março 30, 2004

Cromos: Tai Chi Chuan às 7 da manhã

Como resolver o caos acústico de uma cidade em hora de ponta? A solução mais radical é, obviamente, o feriado. De entre as soluções de compromisso, destaca-se a janela de vidro duplo, tão eficaz como vazia de poesia. Não se deve por isso estranhar que fique a pensar muitas vezes em paisagens com neve. Gostaria de acreditar que uma paisagem com neve tem propriedades acústicas distintas das da mesma paisagem, sem neve. A neve, como o cartão das caixas de ovos coladas nas paredes de um estúdio de amador, seria capaz de acamar os sons. Assim se explicaria a sensação de paz que tenho quando, ao acordar, descubro a cidade coberta de branco. Sucede que a poesia de tais paisagens é uma ilusão fraudulenta, que só sobrevive porque preferi esquecer a interdição ou, no mínimo, o abrandamento do trânsito que geralmente vem com os nevões. E é um vício pouco indiossincrático, isto de querer decidir sobre a beleza das coisas. Felizmente, pelo menos no que toca à acústica das horas de ponta, tal problema de consciência resolveu-se nos últimos dias. Com alívio e orgulho, declaro ter encontrado uma solução que conjuga honestamente a eficácia do vidro-duplo com a poesia da paisagem nevada: um casal de idosos chineses fazendo Tai Chi Chuan às sete da manhã. (já volto)

março 28, 2004

Manhattan ao preço da uva mijona


O primeiro a enviar-me o texto do Luíz Pacheco na Pública tem direito a alojamento durante três dias num bairro aprazível e bem frequentado de Manhattan (o prémio não inclui o bilhete de avião). A propósito, só pensa que eu estou a brincar quem não me conhece.

A PAIXÃO, segundo MARADONA


O nosso maradona está de volta, o que começa a deixar de ser novidade, para fazer parte da rotina. Aliás, se os fiéis do A Causa foi Modificada fundarem uma religião, converto-me logo. O diego ressuscita tantas vezes que já assegurou a expansão do maradonismo. Quem se pode dar ao luxo de renegar uma religião que nos daria um feriado a cada dois dias?

À atenção das Produções Fictícias


O dia de hoje marca o nascimento de um novo talento. Sobejamente conhecido dos números de stand up comedy para plateias seleccionadas, o homem revela-se agora como escritor de vanguarda, capaz até de remates poéticos. O resultado final é hilariante. Se o presidente da República escrevesse todos os discursos que lê, saberia em quem votar. Infelizmente, as regras são outras. Pelo menos temos guionista, o que não é fraco consolo. Afinal, assistir ao desabrochar tardio de uma vocação é sempre enternecedor.

Fitar a noite

Uma cobra branca e outra vermelha, animadas a gasolina
Atrás delas o East River, escuridão animada pela brisa
A seguir, as constelações dos T1 e T2, animados a televisão
E ao fundo só a noite, ainda mais noite
Onde dormem os meus, num ânimo onírico, sem bússola
Sem instrumentos de navegação espalhados sobre a mesa
Como acertar na direcção que leva ao rosto de minha mãe?
Como esperar que se não percam as palavras gritadas?
Palavras que sussurro ao telefone e o diafragma peneira
Daqui não sei a que aponto, se a Estrasburgo ou a Milão
E o erro de um grau apenas chega à Europa agigantado
Em desvio para um par de horas de comboio
Como vencer o ventos, as vagas, o apito dos cargueiros?
Como vencer a dispersão?
O oceano Atlântico é a minha desculpa preferida
Banho-me em desculpas, literalmente
E de bruços penso nas sugestões impossíveis
(O consolo de infiéis, ingratos e cobardes)
Não seria bom fazermos do meridiano mais próximo
Uma linha de metro, direcção Norte?
Marcar encontro diário na coordenada zero
Só porque é fácil de memorizar e, lateralmente
Se aproximam as longitudes?
Truques, truques e mais truques, eu sei
Fito a noite como quem finta os dias
E as palavras continuam a crescer cá dentro
Com a paciência das estalactites
Não chegando a sair, modulam o discurso
Com noções de acústica e rudimentos de espeleologia
Ficaria tudo mais fácil, se por momentos esquecesse
A falta que sinto dos teus olhos.

março 26, 2004

Egocentrismo lato*


Lentamente a minha geração começa a chegar ao poder. Dominam já as secretarias de estado e nas redacções deixaram de escrever apenas sobre os temas dos jovens (a música pop e o sexo). Creio estar a assistir à inversão de papéis que é propria das biografias normais: ser filho e chegar a pai, ser aluno e chegar a professor, ser de esquerda e chegar a reaccionário, etc. A diferença é que este processo não ocorre comigo, mas com a minha geração. Para todos os efeitos práticos (se esquecermos o IRS), continuo a ser um adolescente, com as preocupações dos adolescentes, cristalizadas numa: o que quero ser na vida. Tudo o resto, que inclui uma aparente sofisticação (um adolescente normal não se interessa pelos tintos Rioja, por exemplo), é acessório. Confesso que me agrada esta posição de espectador. É um privilégio assistir ao crescimento da minha geração, na ilusão de que não cresço com eles. Aqui, "geração" define-se como um grupo de gente que assistiu aos mesmos desenhos animados na infância. Segundo esta definição, pertenço à "geração Vasco Granja" (qualquer tipo da minha idade que tenha crescido em Portugal é um especialista em desenhos animados polacos, checoslovacos e húngaros). Cada geração usa questões vagamente crípticas, do género "lembras-te do Filipe, o gafanhoto?", como quem pede uma senha. Mas há outra prova, mais subtil. É quase sempre acidental, e por isso mesmo ainda mais agradável. Ocorre, por exemplo, quando lemos um determinado texto, escrito por alguém que não conhecemos, mas que nos soa desconcertadoramente familiar. Não me refiro a textos que abordam temas sobre os quais já reflectimos da mesma forma ou em que reconhecemos as nossas próprias emoções. A sintonia racional e a emotiva são irrelevantes para definir uma geração. É quando a identificação com o texto ocorre no plano das impressões que reconheço a pertença a um mesmo grupo. É esse o maior prazer que retiro das provas de maioridade da minha geração. Porque agora é frequente deparar com textos como este. Sem pretender desconsiderar o talento do Pedro Mexia, por que motivo gostei tanto da sua prosa? Porque é um texto sobre o meu tempo e o modo como o vivi.

* post perdido e restaurado de memória.


março 24, 2004

Sozinho em casa


"Sozinho em casa", título de um péssimo filme e de um péssimo livro, cumpre a sua evolução natural, chegando a título de um péssimo post. Tudo isto para dizer que nos próximos dias não poderei prever as manifestações bloguísticas de tão radical mudança de hábitos domésticos. Acrescento ainda que as fãs do Memória escusam de alimentar esperanças vãs. A patroa regressa na Segunda.

Post verdadeira e comprovadamente fora do prazo


Se a blogosfera aguenta até quem se "republica", onde está a crise? Pois é, parece que há um gajo que disse que a blogosfera está em crise. Mas quem é esse gajo? Qual o seu paradeiro? Quando foi visto pela última vez, o que vestia? Será que os hospícios têm os arquivos informatizados?

Posts verdadeira e comprovadamente excepcionais


Mais um post que merece ser salvo. E o gajo que disse que a blogosfera está em crise? Poderá ainda ser salvo?

Posts verdadeira e comprovadamente excepcionais


Há posts que se destacam e devem ser salvos. Este é um deles. Já vos falei do tipo que acha que a blogosfera está em crise?

Fora d´órbita


Estejamos atentos à mais recente sinergia bloguística de pesos-pesados. Fora do Mundo junta a arte de Pedro Mexia, a acutilância de Francisco José Viegas e a pontuação de Pedro Lomba. A blogosfera está em crise? Quem o diz também deve achar que a retoma económica já se começa a sentir...

março 22, 2004

Lx

Suburbano fui, tardiamente resgatado
Ficou-me para sempre aquele defeito de paralaxe
O fascínio pelas ruas velhas e o jeito acrítico
De olhar os caixotes de lixo derrubados, assim poeticamente
Gosto das cidades porque é possível amá-las em paz
Partilhar, sem a presunção da generosidade
Uma cidade desfruta-se em orgia, está visto
E dispensa cartas, remorsos, a sogra e os planos de biografia conjunta
São dois braços mágicos: eternamente disponíveis, logo me abraçam
Quem se atreve a recusar um amor irresponsável ?
Talvez a gente do campo...

Equilíbrio precário


As discussões sobre o conflito israelo-palestiniano têm lugar numa plataforma que assenta num fulcro finíssimo. Se um qualquer incidente perturba a situação de equilíbrio (um bombista suicida ou um ataque israelita que não poupa vítimas civis), a plataforma começa a oscilar, primeiro devagar (ainda num tom respeituoso e tolerante), para não tardar a desafiar todas as leis da física, que não contam clivagens políticas e assuntos mal resolvidos como formas de energia. Só mais tarde a coisa abranda, como que respeitando a desaceleração do pêndulo posto a oscilar e deixado por conta das forças de atrito. O novo equilíbrio é outra vez precário, mas distingue-se do anterior porque entretanto acumulou potencial de discórdia. Se isto é válido para quem se pode dar ao luxo de apenas discutir o problema, é difícil prever o que se passará para quem anda a sofrer na pele e a ver os seus morrerem por causa de tamanha loucura continuada... É claro que agora vão-me lembrar que podia ter escrito isto depois de um atentado perpetrado por um suicida palestiniano e que, não o tendo feito, é clara a minha posição... E eu depois vou dizer que... ( E cinco interacções depois estamos à batatada). É o costume. Sem grande esperança ou ambição, limito-me a perguntar: podemos ao menos estar de acordo sobre a parvoíce política que foi assassinar este assassino?

março 21, 2004

O Memória recusa a globalização mas mundaniza-se...



março 20, 2004


Pai: questão que eu tenho comigo mesmo...

João Carlos Espada, mon amour

Pequeno era, e com o meu spitfire brincava
Dos mil nazis tombados ao som da metralha
Nem um agora me apoquenta, que bem estava
Hoje não mato por dá cá aquela palha
Repara, João, não é tanto uma questão
De consciência, evasão, geo-política
É que à motivação prefiro a munição
Não topar isto é coisa bem paleolítica
O perdigoto não mata, mas muito engorda
O Ego forjado na chamberlainofobia
Não seria melhor dedicares-te à poda
Ou ao “Churchill, Churchill, Chur...” como uma litania?
Chill out, meu, não desembaínhes o apelido
Podes cortar o dedo e o tétano é fodido
Antes quero ser filho e neto de uma puta,
A alinhar contigo e com os teus nessa luta.

março 19, 2004

Patrão de mar


Parabéns, Contra a Corrente! Sejamos claros: o MacGuffin não vai sempre contra a corrente, mas não é homem de se deixar levar por correntezas. Pratica uma navegação de estuário, que vai num sentido apenas; às vezes com a boleia da enchente, outras vezes contra a vazante. Se isto não merece um aplauso, então eu nunca soube fazer um lás-de-guia...

março 18, 2004

O xadrez dos egos


Poucos não terão notado o mais recente namoro impresso, o de EPC por Pedro Mexia (a correspondência não é forçosamente biunívoca). Nos últimos tempos, EPC tem vindo a inflacionar o peso de Pedro Mexia como fazedor de opiniões na cena política. Como explicar este fenómeno? Hipótese 1: o talento de Mexia. Enfim, ainda não percebi o que fará com que Mexia se destaque de tantos outros conservadores (romântico-monárquicos) adeptos da política de Bush. Será que o pioneirismo da Coluna Infame ainda está a dar dividendos? Duvido. Hipótese 2: transferência da admiração de EPC pelo Mexia poeta para o domínio do comentário político. Improvável. Há inúmeros exemplos em EPC de divisão estanque entre a admiração literária e a incompatibilidade política. Hipótese 3: maquiavelismo de EPC com vista a secar João Pereira Coutinho. Esta agrada-me. Tem o encanto da intriga e, a ser verdadeira, só vem dar crédito à tese de que entre os cronistas a história de interacções passadas, rica em ódios e tensões, está sempre presente, ainda que camuflada sob o manto da objectividade. Quem se lixa é o leitor menos avisado. Os outros, divertem-se. Recordemos pois que há algum tempo atrás houve uns desacatos na imprensa entre EPC e JPC, coisa que nunca ficou bem resolvida, a menos que algum deles tenha pago um jantar ao outro, o que duvido. Ora, sendo JPC a fulgurante e única estrela ascendente (já chegou ao firmamento, de resto) entre os jovens intelectuais de direita, não estará EPC a dar uma ajuda a Mexia, para que a nova constelação não fique dominada por quem, visivelmente, o detesta? A zanga entre Mexia e JPC só vem credibilizar ainda mais esta hipótese. Pronto, calo-me já, mas um país que anda há dez anos a aturar as teorias conspiratórias do Marcelo Rebelo de Sousa também pode lidar com este meu veneno, não pode? Digamos que "Tulius Detritus", o nome, está em rodagem...

Eu sobrevivi ao 11-S (mas não dou autógrafos)


Não custou nada. De resto, segui tudo pela televisão. As torres estavam longe, a cerca de 10 km. À noite fui ajudar quem estava a ajudar os que ajudavam os bombeiros. E no dia seguinte voltei ao trabalho. Pensei nas vítimas. Creio que houve uma altura em que chorei. E andei meio baralhado durante uns dias. Mas cuidei sempre da higiene pessoal. Tive sorte.
Não mudei a minha rotina em nada. Apenas evitei passar pelos escombros. O palerma que rege os destinos do mundo fez apelos ao consumo: "gastem o vosso dinheiro!". No fundo, ele estava a dizer aos americanos para viverem como sempre viveram.
Os políticos devem dizer certas coisas nestas alturas. E os directores dos jornais também. Mas o importante agora é não mudarmos em nada a nossa rotina. Ou seja, devemos continuar a não dar grande importância ao que eles dizem.
Há razões para algum alarme. A melhor forma de testar quão preparado está um país ou uma cidade para resistir a um ataque terrorista é imaginar que somos terroristas."Se eu fosse terrorista e estivesse disposto a morrer, se com isso conseguisse rebentar, sei lá, o novo estádio da Luz, será que era capaz?". É claro que sim. Se eliminarmos tudo aquilo que faz com que não sejamos terroristas suicidas (o amor-próprio, o amor pelos outros, a decência, o respeito pela vida, etc), qualquer país parece um castelo de cartas. Devemos reforçar as medidas de segurança, claro. Devemos ser exigentes. Mas devemos fazer tudo isto com um certo grau de ironia. Se tivermos alguma sorte, safamo-nos. E depois podemos sempre pensar (facultativamente) que, mesmo perante o pior cenário de terror, as mortes na estrada serão sempre mais estúpidas e numerosas.
É por isso que eu não deixaria de ir aos jogos do Euro 2004, se estivesse em Portugal e o Deco voltasse a um pico de forma. Mas jamais me passaria pela cabeça fazer disso um acto patriótico. Em tempos de terrorismo não há heróis anónimos, apenas mártires. Ora, se ser mártir não é modo de vida, só nos resta mesmo ir cuidar da nossa vidinha.

março 17, 2004

Declaração unilateral de não-guerra


"Não-guerra", se na guerra o inimigo é um detalhe, ou é eleito por aproximação. "Não-guerra", se nesta guerra a explosão de um míssil é devolvida em doses de explosivos, com juros. "Não-guerra", porque nos raros momentos de sensatez apercebemo-nos da nossa cobardia e nos raros momentos de "coragem" da nossa imensa estupidez. "Não-guerra", porque não é possível estar em paz.

março 16, 2004

A rapaziada de 70


Estes rapazes perceberam tudo: os espanhóis acagaçaram-se e deram a vitória ao terrorismo. A observação não é original e a apreensão é razoável. Mas convém não simplificar demasiado as coisas. O Mexia passa por cima da óbvia manipulação de informação (só volta a ela na secção "kalkitos", que, a julgar pelo nome, não é para ser levada a sério) e um certo JMT, referindo-se, entre outros desabafos, à promessa reiterada de zapatero em fazer cumprir as promessas eleitorais, escreve coisas como "da abjecção" e "dobrar a espinha".(O Lomba parece ser o mais sensato dos três). É verdade que as sondagens davam a vitória ao PP e que o atentado terrorista mudou tudo. Mas parece que estes rapazes já se esqueceram das manifestações contra a paticipação da Espanha na guerra do Iraque. Estes são os factos. A interpretação que lhes damos depende essencialmente do modo como nos posicionámos a seguir ao 11-S. O maniqueísmo subjacente aos textos do Mexia e do JMT revela apenas que estes dois rapazes partem do princípio de que só havia uma estratégia a adoptar depois do 11-S: alinhar com Bush. Qualquer desenvolvimento futuro só virá reforçar esta certeza. Tudo isto era previsível. Esperava era outro tom. Foi por isso que me apressei a fazer chegar os textos destes rapazes aos meus amigos espanhóis, gente que se bate há décadas com a realidade do terrorismo, frisando que vinham de uma malta esclarecida que deve ter passado logo à reserva territorial de um país em paz e sem terroristas (a tomada daquela embaixada não conta, pois não?). Notem bem: não é preciso ter currículo para expressar uma opinião e todas as opiniões, se devidamente fundamentas, devem ser respeitadas. Mas uns terão uma biografia que os autoriza a praticar um determinado estilo e outros não. Enfim, talvez os meus amigos espanhóis voltem a sorrir quando lerem o que lhes enviei. Certas coisas não são mesmo para levar a sério...

Oito horas em Frankfurt

Frankfurt, Francoforte, francamente estou-me nas tintas. É uma cidade horrível, terraplenada à bomba e com um aeroporto desenhado por um arquitecto pouco inspirado. Como se não bastasse, não falo alemão. Na adversidade, preparei-me com optimismo para enfrentar uma madrugada de oito horas no aeroporto de Frankurt. Tinha leitura e coisas em que pensar. Admitia uma qualquer epifania, pela simples aplicação da lei das probabilidades; oito horas a ler e a pensar é muito tempo. Três horas depois, farto das leituras, passeava-me como um analfabeto diante dos escaparates. As mamas da Gisele Bundchen eram a única coisa das capas das revistas que conseguia soletrar. A minha germanofilia acabava e aconchegava-se ali. A partir da quarta hora tudo se complicou. Fiquei impaciente e cometi um crime de lesa-livro. Os bibliófilos devem abandonar neste momento a leitura. Dei comigo a comprar uma esferográfica, com o requinte de ter trocado o preto pelo azul. O detalhe é importante e mostrará que o crime foi premeditado. Sentei-me depois à mesa de um café, tirei um romance da mochila e comecei a escrever sobre as páginas abertas. Isso mesmo, num livro novinho, oferta de um amigo e cuja leitura ainda ia a meio. Escrevia sem pensar e sem perceber a minha letra. De vez em quando, formava-se um pequeno edifício de lógica e coerência que durava três quatro, talvez cinco linhas, mas a prosa apenas se endireitara; continuava ilegivel. A esferográfica avançava veloz pelas páginas já escritas a caracteres negros (percebe-se agora que "Não tem antes azul?" era para ganhar contraste). Sempre fui cruel com os livros. Perco prosa do Herberto Helder em Nova Iorque, dobro os cantos página sim página não, deixo livros em posição de esparregata, só para stressar as lombadas, e, enquanto leio, como até torradas de pão bem fermentado barrado com manteiga. Os meus livros estão todos desgraçados. Livros em bom estado são livros que ainda não li, livros condenados. Dar cabo dos livros é a minha violência doméstica. Mas jamais me passara pela cabeça fazer de um romance uma sebenta de rascunhos. O romance até não era mau, adianto. Duas horas depois estaria a devorar as páginas que me faltavam ler e que tinham sido poupadas à minha demência momentânea. O fim da história é um pouco frouxo, mas o romance cumprira. Eu é que falhara. E foi com embaraço que voltei a folhear aquelas primeiras páginas, todas gatafunhadas. Por pudor, não revelo o nome do autor do romance que maltratei. Conto até encontrá-lo um dia em Lisboa e dizer-lhe algo como isto: "Uma vez, em Frankurt, quase perdi um avião por causa de um livro seu..." São estas as minhas verdades preferidas: verdades que substituem mentiras, sem prezuízo. Enfim, oito horas depois continuava o mesmo palerma, mas não tinha cedido ao sono e deu mesmo para apanhar a passarola da Singapure Airlines.

março 15, 2004

A hora dos independentes

Estou a dar os últimos retoques na minha lista de presidenciáveis. Pois é, malta, chegou a hora dos independentes. Abaixo o cartão do partido. Caguemos nas bases e nas elites. Deixo pois a pergunta, ó gentes: que candidato independente vamos apoiar? Epá, assim megalomanirmamente, não deveria a blogosfera avançar com um candidato, angariar dinheiro e contribuir para a primeira manifestação de fulgor da socidade civil desde...hum... hum... há muito tempo? Chega de partidarite. Jovem (e menos jovens), enquanto a lista do Difool, John, não chega, quem é o teu candidato independente?
O meu candidato? O meu candidato chama-se BARRETO, ANTÓNIO BARRETO.


As próximas eleições presidenciais representam uma oportunidade única de limpar o país dos vícios do nosso sistema político. Primo, não se arrisca muito. O presidente não serve para grande coisa. Se a coisa corre mal, volta-se a tentar daqui a quatro anos. Dopo, perante o tríade Santana-Guterres-Cavaco, fazer alguma coisa não é um capricho, é um dever. Tercio (de bandarilhas), a rede blogosférica é uma versão telescreen de efeitos diametralmente opostos aos do telescreen de Orwell (hum?). Passemos aos actos! Sucintamente, temos duas opções. A primeira é conseguir uma participação record (tipo democracia de tendência ditatorial) e dar a maioria absoluta ao voto em branco. Esta hipotése, deslumbrante, é apenas isso mesmo, um deslumbre. Como povo não temos estaleca para fazer coisas destas. O valor do voto em branco ainda tem uma complexidade matemática razoável. Demorou algum tempo a inventar-se o zero; demorará muito mais tempo a generalizar as virtudes do voto em branco. Não tenhamos ilusões. A segunda hipótese é muito mais modesta: derrubar a tríade com um candidato independente. Quando digo um candidato independente não me refiro a um palhaço. Manuel João e outros com a mesma graduação (30% etílica, mais coisa menos coisa) podem concorrer, que é giro e tudo o mais, mas esses gajos mais não são que o reverso da mesma moeda; só perpetuam o status quo. Nós queremos dar um piparote na moeda, mandá-la para a sargenta e salvar o Manuel João in extremis (os dedos enfiados entre as grades...).
Uma vez que estamos todos de acordo sobre este ponto, resta decidir em que moldes vamos concretizar o plano. É importante fixar um objectivo modesto. Chegar aos 5% sem apoio partidário parece-me perfeitamente possível e, a acontecer, histórico. Uma percentagem decente é importante para nos deixar, justamente, acima do limiar circense. Como não há desacordo sobre esta matéria, ficam por discutir dois tópicos: fund raising e critérios para a selecção do candidato. Bem, o fund rainsing acentará no jogo clandestino. A ideia é lançar um concurso tipo jogo do bicho para, em simultâneo, angariar fundos e fazer campanha pelo candidato. O jogador deve tentar acertar na percentagem de votos que o nosso candidato independente terá. O valor do prémio será função do montante investido e das probabilidades atribuídas ao candidato no momento em que a aposta dá entrada na nossa sede de campanha. Com a ajuda de uns matemáticos será trivial determinar qual o esquema que maximiza o ganho do jogo (carcanhol e potencial para influenciar o voto). Tudo isto tresanda a ilegalidade, mas as práticas ilegais nunca demoveram os partidos. Estamos todos na lama. Chafurdemos, pois.
E com isto chegamos à questão central: o que faz um bom presidente? As exigências da constituição são tão tímidas e anacrónicas, pá, que até nos envergonham. A escolha de um presidente tem de começar a incorporar todas as técnicas modernas de marketing, teste de materiais, selecção de candidatos aos quadros superiores das empresas. Por exemplo, todos os candidatos deviam ser avaliados para se concluir se são ou não compatíveis com o cenário televisivo da comunicação ao país. Assim se compreenderia logo que Santana Lopes não fica bem ao pé da bandeira nacional. Saltaria aos olhos que o reflexo dos holofotes do estúdio naquele gel, a fazer sinergia com a guedelha de nuca, atira-nos para um cenário de berlusconização estética que é incompatível com uma imagem de país decente. A simples hipótese de pensarmos em Santana diz tudo do atraso do país em tratar a questão presidencial. Segundo ponto: queremos um presidente com boa pinta. Atenção, não queremos um presidente com a a nossa pinta, mas com pinta. A nossa pinta, o nosso fardo idiossincrático, pá, fica a cargo do merceeiro. O presidente tem de ser a nossa fachada para o mundo e não se pode confundir com a estatuária do Bordalo Pinheiro. Segundo este critério, é só pegar na caneta e riscar mais uma série de candidatos a candidatos. Na mesma linha, é fundamental termos um presidente que saiba falar estrangeiro. O tempo de Soares já passou e Sampaio elevou a fasquia. A Cambridge School tem uma palavra a dizer e quem vê nisto uma ofensa ao país devia ser testado para o direito ao voto (tema de um post futuro). Enfim, quem fala de línguas, fala de saber estar à mesa, estar a par dos melhores conjuntos de facas para preparar Suchi, saber dançar tango ou fundir-se na multidão das raves alentejanas com sentido de estado.
(continua)


Impressões de Estrasburgo

Homem lendo o jornal à sombra de um chorão. Nenhuma vontade de ler as Dernières Nouvelles d'Alsace; no que sobra, a inveja é total.
Rapaz pedalando bicicleta que chia. Lembrança do burburinho, do vento na pedra rosa, da água nos canais, mas antes a bicicleta, em cadência regular.
Deficiente motor em cadeira de rodas jogando petanque. Só compensa ser-se velho em França se a surdez ainda não se instalou, para que na penumbra do quarto se possa ouvir o chamamento do choque das bolas. A petanque começou na praia, comigo ainda criança e sem ver nas demais coisas arredondadas interesse que me desviasse das bolas coloridas. Um segundo momento regista a percepção da lógica do jogo de equipa, com um parceiro a preceito-velho e francês- a afastar a bola adversária para bem longe, dando a vitória à nossa equipa, pois a bola que ficara mais perto do cochonnet era de novo a minha nossa bola. Um terceiro momento de petanque leva-nos ao encontro de um professor de filosofia, a dissertar sobre a arte da boa trancada (enquadramento teórico que vinha precedido de fama e proveito), enquanto imprime um notável efeito de backspin na bola que lança em arco alto, tipo campânula, de modo a fazê-la cair quase na vertical, a milímetros do cochonnet, sem que ressaltasse ou deslizasse na terra batida, como se fosse uma gota de tinta a cair numa toalha de mesa. O cabrão comia-nos as mulheres e limpava-nos o sebo à petanque. Era um homem da renascença e espero que esteja desempregado.

março 12, 2004

O Ridículo causa danos? Sem dúvida, MST...


A crónica de MST desta semana é simplesmente brilhante. Nunca um texto foi tão exemplar na forma como legitima o título.

março 11, 2004

Tragédia indigna (actualizado)



A tragédia (Pablo Picasso)

É crucial identificar os autores do atentado terrorista de Madrid, por todas as razões. O que espanta é a fuçanguice especulativa que se apoderou de toda a gente. Sabemos quais são as implicações políticas. Também gostamos de numerologia. Não gostamos do PP, mas não queremos ver acrescido o perigo de um acto terrorista em Portugal. Meu Deus, como decidir? Não há nada para decidir. Há vítimas para chorar e muito que investigar. A esperteza pode esperar.

março 10, 2004

Antisemitismo e cinevangelismo


A pretensão de rigor histórico que surge associada à última obra de Mel Gibson assenta numa falácia: considerar os evangelhos registos históricos credíveis. É preocupante ver que nenhum (que eu saiba) representante da igreja católica se refere a este erro de um modo explícito. Não basta dizer que o filme de Gibson é uma interpretação dos evangelhos. É preciso dizer também o que os evangelhos não são. Foi por isso oportuna a publicação de um artigo no Público onde, com competência (tanto quanto eu posso julgar), se enquadra o suposto crime dos judeus. É, antes de mais, a este nível que o filme de Gibson tem de ser discutido.
Quanto à interpretação que Gibson faz dos evangelhos, parece claro o desejo de fazer dos judeus ortodoxos os maus da fita. Não se sendo absolutamente estúpido, é possível alcançar tal objectivo sem comprometer o rigor da leitura dos evangelhos. A começar, porque nos evangelhos os judeus já aparecem como os maus da fita. Depois, porque jogando com o detalhe se pode frisar ainda mais a mensagem. São disso exemplos a figura de Barrabás, mais bicho do que homem (como se não lhe bastasse o currículo de assassino) e a obsessão em mostrar os líderes judaicos a pressionar o efeminado e tonto Herodes, bem como um Pôncio Pilatos convertido em homem de estado quase bom e sensível. Fica pois a pergunta: a quem serve este filme?
Há outro elemento perturbador na obra de Gibson: a violência. Não é novidade que o catolicismo assenta no culto do sangue e do sofrimento, mas o fascínio de Gibson pelo poder redentor (ou evangelizador) da tortura, já presente em Braveheart com a cena final do esquartejamento, parece-me doentio e não creio que entre no domínio dos mistérios da fé. Em todo o caso, sobre tal mistério não pretendo ser esclarecido. A violência com que Gibson retrata as últimas horas da vida de Cristo fez com que toda a gente começasse a falar do filme, mas levou também a um enfraquecimento da polémica sobre a mensagem antisemita. Às primeiras imagens, parece que já só interessa discutir o banho de sangue. A mensagem antisemita não desaparece; torna-se subliminar.
O resultado final é um veiculo publicitário poderosíssimo, que recorre a esquemas habituais: vitimização, dedo acusatório e muita violência. Gibson não se distingue de um técnico de publicidade competente. Tanto um como outro sabem que não podem recorrer ao trunfo maior da publicidade- a carga sexual- apenas por essa ser uma limitação imposta pela natureza do produto que querem promover. Ver o empenhamento de tantos católicos na defesa deste fime parece-me anacrónico e insensato, para não dizer outra coisa.

Sete vezes Sexta, com a certeza da sesta

Gosto da Sexta-feira. Sempre gostei da Sexta-feira, mas aqui ainda gosto mais. Começo o dia tarde (15 minutos mais tarde), a acusar o cansaço acumulado ao longo da semana. No laboratório as pessoas parecem ou relaxadas ou ainda mais excitadas com o trabalho. Ao meio-dia há um concerto. No último ouvi uma interpretação soberba das variações Goldberg. Às quatro da tarde há uma conferência dada por um craque local ou outro cientista de renome. A última foi sobre os telómeros (os telómeros são as extremidades dos cromossomas). Foi uma Sexta-feira simplesmente prodigiosa. Bach ao meio-dia, telómeros às quatro da tarde, um almoço pelo meio numa cantina decente. O programa parece estudado para que ninguém trabalhe à Sexta, o que é quase um paradoxo num país tão virado para o trabalho e numa universidade tão preocupada com a imagem da excelência. Estou-me nas tintas. São dias únicos. Por mim, a semana teria sete Sextas: Bach e telómeros, Bartok e hipermutação somática, Mozart e exclusão alélica, Piazolla e códigos neuronais, Stravinsky e evolução, Tárrega e epigenética, Shubert e diferenciação celular. Perfeito, perfeito não seria. É até (como é que se diz?)... Contraproducente. Mas já que estamos no terreno da invenção, force-se um pouco mais as regras do tempo e da memória para que nos seja permitido viver cada uma das sete Sextas plenamente. Feitas as contas, o mais importante de cada Sexta-feira é a certeza do Sábado que virá.

Às voltas connosco


O nosso léxico deve ter atingindo a saturação por volta de Agosto de 2003. Reparo que voltamos à palavra "andorinha" com a regularidade. O mesmo se passa com uma canção de Costello.
Hoje fica assim mesmo, premeditadamente críptico.


março 08, 2004

1 Ano de Memória


Insistindo na tradição de não respeitar os números redondos, assinalamos um ano de vida, quando, na verdade, o Memória foi criado a 10 de Março de 2003. Comemorar a 8 de Março resolve dois problemas: 1) alguma ansiedade acumulada; 2) a astral e astronómica dúvida colocada pelo ano bissexto que, a ser ignorado para efeitos comemorativos antes de se atingir os 4 anos de idade, faria com que o aniversário do Memória fosse já amanhã e não daqui a dois dias.
Pondo de lado estas insignificâncias, gostaríamos apenas de lembrar que começámos na irmandade do MEC, nascemos depois para blogosfera como filhos bastardos do BdE e da Coluna Infame e, se houvesse inspecção, lá teríamos de ficar de cuecas na companhia do Tiago, do Alexandre e do Possidónio, malta com a nossa idade blogosférica. A todos os que vão passando por aqui, muito obrigado. A carripana segue, até engripar...


março 06, 2004

INCERTEZAS GENEALÓGICAS


Há assuntos a que a malta da crónica não resiste. Eles sabem que numa semana haverá 100 textos na imprensa a dizer a mesma coisa, mas por insondáveis motivos sentem-se na obrigação de dar um contributo. Então quando se trata de afinfar em alguém que provisoriamente ficou na mó-de-baixo, é matemático: não são 100, são 1000 textos. O alvo em efémero regime de saturação desta semana foi um autarca do CDS, de Marcos de Canavezes, um certo Ferreira Torres. Depois de ter lido inúmeras vezes os mesmos reparos, reflexões e desabafos, fui assaltado por uma dúvida. Segundo o Exmo Alfredo Barroso (no Expresso), o dito autarca "descende, em linha recta, dos caciques políticos e eleitorais que dominavam o Portugal rural do século XIX". Já para Alberto Gonçalves (Correio da manhã, link via Contra a Corrente), um Exmo matosinhense, "As luminárias tipo Ferreita Torres foram, à esquerda e à direita, um producto do PREC, heróis do combate ao comunismo ou campeões do operariado". Parece-me que alguém anda enganado nesta história. E de quem é a culpa? A culpa só pode ser de Narciso Miranda...

Snake eyes (1/36)


Estar de acordo com a Helena de Matos é um acontecimento que só se explica recorrendo às leis das probabilidades. Por isso mesmo, merece ser assinalado. A não perder, aqui.

março 05, 2004

O ouro de Pedroni (a quente)


Simone Pedroni acabou há cerca de 3 minutos de tocar as Variações Goldberg, de J.S. Bach, no anfiteatro da minha universidade. Sei que me vou arrepender, mas neste preciso momento Pedroni está a destronar impiedosamente a memória que tenho das famosas interpretações de Glenn Gould. Ainda estou meio abananado... Esta noite regresso a Glenn Gould.
Apenas mais duas notas avulsas. 1. É incrível como algumas pessoas conseguem começar a sair 3 minutos antes da conclusão da obra, quando de novo ouvem o tema. Parecem ignorar que quando se volta de novo ao tema, depois do que se ouviu, já não é o mesmo tema. 2. Telemóveis, pagers, gente constipada, gente que ressona a dormir, bébés e criancinhas não deviam poder entrar em salas de concerto. Ponto final. Um puto esfodaçou (é o termo) a quarta variação quando começou aos berros. A tonta da mãe foi lesta a levar a criança para zonas acusticamente seguras. Foi um bom esforço, mas não chega. Estes acidentes previnem-se, não se remedeiam.

CROMOS: BLAUFUKS

Invariavelmente, mesmo algumas horas depois de mais um fim de tarde passado numa exposição, 678 permanece desconfiado. É quase certo que vai implicar com o empregado de mesa que lhe serve o jantar; só uma noite bem dormida lhe devolverá a inocência. A exteriozação mais prosaica da desconfiança de 678, encontrâmo-la nos seus olhos, esbugalhados pelo pânico de poder vir a pagar $10 000 por uma tela com um rabisco de um artista que não chegará a singrar. Por isso, antes de entrar numa galeria 678 procura um canto resguardado e recorre a complexo esquema de exercícios respiratórios, como se preparasse um longo mergulho em apneia. Para se condicionar, enquanto sustém a inspiração murmura: "todas as peças são más, os artistas medíocres e os galeristas uns aldrabões". O exercício repete-se as vezes necessárias, em função do perigo potencial que cada exposição representa. Eis segundo problema de 687: o que fazer numa exposição, depois de consumida a arte? Há várias opções, mas nos últimos tempos 687 viciou-se em planos-sequência altmanianos. É para ele um gozo saltar de conversa em conversa e tentar compôr uma discussão em tempo real. Da última exposição ainda recorda alguns fragmentos de diálogos: , "... Vou é já para casa pintar uns quadros...", "Gosto desta cama. Gostas da cama?", "Por que é que não me ligaste ontem?", "Gosto das pregas dos lençóis sobre o fundo negro. Não gosto da cama. Mas gosto das pregas. Parecem de pedra...", "... Chega-te mais para aqui...", "... gostava de ter a camisa que auquele gajo tem", "... A arte? Morreu. " 687 é o primeiro a reconhecer a impossibilidade de fazer uma discussão inteligível em tempo real a partir de colagens sonoras. Disse-me, a rir, "Pelo menos eu tenho essa desculpa...". Confessou-me depois que essa coisa pomposa dos planos-sequência altmanianos é apenas uma desculpa para poder bisbilhotar. 687 está sempre a fazer batota; demora-se na conversa se a conversa lhe interessa. Como aquela em que alguém disse: "detesto aqueles escritores que abreviam os nomes dos personagens, chamando-os por letras. K. , L., M., H. J., N., U., K., T., K., W. e K. O leitor sente-se excluído porque fica logo a pensar que aquela letra faz referência a uma pessoa real que o escritor conhece. As duas Anas do círculo de amigos do escritor pelam-se por saber qual delas era a "A". Kafka encolhe os ombros... Enfim, só equívocos. Eu corria tudo a números. O número do telemóvel, claro... Não o número inteiro que isso quilha a narrativa, mas, digamos, uns três dígitos, transformados por um algoritmo simples. A vantagem é que o leitor médio não ia ficar incomodado e o círculo de amigos também não. Continuaria a haver um código, que pode ser decifrado, mas com esforço ". Enfim, como a aprovação de 678 costuma ser consequente, trato-o aqui por 678, em jeito de homenagem (mas não há nenhum código por decifrar).
Chegámos tarde à exposição de Daniel Blaufuks... Do Daniel Blaufuks... Chegámos tarde à exposição do Daniel. Se calhar devia antes tratá-lo por D. 243 também não ficava mal. Perceba-se o problema: o Daniel conhece-me, assim como conhece o 678. Passámos umas tangentes um ao outro nesta cidade; a oitava cabeça a contar da esquerda naquele jantar com muita gente era a dele, tenho agora a certeza. O Daniel escreveu-me até uma dedicatória muito simpática num dos livros dele. Falámos já e conversámos um pouco até. Se nos próximos 10 anos nos encontrarmos por acaso na rua, creio que ainda nos lembraremos um do outro; eu, porque me interessei pelo trabalho dele; ele, porque sendo fotógrafo deve ter boa memória visual. Daqui a 30 anos tudo será mais complicado. (continua)

março 04, 2004

LUA NOVA...


Recomendo o relato do desaparecimento das rádios Luna e Voxx, segundo o crítico musical. Agora que se conhece a identidade do "crítico" e antes que calem a Luna, deixo aqui um agradecimento ao Henrique Silveira, por um gesto dele, de pura carolice: em Dezembro de 2003 o Henrique passou no seu programa uma canção do Memória. Durante três minutos o share radiofónico da Luna levou um rombo mas para mim, como compreederão, a experência foi um gozo. Boa sorte, Henrique...

março 03, 2004

Rudimentos da arte do duelo


A direita escandalizou-se com o uso que o BE deu à prosa de Portas. É absolutamente fantástica a capacidade de indignação selectiva que alguns põem em prática. Parece-me irrelevante saber se o que o BE fez é baixa-política ou não. Com Paulo Portas estamos todos autorizados a fazer baixa-política. Ninguém vai buscar o espadim do tetravô para combater um especialista em minas e armadilhas. O que é absolutamente vergonhoso é esta partidarite, que veio inquinar mais um debate e anular mais uma oportunidade de se corrigir uma lei absurda. No Memória não costumo escrever desabafos sobre política e não conto começar a fazê-lo, mas há dias e dias. A luta continua.

Retoma primaveril?

Os habitantes desta cidade andam em êxtase com o começo da Primavera. Mantenho-me céptico. Até encontrar a primeira barata ninguém me convence. Devo confessor que esta metamorfose do voo das andorinhas dos Olivais no andar rastejante das baratas da rua 63, em Nova Iorque, deixa-me algo nostálgico.

O amor nos dias úteis

Acordar contigo
Jantar contigo
Adormecer contigo
Ou então
Jantar contigo
Adormecer contigo
Acordar contigo
Ou ainda
Adormecer contigo
Acordar contigo
Jantar contigo
Três instantes
Até à vida contígua
Contigo.

março 02, 2004

Vamos discutir a pena de morte e depois vamos a uma sessão de tanning, boa?


Isto anda bonito, anda... Então agora vamos discutir a pena de morte, tendo como pretexto o julgamento do pedófilo/assassino belga? Começa sempre assim... Já chegámos ao Texas, é? Sugiro uns bons documentários sobre os corredores da morte, os erros judiciais, o fanatismo religioso e o apologia da vingança e depois, sei lá, até podemos discutir a pena de morte. Impulsos censórios, moi? Epá, isto foi um desabafo...

março 01, 2004

Veni, vidi, verde...


Deixo aqui um abraço ao Alexandre Andrade, pelo primeiro aniversário do 1bsk. O Alexandre criou um espaço verdadeiramente único, culto e descontraído, sofisticado e desconcertante. É também a única pessoa que, por causa dos blogues, vim a conhecer em carne e osso. Durante uns dias o cabeçalho ficará verde, em cromática homenagem.

Baixa a bolinha, Tulius


Para cortar alguma da euforia bloguística dos últimos dias, resolvi visitar um site de escrita na web feito com competência. Se a coisa não tivesse o dedo de um grande amigo meu ficaria cheio de inveja. Assim como é, fico cheio de orgulho. Passem por lá. Evitem depois fazer uma birra ou desmantelar o vosso blogue. Chega de caprichos.