2004, Sábado, onze da noite, -12 ºC e um sobretudo competente. Passo pela Times Square, um dos locais mais sobrestimados do planeta. Um cartaz com mais de trinta andares de altura mostra Sean Combs, aliás, P. Diddy, aliás, Puff Daddy, de braço esticado e punho cerrado. Pergunto a um jovem se sabe o que é aquilo e ele responde: “é o Sean Diddy Daddy P. Combs Puff a fazer o punho erguido dos comunistas, não é?” Respondo-lhe, a ensaiar pedagogia e tentando disfarçar alguma irritação: “Não, rapaz, é a saudação do movimento black power”.
Três dias depois, apetece-me reformular a resposta. Se leres isto, rapaz, fica a saber que te dou razão. Aceitemos pois que se trata do punho erguido dos comunistas. Não muda nada. As ilusões confundem-se sempre. De resto, troca-se bem a imprecisão pelo nível de leitura que se ganha, não é? O comunismo ao serviço de uma linha de roupa, num outdoor da Times Square, é bom, muito bom, ao ponto de poder figurar num portfolio de criativo bem sucedido. Nos tempos que correm, melhor elogio não se podia fazer.
NOTA: ao seguir este link entra numa página que o deixa a apenas um link de uma prosa de L. D. (um dos proscritos do Memória). O leitor avança por sua conta e risco.
Quantas páginas são mesmo essenciais numa biografia? Quantos serões são precisos para que os amigos mais faladores comecem a repetir histórias e anedotas? Em quantos posts se esgota um blogger? Perguntas pertinentes estas, agora que reparo que os dois últimos posts têm links para posts anteriores, também publicados no Memória. Antes mesmo de chegarmos às 400 entradas, começamos a revelar sinais de desgaste. Ainda não é o fim, mas receio que seja o princípio do fim.
Em ecologia, quando se pretende analisar a biodiversidade de um determinado ecossistema, divide-se o terreno em quadrículas, que são depois inspeccionadas minunciosamente uma a uma. De início, o número de espécies diferentes que se vai descobrindo aumenta quase linearmente com o número de quadrículas analisadas. Porém, à medida que o estudo avança, o número de espécies novas que se encontram a cada nova quadrícula diminui; quando antes bastava uma quadrícula para adicionar 5 espécies novas, são agora necessárias 10, depois 20, depois 40, depois 100... A fragmentação do universo a estudar interessa por vários motivos. Por um lado, aumenta a minúncia da inspecção. Por outro lado, ajuda a perceber quando chegou a altura de parar. Por exemplo, se o ecologista se apercebe de que há mais de 100 quadrículas que não encontra uma espécie nova, o melhor talvez seja dar por concluído o estudo; ele não conhece todo o ecossistema (há inúmeras quadrículas por estudar), mas é desmesurado o esforço necessário para encontrar uma espécie nova e a amostra que já possui é provavelmente suficiente para que sejam cumpridos os objectivos propostos.
Aqui no Memória andamos à caça de impressões, lembranças, quimeras de realidade e fantasia e outras espécies. Cada post é uma quadrícula. Até há uns dias, a acumulação ia seguindo a marcha dos posts, mas recebemos agora um aviso. Se não tivéssemos mão nisto, os posts futuros seriam provavelmente ricos em referências a coisas já aqui contadas. Mas ter mão nisto é o que nos diferencia do exemplo anterior. Somos ao mesmo tempo ecossistema e ecologista. O que o aviso nos diz é que devemos começar a mergulhar mais fundo. Ou a ficar mais tempo lá em baixo. Em todo o caso, devemos tentá-lo. Ainda há alguma esperança. Afinal, a memória pode até ser finita, mas gostaria de acreditar que não se esgota tão depressa. Conto nisso investir um esforço desmesurado.
Como é que o cidadão se defende de tantos prémios? No princípio do ano recordo sempre, assim em jeito de oração: "bah, os prémios existem para estimular o mercado". Retiro da explicação a dose de cinismo, ironia e superioridade que me aguenta, digamos, até ao princípio de Fevereiro. Mas as revistas não param. A televisão não pára. Há rankings para tudo: as mais bonitas, os mais bonitos, as mais sexy, as maiores gaffes, os momentos mais chocantes, os casais mais perfeitos, os namoros mais escaldantes, os melhores livros do ano, os melhores filmes, os globos, os oscars, os grammys, os emmy awards, os (esqueci-me agora), quem veste bem, quem veste mal. Na blogosfera estamos sempre a seleccionar e a trocar galhardetes. Na área profissional, separa-se o trigo do joio com uma míriade de crivos. Há prémios para tudo, mas a dose é tão grande que já ninguém fica ansioso. Na verdade, ficamos todos mais consolados. O mercado empolou tanto a meritocracia que a meritocracia se democratizou. Há prémios para todos. É por isso que há já muitos anos deixei de olhar para a minha imaginária estante de troféus com inocência. Desconfio de tudo. Fujo dos prémios. Para me proteger, só sonho com os prémios impossíveis: um Pulitzer, um Nobel, a medalha Fields e o título the sexiest man alive. Esses sim, são prémios a sério, porque nunca serão nossos. Um prémio deve ser como a cenoura pendurada na cana a que o burro nunca poderá chegar, por mais que ande.
Como se não bastasse, cada prémio, ao fazer justiça a um homem ou à sua memória, injustiçou pelo menos três. Aritmeticamente falando, a atribuição de prémios é perniciosa. A situação mais caricata e trágica surge quando o injustiçado é o próprio premiado. Já todos testemunhámos situações destas, que gente cândida, cínica ou simplesmente pragmática se apressa a catalogar como mais um caso de modéstia, falsa modéstia ou demência, respectivamente. Eu vejo estas situações como inevitabilidades da natureza humana. Um homem cresce e, no seu percurso, vai encontrando lentes no chão, que apanha e junta ao binóculo com que espreita o mundo. Por volta dos 25 anos de idade, ninguém vê o mundo da mesma forma. Aquilo que julgo terem sido os minhas melhores acções, o meu trabalho mais conseguido, os outros desprezam. Aquilo que eu vejo como produção medíocre, alguns elogiam. Na faculdade, as piores notas que tirei foram precisamente nas cadeiras que dominava melhor. No ranking das revistas científicas, vou publicando coisas fraquinhas em revistas boas e coisas assim assim em revistas más. É por isso que ainda acho que foi uma ideia avisada, premonitória até, ter arranjado uma medalha para celebrar a vitória numa corrida a que já fiz alusão no Memória. A corrida integrava uma prova combinada, tipo triatlo, não havendo por isso atribuição de medalhas a quem a ganhasse. Mas naquele dia, depois de ter ganho, e com a típica arrogância juvenil, achei-me no direito de ter um prémio. Com algum engenho, consegui obter uma medalha e, em cerimónia à porta fechada, medalhei-me. Anos depois viria a perder aquela medalha, mas, até hoje, continuo a pensar que foi o prémio mais merecido. Tudo o que veio depois ou está para trás foram equívocos.
O nosso Crítico Musical goza já de reputada e merecida projecção na blogosfera. Embora discorde da forma como ele enquadrou uma recente polémica sobre arquitectura, estamos em sintonia quando se trata de repreender os ouvintes menos discretos das salas de concerto, matéria para um dos seus últimos posts. Fiquei tão bem disposto com a prosa que me lembrei de um post antigo que escrevi sobre a mesma tragédia e que agora recupero, com a devida vénia, quebrando uma das regras- "não repetirás posts!"- do código deontológico pardo e tácito que nos rege. Para o crítico, aqui fica então:
"Daniel & Friends?
Ao entrar no auditório Isaac Stern do Carnegie Hall, controlei a plateia do alto do segundo balcão. Estavam lá os melómanos em desalinho, os senhores engravatados, as damas de sociedade e uma ou outra rapariga a merecer uma oftálmica empenhada. Olhei depois para o palco, austero, com o Steinway milimetricamente posicionado no centro. A tábua corrida do soalho provocava uma subtil ilusão óptica que exagerava a solidão do piano. Instalara-se na sala um silêncio que presidia ao burburinho. Esperávamos com alguma impaciência pelo Daniel Barenboim, mas respeitando as convenções. Apressei-me a concluir que um programa com Barenboim a tocar Sonatas de Beethoven impõe algum respeito. Foi um erro crasso…
A meio da primeira parte do recital comecei a perceber tudo. Acabara de cair em mais uma das ratoeiras desta cidade. Barenboim e o Carnegie tinham cedido à tentação da excentricidade. Ainda bem que Beethoven ficou surdo antes de morrer (só por isso não deu hoje voltas no túmulo). O concerto começou muito mal, com duas fífias de Barenboim no primeiro andamento da Sonata número 5. Não é vulgar ouvir concertistas com o calibre de Barenboim a tocarem uma nota errada, mas o incidente seria facilmente esquecido se o meu vizinho não tivesse reagido a cada fífia com um guincho de roedor acossado. Barenboim prosseguiu, imperturbado, mas eu demorei três andamentos a recuperar a concentração. A culpa foi da produção. Não estava preparado para uma versão das Sonatas de Bethoven para piano, ensemble de constipados e origami. A tosse, que roçava a cacofonia durante as pausas entre os andamentos, acompanhava depois o pianista em linhas de uma exuberância rítmica desconcertante, a denotar uma claríssima influência de Stravinsky e Bartok. Xenakis esteve também presente, a espaços (fila 3 A, plateia). Sempre que surgia um compasso em pianissimo, lá vinha um solo em registo barítono-bronquiolar (11K, primeiro balcão), pesado, como uma risada abafada, a contrastar com o registo soprano de coloratura, que aos crescendo de Barenboim sobrepunha sons estridentes, em staccatto (45 C, primeiro balcão) . A orquestração foi sublime e de uma riqueza de timbres a que não terá sido alheio o naipe das madeiras, subtil no ranger de cadeiras e a envolver o Rondo da Sonata Nº 19 numa atmosfera de porão de caravela. É claro que esta descrição ficaria incompleta se não mencionasse o verdadeiro solista da noite, a ombrear com o próprio Barenboim. Refiro-me obviamente ao cavalheiro do lugar 23 M, segundo balcão, um virtuoso dos origami que, com um papelinho de rebuçado entre os dedos, produziu um vasto leque daqueles sons que se instalam na medula espinal e deixam qualquer melómano predisposto a escutar a Sonata Nº11 de Beethoven. Quando ouvi a cadência final para intervalo, respirei de alívio e desabafei: "Se fosse comigo era tolerância zero, meus amigos. Se está engripado, fique em casa".
Foi com enorme alívio que no início da segunda parte, como se uma consciência colectiva tivesse sussurrado palavras repreendedoras ao ouvido de todos, verifiquei que tinham acabado os espirros e os rangidos. O virtuoso do origami ficara também sem rebuçados. Barenboim voltou a ser o único solista e ofereceu-nos uma interpretação arrebatadora da Sonata No 23 em Fá menor, Op 57 ("Appassionata"). A obra-prima salvara-se in extremis. O pianista iniciou a 10 de Junho a maratona pianística que é a integral das sonatas de Beethoven para piano, e toca ainda a 19, 22, 24 e 26 de Junho, no Carnegie Hall, em Nova Iorque.
Ia-me passando ontem, enquanto ouvia o texano. Como seria de esperar num gajo complexo e mesquinho, aqui o Difool conseguiu irritar-se mais com o que o texano não disse do que com as bacoradas que o gajo ia lendo no teleponto. Aquelas enormidades sobre o safe sex is no sex, a lata do gajo a descrever o plano de reformas na política de saúde ou o estado da economia? A ladainha do terror, buuuuuuuuuuú, buuuuuuuú? A entronização em marioneta previsível do iraquiano de serviço? Nada disso. Aceito que o número de stand up comedy com o texano a falar de matemática e iliteracia foi genial. Vejamos, pá, se o texano tivesse o texano como presidente e fossem aplicadas aquelas regras todas, tínhamos hoje, em vez de um presidente, um tractorista a gritar iiiiiiiiiiiiiiiiiiaaá nas curvas. Ouvir um gajo com um ar convicto a impôr agora as regras que o teriam tramado é hilariante. Mas nada disto é matéria nova. O texano sempre nos fez rir. Nada disto justifica incomodar-te, a ti, Durão, e a vós, grandes chefes do comanche geral da GNR, hug. Infelizmente, ninguém pode fazer nada. Um gajo ouve o texano, olha para o calendário eleitoral, analisa as circunstâncias e depois, à beira do desespero, fica a contemplar o cocktail molotov enquanto afaga o cano da G3 e vai murmurando: não... não... Mas? E se... não... não... Naaaaão. Reprimido o impulso, a única coisa que podemos e devemos fazer neste momento, aí da pátria, é protestar veementemente! Sim, portugueses, porque foi grave, repito: "porque foi", sublinho: "porque foi" e realço: "porque foi", grave não ouvir o nome da nossa pátria. Sim, sim, eu sei... Eu sei que vocês sabem que eu sei que vocês queriam que eu soubesse que muitos foram contra o apoio de Portugal à intervenção no Iraque e que, sabendo que eu sei que vocês sabem que eu sei o que vocês queriam que eu soubesse, esperavam não os insultasse com este pedido. Meus amigos... (pausa) Portugueses, o que está aqui em causa são os níveis de (tchân tchân tchañ tchân) AUTO-ESTIMA (pois claro). É preocupante, calamitoso, até, levar uma marretada destas quando a auto-estima está já tão baixa. Subitamente, até os sinais vitais ficam em perigo...
Vamos por partes. Antes de mais, para que isto não pareça um discurso do Sampaio circa 1999 (quando já estava curado dos "pás" mas ainda cultivava um certo hermetismo), de que falamos? Falamos de uma pátria amputada, pá (comigo o tratamento não funcionou). Falamos de uma omissão gravíssima; gravíssima para os oficiais da GNR e para o seu círculo familar restrito, sem esquecer os primos e a bastardagem. Gravíssima, também, para toda a hierarquia da GNR. Falamos de uma omissão que devia preocupar-te a ti, Durão (perdoa-me o tom, mas pintar paredes a dois é daquelas coisas que nunca se esquecem; lembras-te? eu pintava o MR e tu o PP... Agora até parece que foi profecia). E, no princípio e no fim, falamos de uma omissão que incita um povo a levantar-se dos escombros. Como podemos aceitar de ânimo leve que o texano, naquela palhaçada anual que é o State of the Union Adress inumere 15 países, faça uma pausa, refira ainda os dois aliados chave que são a Noruega e El Salvador para, depois, com todo o requinte do cínico calculista, se limite a dizer: "and the 17 other countries..." que foram atrás, talvez para ajudar, talvez na ânsia de ficar com umas migalhas, talvez com medo de represálias, com propósitos altruístas ou não, mas que foram atrás, e têm lá homens em risco de levar um balázio e privados de ouvir um condições um relato do Moscavide SC contra o Oriental, porque a onda média nunca foi grande coisa no médio-oriente. Achei triste. Achei tristíssimo, medíocre e mesquinho. Custava alguma coisa ter perdido mais 1 minuto e 10 segundos (3 segundos para cada um dos 17 países e mais 19 segundos para os engasganços do texano)? Nem sequer têm a desculpa do satélite a passar. Será que Bush é incapaz de pronunciar o nome dos outros 17 países? A omissão do nome de Portugal é, obviamente, a mais grave. Mas digo isto seguindo critérios objectivos, o que já não é tão evidente. Vejamos. O primeiro europeu a chegar à América do Norte não foi um Viking (só por isso, é ridícula a referência à Noruega) como alguns dizem, nem foi um genovês, como todos pensam. O descobridor da América foi um português: Colon, Cristóvão. Reparem: "Ai Cristoooóvão, que te vou às fuuuuuças!", é genuinamente português. Outras evidências há, mais substantivas. Para os interessados, recomendo esta obra. Apenas persiste uma dúvida: terá alguém chegado à América antes de Colon? Em todo o caso, a resposta é irrelevante para o argumento que pretendo urdir, pá, porque este hipotético primeiro descobridor também era português (o facto deste trabalho vir de alguém que tarda em ganhar o reconhecimento merecido é, em si mesmo, um argumento adicional, ou não fosse essa pessoa também um português). Temos pois uma série de argumentos em marioska, a compor uma tese indestrutível. Por outras palavras, a génese dos EUA está a rebentar de lusitaniedade. Como sei que tens o tempo contado, Durão, não me vou alongar muito mais, mas seria trivialíssimo mostrar que na origem de todos os grandes acontecimentos por que passaram os EUA esteve um português, do Thanks Giving à Grande Depressão de 1929. Por isso, urge repor a honra da pátria. E desde já proponho, sem mais demoras, uma resposta na base da reciprocidade (pode ser que a moda pegue) ou ainda pior. Fico à espera, vigilante, a ver de que cepa somos feitos.
Atenciosamente,
John Difool, português e patriota
O melhor entrevistador sem saias do país está de volta à blogosfera. Um homem que num programa sobre cultura e política entrevista os três melhores guitarristas portugueses em actividade, revelando um desprezo raro por inúmeros secretários de estado, merece ser encorajado... Vamos lá ver se é desta que se assume como blogger.
Hoje de manhã emprestei o relógio de pulso a uma colega, ansiosa por cronometrar o seu stress. Nas duas horas seguintes, devo ter olhado para o meu pulso nu umas cinco ou seis vezes. E de cada vez que olhava, parecia que a necessidade ficava safisteita, mesmo na ausência do relógio. Enunciado o paradoxo, será que alguém me pode dizer as horas?
O discreto pulsar do coração foi um acidente de design, que optei por conservar...
Obviamente, os que prestam homenagem à literatura e/ou a produzem. Mas, sobretudo, espaços que não são uma carapaça oca de ironia e conseguem ir escrevendo sobre o que sempre se escreveu, sem que ninguém de bom senso se lembre de lhes pedir explicações. O critério de selecção para estas novas descobertas é pessoal e intransmissível, mas o resultado deve ser partilhado. Aqui vai:
Little Black Spot, Caim e Abel, Tempo Dual, Homem Fumando, A volta de Kafka..., Silêncio e Universos Desfeitos.
Um tio meu, que tem mais alma de construtor que de marinheiro, passou cinco anos enfiado nos estaleiros do Clube Oriental de Lisboa, serrando madeira para um pequeno veleiro, mas pouco tempo depois de colocar o barco na água vendeu-o por tuta e meia e começou a fazer uma casa com as mãos. Felizmente, tive a sorte de velejar algumas vezes naquele barco, cujo nome (Sunshine?) talvez esteja agora a confundir com o de um cão que naquela época por lá ladrava.
Outros amigos mais afortunados, com barco próprio na doca fina de Belém, contavam-me histórias de sexo ao suave balanço da calmaria entre-molhes. Mas eu, apenas sobrinho, com o barco fundeado em duas partes de água salobra e uma parte de óleo, jamais conseguiria levar miúda para a doca do Poço do Bispo que não fosse cega (que feios os batelões), sem olfacto (tanta tinta, tanto desperdício) e pouco exigente no tacto (qual fibra de vidro, se aquilo era madeira e contraplacado; não ficar com uma farpa nas carnes da mão era um dia bem passado). As histórias daquele barco são mesmo histórias de mar. Por exemplo, foi um momento único assistir ao afogamento, indolor e livre de tragédia, do Ribeiro Cristóvão, quando o rádio tombou borda fora depois de um capricho da retranca. Enquanto ia a pique até ao fundo do estuário, o anfíbio Ribeiro continuou a relatar a partida (um Belenenses-Sporting, creio), com um estoicismo a justificar comenda (as injustiças que ficam por resolver...).
Era um barco bojudo, demasiado estável e pesado para gozos de adrenalina, pintado como se fosse um modesto barco de pesca (não há memória de alguma das sessões de pesca ao corrido ter dado peixe), que quando foi estreado parecia já um barco velho (o que se deseja de umas calças de ganga, mas não dos veleiros) e que em três semanas acumulava limos no casco suficientes para remediar um caldo verde para um pelotão de fuzileiros. Et pur, se navegava... Ziguezagueou todo o estuário do Tejo e foi mesmo além do Bugio; uma vez até Cascais, outra até Sesimbra (não há registos credíveis desta viagem, apenas relatos). Ora, se é certo que tal palmarés fica aquém do das caravelas, não deixa de humilhar muitos veleiros topo de gama que com o seu imobilismo poluem o rio e desrespeitam a arte.
Velejar de tarde era experimentar uma luz diferente. A mítica luz de Lisboa imprevisivelmente reflectida, polarizada e refractada pela superfície do Tejo, que lhe modulava ainda a cor com a sua própria cor, a cor que recebera na fracção infinitésima anterior dessa mesma luz. É complicado. Mas é uma imagem nítida e prosaica que permanece: o céu limpo e os reflexos no dorso de uma tainha.
Velejar de noite fazia outros apelos. Quase sempre era ritual apenas para homens. Ora, um miúdo entre homens acaba por ser figurante forçado num processo iniciático não assumido, fruto de um acordo tácito nunca totalmente consciencializado pelos maiores de idade (não é nada disso...). A ajudar, havia sempre algum whisky americano, presente de tios distantes, que chegava regularmente em caixotes recheados de T-shirts dos Boston Red-Socks. O Old Parr era bebido com moderação, nunca se chegando a trocar os bordos, o verde pelo vermelho, mas, de repente, as histórias começavam a saltar para fora mais facilmente, a mão que agarrava o leme relaxava e, honra maior, era a mim que me confiavam o rumo. E enquanto procurava manter o barco na rota certa, imaginando baixios onde só havia escuridão para dez calados, lá ia gozando piadas impróprias para a consoada de Natal. Depois perdia-me pela noite, a tentar perceber os reflexos. Numa dessas noites, a altas horas ainda nos encontrávamos a jusante da ponte. O passeio nocturno, algo forçado e a implicar um telefonema para as mulheres, resultara de um erro de cálculo de quem olhara para a tabela das marés. Apenas com uma leve brisa, Sunshine (admitamos ser esse o nome, mas tendo presente a ressalva) não era barco para ir contra a vazante. Como navegar de Belém ao Poço do Bispo a gasóleo era uma humilhação adicional que não nos convinha, optámos por fundear o barco ao fim da tarde e comer uma mariscada enquanto esperávamos pela enchente, que nos daria boleia para cima. Assim se explica a visão da ponte 25 de Abril, por volta das duas da manhã, precisamente debaixo do tabuleiro e junto a um dos pilares. A noite era memorável, com uma brisa que enfunava a vela grande e a genoa mas pouco fazia pelo barco. Acima de nós, o céu estrelado de Inverno e, um pouco menos acima, as Renault 4L, os Simca e um esporádico BMW a gincanear pela ponte; eram carros emudecidos pela distância que, naquele lugar e àquela hora, sugeriam enredo de copos e corpos. Debaixo de uma ponte daquelas todas as escalas são comprimidas. De noite e no mar, as luzes minúsculas dos grandes cargueiros remetem-nos à nossa própria pequenez. E ali, como o puto do leme, muito antes dos truques retóricos de Carl Sagan, apercebi-me do lugar dos homens no cosmos, pois se a ponte e as luzes falavam do espaço, a garrafa de Old Parr, esquecida ali ao lado, fixava a eternidade permitida nuns míseros 152 anos. Dessa noite sobra ainda um nervoso miudinho, que começou antes mesmo de pisarmos terra firme, por volta das quatro da madrugada.
A manhã de Sábado serve para pôr a vida em dia. Começo por fazer uma referência ao Uns Meridianos, o blogue de Abel e David. Para lá da gravidade que tais nomes próprios impõem, o Abel campos é um profundo conhecedor de Costello e da gastronomia alsaciana. Tem ainda uma prosa cheia de garra. E já me pagou um jantar em Estrasburgo, facto a que o leitor deve permanecer indiferente, mas que ajuda a explicar a forma atabalhoada como, atrasadíssimo, menciono agora o Uns Meridianos. Acredito piamente na redenção.
5. Tauromagia (Manolo Sanlucar)
6. Caminos (Suite Andalouse, Pedro Soler e Renaud Garcia-Fons)
7. Córdoba (soleá) (Vicente Amigo)
8. Rio Ancho (Rumba) (Paco de Lucia e F. Sanchez)
9. Gua 'iras de Lucía (Paco de Lucia e F. Sanchez)
10. Adelita (Francisco Tárrega))
11. Canarios (Gaspar Sanz)
A redacção
Há famílias especiais que ganham a vida em exercícios de equilibrismo, como as famílias do circo. E há depois as famílias que gastam a vida em exercícios de equilibrismo: todas as famílias, dentro e fora do circo.
Está ainda por escrever a história do homem que, ao acordar e até entrar na casa de banho, era um louco em potência. Em frente do espelho iniciava a metamorfose que faria dele um funcionário público afável, em tons de azul. E depois lá ia, ordeiro pelos passeios e a contornar as esquinas em ângulos rectos, saltando os dias e já esquecido das reentrâncias das paredes de tijolo desta cidade, as mesmas que durante os delírios matutinos o punham a fazer de homem-aranha, pleno de humor e com a segurança de quem sabe que tem a dimensão vertical das cidades na palma da mão.
País real Sei hoje que as agências imobiliárias de Lisboa empregam um vasto espectro de gente, diversa na orientação sexual, na etnia, no percurso profissional, na forma como se entrega ao trabalho ou dele se furta, no modo de falar, na compleição física e no mau gosto em escolher fatos. Impressionou-me sobretudo um alentejano cinquentão, sujeito com o avermelhado do rosto e a textura da pele a levantarem a suspeita de que o bagaço há muitos anos destronou a meia-de-leite, e que não devia fazer o que fazia, pois a sua falta de ânimo chegava a ser contagiosa. Lembro-me de ter entrado numa casa da Ajuda e de o ver a olhar para o parquet como quem recorda a planície. Não ficámos lá dentro mais de cinco minutos. Deixei-o, apressado, ao encontro de outro reciclado da vida. Mas sempre que recordo aqueles dias, penso no alentejano; Lisboa fica então encoberta, o dia mais cinzento, e o verde seco da camisola que ele levava começa a confundir-se até à desintegração com o verde das paredes da Ajuda, esse bairro triste, que por volta das 4 da tarde está cheio de bêbados nos cafés.
Racionalizar é preciso... Mas, afinal, o que se quer de um bairro? Que hipocrisia essa de se gozar a decadência nas páginas de um romance lido no conforto de um T3 de uma zona residencial moderna, com faias podadas, kiddergarten e telepizza no rés-do-chão? Então, como é? Se é ficção, diz-se prostituta e aguça-se o cristalino, mas se é vizinha passa logo a puta e sai um esgar de repulsa? E os patamares mal iluminados, aqueles que cheiram a mijo de gato, com o corrimão descascado e o soalho descaído, são coisa para cinema de autor, não é? Bairros de lata, só por cima do cadáver do Ettore Scola, está visto... Isto já para não falar do cosmopolitismo de Lisboa, a evoluir depressa para mais um melting pot (melting pot novaiorquino, entenda-se, a mais conseguida das mentiras urbanas). Pois, pois: chineses, africanos, ucranianos e indianos são bem-vindos, mas também não é preciso abusar da hospitalidade, não é? Um gueto aqui, outro acolá; com esforço e paciência ainda temos chinatown com portas guardadas por dragões (é só divisas a entrar). E com algum investimento, fazemos até o Estrangeiro dos Pobrezinhos (em escala natural, já agora). OK, Ok, vou estancar o cinismo. A verdade é que um propietário, antes mesmo do reconhecimento legal, adopta logo o discurso da classe. Instalo-me nos Anjos e o primeiro pensamento, pleno de arrogância e egoísmo, é: quando é que levam dali a malta da pica? Vamos, Ivan, só mais um esforço. Já conseguiste racionalizar a compra; só falta agora sublimar o impulso.
Olhos no olho, o primeiro encontro face a face que tive no regresso à América foi com uma máquina fotográfica, que me "fichou". Afinal, o big brother é um tipo de fraca figura que até precisa de tripé para pedir meças. Antes do tête à tête convidaram-me a digitalizar as minhas impressões digitais numa máquina pós moderna. Podia vociferar agora contra os porcos imperialistas, mas a coisa não me incomodou muito; foi até rápida, indolor e provavelmente útil. Por regra, as minhas impressões digitais vão pelo ralo da banheira no banho do corpo que amo, gozam de uma ilusão de imortalidade quando mudo o pneu do carro ou recoloco nas rodas dentadas a corrente da bicicleta, perdem-se na multidão das notas de um dólar. Se alguém as quer preservar, que lhes dê bom proveito. Dito isto, é claro que quando o ciclope bonsai me galava pensei em Alcácer do Sal, puxei ao máximo o negro dos olhos e fiz um ar de terrorista.

XL LX O discurso de um patriota é um chorrilho que mentiras, um amontoado de idiossincrasias forjadas por um autista. Mas sempre se salva alguma coisa. A luz de Lisboa, por exemplo. É mesmo verdade.
Nos Anjos Metro a dois minutos a pé e heroína a cinco, a Almirante Reis um pouco acima daquela zona que parece uma avenida da Budapeste de finais dos anos oitenta, um bairro onde nem todos querem morar e a bússola que faltou para adivinhar o sol em dias encobertos. Ainda me lixo.
Na Gare de L´Est regressei ao útero
Não o das arcadas, dos espaços resguardados
E princípio de um fim ou não, carris são carris
Regressei ao útero, pontualmente
O que se espera da ferrovia gaulesa
Mas não de todas as mães.
Época de caça Entro na vida de gente estranha em trânsito para outras vidas. É com algum pudor que passo revista às casas que me querem vender. Não devia conhecer a cor da escova de dentes de alguém que me viu pela primeira vez instantes antes, ao abrir a porta. Mas já que é assim, fique o leitor a saber que há um tipo nos Prazeres que faz negócios na América do Sul e lê agora um livro em castelhano, sobre a arte de bem falar. Tem também um cassete VHS do Elvis Presley. Um casal, ainda na fase ascendente da curva do amor, algures na Estefânia, fotografa-se com bom gosto e ligeira insistência. Ela é bonita, ele cumpre os mínimos; o conjunto resulta, sobretudo a preto e branco. Numa fotografia identifico a torre Eiffel, desfocada e em segundo plano; noutras, mais elementos de Paris. Olho à esquerda e meço a palmo as lombadas de álbuns de banda-desenhada. São seis palmos e um indicador, o que reforça a hipótese da francofilia. Uma edição de bolso da Folio dissipa todas as dúvidas. Começo a perguntar-lhe, de várias maneiras, mas sempre mudo como um busto: "a menina esteve/estiveste em Paris? Sabe/sabes, vivi lá...". Não esclareço a dúvida. Estou agora em Santos e vou ao encontro de uma família com demasiadas avós. Pretendem despachar uma casa exposta a Sul e com vista desafogada, mas paradoxalmente sombria. Desejo-lhes boa sorte. A cara do netinho dominava um quarto, pendurada na parede. Remato a manhã em Campo de Ourique, esse bairro em câmara lenta. No quarto andar, sou ignorado por uma empregada preta que vigia uma panela com água a ferver. Uma menina de quatro anos e olhos imensos agarra-se às minhas pernas e ainda mais incomodado fico ao dar com um quarto cheio de bonecos de pelúcia mas sem uma única janela (que olhos tão sub-aproveitados; por onde andam as assistentes sociais?).
Ser beeeeeeeeeeeeeeeiiiiiiiiiiinnnnnnnfiquiiiiiiiistaaaa É ter na bagageira o farnel, estacionar o carro no parque de estacionamento do centro comercial Colombo e fazer o pic-nic com a família ali mesmo, indoors, para gozar a vista e o ar, tão puro.
E a blogosfera ali tão perto Na passada Terça-feira estive a algumas dezenas de metros de uma previsível concentração de bloggers. No São Luiz decorria o «É a cultura, estúpido!» e eu, à porta, tentava argumentar, mas sem grande chama. Uma rapariga explicava-me que a organização iria respeitar o limite máximo de ocupação da sala. Falou-me até do velho que quase morreu de ataque cardíaco num outro evento, por falta de ar ou coisa parecida. Foi escusado. Eu começara a discussão já vencido. É claro que ela tinha razão. Enquanto outros ainda discutiam, fui-me afastando. Um amigo meu, sujeito pontual e pouco versado nesta coisa dos blogues e dos saraus culturais, aceitara o meu desafio e estava lá dentro. Encontrei-o alguns dias depois e ele fez-me um retrato com olhos virgens de afinidades e embirrações acumuladas. Sem entrar em grandes detalhes, pareceu-lhe que toda aquela gente que pisava o palco era muito inchada. Perguntei-lhe depois pelo número de stand up comedy do Ricardo Araújo Pereira e ele: "Acho que não vi esse gajo. Pensei que todo o espectáculo era uma stand up-comedy, assim em contínuo, percebes? Fartei-me daquilo e saí antes do fim". Descobri a seguir que era capaz de ficar com ar de missionário frustrado.
Sim, no acto mais cobarde esconde-se um herói
O verdadeiro herói tem sempre parte de medroso
O outro, ou é louco ou da ignorância fez coragem
Três trivialidades sobre o medo
Mas não me fales agora de casas assombradas
Não me contes dos monstros que mordem por dentro
A cidade e os seus inúteis monumentos
A estrada que mirra antes de tocar o horizonte
Os camionistas ensonados em contra-mão
Não venhas com o medo entre dois espelhos
Os reflexos que não se anulam mas engrossam
Poupa-me à estafada aritmética do medo
O alastre geométrico (que espelhos e ângulos?)
As metamorfoses e as chatices clínicas
Partamos logo para os medos de estimação
As fobias que nos superam e fascinam
Saltemos a tarântula no precipício às escuras
Explica-me já a agarofobia, mas sem Freud
Será coisa que nasce de fora para dentro?
Um casulo às avessas? Não há quem a alugue?
Só queria dar uma voltinha, mas sem gastar
As metáforas que reservo para o restauro
As rãs, os escorpiões e um certo recurso atlético
Que é o safar dos calcanhares ao 3º ensaio.
Estamos em Janeiro de 2004, mas para quem cresceu a ver no Espaço 1999 a fronteira do tempo, numa altura em que as previsões de Nostradamus ensombravam os planos mas ainda não tinham sido postas a render por Paco Rabanne, 2004 é uma data que não chegou a fazer parte do futuro. Reformulando: estamos em Janeiro. Como convém, depois de olhar para trás, olhamos agora para diante. O Memória promete continuar, a menos que o impulso altruísta que tomou conta de alguns dos meus amigos nos leve também para um país sub-desenvolvido, com tempo de acesso à internet racionado pela escassez de terminais e pelos caprichos de um gerador a carecer de revisão. Gostamos disto e pensamos que está definitivamente arredada a ideia de que o entusiasmo pela blogosfera seria, como as paixões estivais, coisa para definhar em Setembro. Sem mais demoras, eis os 10 trabalhos do Memória, do mais trivial ao menos exequível.
1. Investir tempo em melhoramentos gráficos, porque os olhos também comem. Todas as sugestões serão lidas com atenção e respondidas pessoalmente (porém, dependendo do volume de correspondência, admitimos recorrer aos serviços do rés-do-chão, onde se alinham com disciplina fabril as 100 secretárias empregadas pelo Memória, moças viçosas e cinquentonas experimentadas, na proporção fifty fifty).
2. Aprender a ultrapassar o limiar da energia de activação necessária para colocar imagens e fotografias fiéis à estética (?) deste espaço. Continuamos a desafiar todos os leitores com talento plástico (por nós perdido de modo irreversível ainda antes dos seis anos de idade) a enviar as sobras do trabalho sério para aqui.
3. Recuperar o discurso Difool dos tempos do Pastilhas de Miguel Esteves Cardoso. No Verão de 2002 o John andava contente e mostrava alguma mestria na arte do disparate torrencial, estilo a que nunca conseguiu voltar desde que se instalou no Memória. A errância de Difool por Puerto Rico foi uma fuga, no mínimo cobarde.
4. Enriquecer os links constitutivos com novas categorias que não se esgotem na blogosfera; reforçar a interactividade e perceber que mesmo um mau texto pode e dever ser, apesar de tudo, também um hipertexto.
5. Convencer o Ivan a soltar-se mais e a publicar aqueles poemas que por vezes nos passam pela frente e não chegam ao nosso fã único do Japão.
6. Dar todos os graus de liberdade ao Tulius, para que as suas crónicas se tornem, de uma vez por todas, no braço político do Memória.
7. Transformar dez começos em pelo menos um texto acabado e privilegiar as histórias e os contos, aproveitando as possibilidades do novo template, que, ao enviar as prosas longas para um quarto dos fundos, mantém a coluna principal com a fluidez de posts que se deseja.
8. Reorganizar alguns textos do Memória Inventada I e apresentá-los aqui, se se conseguir disfarçar o narcisismo e evitar títulos óbvios, como O Memória pelo Memória ou A memória do Memória.
9. Cristalizar de uma vez por todas as malhas harmónicas que acompanham o Ivan há alguns anos, gravar as 10 canções da praxe só com guitarra e procurar depois uma cantora com voz de contralto sem estudos líricos, fina figura, boa dicção e sotaque, para tentar umas versões à brit pop, mas com muito remix e sons sacados ao pessoal mais alternativo.
10. Covencer o preguiçoso do Vasco Barreto a arrancar de vez com o Conta Natura, um blogue de biologia que encalhou ainda antes de sair da doca.