fevereiro 29, 2004

Como o macaco gosta de banana...

Como é típico de qualquer país pouco instruído, em Portugal é muito fácil alguém atingir um lugar de destaque e deixar os demais à sombra. Culturalmente somos uma república das bananas; uma mono-cultura, com todas as fragilidades que daí resultam. Temos um realizador (talvez dois ou três), três pianistas (talvez quatro ou cinco), dois escritores (talvez cinco ou seis), quatro cientistas (talvez duzentos ou seiscentos e trinta). Consta também que andam a tentar clonar o Marcelo Rebelo de Sousa. São sinais perigosos, estes. Devíamos aprender. A única maneira sensata de reagir ao ensombramento é desenvolver formas alternativas de chegar à luz. Este rapaz, por exemplo, será que ainda não percebeu que já vai deixando de ser altura de se armar em EPC?

A entrevista (Difool contra Ivan)


Foi numa Sexta-feira de Janeiro de 2004. Recebi o Ivan e o Difool, sem as namoradas, assim como se fôssemos jogar poker. Na verdade, juntámo-nos para um arroz de cabidela. A altas horas da noite, muito por culpa de substâncias ilícitas e outras, cedi ao cansaço. O Ivan, que não bebe e não fuma, lá continuou, numa cavaqueira descontraída com o Difool, que há muito tempo deixou de acusar o que fuma e o que bebe. O que se segue é uma excerto dessa conversa, registada por um pequeno gravador que estava (inadvertidamente) colado debaixo da mesa e ficou ligado (inadvertidamente também). Tomo a liberdade de publicar esta conversa sem pedir autorização aos meus amigos, na certeza de que a galinha que sobrou e vou engordando na casa-de-banho, para futura jantarada, evitará qualquer declaração mais irreflectida da parte do Ivan e do John. Dado o tamanho da conversa, conto publicar pelo menos 10 excertos. Aqui fica o primeiro.


- Adopção de crianças por casais homossexuais?

- A favor, sem discriminações (positiva ou negativa).
- Pedofilia?
- O que é que queres saber?

- Deixa lá. Euro 2004?

- Força Deco.

- Presidenciais?

- Ainda é cedo.

- Não achas que com estes candidatos a candidato tínhamos momento para avançar com a figura do “voto contra”? Um “voto contra” nas urnas anularia dois votos convencionais, estás a topar? Só vejo vantagens. A abstenção, por exemplo, deixaria de existir. Ninguém iria perder a oportunidade de votar contra alguém...

- Nesse caso, votaria contra ele.

- Eu também. A propósito, curtes Chopin?

- Gosto muito. É o terceiro polaco que prefiro.

- Hum, deixa ver: Valesa, João Paulo II e Chopin?

- Frio, muito frio: Copérnico, Boniek e Chopin.

- OK. Guinando, qual é a melhor prosa da blogosfera?

- As do 1bsk, Voz do Deserto, Almocreve das Petas e Aviz.

- E a pior?

- Não faças perguntas chatas.

- Diz lá... Quero sangue, sangue, sangue!

- Há estilos que me irritam... Como o do rapaz do flor de obsessão, por exemplo. O moço é esperto e culto, tem a mão feita e tem ambição. Mas pratica um dogmatismo de pastor de igreja disfarçado a incertezas existencialistas. E para mais aquilo sai às mijinhas, o que me irrita. Mas não deixo de o ler.

- Sim. Concordo contigo. Percebi tudo. Per. Feit. Ta. Mentes?

- Às vezes, mas arrependo-me quase sempre.

- E tens um plavrão preferido?

- Qual é o interesse da pergunta?

- Não sei, mas o Pivot costuma perguntar estas cenas.

- O Pivot? Foda-se...

- É a tua resposta?

- Hum... Não, não. Como sabes, gosto de dizer, hum... “raios e coriscos”.

- Não sabia.

- Anda lá.
-Propinas?
- A favor, mas num país em que as declarações de impostos e a acção escolar funcionem.

- Olivença?

- Passo.

- Há um aumento do anti-semitismo?

- Há. Mas também há um aumento global da intolerância.

- Ivan, tu tentas fazer agora o que não fizeste durante meses, pá. Achas que um gajo que passa um ano a escrever frases como se andasse a trabalhar numa campanha publicitária de baixo orçamento para um perfume pode agora recuperar alguma credibilidade cívica?

- Credibilidade cívica?

- Sim.

- Bem, eu conto continuar a praticar um civismo apático no Memória. Sabes, isto não é a minha ferramenta de intervenção na sociedade.

- És um... hum...ni... niilista?

- Não. Mas aqui não sinto necessidade de expressar a minha opinição sobre tudo. Não é fundamental que as pessoas saibam o que eu penso sobre o conflito israelo-palestiniano. Já te disse que o Memória é uma oficina de escrita, nada mais.
- Qual é a tua posição sobre o conflito israelo-palestiniano?
- ...

- Não respondes? Fónix, ganda cobarde, meu.

- Temos tempo?
- Não.
- Então deixa lá. Repara, John, esta mania de ter um opinião sobre tudo é uma manifestação de arrogância. A liberdade de expressão assegura-nos muitos direitos, mas devíamos ser mais responsáveis quando formulamos certas opiniões.

-Não percebi. Deves andar a ler as merdas que o Tulius escreve. O gajo anda crítico... digo, críptico. No fundo, és um cobarde..

- Se quiseres. A minha opinão não vale nada, queres ver? Defendo a existência de dois estados: Israel e Palestina, beneficiando ambos de apoio internacional que traduza as necessidades reais das suas populações e seja um compromisso e um dever, assumido em função do processo histórico que está na origem daquele conflito. Como vês, isto não é uma opinião séria.

-Fónix. Se era para dizer isso mais valia estares calado. Agora passas por cobarde e por parvo. Bem, guinando: há os one hit wonders mas tu pareces ter inaugurado o one-song-writer, hehehe...

- Não é isso. Estamos com problemas logísticos para acabar as outras canções.

- Tu tens uma voz um bocado merdosa. Não tens o vibrato à cantor de banda de heavy metal, nem sequer um timbre bonito, à cantautor mediterrânico. E desafinas um bocado. Já para não falar da dicção...

- É verdade. Mas aquilo foi feito em 3 horas. Há margem de progressão...

- Pois, mas como guitarrista parece que chegaste a um beco sem saída. Não te chateia perceber que um Malmsteen com artrite nas falanges ainda consigue ser infinitamente mais rápido do que tu?

- Conformei-me com a ideia de que nunca serei um guitar-hero. Mas essas ambições são coisas da adolescência, Difool.

- Confere. Damos imensa importância às mãos quando somos adolescentes.
(continua)

fevereiro 28, 2004

"Em Berlim serei bonito..."


Mas então, vais mesmo? Vou. Vou e não volto. Continuo sem perceber... A Alemanha, pá? Tu queres ir viver para a Alemanha? Vou para Berlim. Só pode ser uma gaja... Não é uma, são todas. Agora é que não percebo mesmo. Não achas as alemãs um bocado cavalonas? Acho. Então? Então, o quê? O importante não é eu gostar delas, mas elas gostarem de mim. Pensei que fosses mais esperto. Vais vender a tua imagem de macho latino para a Alemanha, é? Nada disso. Como sabes, tenho mais ar de turco e a Alemanha está a abarrotar de turcos. Só me estás a dar razão. E tu nem sequer falas alemão, pá... Em Berlim serei bonito. Ãhn? Em Berlim serei bonito. As alemãs adoram-me. Estás a gozar, não? Não. Vais para a Alemanha porque as alemãs gostam de ti? Sim. Deixa lá, tu nunca perceberás... Realmente não percebo. Não percebes porque tu sempre foste bonito. Não sejas parvo. É verdade, tu sabes que é verdade. Não sei se é verdade, mas sei que o que me dizes não faz sentido nenhum. Para já, não és assim tão feio... Começas bem. A sério, não és feio. Podes poupar o teu latim: a minha cara confunde-se com a paisagem, percebes? Os olhares não se demoram nos meus olhos, Se entro numa sala as mulheres não trocam de perna cruzada, não ensaiam uma expressão, não fazem nada. Eu não sou feio. Antes fosse. A andar na multidão desapareço do mundo. Se estivesse a ser perseguido nunca me apanhariam. O meu retrato-robô é o de milhões de rostos. Sou um desafio à altura do melhor dos fisionomistas. Antes fosse feio. Pelo menos não se esqueceriam da minha cara. Bastava depois aprender a tocar piano, decorar um poemas, sei lá... Safava-me. Mas com esta cara neutra não tenho hipóteses. Consegues ver o rosto de uma daquelas cabeças que seguram as perucas? Não consegues, pois não? Não te lembras de tais caras, pois não? São caras que existem para que nelas não reparemos. A minha cara é como essas caras. E tu, com essa pinta de aristocrata angustiado, olhos negros e rosto estupidamente simétrico, nunca poderás perceber isto. Não me lixes, ok?


Calma... Desculpa. Só estou a tentar perceber. O que é que te leva a pensar que as alemãs gostam de ti? Tudo. Todas as alemãs que conheci apaixonaram-se por mim. Quando passei uma semana em Berlim andava nas nuvens. Na altura era puto e não percebi muito bem o que se estava a passar, mas agora sei. Em Berlim fui bonito. Continuo sem perceber. Creio que te estás a iludir. Não. Lembras-te de te falar de uma alemã que conheci no Carnaval no ano passado? Nunca te cheguei a apresentá-la... Por razões óbvias... Bem, essa miúda, que na festa estava toda pintada de prateado e era incomensuravelmente linda, veio ter comigo e pediu-me para a levar dali... Assim, sem mais nem menos. E nem sequer estava bêbada. Estás a dizer-me que devo deixar partir o meu melhor amigo para um país que mal conhece por causa de uma aventura improváve... Agosto de 1995, Albufeira, uma alemã convida-me para a tenda dela; Setembro de 1995, conheço um casal de noivos alemães durante um jantar na casa de amigos e duas horas depois estou na dispensa aos melos com a noiva; Dezembro de 1995, durante o concerto de Natal na igreja alemã estou sentado na primeira fila e oiço risinhos no naipe dos sopranos após o kirie; antes do fim da noite recebo três convites manuscritos em fotocópias de cantatas de Bach; de Março a Junho de 1996 compro o essencial da minha biblioteca na Buchholz, mas só anos depois vim a perceber por que razão o dinheiro parecia não acabar: a menina da caixa, uma estagiária da Bavária, inventava-me descontos e corava como um tomate, mesmo naquele estranho dia em que me deu para comprar uma antologia de encíclicas papais; Junho de 1996, num Club Med, tenho um caso tórrido com a instrutora de vela, uma alemã de Estugarda, e quase contretizo uma menáge à trois, não fora a professora de tiro com arco, também alemã, mas de Munique, ter adoecido com uma gastroenterite; Novembro de 1996, num dos eléctricos de Lisboa conheço uma rapariga de Colónia, uma jovem advogada que trabalhava para a Bayer e tinha uma brilhante carreira à sua frente... A Hedda, lembras-te? Apaixonámo-nos, vivemos um mês numas águas-furtadas de Alfama e gastávamos as manhãs na cama a beber sumo de toranja do corpo do outro... Como sabes, depois a relação tornou-se impossível para mim. Recebi há uns dias uma carta dela, de uma quinta de agricultura biológica no interior do Algarve. Parece que nunca mais voltou para a Alemanha e vive lá há 4 anos... Adiante. Março de 1997, numa conferênci... Basta. É impressionante aquilo que escondias de mim, mas já percebi. As alemãs gostam de ti. Mas se calhar as francesas também gostam e a oportunidade não surgiu... Vivi em Marselha dois anos, já te esqueceste? Foi um período de total abstinência sexual e emocional. E tinha vinte anos, pá! Tu pensas que isto para mim também não é surpreendente? Julgas que não pensei já em todas as razões possíveis? Fiz tudo, dos calhamaços de antropologia sobre critérios universais de beleza que devorei, às experiências devidamente controladas. Gastei uma fortuna para assistir a um Boris Becker- Yannick Noah, em Roland Garros, só para ter uma amostra de qualidade: mulheres iguais em tudo mas de países diferentes. Anotei quem olhava para mim e depois passei três dias a descobrir a nacionalidade dessas mulheres (peço-te que não me perguntes como, porque chegou a ser embaraçoso). Havia 80% de francesas e 15 % de alemãs no recinto. Das que olharam para mim, mais de 50, sabes quantas eram alemãs? Todas... Não. 48. Ouviste bem? Quarenta e oito. Pouco fiquei a saber sobre as outras duas, mas uma delas, a julgar pela maneira como andava, era certamente invisual. Vês? Quando digo que as alemãs gostam de mim, apresento números. Por quem me tomas? Estou perplexo. Não sei o que dizer. É a primeira vez que oiço uma história dessas... Tens alguma explicação? Tenho. Também me passei... De início pensei que fosse um caso de mau gosto extremo. Como sabes, alemães são capazes de gostar obsessivamente de cantores horríveis, que outros povos civilizados desprezam. Mas a explicação não era assim tão simples... Anda lá. Percebi há uns dias que, em rigor, nem todas as alemãs gostam de mim. As muito novas desprezam-me e as muito velhas também. São exactamente como as portuguesas, todas as portuguesas. Do que tu te livraste, meu caro... Não brinques. Isto é sério. São só as alemãs entre os 20 e poucos e os trinta e muitos que se interessam por mim. Curioso. Algo deve ter afectado essa geração de um modo exclusivo. Nem mais. E tenho a prova aqui comigo. Ora vê lá... Um manual de alemão? Já começaste a aprender alemão? Já, mas uso cassetes. Isto é um livro de instrução primária, o único a ser usado de meados dos anos 60 até ao princípio da década de oitenta, em toda a Alemanha... "Lésebux" - Lesenbuch! Lê-se "lâiseburr". Tens de anasalar o... Estás-te a passar ou o quê? O "ch" lê-se... Ouve lá, estou-me nas tintas para a fonética dos gajos. O que é que este livro prova? Vai até à página 15... Página 15, página 15. OK. Einxte ez gab einén volfe... Não tenho que ler isto, pois não? Olha para os desenhos. Os desenhos? Este gajo com pinta de príncipe? Sim...O que é que tem?Não o achas parecido comigo? Bem... Hum... Sim, um pouco. Mas pelas tuas palavras, o gajo também seria igual a milhões de pessoas... Que cara é essa? Disse alguma piada? Olha outra vez para o desenho... Não...Sim Não pode ser.Mas é. É incrível. É a tua cara quando sorris. Igual. Que coincidência espantosa... Sabia que irias concordar comigo. Alto! Isto não pode ser a explicação. Claro que é a explicação. Esse boneco está presente em todo o livro. É um herói que perdeu os pais, apaixonou-se, foi traído e nunca cedeu nos seus princípios. Sofreu horrores e foi salvo pelo amor. Imagina uma história destas, que apela ao instinto maternal e a um certo romantismo, epá... bacoco, hum? Imagina uma história dessas contada a criancinhas de 6 ou 8 anos ao longo de um ano inteiro. Imagina que a história fica depois a marinar, algures entre o consciente e o inconsciente, e que uma dessas miúdas, aos vinte e poucos anos, cruza-se com o meu sorriso... Estou a ver. Achas mesmo? É a única explicação. E então vais mesmo? Vou. Parto dentro de duas semanas. Em Berlim serei bonito. Ainda não consigo lidar muito bem com a ideia...Hum.. Como encontraste o manual de instrução primária? Fiz uma pesquisa na web e dei com um endereço fabuloso que contém centenas de manuais em pdf de vários anos e de vários países... Hum, passas-me o endereço? Claro. Subitamente descobriste uma vocação para professor da primária, foi? Nada disso. Quem sabe se também eu não encontrarei um país para mim? É que, parafraseando o outro, ser bonito todos os dias cansa. Olha, lá na Alemanha, quando fores feliz, lembra-te primeiro das crianças e das velhinhas....

fevereiro 25, 2004

A bola de lama


A decisão aqui de criar aqui no Memória uma categoria de proscritos foi uma tentativa inglória (uma emenda desastrada, devo dizer) de evitar que funcionássemos como caixa de ressonância que, mesmo pela crítica mordaz, acabasse por promover o criticado. Este efeito, que não chega a paradoxo e deve ficar pela imagem, mais viva e precisa, do tiro pela culatra, ensombra todos os comentários, mas é quase inevitável em contextos particulares. Por exemplo, se o volume da crítica (pelo teor e número de vozes) ultrapassa largamente a capacidade de resposta do atingido e dos seus supostos acólitos, que optam por um silêncio prudente, a crítica perde força e tem lugar um fenómeno que se percebe bem recorrendo a uma metáfora acústica. Não podendo resistir a uma insaciável fome de réplica, começamos a ouvir um som, que mais não é que o eco da nossa crítica. O eco da crítica não rebate a crítica, pois na essência o discurso não mudou. Mas porque é um eco, ou seja, ao vir do outro lado, cria uma ilusão de resposta, de contra-argumento. O efeito final é uma escalada argumentativa, no volume e na tensão; uma discussão vazia de sentido entre a voz e o seu eco. E com tanto barulho, o criticado, ignorando as críticas e persistindo nos seus erros, ganha uns discípulos acidentais. A moral da história parece-me lafontainianamente clara, mas para trocar tudo isto por miúdos talvez valha a pena ler um dos posts da Charlotte (apenas o post, não o link que lá se encontra). Não é com surpresa que se repara neste plano inclinado. Mas ainda nos surpreendemos com a gente que nele vai escorregando... Ou então nada disto faz sentido e a Charlotte pensa genuinamente que aquele homem escreve coisas que devem comentadas e defendidas, em nome do respeito pela objectividade. Se assim fôr, preciso urgentemente de uma cerveja.

fevereiro 24, 2004

Zeca

Zeca2sw.jpg
Felizmente há blogosfera. Assim mesmo, quase analfabeticamente. Porque os jornais têm obituários prontos de antemão mas depois esquecem. Também eu me tinha esquecido, mas na ronda dos blogues fizeram-me recordar de novo, do Redondo Vocábulo que nem me atrevia a cantar, mas lia baixinho, aos acordes com ginga de A Morte Saíu à Rua. Naquelas tardes a vinil, o ré menor na guitarra ainda era de execução transcendental... Muitos anos depois, domesticado o ré menor, vai apetecer tocar e cantar qualquer coisa do Zeca em terra de gringos e a uns quarteirões apenas do Kissinger.

Um post it do Barreto


Dei hoje com um papelinho amarelo de banda auto-colante, que o Barreto deixou no vidro da casa-de-banho (não, não dormimos juntos). Falava de coisas que não percebi, como "em biologia tínhamos direito um único argumento longo e já o gastámos...", mas já fui ver e, não sendo um grande post, sempre é um post grande.

fevereiro 17, 2004

México 86, blogosfera 2004

Trabalho, preguiça e afazeres secretos impedem-me de escrever aqui. Como começa a ser moda, vou desistir e apagar esta treta toda (pausa santaniana para contabilizar os elogios fúnebres e desesperados pedidos para que não abandone este espaço... A contar, a contar, a contar: zero pedidos e um insulto). Pronto, pronto, estava a reinar.
Já que daqui não sai nada, aproveitem para passar pelo blogue do Maradona. Começa a ser óbvio que a carrreira de (D)diego m(M)aradona teve dois momentos chave: México 86 e Blogosfera 2004.

fevereiro 13, 2004

A VERSALHADA E O TRABALHINHO SUJO


É o costume: Difool ausente, Ivan nas nuvens e aqui o Tulius é que tem de ter mão nisto. Nem sabem o que me custa escrever este post, mas o dever é o dever. Sendo assim, aqui vai. No final de Janeiro alterámos as cores deste blogue. As nossas opções cromáticas resultam sempre de longas sessões de discussão, sendo tudo escrupulosamente registado e guardado em local seguro. Infelizmente, uma discussão que julgávamos privada estava a ser escutada desde Setembro de 2003 por gente inqualificável. Só assim se explica que as cores e o design usados no banner do novo memória sejam tão parecidas com a nova imagem de um conhecido banco de Portugal. Que tal banco tenha procedido à sua renovação antes do Memória é irrelevante pois, como referimos, a nossa ideia já estava lavrada em acta desde Setembro de 2003. Estamos neste momento a accionar todos os dispositivos legais (o Nabais, claro) para pôr fim a esta pouca vergonha. Não contente com a prática de uma política de emprego altamente discriminatória e uma filosofia laboral de méritos e gosto duvidosos, esse banco dedica-se agora à espionagem empresarial. Pois bem, vieram meter-se com a pessoa errada!
Cientes da morosidade endémica da justiça portuguesa, optámos por mudar as nossas cores enquanto estiver a decorrer este contencioso. Tal medida não deve ser interpretada com uma cedência. Limitámo-nos a dar dois passos atrás para ganhar momento. Avisamos já: quem tem conta em tal banco ainda vai a tempo de mudar. Seremos implacáveis, doa a quem doer.
Não queria terminar sem um agradecimento ao MacGuffin, que nos alertou para este aviltante roubo de propriedade intelectual. Pela sua contante vigilância e fairplay, é hoje atribuída a este companheiro uma comenda MI. Longa vida para ti, comendador MacGuffin.

fevereiro 11, 2004

Lamento percentual

Dás-me licença que chore?
Que goze o direito de estar lixado com a vida?
Quinze minutos sem etíopes, sem Hiroshima
É só o que te peço (...sem Bósnia). Creio que o mereço.
Provei-te que deixei de fungar nas paragens de autocarro, certo?
Não passeio a tristeza (...nos elevadores) por bairros desconhecidos
Abdiquei de ser o exibicionista de melancolia, como pediras
Fugi das mulheres (...pendurei a gabardina) resgatadas a silêncios longos
E dos amigos tristes em sintonia, também
Agora sou essencialmente feliz. Enfim, talvez a uns 65%
Feliz sem comprometer a inteligência e o civismo, percebes?
Um homem de esquerda (...ah! E a consciência social) não vai acima dos 70%
Levanto-me cedo, como combináramos
Vou até à janela, faço ginástica à antiga
Teorizo depois em rabiscos: no princípio a tristeza é a mesma
Mas o homem feliz dela se livra nas noites sem sonho
E o melancólico nas noites sem sono.
Uma máxima a ecoar que faz ganhar tempo
Para olhar os círculos e triângulos com a paciência necessária
Em quem espera a certeza de um encaixe perfeito, a mil peças
Visitam-me no instante os corolários banais, que enuncio:
Quem já esteve muito muito triste e o fez notar está lixado
Terá direito a tudo e a muito mais, excepto à mesma tristeza
A menos que não tenha amigos, salvo seja
A quem esteve muito muito triste e já não está sobra alguma nostalgia
(33% de pura estupidez, 33% de comodismo, 33% de aborrecimento
Pouco menos de 1% de idiossincrasias e partes por milhão por descobrir)
Quem aprendeu a estar triste, sabe que a tristeza é para ser gozada a sós
Que deve ignorar 99% dos livros que com ele tentam comunicar
E que como matéria-prima a tristeza é pedra quebradiça
Como lidar com tudo isto? Ninguém sabe.
Por aproximação: 20% de drogas, 70% de razão e 10 % de sorte
Sem garantias, mas com uma palmadinha nas costas, sincera.
De momento sou feliz, a 65%
Já te disse que um homem de esquerda não vai acima de 70%?
Os bichos vão, mas não sabem
70% é suficiente
Mais.

Escrutínio aberto ou a sublimação de uma paixoneta


Esta miúda só não leva uma comenda MI porque estas coisas decidem-se a 3 e o John ainda não esqueceu que na semana passada vetei a proposta dele (quem é o Dave Sullivan?). Só me resta tentar métodos mais directos. Afinal, o que é bom para o comité central do PCP só podia mesmo interessar ao Memória. Vamos lá, quem gosta da prosa da Ana Sá Lopes que levante o braç...

fevereiro 10, 2004

EXCLUSIVO MI


A 20 de Novembro de 2003 recebi o Ivan e o John em minha casa. Foi uma noite tranquila e os desentendimentos com os vizinhos só surgiriam no dia seguinte. Para evitar equívocos futuros, a 21 de Novembro fui comprar cortinados e instalei umas persianas na janela da cozinha. Mas era tarde demais; a vizinhança nunca mais voltou a olhar para mim da mesma forma. Desde então, os miúdos evitam a minha porta no Thanksgiving, consta que sou bruxo e estou sempre a receber flyers de grupos de vodu. São razões suficientes para se pensar duas vezes antes de combinar o próximo arroz de cabidela. Felizmente, dessa noite sobrou uma gravação audio que inclui uma longa conversa entre o Ivan e o John. Tudo se passou a altas horas da noite, comigo já fora de jogo. Nos últimos dias estive a compilar e a editar partes desse diálogo, que julgo poder funcionar como uma visita às entranhas do Memória. Em breve conto partilhar convosco este material. Na era dos vídeos pornográficos caseiros não tenho nas mãos um grande chamariz, mas foi o que se pôde arranjar.

COMEÇAR DE NOVO


Conta Natura, uma sebenta aberta sobre temas ligados à biologia, teve vida curta mas recomeçou outra vez, simbolicamente, com a mudança de endereço e roupagem. Por que razão é tão fácil manter o Memória ao longo de quase um ano e é, ao mesmo tempo, tão complicado arrancar com um projecto mais sério? Porque há diletâncias e diletâncias.

fevereiro 08, 2004

Vilarelho em CENTRAL PARK


Hoje é dia de Periférica e de New York Times, edição de Domingo. Por esta ordem.

IDEM IDEM, ASPAS ASPAS


Absolutamente de acordo com o que o Alexandre Andrade escreveu a 4 de Fevereiro sobre os significados da palavra "ateu". Quem desconfia que não vai concordar, ao menos que leia. É sempre um prazer ler o que o Alexandre escreve.

AMAR A REPÚBLICA


Num mundo ideal, não haveria fome nem guerra. Além disso, um executivo muito influente numa estação de televisão portuguesa teria uma amante e a amante seria leitora do Memória. Neste preciso momento, a amante estaria voluptuosamente espojada no canapé de um T1 de luxo, com um laptop a aquecer-lhe as coxas nuas, e navegava pela blogosfera. Ao chegar aqui leria um post sobre as séries de televisão que Portugal devia comprar e oferecer ao povo. Mulher avisada, saltaria por cima do chorrilho habitual de críticas e ocupar-se-ia com o essencial. Dinâmica e inquisitiva, enquanto pintasse as unhas dos pés ocorrer-lhe-ia que a primeira proposta é excessivamente subversiva para Portugal. Afinal, pensaria ela, seria impossível ver jornalistas a criticarem abertamente o seu trabalho e o dos colegas. Com um sopro rápido e seco, decidiria que Arrêt dur Images é um programa que ainda não pode aparecer na grelha de um canal português. Nisto o executivo tocaria à porta e depois iriam para o quarto.
No dia seguinte, se tomasse um banho de imersão com sais de fruta e espuma bastante, a nossa leitora teria um lampejo de contornos quase arquimedianos. Levantar-se-ia (que corpo...) da banheira e ainda a gotejar daríamos com ela a navegar pela internet em busca de informações sobre a segunda proposta, que lera na véspera. CURB YOUR ENTHUSIASM, parecera-lhe um nome pouco feliz para um série de humor e a fotografia do autor da série despertara-lhe um sorriso amarelo. Mas de link em link, começaria a parecer-lhe óbvio que já era altura de esquecer o Seinfeld e que Larry David tinha ido um passo ainda mais além. Nessa mesma noite, a amante aplicar-se-ia e minutos depois de terem começado, já o executivo estava exausto, satisfeito e convencido.

fevereiro 07, 2004

FUMAR PREJUDICA GRAVEMENTE O BOM-SENSO


Já não há pachorra para as lamúrias dos fumadores. É verdade que as campanhas anti-tabagismo envergonham qualquer um, dos dislates de Macário Correia, à ideia de fazer desaparecer de antigas notas francesas o cigarro que se via na boca de André Malraux, passando pela interdição do nome "Suave" e outras parvoíces. É verdade que nos Estados Unidos a vida está cada vez mais complicada para os fumadores e que há proibições ridículas, como não se poder fumar em parques públicos. Mas com o que hoje já aprendemos sobre os malefícios do tabaco para fumadores activos e passivos, não percebo a recusa de tantos paladinos da liberdade e dos direitos em aceitar que se deixe de poder fumar em todo e qualquer espaço público fechado. Quem proíbe o fumo em salas de espera e nos aviões, o que já não é controverso, deve ser coerente e alargar a proibição a outros espaços públicos fechados, de modo a proteger os direitos dos não fumadores (que, recorde-se, de modo a prevenir a acusação de fundamentalismo anti-tabagista, só nestes espaços colidem com os direitos dos fumadores).
Contrariamente ao que escreve Clara Ferreira Alves na crónica do Expresso desta semana, a noite de Nova Iorque respira saúde, mesmo depois da proibição de fumar em bares e restaurantes. Não se deixou de sair e as pessoas continuam animadas. Quem não fuma ficou claramente a ganhar (a ar limpo, as roupas sem cheiro, um ligeiro decréscimo na probabilidade de vir a ter cancro do pulmão daqui a 20 anos). Quem fuma, adaptou-se bem. Na verdade, conheço muitos fumadores que admitem preferir as novas regras. Quem quer fumar vai uns minutos para a rua e mesmo com temperaturas negativas o novo hábito não parece incomodar ninguém. Ir fumar à rua é, de resto, uma boa desculpa para se bater em retirada depois de se dizer uma inconveniência, bem como um excelente pretexto para engates.
Em minha casa todos podem fumar. Jamais me passou pela cabeça complicar a vida aos meus amigos fumadores. Prefiro ser fumador passivo de vez em quando a não ter ninguém em casa e demorar depois uma semana a comer a perna assada de borrego. Mas esta é uma decisão pessoal e não faz sentido pedir o mesmo grau de tolerância ao Estado. Não faz sentido também compôr prosa e poesia elegíaca sobre os fumadores ou chorar por eles como se fossem Moicanos (nesta cidade a única verdadeira vítima da nova lei foi um porteiro de bar, estupidamente esfaqueado quando fazia o seu trabalho: obrigar um cliente a apagar o cigarro). Como não faz sentido lembrar que muitos dos artistas que admiramos eram, foram, são e serão fumadores inveterados, pois certos factos eventualmente suculentos depressa se convertem em argumentos ridículos, só toleráveis entre amigos entretidos com uma garrafa de... absinto.

fevereiro 06, 2004

MAIS LATA, MAIS ESPERTEZA SALOIA, MAIS GANHO


Fiel ao ideal olímpico, este gajo não pára de nos surpreender. Já nos habituara a ocupar mais de metade das suas minúsculas crónicas a citar outros textos. Usa também o espaço da coluna para fazer publicidade com proveito próprio. Desta vez, porém, foi ainda mais longe. Numa acção combinada e de efeitos sinergísticos, limitou-se a escrever 19% da crónica e usou o espaço restante para publicitar um outro jornal onde trabalha e que já dirigiu... Se este não é o texto mais bem pago à palavra (original) da história do jornalismo português eu não me chamo Tulius Detritus. E se o director do DN não se livrar deste fulano, vou passar a tratá-lo pelo meu apelido.

fevereiro 05, 2004

Aiiiiiiiii, errrrrrrrr `daaeeeeeeeeeeessssssse...


O resultado do primeiro grande confronto Tulius vs IRS? Derrota de Tulius por K.O. ao primeiro assalto (12 segundos). Já não me livro de ficar associado à parte por bilião que paga a revoltante política externa desta malta. Pronto, pronto, reformulo de modo menos megalómano, sem abdicar do umbiguismo: ainda não é este ano que o namoro com a Nikon D-100 chega a vias de facto.


fevereiro 04, 2004

DA INSULARIDADE EMOCIONAL

"No man is an island entire of itself; every man
is a piece of the continent, a part of the main;
if a clod be washed away by the sea, Europe
is the less, as well as if a promontory were, as
well as any manner of thy friends or of thine
own were; any man's death diminishes me,
because I am involved in mankind.
And therefore never send to know for whom
the bell tolls; it tolls for thee."

John Donne

Não a vim a salto para aqui. Se algum salto dei, foi com rede. É verdade que há uma parte de aventura quando se começa a vida noutro país, mas não vale a pena exagerar o risco para apimentar a narrativa ou retocar a biografia. Cheguei já bem protegido, o que me diferencia de muitos outros emigrantes contemporâneos. Cheguei também noutro tempo, o que me distingue de quase todos os emigrantes de há uma ou duas gerações atrás, incluindo muitos familiares chegados. Mais pobres, menos instruídos, sem as facilidades de comunicação de que hoje gozamos, pouco tenho em comum com eles, na verdade. Seria desajustado tentar exibir como cicatrizes as privações que tradicionalmente associamos a quem tenta a sorte no estrangeiro, tal como seria ridículo reclamar-me herdeiro do mesmo espírito de sacrifício, do mesmo instinto de sobrevivência. Só partilhamos uma dor: sentir que muitos daqueles que amamos estão longe e que, por maior que seja a frequência de telefonemas, cartas, mensagens electrónicas ou visitas, mais tarde ou mais cedo há um momento em que percebemos que estamos do lado de fora. Porque os momentos cruciais, aqueles que anos depois serão recordados, sobrepondo-se às férias, jantares e telefonemas em que nada se passou ou disse, ou surgem de repente ou, de tão delicados, fazem com que do outro lado não venha notícia enquanto não for uma boa notícia.
Percebo as razões que levam a tais práticas censórias. Sei que são gestos bem intencionados. Mas ao cortar pela raiz a previsível sequência de acções que incluiria uma travessia transatlântica a fim de dar um abraço, beber de alívio e depois partir, deixa-se sempre uma ferida que não sara. Boas notícias são boas notícias, mas são melhores quando conquistadas. Por uma vez, gostaria de ter sido claro e que honrassem este pedido.

fevereiro 03, 2004

CROMOS: DINO, 68

Este título, mal talhado para elogio, devia em boa hora ter sido substituído pela seguinte interrogação: o que queres ser quando fores velho? De vez em quando alguém se lembra dos velhos. De tempos a tempos lá surge uma crónica pejada de sentimento, que leio com um aceno de cabeça de concordância. Minutos depois, ainda arrebatado pela leitura, tento comunicar com o velho que cruzo no corredor. Mas é só de vez em quando. É verdade que pratico os rudimentos da boa educação nos transportes públicos e sinto até uma ligeira pontada de remorso sempre que, com uma passada vigorosa, ultrapasso um velho no passeio. Mas já (e ainda) não há velhos na minha vida. Não me apetece pensar na velhice dos outros nem na minha. Para quê, se o velho que idealizo é um produto da publicidade que consumi? Pensar naquela quimera de velhotes dos anúncios da televisão, com os cabelos de um branco prateado, a camisola de lã, a lareira a crepitar e um netinho a espalhar-se ao comprido no soalho encerado? Pensar numa vida tirada de um enredo para plano poupança-reforma? "Corta!". Pensar nos passatempos, escrupulosamente iniciados 30 anos antes da reforma, para prevenir o aborrecimento? Pensar duas vezes, antes de dizer terceira-idade, idoso, velho, velhote, ancião, velhadas, veterano, cota? O que irrita no tratamento que damos aos nossos velhos e, em particular, ao nosso velho (aquele que seremos), é a oscilação entre o total esquecimento, a negação, e uma súbita e logo sôfrega apreensão, o "e agora?".
Em tempos alimentei a teoria peregrina de que Portugal é uma terra de velhos prodigiosos. A teoria foi cilindrada com pelos meus companheiros de discussão. Tentei ressucitar a teoria noutras mesas, noutros serões. E o resultado era sempre o mesmo. Pensava em Saramago e Manuel de Oliveira, duas figuras de proa, que construiram o essencial das suas carreiras numa altura da vida em que o comum dos mortais começa a abrandar e a alinhar pedras de dominó. "Não sejas parvo", diziam-me. Tinha ligado a observação à ditadura, que via a funcionar como uma panela de pressão para cozinhar talentos. Mas sempre soube que era uma teoria desastrada e não cheguei a nfazer os trabalhos de casa. Pode até ofender alguns, aquela gente hiper-democrática, capaz de descobrir a fresta rara de onde se espreita mais uma tentativa de branqueamento do Estado Novo (consta que está na moda). Enfim, pouco se pode pedir de uma teoria que não nasce de uma observação, antes de um desejo. Porque a imagem do velho a falar do seu passado sempre me pareceu sobrevalorizada e cruel...
Vale pois a pena escrever sobre Dino, 68 anos, a caminho da velhice, físico, grego, cabeleira à Einstein e pedalada vigorosa, personagem com uma obsessão nipónica pela fotografia, bom vaidoso, comunicador nato e camaleónico no jeito de se misturar com outras gerações. A cidade, com a Dino´s Pizza e o pronto-a-vestir Dino´s, espicaça-lhe o narcisismo. Dino fala demais e não ouve os outros. Em rigor, é um pouco chato. Gosta de si mais do que nós gostamos dele (e já gostamos muito). Escrevo-o à vontade, pois não consta que ele fale português e entre dois elogios não fica mal uma pequena crítica. Nova-iorquino exemplar, à moda antiga, vive aqui há 30 e muitos anos e tem outros 30 anos num país distante. Não é cosmopolita (abusa-se do termo), mas manifesta-se nele a complexidade do emigrante imigrado, sempre a confundir-se com o imigrante emigrado. E no Verão, às voltas pela cidade, a vencer lombas a pedal, fico-lhe com um enorme respeito. À sombra das copas dos parques públicos, deixo até que ele por instantes passe por ancião. Sei que segundos depois estará a cantar desafinado um tema estafado da Broadway, que sairá uma anedota e virá depois o itenerário para próximo passeio. E quando o Dino fala do futuro, sinto-me bem.