Um brilho nos olhos é ainda um brilho nos olhos, mesmo se alimentado a néons, certo? É que do outro brilho nos olhos, o brilho que durou a tarde toda, não sobrou nada. E tinha sido um brilho tão intenso... Um brilho de demente, é certo; uma daquelas expressões de exoftalmia, clinicamente previstas, se esquecermos a nuance do cristalino aguçado. Brilhar agora à custa dos néons, procurando ali o conforto que o crepúsculo não dava, parecia uma forma pouco nobre de acabar o dia. Reparei a seguir no porto-riquenho que limpava o chão com uma daquelas vassouras largas que não varrem, empurram. Julguei ter visto a minha senha perdida no monte de talões que se acumulavam e avançavam como a babugem de uma onda na praia, mas tive vergonha de me ajoelhar para vasculhar no lixo. E os $10 000 lá foram, empurrados pela vassoura. Ou então foi apenas uma impressão. Tinha sido uma tarde de ilusões e aquela podia ser mais uma.
Chegámos cedo. O Thiago repetia-me "We must find a system. If you have a system you can´t lose." O Thiago sempre foi assim, um concentrado de ironia, perfeito a misturar optimismo e fatalismo, que depois serve com fluência verbal desconcertante. Tínhamos encontro marcado com o Sebastian, um matemático. O Thiago continuava, entusiamado: " Juntos temos mais de 10 anos de estudos doutorais... Dois biólogos e um matemático... Nós tratamos de avaliar os cavalos e o Sebastian calcula as probabilidades. Percebes de cavalos, não percebes? Só pode mesmo funcionar. We have a system, my friend. We can´t lose".
Há na manhã uma frescura que facilmente se toma por esperança. O corpo descansado, os cabelos molhados, um hálito fresco restaurado a pasta dentífrica e detalhes acidentais, como o contacto com um corrimão de metal ao sol mas ainda frio, tudo contribui para um estado de optimismo que raras vezes passa do meio-dia. Talvez isso explique que tenhamos subido tão alto, mal ali chegámos. O homem do elevador, que parecia saído de uma história de cinema americano independente com acção num estado difícil de apontar no mapa, levou-nos até ao último andar, sem nunca tirar os olhos de uma revista em que todas as páginas tinham mais de 5 cores. Em rigor, o último andar era uma espécie de dinner em socalcos, com janelas enormes que mostravam a pista oval de terra batida. Comia-se em família ou entre amigos, de fato de treino ou fato apenas. A probição de fumar preservava o ar e os perfumes e fazia do lugar um aquário de água limpa. Nos guichets a aposta mínima de $50 foi motivo para a primeira troca de olhares com o Thiago, em jeito de quem pensa mas não diz: "somos um erro de casting". Um tipo enorme que tresandava a riqueza e crime miúdo passou por nós com ar altivo e quase escondemos as mochilas, envergonhados. Foi então que percebemos que tínhamos subido demasiado alto e resolvemos descer um andar, para logo concluir que ainda estávamos a pairar. Após termos repetido este exercício mais umas duas ou três vezes, chegámos ao piso térreo e então sim, a aposta mínima de $5 fez-nos sentir (como direi?) em casa. O ambiente mudara. Escasseavam os brancos e os que havia tinham mau aspecto. Pretos, hispânicos, white trash e nós, tecnicamente entre o hispânico e o white white trash, da etnia ao paycheck. Deambulámos por ali. O lugar tinha o encanto de um oásis de pecado. A higienização da vida nocturna de Nova Iorque trouxe a qualquer ida à Europa a excitação do adolescente que se estreia num bordel, mas a verdade é que ali, a uma hora de comboio de Manhattan, fumava-se e bebia-se a sério, dentro de portas e ao ar livre. Tínhamos álcool, fumo, jogo e só faltavam as mulheres. Corrijo: Sebastian irrompeu da multidão cheio de mulheres, mas era um daqueles grupos impenetráveis como uma formação tartaruga de legionários romanos. Todos se conheciam há muitos anos, falavam com os seus códigos, vinham aos pares ou faziam referências constantes a amigos e namorados ausentes. Muito ao seu estilo, o Thiago apressou-se a resumir a situação: "prefiro perder meu dinheiro nos cavalos". Para efeitos práticos, Thiago referia-se ao meu dinheiro. Apercebendo-me do estado de desolação financeira da carteira dele, propusera-lhe, já imbuído do espírito de jogador, dar-lhe $60 na condição de ter direito a metade dos eventuais lucros que ele viesse a ter. O dinheiro serve para estas coisas e ser estúpido mas magnânimo é uma condição que prezo. Escusado será dizer que o Thiago não hesitou, soltando um "Oba!" como se ainda vivesse no Rio. Bebemos, bebemos e depois consultámos as tabelas com todas as estatísticas e o histórico dos cavalos naquela e noutras pistas. Após cinco minutos de consulta, resolvi apostar na intuição, por uma questão de preguiça. O Sebastian e Thiago fizeram o mesmo, mas todos desenvolvemos tácticas diferentes (a hipótese da sinergia morreu antes da primeira aposta). A minha táctica consistia em apostar em dois cavalos do meio da tabela. O Sebastian, com a Argentina em chagas, apostava em jockeys com nomes hispânicos. E o Thiago, eternamente deslumbrado, apostava no cavalo com o nome mais inspirador (no universo dele, qualquer lista de nomes de cavalos por ordem decrescente de poder de sugestão começa em Elvis e acaba em Reagan. Ronald Reagan). O empregado do guichet topou que éramos estreantes naquelas andanças, mesmo depois de eu ter praticado a frase com que compraria as minhas apostas (na prática, a ideia é transmitir a informação da forma mais condensada que se consiga; qualquer palavra a mais denuncia o novato). Voltámos para perto da pista, ao ar livre e esperámos pelo toque da partida... (continua)
Estive hoje ao telefone com um amigo que se mudou para Roma. Este moço é compositor e anda agora a escrever uma Ópera. Seria deselegante revelar aqui pormenores sobre o projecto mas lembro-me perfeitamente de, há uns 5 anos, ele ter partilhado comigo a sua ideia. Foi numa tarde solarenga, em Paris, enquanto carregávamos mobília pelas escadas, até umas águas furtadas no sexto andar de um prédio perto de Saint Michel. Estávamos ofegantes, desidratados, cobertos de pó e com as mãos cheias de vincos, mas à custa do entusiasmo dele sentámo-nos numa cómoda, para que ele pudesse falar e eu pudesse ouvir. Por vários motivos, alheios à nossa vontade ou nem por isso, houve uma altura em que não passavam 3 ou 4 meses sem que um de nós não mudasse de casa. Transportar mobília tornou-se assim quase um ritual e é hoje uma referência aos anos de Paris bem mais impressiva que o acordeão. Bastam algumas horas de conversa para que nos lembremos da Amaral & Barreto, démenageurs, com a cumplidade e bonomia de quem, à falta de uma tatuagem ou de um brinco para celebrar uma amizade, sabe que partilha a origem da escoliose que hoje nos martiriza. Esperando que este episódio anedótico sirva para cortar a gravidade do remate que se segue, atalho já para dizer que na conversa de hoje, para lá da voz do interlocutor vir de Roma, apreciei a manifestação de uma tranquila persistência, em quem sabe que as ideias mais grandiloquentes evoluem naturalmente para desafios concretizáveis. Conheço cada vez menos pessoas assim, mas na verdade basta conhecer apenas uma.
A gripe perdeu todo o encanto que tinha. De pouco valem as torradas e o chá que, de resto, já não existem. Quando havia todo o tempo, ter gripe era uma forma de adiar a vida. Um gajo era puto e não o sabia, mas estava a abrir um parêntesis que só fechava quando voltava aos 37° C. Não nos pediam nada, apenas que ficássemos bons. Eram uns dias em que o tecto branco do quarto se transformava numa tela para inúmeros rascunhos de metafísica; os calhamaços das colecções de banda-desenhada eram vistos e revistos até ao rebentar das lombadas; achava-se graça a fazer dos lençóis e cobertores a lona de uma tenda. Acima de tudo, o estado febril não induzia a menor irritação, nem suscitava grandes críticas. Vinte e cinco anos depois, mudou tudo. O tecto do quarto ainda é branco, mas só consigo reparar na fraca qualidade do trabalho de pintura; não consigo ler, porque me dói o olho esquerdo ou então dói-me a cabeça; um édrodon é um edredão e não se fala mais nisso. Quero trabalhar, mas como não posso começo logo a ver os prazos limite através de uma tele-objectiva. Perco os dias a arrefecer em banhos de chuveiro com água a escaldar, para depois ir dos 37°C aos 39ºC nas meias horas que gasto a ver televisão (mais três dias nisto e tornou-me fã de uma telenovela americana). Como se não bastasse, ainda tenho que fingir algum fairplay quando fazem pouco do meu sistema imunitário. É a mesma gente que me deseja as melhoras, deixando sempre a impressão de que me criticam por ter adoecido. E assim, dominado pela lógica do paciente (refém de alguma paranóia e inveja, reconheço), mente cínica em corpo são faz muito mais sentido, como expressão, do que a versão que se popularizou, que me parece tão falsa como um slogan de campanha eleitoral...

Houve uma altura em que alguém me passou de novo os binóculos e, daquela vez, por puro engano, espreitei por eles ao contrário. Se disser que parecia que a luz andava para trás, ninguém vai acreditar, mas era como se espreitasse através de um caleidoscópio e presenciasse um festival de luz insuspeitado. Como poderia não prolongar aquele momento? Ouvi toda a canção com os binóculos invertidos. O já franzino Caetano, lá ao fundo, a uns bons 80 metros de distância, reduziu-se então a uma insignificância microscópica e tornou-se, todo ele, literalmente canto. De uma estranha forma, os binóculos ajudaram-me uma vez mais a ver melhor.
É preciso lembrar que o palco do Carnegie Hall faz lembrar o salão de festas de um palácio neoclássico depois da visita de uma quadrilha da ladrões. As paredes têm um ar desolador e austero; pedem quadros com moldura de talha dourada e dão-se mal com o Tropicalismo. Esclareço também que o fundo de paciência que reservo para tudo o que o Caetano Veloso diz apresenta um saldo negativo há já uns anos. Para mim, como para tantos outros, o cantor sofre de excesso de opinião. Registe-se ainda o péssimo trabalho de luminotecnia. Das duas uma, ou o técnico de luzes era incompente ou vinha do Midwest e treslera o comentário aparentemente elogioso de Caetano à aparência de Bin Laden. Para rematar, a mania que Caetano tem de cantar em inglês é algo que apenas tolero. Trata-se de mais uma manifestação do Zelig que há em Caetano; não é que ele cante mal em inglês, mas aborrece vê-lo reduzido a um irrrepreensível cantor do circuito dos bares, sabendo que aquela voz é absolutamente genial noutras línguas. Impunha-se dizer tudo isto, porque o que se segue é puro elogio.
Ao contrário de quase todos os meus amigos, cheguei tarde à MPB. Aos quinze anos ouvia Iron Maiden e seria capaz de perguntar, convictamente: “quem é o Bossa Nova?” Comecei depois a estudar guitarra. A ideia inicial- tornar-me um
guitar hero- não tardou enredar-se na lentidão dos meus dedos e fiquei nas covas, a decifrar partituras obscuras. Uns anos depois, o agora respeitado compositor de música contemporânea João Madureira, que então alinhava comigo num coro, propôs dar-me aulas de “composição”. O método do João era pouco ortodoxo, mas muito interessante (não produziu grandes resultados porque eu era um cábula). Em vez de usarmos o material do costume (corais de Bach e coisas desse estilo), escolhíamos standards da bossa nova e da MPB. A primeira música harmonicamente esmiuçada tinha um nome assustadoramente profético: Insensatez. Insensatos ou não, a verdade é que há naquele material pano para mangas e o João, que aliava já um conhecimento teórico muito sólido à mestria com que sacava de ouvido as malhas de João gilberto, perdia-se em explicações enquanto me abria os ouvidos para a música do Brasil. Meses depois, terminado aquele efémero período de formação, resolvi dar descanso ao tema Travessia, de Milton Nascimento, e, sem o saber, encontrei uma canção perfeita: Coração Vagabundo, de Caetano Veloso. Esta é, para mim, uma canção insuperável, objectiva e intrinsecamente perfeita. Persiste na memória sem o insidioso legado da adolescência que nos transforma em cães de Pavlov. Longe de tudo isso, o meu Coração Vagabundo não se compromete com lembranças de namoradas, do tal slow, do tal beijo, do tal fim de semana ou de qualquer outro acontecimento relevante. Em suma, não faz de marco biográfico. Ali está, sempre presente e a chamar por mim quando há uma guitarra por perto, para me lembrar que não há uma sílaba a mais e que o seu ritmo é uma prisão sem grades... (continua)
Os mais atentos lembrar-se-ão do meu paupérrimo currículo de observador de celebridades em circunstâncias acidentais. Em mais de dois anos a viver numa cidade farta em gente famosa, David Byrne era a única celebridade que eu tinha visto até há umas horas atrás. Cruzei-me hoje com a segunda presa. Infelizmente, não era nenhuma top-model, mas sim o maestro James Levine, irrepreensivelmente desgrenhado e algo ofegante, no cruzamento da rua 63 com a Avenida Madison. Continuo sem perceber como é que todos os amigos que me visitam conseguem ver tanta gente conhecida em apenas uma semana. Chegam a casa excitadíssimos e eu lá tenho que camuflar um misto de inveja, estupefacção e aborrecimento, quando me falam (e os exemplos são factuais) que viram o Cruise, o Rushdie, o Anan, o Cage, o Bowie, o Freitas do Amaral, a Sarandon, o Robbins, os Coen, as Arquette, etc... Quando tinha a mania que gostava de ornitologia acontecia a mesma coisa. Concluo que um tipo fraco a ver pássaros também não se safa com passarões.
Natfalina pelo ar e novas colecções, magnólias em flor, peitos desabrochados, mamilos espetados, bebedeiras de T-shirt, janelas escancaradas, tardes lentas, sombras longas, bronzeados de solário reabilitados, pôr do sol às tabelinhas pelas ruas, pé de atleta na relva virgem do Parque com atletas, tatuagens no lombo e nos tornozelos, rabos de cavalo e mini-saias sem brisa, umbigos que brilham, barrigas contra-naturalmente chatas, gajos ricos ainda mais ricos e até à pele, gajos pobres ainda mais pobres até à ponta dos cabelos, coisas artificialmente frescas, fruta enterrada no gelo, pernas longas dos calcanhares à contra-luz, barulho de insectos, smoking ao lusco-fusco com o olhar perdido num whisky aguado, avenidas ensombradas, respiração ofegante depois de uma corrida, respiração ofegante, respiração, respingo de fonte, pingo de suor a deslizar pelas costelas sem nervoso miudinho...
Impõe-se uma pequena correcção ao post "Aquele abraço..." Recebi o Isaiah e o Prado Coelho, mas o romance de Saramago foi enriquecer o mercado negro de Newark ou a estante de algum lusófono. Mantenho o abraço à TAP e o slogan fatela. Acho até alguma graça ao sucedido, por vários motivos. Em primeiro lugar, não se tratou de um roubo ou de um furto. É também de louvar a complexidade ética deste patife (é mais interessante admitir que o palmanço e a devolução dos outros dois livros foram acções de uma só pessoa); terá havido algum conflito interno ou estaremos na presença de um intransigente ateu comunista (os livros devolvidos são sobre a fé e o liberalismo)? Por fim, não andava com vontade nenhuma de ler o Saramago...
Há anos que me debato com o vício terrível de semear livros pelo mundo. A única forma possível de sublimação é esquecer o involuntarismo de tal prática, para poder concluir que, objectivamente, o bookcrossing começou comigo. Mas o consolo que daí retiro é fraco, sobretudo quando o livro que perco é o que estou a ler. No último voo Lisboa-Nova Iorque bati o meu record pessoal. De uma assentada, perdi um Saramago, um Prado Coelho e um Isaiah Berlin. Quando já estava conformado com a perda daquele trio bizarro, recebo uma mensagem electrónica de um funcionário da TAP. Por um acaso, tinha deixado o meu endereço electrónico num dos livros. O funcionário da TAP prontificou-se a enviar os livros pelo correio, sem custos adicionais para mim. Não sei se esta é uma prática comum, mas aqui fica um abraço e um slogan fatela: "eu voo TAP. E você, como vai?"
O inventário das coisas boas é extenso, mas depois de censurado para efeitos de prevenção de lamechice ficou bem curto. Aqui fica (a ordem é aleatória):
1. Secretos de porco;
2. Queijo alentejano;
3. Mar algarvio a entrar por uma varanda alta;
4. Seis abelharucos que brincavam junto da ribeira do Cotovio (Alentejo);
5. A população de cegonhas do Baixo-Alentejo;
6. Pôr-do-Sol visto da Via do Infante (perto de Boliqueime);
7. Um quintal na Mouraria, tipo enclave.
Uma cidade rica em regueirões permite-me a perspectiva de planta sobre um grupo de toxicodependentes que se injectam com heroína a céu aberto, nos Anjos. Horas depois, laços familiares multiplicados por laços de amizade atiram-me para o banco traseiro de um Rolls-Royce, e aí faço da flying lady a mira com que aponto às coisas que desfilam.
Houve um tempo em que tinha uma casa. Os regressos e as partidas sucediam-se com uma naturalidade de estação ferroviária. Houve depois um tempo em que tinha duas casas e o regresso e a partida começaram a ser postos na balança, tentando ver qual pesava mais em importância. A solução chegava quando estava muitos metros acima do solo, numa posição razoavelmente equidistante das duas portas. Mas era uma solução que não resolvia a tensão, apenas dava uma primazia precária a um dos sentimentos. Veio depois um tempo em que me fartei da balança. É este tempo. Com uma dose de estilo (senão bom, pelo menos eficaz), conclui que a minha casa é uma coisa única, mas fluida. Não a levo às costas, como o caracol (às costas costumo levar uma mochila da Adidas). Não a reconstruo cada vez que resolvo parar, como o nómada. A minha casa é o lugar onde precisam de mim e onde me sinto bem. Esta definição, pouco surpreendente e até aborrecida, é a única que faz sentido. Traz-me também alguma paz, sempre que viajo. Desapareceram a melancolia e a excitação com que me debatia enquanto voava. Consigo harmonizar dois sentimentos contraditórios, sem os converter em apatia. Na verdade, não se trata de harmonizar mas antes de tamponizar (no sentido químico do termo, mas sem químicos). Agora, uma partida e uma chegada somam sempre dois regressos.
O peso de saber que há infinitas coisas que nos passarão ao lado equilibra-se com a leveza experimentada no momento em que algumas dessas coisas se revelam. O fiel da balança não se mexe. Porém, a balança afunda-se. Digamos que se trata de uma inevitabilidade física. Como abrandar o afundamento? Sugiro um truque, que só não ponho em prática mais vezes porque sou preguiçoso e optimista: inumerar o que nunca nos interessou ou poderá vir a interessar. Os dois melhores locais para pôr em prática tal exercício são o centro comercial e a sala de estar com a televisão ligada, uma poltrona, um telecomando e pelo menos 40 canais. Livrarias vastas, como uma Barnes and Noble, a Strands ou uma FNAC também servem, sobretudo para quem julga intelectualmente ofensivos os dois outros recintos. No centro comercial é importante olhar para todas as montras e entrar em todas as lojas. De igual modo, diante da televisão, todos os canais são inspeccionados e nada pode ser desprezado antes de se responder à pergunta discriminatória: será que isto me interessa? A previsão é que quase nada nos interessa verdadeiramente. Mas o exercício deve ser repetido, a horas diferentes do dia, em todas as estações e cobrindo várias geografias e culturas, para frisar que quase nada verdadeiramente nos interessa. Ficar com a impressão de que quase nada verdadeiramente nos interessa é crucial, porque não há lógica nenhuma nesta prática. O exercício é, note-se bem, absolutamente ilógico; equivale a querer chegar ao infinito a contar os dedos das mãos, ter noção do problema e concluir que tudo se resolve assegurando uma fonte inesgotável de mãos. No fundo, com esta prática apenas se valoriza o que sabemos que nos interessa. Mas mesmo este exercício, formalmente estúpido, deve obedecer a algumas regras. O problema mais frequente surge quando, tentando um efeito histriónico ou por simples falta de inspiração, se vai ao pormenor. Quem vai ao pormenor está a brincar com o fogo. Se, por exemplo, eu disser que não gosto de telenovelas hispânicas não há grande problema, porque conheço muitas outras (as portuguesas, as brasileiras e as norte-americanas) e tenho uma opinião formada que me permite concluir que, na verdade, deixei de apreciar o género. Mas se durante o exercício me lembro que não gosto da comida das ilhas britânicas, abre-se logo uma brecha que se alastra por inúmeras ramificações, até se tornar insuportável a noção de que nada sei ainda sobre a comida de inúmeras regiões da Índia, da China, da Tailândia, da Indonésia, do Quénia, da Escandinávia, etc. Por outras palavras, o pormenor só deve ser usado para aquelas áreas sobre as quais temos um conhecimento senão profundo, pelo menos lato. Quem fizer bluff, espatifa-se ao comprido. Remato com os resultados de um exercício típico e aqui vos deixo a lista, que não é perfeita, mas cumpre funções didácticas (o leitor pode tentar elaborar a sua, mas, para evitar acidentes, deve fazê-lo na companhia de amigos):
danças folclóricas, música country, ciências ocultas, desportos motorizados, desportos de Inverno, sociologia, apicultura, astrologia, musicais, café, roupa feminina de Inverno, meias, engenharia agro-alimentar, gestão de empresas, crítica de música pop feita por gente com mais de trinta anos, aeroportos, jogos de cartas, literatura infantil, literatura juvenil, whisky, zoofilia, produtos cosméticos, pullovers em bico, gadgetspara ficheiros MP3, contas, planos-poupança-reforma, cantautores de países que não Portugal, Espanha, Itália, França, as ilhas britânicas, as Américas e 3 ou 4 países de África, quase tudo o que vem da Alemanha e não pode ser traduzido, com excepção de top-models e jogadores de ténis, ragtime, RAP que não seja feito nos EUA e em França, quase tudo o que leva o prefixo neo, quase tudo o que leva o prefixo pós, drogas ilegais e legais com a excepção do álcool, tabaco e charutos, mobiliário que nunca poderei comprar, quase todos os desportos sem bola com excepção da corrida, cartazes de propaganda política nas paredes, quase todos os entrevistados que vão aos programas da Margarida Marante, desportos tipicamente americanos com a excepção do basquetebol, investigações sobre doping mais de 10 anos depois do evento desportivo ter ocorrido, infidelidades que os meus amigos preferem não me contar, blogues dedicados em exclusivo à política ou à poesia, textos sobre as relações amorosas urbanas, livros de auto-motivação, filmes bons em cassete VHS, teatro numa língua que não conheço e sem tradução, ópera sem tradução, discursos de Putin e Kim Jong-il com tradução, música pimba que não honre José Cid, poemas com um rácio de pontos de exclamação por verso superior a 0.2, japonesas a cantar fado, portugueses a cantar bossa nova com sotaque brasileiro, estatutos dos partidos do bloco central, todas as crónicas de Carrilho...
Ao longe vejo Hadjic, amigo sérvio, que se apresenta a toda a gente como "o criminoso de guerra". Um físico de partículas com 2 metros dá claramente a entender que não quer investir na noite e não despirá o pullover. Há um bom par de pernas às 6 horas (estou virado para Oeste). Toca uma música boa. A cada cinco minutos aproximo-me da mesa e corto uma fatia de queijo. Um tipo recentemente desempregado lê um livro a um canto. Outro que ficará desempregado em menos de três meses já vai na sexta Heineken. Duas raparigas enfiam os braços num sofá, à procura do tubo com marijuana que perderam. Há fotografias tiradas pelo dono da casa em todas as paredes. São boas fotografias. O fumo na sala respira-se com uma certa saudade. Uma espanhola, por fim livre do tunisino que ainda a ama, pratica exercícios de sedução com um asiático, que a deseja. Há uma parede vermelha na sala, que no jogo de olhares cumpre a função do gengibre no sushi; limpa a vista e a memória, antes da oftálmica seguinte. O naco de queijo adquire entretanto uma forma que permite vários planos de corte. Hesito. Um palerma de Chicago canta Milton Nascimento ao meu ouvido (mal). Antes dissera a uma amiga minha que ela devia ter sido uma criança lindíssima (daí ser um palerma). Comento a combinação de riscas no colete de um tipo que é claramente homossexual, mas que ainda está em conflito. Corto agora os últimos bocados de queijo, a milímetros da casca. Uma mulher que se fechou na casa-de-banho é surpreendida por outra mulher, que apenas pretende usar o lavatório para vomitar. Ignoro como terminou a interacção. A minha namorada é a miúda mais feliz da festa. Namoramos de cócoras, ao pé da mesa dos queijos, já sem queijo. Perdemos uma hora nessa noite. Sem êxito, procuro nos pulsos alheios um relógio com ponteiros, para poder vê-los a avançar e não ter que lidar com a impressão exclusivamente digital do salto no tempo. Consolo-me nas copas das árvores, lá fora, com os seus rebentos primaveris. Saímos às 6 da manhã (nova hora) e adormeço no táxi, entre três amigos e um paquistanês.
As soluções estão em expansão
Afastam-se de mim, centrifugamente e todas
As direcções possíveis todas
As pontas da rosa os espinhos todos
Os pontos do universo todos
Percorridos menos um...
Era um Copérnico duplo, por favor
Quero descentrar a alma.
First things first (um artigo clarividente e justo de Santos Silva).
Haverá ainda alguma coisa a acrescentar ao que já se escreveu sobre o saramago, a planta comestível e fadada para uma existência modesta, mas que um acidente de conservatória do registo civil projectaria, muitos anos e alguns acasos depois, para a ribalta? Ao longo do seu percurso público, Saramago, o José, foi acumulando o suficiente para se fazer da sua vida um romance escorreito: uma praceta cheia de amigos, outra cheia de inimigos, a aposta numa ideia que falhou, os saneamentos, a censura, a glória (com a praça cheia de oportunistas e um descampado apinhado de invejosos), as contradições, a desilusão, etc. O percurso deste saramago está para as cruxíferas como o deste José está para os homens. É um percurso fora-de-série, pela qualidade da escrita, perseverança, sorte e timing com que a obra apareceu e cresceu.