória foi há pouco tempo enlaçado por um blogue de uma "acompanhante feminina", digo, "performer erótica", digo "puta urbana". Estas três designações, da exclusiva responsabilidade da autora do dito blogue, são reveladoras de uma hesitação que partilho sempre que a burocracia chama por mim. Como entendo que os blogues são mais blogues enquanto se mantiverem como projectos sem fins lucrativos, não posso desejar publicamente à autora os maiores sucessos comerciais. Sobram os votos para que escreva posts inspirados e genuínos.

abril 13, 2004

Posts de Lisboa (série limitada): lista exaustiva de coisas boas

O inventário das coisas boas é extenso, mas depois de censurado para efeitos de prevenção de lamechice ficou bem curto. Aqui fica (a ordem é aleatória):
1. Secretos de porco;
2. Queijo alentejano;
3. Mar algarvio a entrar por uma varanda alta;
4. Seis abelharucos que brincavam junto da ribeira do Cotovio (Alentejo);
5. A população de cegonhas do Baixo-Alentejo;
6. Pôr-do-Sol visto da Via do Infante (perto de Boliqueime);
7. Um quintal na Mouraria, tipo enclave.

abril 11, 2004

E quem é que não quer um presidente como António Barreto? Vão ler esta prosa e encontrarão naqueles parágrafos tudo o que se pode pedir de um presidente: decência, inteligência, coragem, independência e um discurso perfeitamente inconsequente. Barreto continua a ser o meu candidato...

abril 09, 2004

Posts de Lisboa (série limitada): esparregata social

Uma cidade rica em regueirões permite-me a perspectiva de planta sobre um grupo de toxicodependentes que se injectam com heroína a céu aberto, nos Anjos. Horas depois, laços familiares multiplicados por laços de amizade atiram-me para o banco traseiro de um Rolls-Royce, e aí faço da flying lady a mira com que aponto às coisas que desfilam.

Posts de Lisboa (série limitada): Regressos a casa

Houve um tempo em que tinha uma casa. Os regressos e as partidas sucediam-se com uma naturalidade de estação ferroviária. Houve depois um tempo em que tinha duas casas e o regresso e a partida começaram a ser postos na balança, tentando ver qual pesava mais em importância. A solução chegava quando estava muitos metros acima do solo, numa posição razoavelmente equidistante das duas portas. Mas era uma solução que não resolvia a tensão, apenas dava uma primazia precária a um dos sentimentos. Veio depois um tempo em que me fartei da balança. É este tempo. Com uma dose de estilo (senão bom, pelo menos eficaz), conclui que a minha casa é uma coisa única, mas fluida. Não a levo às costas, como o caracol (às costas costumo levar uma mochila da Adidas). Não a reconstruo cada vez que resolvo parar, como o nómada. A minha casa é o lugar onde precisam de mim e onde me sinto bem. Esta definição, pouco surpreendente e até aborrecida, é a única que faz sentido. Traz-me também alguma paz, sempre que viajo. Desapareceram a melancolia e a excitação com que me debatia enquanto voava. Consigo harmonizar dois sentimentos contraditórios, sem os converter em apatia. Na verdade, não se trata de harmonizar mas antes de tamponizar (no sentido químico do termo, mas sem químicos). Agora, uma partida e uma chegada somam sempre dois regressos.

abril 06, 2004

As gralhas do Público dão que pensar


Na edição de hoje do Público, o revisor, que tem dado tréguas ao director (houve uma altura em que os editoriais de José Manuel Fernandes apareciam sempre com gralhas), deixou que EPC fizesse o melhor elogio que alguma vez vi ser feito a um actor: "Rogério Samora é admirável do princípio ao filme..." Num outro artigo lê-se que "a decana dos funcionários da PGR reclamaria 60 mil contos (30 mil euros) só para fornecer a Albarran cópias da investigação da DGCI." Albarran recusou a tentativa de extorsão, o que é louvável. Mas mesmo os actos louváveis têm um preço. Fica pois a pergunta: Albarran recusou em contos ou em euros?

abril 05, 2004

SOS imagem


Tendo em vista solucionar o vazio pictórico em que o Memória mergulhou desde há alguns dias, peço-vos que me indiquem locais seguros (gratuitos ou baratos) onde alojar imagens...

abril 04, 2004

A purga


O peso de saber que há infinitas coisas que nos passarão ao lado equilibra-se com a leveza experimentada no momento em que algumas dessas coisas se revelam. O fiel da balança não se mexe. Porém, a balança afunda-se. Digamos que se trata de uma inevitabilidade física. Como abrandar o afundamento? Sugiro um truque, que só não ponho em prática mais vezes porque sou preguiçoso e optimista: inumerar o que nunca nos interessou ou poderá vir a interessar. Os dois melhores locais para pôr em prática tal exercício são o centro comercial e a sala de estar com a televisão ligada, uma poltrona, um telecomando e pelo menos 40 canais. Livrarias vastas, como uma Barnes and Noble, a Strands ou uma FNAC também servem, sobretudo para quem julga intelectualmente ofensivos os dois outros recintos. No centro comercial é importante olhar para todas as montras e entrar em todas as lojas. De igual modo, diante da televisão, todos os canais são inspeccionados e nada pode ser desprezado antes de se responder à pergunta discriminatória: será que isto me interessa? A previsão é que quase nada nos interessa verdadeiramente. Mas o exercício deve ser repetido, a horas diferentes do dia, em todas as estações e cobrindo várias geografias e culturas, para frisar que quase nada verdadeiramente nos interessa. Ficar com a impressão de que quase nada verdadeiramente nos interessa é crucial, porque não há lógica nenhuma nesta prática. O exercício é, note-se bem, absolutamente ilógico; equivale a querer chegar ao infinito a contar os dedos das mãos, ter noção do problema e concluir que tudo se resolve assegurando uma fonte inesgotável de mãos. No fundo, com esta prática apenas se valoriza o que sabemos que nos interessa. Mas mesmo este exercício, formalmente estúpido, deve obedecer a algumas regras. O problema mais frequente surge quando, tentando um efeito histriónico ou por simples falta de inspiração, se vai ao pormenor. Quem vai ao pormenor está a brincar com o fogo. Se, por exemplo, eu disser que não gosto de telenovelas hispânicas não há grande problema, porque conheço muitas outras (as portuguesas, as brasileiras e as norte-americanas) e tenho uma opinião formada que me permite concluir que, na verdade, deixei de apreciar o género. Mas se durante o exercício me lembro que não gosto da comida das ilhas britânicas, abre-se logo uma brecha que se alastra por inúmeras ramificações, até se tornar insuportável a noção de que nada sei ainda sobre a comida de inúmeras regiões da Índia, da China, da Tailândia, da Indonésia, do Quénia, da Escandinávia, etc. Por outras palavras, o pormenor só deve ser usado para aquelas áreas sobre as quais temos um conhecimento senão profundo, pelo menos lato. Quem fizer bluff, espatifa-se ao comprido. Remato com os resultados de um exercício típico e aqui vos deixo a lista, que não é perfeita, mas cumpre funções didácticas (o leitor pode tentar elaborar a sua, mas, para evitar acidentes, deve fazê-lo na companhia de amigos):


danças folclóricas, música country, ciências ocultas, desportos motorizados, desportos de Inverno, sociologia, apicultura, astrologia, musicais, café, roupa feminina de Inverno, meias, engenharia agro-alimentar, gestão de empresas, crítica de música pop feita por gente com mais de trinta anos, aeroportos, jogos de cartas, literatura infantil, literatura juvenil, whisky, zoofilia, produtos cosméticos, pullovers em bico, gadgetspara ficheiros MP3, contas, planos-poupança-reforma, cantautores de países que não Portugal, Espanha, Itália, França, as ilhas britânicas, as Américas e 3 ou 4 países de África, quase tudo o que vem da Alemanha e não pode ser traduzido, com excepção de top-models e jogadores de ténis, ragtime, RAP que não seja feito nos EUA e em França, quase tudo o que leva o prefixo neo, quase tudo o que leva o prefixo pós, drogas ilegais e legais com a excepção do álcool, tabaco e charutos, mobiliário que nunca poderei comprar, quase todos os desportos sem bola com excepção da corrida, cartazes de propaganda política nas paredes, quase todos os entrevistados que vão aos programas da Margarida Marante, desportos tipicamente americanos com a excepção do basquetebol, investigações sobre doping mais de 10 anos depois do evento desportivo ter ocorrido, infidelidades que os meus amigos preferem não me contar, blogues dedicados em exclusivo à política ou à poesia, textos sobre as relações amorosas urbanas, livros de auto-motivação, filmes bons em cassete VHS, teatro numa língua que não conheço e sem tradução, ópera sem tradução, discursos de Putin e Kim Jong-il com tradução, música pimba que não honre José Cid, poemas com um rácio de pontos de exclamação por verso superior a 0.2, japonesas a cantar fado, portugueses a cantar bossa nova com sotaque brasileiro, estatutos dos partidos do bloco central, todas as crónicas de Carrilho...

Uma festa

Ao longe vejo Hadjic, amigo sérvio, que se apresenta a toda a gente como "o criminoso de guerra". Um físico de partículas com 2 metros dá claramente a entender que não quer investir na noite e não despirá o pullover. Há um bom par de pernas às 6 horas (estou virado para Oeste). Toca uma música boa. A cada cinco minutos aproximo-me da mesa e corto uma fatia de queijo. Um tipo recentemente desempregado lê um livro a um canto. Outro que ficará desempregado em menos de três meses já vai na sexta Heineken. Duas raparigas enfiam os braços num sofá, à procura do tubo com marijuana que perderam. Há fotografias tiradas pelo dono da casa em todas as paredes. São boas fotografias. O fumo na sala respira-se com uma certa saudade. Uma espanhola, por fim livre do tunisino que ainda a ama, pratica exercícios de sedução com um asiático, que a deseja. Há uma parede vermelha na sala, que no jogo de olhares cumpre a função do gengibre no sushi; limpa a vista e a memória, antes da oftálmica seguinte. O naco de queijo adquire entretanto uma forma que permite vários planos de corte. Hesito. Um palerma de Chicago canta Milton Nascimento ao meu ouvido (mal). Antes dissera a uma amiga minha que ela devia ter sido uma criança lindíssima (daí ser um palerma). Comento a combinação de riscas no colete de um tipo que é claramente homossexual, mas que ainda está em conflito. Corto agora os últimos bocados de queijo, a milímetros da casca. Uma mulher que se fechou na casa-de-banho é surpreendida por outra mulher, que apenas pretende usar o lavatório para vomitar. Ignoro como terminou a interacção. A minha namorada é a miúda mais feliz da festa. Namoramos de cócoras, ao pé da mesa dos queijos, já sem queijo. Perdemos uma hora nessa noite. Sem êxito, procuro nos pulsos alheios um relógio com ponteiros, para poder vê-los a avançar e não ter que lidar com a impressão exclusivamente digital do salto no tempo. Consolo-me nas copas das árvores, lá fora, com os seus rebentos primaveris. Saímos às 6 da manhã (nova hora) e adormeço no táxi, entre três amigos e um paquistanês.

abril 03, 2004

O fardo do egocentrismo

As soluções estão em expansão
Afastam-se de mim, centrifugamente e todas
As direcções possíveis todas
As pontas da rosa os espinhos todos
Os pontos do universo todos
Percorridos menos um...
Era um Copérnico duplo, por favor
Quero descentrar a alma.

abril 02, 2004

Memória ao abandono


Nos últimos dias cuidámos pouco do Memória, por motivos variados (Ivan: a chorar por um desgosto de amor; Difool: a ressacar por causa de um stock marado de metadona; Tulius: à nora com insónias provocadas pelo novo vizinho do 4J, um metaleiro noctívago). Como se não bastasse, a empresa onde alojamos as nossas imagens deve ter falido e fechou as portas sem aviso prévio. Só mesmo quando chegarmos a Lisboa vamos ter tempo de pôr a casa em ordem. Por agora, esgotada a nossa paciência, só podemos mesmo contar com a paciência dos leitores...


abril 01, 2004

A senescência do saramago (actualizado)

First things first (um artigo clarividente e justo de Santos Silva).
Haverá ainda alguma coisa a acrescentar ao que já se escreveu sobre o saramago, a planta comestível e fadada para uma existência modesta, mas que um acidente de conservatória do registo civil projectaria, muitos anos e alguns acasos depois, para a ribalta? Ao longo do seu percurso público, Saramago, o José, foi acumulando o suficiente para se fazer da sua vida um romance escorreito: uma praceta cheia de amigos, outra cheia de inimigos, a aposta numa ideia que falhou, os saneamentos, a censura, a glória (com a praça cheia de oportunistas e um descampado apinhado de invejosos), as contradições, a desilusão, etc. O percurso deste saramago está para as cruxíferas como o deste José está para os homens. É um percurso fora-de-série, pela qualidade da escrita, perseverança, sorte e timing com que a obra apareceu e cresceu.

Com o passar dos anos e, em particular, nos últimos tempos, Saramago transformou-se numa pessoa pesarosa e azeda, com uma dimensão algo trágica; parece que o escritor se algemou e lançou depois as chaves ao rio. Creio que podemos recorrer a uma explicação geral. A principal diferença entre os bons policiais (ou as boas anedotas) e as vidas fora-de-série é o grand finale. Por definição, não há bom policial ou boa anedota sem um fim à altura; inversamente, as grandes existências tendem a ser avessas a um fim condigno. É difícil viver-se o fim da vida evitando a vida já vivida, sobretudo quando essa vida foi tão rica. Há uma segunda explicação para o azedume de Saramago, menos geral: o descalabro do ideal comunista. Saramago, como tantos outros, ficou orfão da ideia que o norteou durante tantos anos. A desorientação era inevitável e manifestou-se com uma série vasta de efeitos secundários. O velho do Restelo mudou-se para Lanzarote. Há, por fim, uma explicação bem particular-o prémio Nobel-, que teve consequências visíveis e perversas na forma como Saramago passou a considerar-se e a ser considerado pelos demais. No primeiro volume da pomposa série "Cadernos de Lanzarote" era já possível ler uns parágrafos que faziam antever o desastre do "efeito Nobel". Neles, Saramago deleita-se com a possibilidade de lhe vir a ser atribuído o prémio. Se uma ambição tão nua pode pode provocar algum incómodo, há também que reconhecer em Saramago uma saudável ausência de falsa modéstia ao pretender o prémio e um comportamento normal (humilde, até) ao aceitá-lo sem caprichos. O problema veio a seguir, com a canonização em vida do escritor. Saramago institucionalizou-se, ganhando em gravidade e saturando de presunção. Ouvir hoje Lobo Antunes a falar é um prazer imenso. Ouvir Saramago é um suplício. É claro que os que nunca tiveram grande paciência para Saramago passaram a desprezá-lo. Não perdem uma oportunidade para discutir se, em vez dele, a lusofonia não devia ter sido premiada na pessoa de Jorge Amado, Lobo Antunes, Virgílio Ferreira ou Philip Roth; nem com uma mesa redonda de comadres se faria pior. Um outro tique, mais baixo, consiste em confundir o homem com o escritor e atacar a obra por tabela. A verdade é que os que dizem mal de Saramago devem ter lido pouco Saramago. Ironicamente, nem sabem a ocasião que perdem para poderem afinfar no escritor e limitam-se às embirrações do costume (o clássico desespero perante a peculiar pontuação, entre outras).
O que Saramago diz dá pano para mangas. Mas devemos deixar os romances do homem em paz. Saramago, de resto, devia ser o primeiro a seguir à risca esta indicação. O precoce e premeditadamente polémico Ensaio sobre a Lucidez está com o andamento todo para se dizer no fim que a montanha pariu um rato, mas por agora não comento (discutir um romance ainda implica a sua leitura prévia, certo?) O que se pode concluir desde já do clima de excitação em torno da ideia de Saramago é que o velhote voltou a ter um momento inspirado. Desenvolver uma ficção a partir de um resultado eleitoral que dá a vitória ao voto em branco tem a marca de Saramago e é uma ideia para o nosso tempo, de resto logo promovida a novo ovo de Colombo. De repente toda a gente veio dizer que já tinha pensado no voto em branco e que até já tinha votado em branco. Enfim, é gente que esquece que ter boas ideias implica reconhecê-las como boas ideias antes dos outros, ou seja, estar disposto a investir nelas. Se tal não fosse necessário, então até o tosco do meu amigo John Difool, que já escreveu sobre o voto em branco, podia começar a pensar em processar Saramago... Veremos como Saramago desenvolveu a trama e se é o escritor da fase que terminou com o Ensaio Sobre a Cegueira ou se, ao invés, é o Saramago nobelizado. O que Saramago pensa ou deixa de pensar sobre a democracia é acessório. Acredito e defendo a democracia, mas considero à partida válido para a própria democracia um livro que a põe em xeque.
Apesar de ter ficado desapontado com a produção recente do escritor, continuo a esperar o melhor dele. Para quem começou a publicar regularmente aos 50 e tal anos, Saramago ainda vai a tempo de um novo fôlego, com um grand finale feito da humildade dos que principiam. Afinal de contas, a senescência de Saramago é infinitamente complexa e só por um novo acaso podia ser comparada à do saramago. Concluo também que quem se apressou a ver neste livro um tique totalitarista irreprimível, fazendo de Saramago um Dr. Strangelove com a saudação nazi finalmente solta, só reitera ódios antigos. Escrevam à vontade, rapazes, mas no dia em que democracia precisar de paladinos ressabiados eu emigrarei para Lanzarote.