dezembro 28, 2003

COLHEITA 2003



Presente... De Janeiro a Maio de 2003 acompanhei o crescimento da blogosfera portuguesa com atenção e alguma competência. Era ponto de honra visitar os blogues novos e dar uma segunda oportunidade a todos os que não me tinham impressionado ao primeiro contacto. Tornou-se depois impossível continuar tal prática. Com a colaboração no Memória fiquei com menos tempo e com uma visão menos imparcial da blogosfera. Comecei a dar preferência a quem vinha ter ao Memória, acumulei alguns vícios e tornei-me mais céptico, ao inverter a noção de que um blogue é interessante até prova em contrário. Assim se explica que ninguém se deve sentir injustiçado com a classificação que se segue. Escrevo de memória, sem reler blgoues ou procurar ler todos os que ignorei. Os 20 ou 30 blogues que acompanho regularmente não são o resultado de um processo sistemático de selecção. Feitas as ressalvas, segue-se o cânone (dentro de cada categoria os blogues partilham o título equitativamente).


Melhor prosa

  • 1bsk
  • , pela elegância quase anacrónica, a inteligência e o uso comedido da ironia.
  • Voz do Deserto
  • , por ser o expoente máximo entre os cultores do post curto.
  • Almocreve das Petas
  • , pela clareza irrepreensível.


  • VASTULEC
  • , onde escreve o melhor talento ficcionista da blogosfera que conheço.

    Mais informativos

  • Beco das Imagens
  • : ilustração
  • 1bsk
  • : cinema.
  • Contra a Corrente
  • : política.
  • Crítico Musical
  • : música erudita.
  • Montanha Mágica
  • : filosofia e literatura.
  • Janela Indiscreta
  • : culturas.
  • Almovreve das Petas
  • : bibliofilia.

    Melhor restauro

  • BlogDeEsquerda
  • , pelos novos colaboradores e novo sangue na guelra.

    Melhor humor:

  • A Causa foi Modificada
  • , do preguiçoso e talentoso Maradona, que assina os únicos textos sobre futebol que ainda consigo ler.

    O Tulius de ouro (ou a arte de maldizer)

  • ThomazCunhal
  • Melhor blogue blogue

  • Dicionário do Diabo
  • , pelo vigor, espectro de interesses e tangentes cuidadas à esfera íntima.

    Maior desilusão


  • Causa Nossa
  • , uma dream team que começou com um texto desastrado de Luís Osório e tem vindo a melhorar à custa do esforço de Vital Moreira, mas que continua a milhas do que se esperaria de tão vasta constelação.

    Confirmação do ano


  • Abrupto
  • , de Pacheco Pereira, um blogger com h grande. Pacheco Pereira foi a primeira personalidade mediática acima dos 40 anos a perceber em que registo se deve escrever na blogosfera. O Abrupto é um fenómeno de popularidade que não se explica apenas pela fama do autor. Há ali um interesse genuíno, um prazer de amador que não deixa o leitor indiferente. Receita para a imortalidade, : se Pacheco Pereira conseguisse escrever com algum humor, o abrupto seria um caso ainda mais sério de popularidade e as presidenciais contariam com mais um candidato...

    Impacto do ano

  • Coluna Infame

  • Abrupto

  • O meu Pipi
  • (link censurado, mas por outros motivos).

    Marketing do ano

  • Bomba Inteligente
  • , um talento na distribuição de flores e bombons com efeitos retroactivos.


  • Homem a Dias
  • , uma chegada tardia mas fulgurante, saudada por quase toda a gente. A ironia é excelente e, registe-se também, a ironia é excelente.


  • Gato Fedorento
  • o blogue oficiosamente não oficial das produções fictícias. A qualidade do humor é extremamente irregular. Receita para a imortalidade: RAP devia escrever mais.

    Ódio de Estimação

  • Flor de obsessão
  • , onde a obsessão pelo ponto final só encontra paralelo na tara do Saraiva pelo parágrafo.

    Então era aqui que o Ivan estava... Tulius, andas por aí?

    PIRÓMANO E CANHOTO q.b.

    Entro nas livrarias de lança-chamas na mão direita. Levo o extintor na mão esquerda.


    DESCONTO DE NATAL

    Tem estofo para teoria peregrina, esta ideia de que a boémia das madrugadas de 26 de Dezembro é alterada por uma urgência de descompressão em quem andou a acumular tensões familiares ao longo de dois ou três dias. A verdade é que, ao passear sozinho pelo Bairro Alto, não pude deixar de reparar no modo sôfrego como os charros eram fumados e a cerveja era bebida. O hipotético desequilíbrio osmótico induzido pela doçaria e pelos enchidos é uma explicação apenas parcial para tamanha ânsia. O desequílibrio é seguramente outro. Sem pretender escrever um parágrafo anticlimático, um Natal de saltimbanco, a cumprir os mínimos familiares e a gerir a agenda só pode mesmo despertar nostalgia, sensação que deixa de ser trivial quando misturada com visões de um futuro possível e quase redentor, ao alcance de quem nele pensa.

    dezembro 22, 2003

    FERMENTO, FADO E FEMME DE MÉNAGE


    Em Manhatan ninguém fala de Portugal. A única referência ubíqua à pátria é a carcaça (“portuguese rolls”). É por isso surpreendente ver a sobrecarga de portugalidade nas salas de cinema: Lúcia Moniz faz de mulher-a-dias em Love Actually (um filme peso-pluma), uma velhota portuguesa emigrante é a protagonista no filme de animação Les Triplettes de Belleville (sobre a busca de um ente querido, uma obsessão dos autores de filmes deste género) e a câmara demora tempo suficiente numa placa onde se lê “Portuguese Club” (em Stuck on you, o último dos irmãos Farrelly, que o leitor pode dispensar). Em Passionada, filme relativamente recente que não cheguei a ver, conta-se ainda a história de uma portuguesa, fadista e viúva de um pescador de New Bedford. Há quem fique incomodado com a imagem dos portugueses nestes filmes. É certo que ninguém gosta de ser reduzido a um estereótipo, mas antes estas representações simplificadas dos emigrantes portugueses ao papel com que a pátria geralmente aparece quando o legado histórico é matéria para filme estrangeiro. Aí, representamos apenas dois papéis, naquilo que é um exemplo gritante de typecasting: maus da fita- a prepotência imperialista, os negreiros, etc – ou referência marginal- a escala desejada, nos filmes sobre a segunda grande guerra, por exemplo. Excluo, por orgulho, as vezes em que Portugal faz de cenário, encenando-se a si próprio ou fazendo de conta que é um qualquer país da América do Sul. Feitas as contas, das figuras portuguesas de ficção imaginadas por estrangeiros, a velhota do The Triplets of Belleville é a mais heróica, tenaz e simpática dos últimos anos. E perante tais atributos, até o buço da senhora devemos tolerar.

    dezembro 21, 2003

    Novos links


    Adicionámos mais alguns links para blogues em português, a saber: Cobra Cuspideira , Rua da Judiaria, Soda Caustica, A Forma do Jazz a Vir, Beco das Imagens, A Lampada Magica, Socioblogue, O Quarto do Pulha, Pensar Enlouquece... e Sem Querer Penso.



    #

    UM RETRO-AURICULAR PARA MOHAMED OU UMA CIMEIRA, JÁ!


    No outro dia tentei explicar que quando entro no elevador do meu prédio sinto que estou no meio de um baralho de cartas. Obviamente, responderam-me com caretas. Fiz notar o verde das paredes e os motivos brancos, abstratos e a sugerir rectângulos do tamanho de um homem. Foi inútil.
    Há uma outra curiosidade associada ao elevador, provavelmente mais interessante. Como em outros prédios de Nova Iorque, é o porteiro a controlar a máquina. O sistema é absurdo. Um tipo entra no elevador e grita para fora o número do andar para onde pretende ir. Explicaram-me que assim era por razões de segurança, mas a justificação não convence ninguém; é muito fácil ir para o andar X e passar depois para o andar Y, usando as escadas do prédio. Só mais tarde percebi que o motivo deve ser outro. Atendendo ao elevado número de judeus que moram no prédio, gente que ao Sábado está sujeita a uma série de proibições, ter um porteiro a controlar o elevador é uma solução conveniente. É claro que faria mais sentido ter este sistema a funcionar apenas ao Sábado, mas aí a explicação oficial ainda faria menos sentido. Ora, eu sou tolerante, mas não gosto de ser enganado. Também não gosto que por equívoco me enviem para o décimo quarto andar dia sim dia não, uma vez que moro no quarto piso. A culpa, como não podia deixar de ser, é do mouco do Mohamed, o porteiro.


    #

    dezembro 20, 2003

    100 temas


    Roubei sem vergonha uma ideia do 1bsk. Aqui, peças do repertório de guitarra clássica e de flamenco substituem filmes e, em vez dos títulos inspirados do Alexandre, descreverei pequenas cenas.

    1. La Última Canción (Agustín Barrios Mangoré):

    um homem avança por um descampado, esmagando flores rasteiras, formigas e tocando ainda em minas fora do prazo de validade a cada 10 passadas. Vem um aguaceiro e o homem queixa-se da sorte.

    2. Berceuse (Leo Brower):

    ao pressentir que estava a chegar ao fim da inteligência, contava encontrar um espaço de nevoeiro, ou um vácuo escuro de temperatura amena e regido pela impoderabilidade. Deparou com uma parede verde, como as que os tenistas usam para bater bolas. Aproximou-se dela, sacou um pau de giz do bolso e pôs-se a desenhar planos para uma catapulta.

    3. Prelúdio I (Heitor Villa-Lobos)


    4. Adios Nonino (Astor Piazolla)

    #

    dezembro 19, 2003

    Paisagens: Jerusalém no rés-do-chão

    Entro no átrio do meu prédio e reparo: à esquerda, o pinheiro de Natal, iluminado; à direita, um chanukah (o candelabro de oito braços) eléctrico, desligado; ao centro, Mohamed, o porteiro, sorrindo sempre.

    #

    CROMOS: O CAÇADOR DE UMBIGOS


    O fulano em questão parece-me ser um tipo com substância, mesmo depois de já o ter visto e ouvido. Concretizando, tem um ar de personagem queirosiana e um risinho irritante. Em tempos fez história em Portugal, a desenhar para um jornal. Agora está aqui e não se tem saído nada mal. Cruzamo-nos em tangentes. Reformulo: eu cruzo-me em secantes e ele em tangentes. Trocado por miúdos, conheço-o mas ele não sabe quem eu sou, apesar de já termos falado. Mostrei-lhe até o meu umbigo.
    (Façamos uma pequena digressão). A comunidade portuguesa em Manhatan tem algumas pretensões. São artistas, cientistas e advogados divididos entre a ambição cosmopolita e o desabafo saudosista. Quando por aqui há uma formação espontânea de portugueses, ficamos reféns de um sentimento de culpa, coisa impensável nos clubes e sociedades recreativas de Newark e da banlieu de Paris, mais acomodadas mas seguramente mais francas. Também já joguei ao fintar o tuga; joguei depois ao topar o tuga e fugir. Com o tempo fui desistindo de ambos os jogos. O primeiro é muito desagradável para quem é fintado; o segundo é demasiado fácil de jogar. Agora gosto de encontrar compatriotas e de estar com eles. Chego a ouvir entrevistas na TSF duas vezes seguidas. Leio demasiadas crónicas de colunistas portugueses . Recebo até a Visão pelo correio, só para ter o prazer de ler uma revista sofrível na casa de banho
    Antes era bom ter conhecidos estrangeiros para compôr as festas. Um australiano valia 15 pontos; um americano loiro valia 10 pontos; um afro-americano valia 20 pontos; um senegalês, 25 pontos; uma japonesa, 30 pontos; um japonês 15 pontos; um israelita, 50 pontos; um palestiniano, obviamente 50 pontos; um indiano 30 pontos; etc. Agora valem todos o mesmo. E entre os poucos amigos que fiz nesta cidade, os portugueses estão em maioria. Como cidadão do mundo sou uma fraude.(Acaba aqui a digressão).
    Enquanto esperava que o fulano me fotografasse o umbigo, experimentei uma certa inveja. Não que me interesse muito pelos umbigos alheios (ou sequer pelo meu, no sentido literal), mas a ingenuidade do projecto e a simplicidade de meios e talento necessários para o desenvolver punha a tónica na ideia. A inveja resultava, assim, da facilidade com que este tipo concretizava boas ideias. Isto devia deixá-lo com imenso tempo para continuar à procura de mais ideias boas. Tal esquema parecia-me ideal. É claro que não lhe perguntei o que queria ele transmitir ao mostrar 100 fotografias digitais de umbigos. Há perguntas que não devem ser feitas aos artistas. Também não lhe fiz perguntas sobre o bigode. Mas com esta mania de não fazer perguntas já deixei escapar muita gente que estava mesmo à mão.


    #

    dezembro 18, 2003

    Paisagens: a sombra de Kubrick

    Às duas da tarde de um dia de Inverno, visto de perfil e em contra-luz, o delgado edifício sede das nações unidas lembra o monólito do 2001, Odisseia no Espaço. Só a seguir me dei conta de todas as implicações que a comparação encerra.

    #

    dezembro 16, 2003

    AGASSI FANTASMA


    Acabei de ver o Agassi no Memória, no rés-do-chão da coluna da esquerda. Fazia publicidade a um perfume, numa fotografia à Sting (aquelas que cortam a cabeça ao nível do escalpe, para que se não tope a careca). Aqui entre nós, eu até gosto do Agassi e qualquer atleta com uma carreira acidentada merece o meu respeito, mas se a publicidade se instala vamos para outro sítio. Os senhores da weblog.com.pt que se desenrasquem depois junto dos anunciantes, quando lhes pedirem que justifiquem a diminuição no tráfego em cerca de 0.00001%. Humpf!

    #

    dezembro 15, 2003

    COMBOIO FANTASMA


    Experimentei um medo curioso na semana passada. Num dos cais da estação de Princeton, a céu aberto e à meia-noite, como convém, tentava sem êxito telefonar a uns amigos que tinham ficado de me vir buscar. Não se via ninguém na estação e tinha nevado o dia todo. O telefone público insistia em não colaborar, quando um comboio irrompe da escuridão. Atrevo-me a dizer que passou a mais de 200 km/h diante de mim com as carruagens às escuras, partindo placas de gelo e rasgando a camada de neve que escondia os carris. . A buzina dopplerizada perdeu-se depois na noite. E quando o polvilhado de neve voltou a assentar, a estação continuava deserta. Senti então o medo de quem teme ser atacado pelas costas a qualquer instante. Nessas alturas costumo pensar em figuras vampirescas, mas certamente por se tratar da estação de Princeton, sempre cheia de estudantes, só alimentei o medo com imagens de filmes americanos de suspense ou terror, quase todos maus, mas que têm por cenário um qualquer campus universitário. Para os psicólogos a explicação deve ser trivial, mas este cuidado em ajustar o enredo que alimentava o medo ao lugar onde estava deixou-me surpreendido e um pouco menos assustado.

    #

    EFEITOS COLATERAIS

    A captura de Saddam é uma boa notícia. Soa a contorcionismo argumentativo discorrer sobre quão infeliz terá sido o "We got him" ou sobre um eventual tiro pela culatra, cuja mecha terá sido acendida com a divulgação das imagens de um ditador transformado em vagabundo. Se alguém tem de comer o chapéu, o melhor é começar a pensar nas especiarias. Que o digam os candidatos democratas à presidência dos EUA. Foi confrangedor ouvi-los ontem. A principal consequência desta captura, e a mais nefasta, é a mais que provável reeleição de Bush. They got it.


    #

    dezembro 13, 2003

    A LUSOFILIA PERDIDA

    Entrar em contacto com uma figura pública que se desconhece é bem mais fácil do que se poderia pensar. O mundo é mesmo um lugar pequeno, se tivermos presente que a probabilidade de se conhecer alguém que conhece alguém que conhece alguém que conhece o nosso desconhecido é elevadíssima. Tudo isto já me foi pacientemente explicado por um amigo que sabe muito de teoria de redes, um rapaz que me assustou ao provar que estou a quatro apertos de mãos de Saddam. Talvez haja aqui um certo exagero. Duvido que com um esquema destes se conseguisse chegar perto do miúdo tibetano que neste preciso momento faz bonecos com o indicador nos vidros embaciados de um mosteiro de Lassa. Mas quando o meio é mais restrito e o alvo é alguém famoso, tudo se simplifica. Há ainda outros mecanismos, que facilitam o processo. Por exemplo, um português no estrangeiro atrai imensos portugueses no estrangeiro. Só isso explica que, de um modo passivo, eu tenha contactado com o Pedro Paixão, o José Luís Peixoto e o Jorge Colombo. Falhei o Cid, mas já me conformei. O mundo é também um lugar cheio de imperfeições.
    Só não consigo ainda aceitar a ideia de que, por minha exclusiva culpa, não conheci o Ricardo Araújo Pereira (RAP). Espero que ele me perdoe por me ter esquecido do que lhe prometera, a propósito de uma vinda dele a Nova Iorque. Uma coisa é certa: jamais me perdoarei. Como conviver com a lembrança de que desprezei o único homem que permanece invicto na blogosfera? Sim, porque RAP tem um currículo digno de Ali, ou será que já nos esquecemos das derrotas que infligiu aos pesos-pesados Pedro Mexia (KO ao terceiro assalto), Nélson de Matos (KO ao segundo assalto), Pacheco Pereira (vitória por falta de comparência), Pedro Rolo Duarte (três vitórias por KO aos cinco segundos do primeiro assalto e uma vitória por auto-KO do adversário) e um honroso empate (técnico) com JPC? Melhores dias virão.


    #

    dezembro 12, 2003

    REGRESSOS


    Do Francisco Lança, nosso colaborador no antigo Memória e autor do Ricardo Chibanga que abancou aqui à esquerda, recebi ontem uma nova ilustração, em jeito de quem diz "presente!". Quando o Difool e o Tulius resolverem picar o ponto, a equipa ficará de novo completa. A ideia era escrever algo para justificar a ilustração (fica para depois).

    #

    IDEIA PARA QUANDO O TEMPO DEIXAR

    Se alguém souber do paradeiro de Nuno Farinha, amigo perdido, colega tresmalhado e o melhor ilustrador de desenho científico que a pátria e arredores produziram, agradeço que invista algum esforço em nos colocar de novo em contacto. Bestas do imaginário, circa 2000 podia ser um projecto com eventual concretização comercial no Natal de 2007, consiga eu espantar o fantasma de Borges e convencer o Nuno a tratar a zoologia que imaginamos tal como desenhou o rinoceronte que espreita, ainda e sempre, de uma prateleira perto de mim.

    #

    dezembro 10, 2003

    SEGREDOS EM TIME SHARING


    Em absoluto, não tenho segredos, mas em absoluto ninguém me conhece. É assim com muita gente. Se se fizesse uma jantarada com muito vinho onde estivessem a família, as mulheres e os amigos, mais aqueles ombros acidentais e as efémeras companhias de algumas conversas bêbadas, sem esquecer a mão cheia de gente anónima com quem troquei desabafos, outros que me ouviram por ossos do ofício, quando via no confessionário uma fantástica máquina recicladora de consciências, e também depois, completando-se o grupo com aqueles seres avisados que, não me conhecendo de lado nenhum e com quem nunca troquei palavra, perceberam certos gestos como revelações, talvez se chegasse a um retrato total. É uma prática impossível e de resto inútil, mas a ser ensaiada de modo aproximado, diz a prudência e o bom senso que se faça depois da minha morte.

    #

    TRÊS CASAMENTOS E UM FUNERAL

    Quando eu casar preparem as latas, rompam em saltos e aos pinotes, cacem moscas com chicotes, tragam ministros e trajem de acrobatas. Em suma, se forem meus amigos, criem qualquer coisa absolutamente ridícula e sejam os bombos da festa, para dar cobertura à minha antecipada e incontornável humilhação pública... Nada disso. Não vou por aí. Respeito o casamento e, até prova em contrário, não vejo nos noivos um par de condenados. Também não pretendo fazer doutrina. O problema em questão é pessoalíssimo. Apercebi-me de que em 3 dos quatro últimos 4 casamentos para que fui convidado vivi alguns dos piores momentos de pura humilhação pública por que tenho passado nesta vida. Sem mais demoras, recuemos no tempo e avancemos depois cronologicamente.

    Algures no Alentejo, 1997.

    Chego sozinho. Entro no casamento como um predador, apesar do fraque. A jogar a meu favor, apenas os fraques dos outros, igualmente ridículos. Controlo os decotes. Em Agosto, a canícula da planície alentejana deixa no ar a fragância do desejo. Distraio-me com os rosas e fico espicaçado por um discreto rego, que nasce e morre em ritmo de diafragma. Algumas tias abanam leques chineses. Há empregados que serpenteiam com tabuleiros de hors d’ouvres. Pergunto se têm alcagoitas mas só me oferecem ovas de salmão. Vou tomando notas mentais para não me esquecer das presas futuras; sei que o vinho tanto nos liberta como nos torna menos criteriosos. Sou um balão de arrogância. Avanço depois para as formalidades. A noiva está lindíssima, exibindo os seus cabelos cacheados, onde brincam os últimos reflexos do crepúsculo. Os olhos, normalmente anormalmente bonitos, têm o brilho normalmente anormal, feito de uma parte de repouso e uma parte de esperança. O vestido assenta-lhe bem, sobretudo quando ela se vira e por momentos reproduz poses maneiristas. Tem também uma elegância cinética insuperável, que afasta todas as lembranças dos cortinados ambulantes, costumeiros nestas cerimónias. Quando sorri para mim derreto-me em décimas de segundo. Lembro-me depois que se trata do casamento do meu melhor amigo, que está mesmo ali ao lado, vestido de noivo e com um mau penteado. Sou o padrinho. Enfim, sou 1/3 de padrinho, o que já é honra de sobra para um amigo tão pouco generoso no tempo e na geografia. Os 2/3 restantes são também amigos. Algumas irrelevâncias depois, encontro-me perfilado ao lado dos noivos, como extremo direito do trio de padrinhos, para quem nos observa da plateia. Nem todos cabem dento da capela. Distraio-me com o exagero de gravatas vermelhas mas logo regresso ao verbo do pároco, incisivo e reverberante. O homem é um orador nato, capaz de rematar a homilia com uma piada arriscada sem acusar baixas no rebanho. Acompanho depois algumas leituras, na tranquilidade de quem ouve e não é chamado a comentar. Mas de súbito, sem que estivesse previsto, as atenções viram-se para os padrinhos. Cravam-nos uma leitura. O primeiro terço de padrinho passa a batata quente ao segundo terço, que num ápice a transfere para mim. Aquilo parecia uma movimentação da linha avançada da selecção de râguebi da Nova Zelândia, tão depressa a palavra do Senhor passou de mão em mão. Só me restava ensaiar a leitura; teria depois tempo de desancar os dois cobardolas que não tinham estado à altura do título que estavam prestes a assumir. Comecei cauteloso. Mas logo dei conta que era uma daquelas leituras interactivas, que incitam a plateia a responder em uníssono acéfalo. Cedi pois à embriaguez da palavra. Apercebi-me que tinha a plateia na mão, dos 7 aos 77 (um avô de78 anos ressonava). Compreendi também a felicidade de Freddy Mercury em Wembley, a dominar 100 000 almas com vocalizos absurdos. Acelerei o ritmo, em crescendo fervoroso. Mal sabia que corria em direcção ao abismo. Em instantes, tinha diante de mim a pior palavra que a nação produziu: “ESPOSO”. Lembro-me como se tivesse sido ontem. O segundo de pausa estendeu-se para lá dos limites normais, enquanto eu hesitava na pronúncia. Tinha passado a vida toda a evitar pronunciar tal palavra, cuja sonoridade me repugna. Tudo me ofende, da forma obscena como os lábios se projectam, à sugestão das duas primeiras sílabas, que é cobardemente resolvida. Pior do que a palavra “esposo” só mesmo “pachacha”, mas “pachacha” é palavrão, o que faz do feio uma qualidade. Como se pronunciar tal palavra em público não fosse castigo suficiente, alguém armadilhara o texto com mestria. A palavra vinha no plural. Os anos de Paris não contam, eu sei; como não é desculpa ouvir gente a dizer “acôrdos” e outros que dizem “acórdos”; e é também irrelevante a já referida repulsa que a palavra me causa. A verdade, nua e crua, é que na cerimónia pronuncio “espôsos”. E antes que pudesse avançar, oiço o que de mais parecido com uma intervenção divina experimentei até hoje. Atrás de mim, implacável, o padre corrigi-me diante todos, ligeiramente irritado e vingativo: “espósos!”. Engulo em seco. Algumas gotas de suor brotam do sovaco esquerdo e começam a escorregar velozes pela pele, como pontas de punhal nas mãos de um sádico. Sinto a angústia do cavaleiro depois de derrubar o primeiro obstáculo, mas concluo a leitura sem acumular mais falhas. Abandono o palco de ombros caídos. Uma última gota de suor ainda galga o relevo das costelas, mas já vai sem ímpeto. O resto da noite não tem grande história. Foi a lenta agonia de um homem que definhava enquanto mantinha a compustura à mesa e procurava ter presentes as regras de etiqueta. Conformara-me com o erro, mas a falha tido sido o catalisador que agigantara outras desilusões. Senti-me impotente, no duplo sentido literal do termo. Senti-me depois ainda pior, possuído por uma impotência sistémica, a toda a extensão do corpo. Desinteressei-me dos decotes e acabei a noite dentro do carro, sozinho como quando chegara, mas como um balão murcho e, para cúmulo dos cúmulos, em sintonia com a Rádio Nostalgia. Nem sequer tive a decência e a esperteza (era excepcional a selecção de vinhos) de me embebedar.

    #

    21 GRAMS

    Desconfio sempre que há um coração a trocar de personagem. Em Todo sobre mi madre Almodóvar escapa in extremis a esse atractor de emoções, dando uma guinada na história com a ida da protagonista para Barcelona. Em 21 grams sucede aquilo que temia: a imposição dos temas fortes, dos personagens fortes, das emoções fortes. Como seria de prever, vem tudo empacotado numa narrativa pseudo-virtuosística e forçada, sem o génio de Godard ou de Tarantino. A crítica acaba aqui, pois reconheço ser a prova viva de uma das teses do filme; aquela em diz que quando morremos perdemos exactamente 21 grama, o peso da alma. Comecei por me sentir mais leve pouco depois que o filme ter começado. Por momentos fiquei incomodado, como se a súbita leveza indicasse que me tinha transformado num cínico e sádico, incapaz de interiorizar o peso das trágicas existências que definhavam à minha frente. Mas notei também, com enorme alívio, que recuperara o peso à saída da sessão. A explicação só pode ser uma. A minha alma, que não pratica o benefício da dúvida nem se verga a compromissos sociais (fui ao cinema com um grupo de amigos), saíra logo após o começo do filme, mas esperava-me pacientemente à porta do cinema. Resistindo à tentação do salto para o corpo desalmado de algum dos tubarões de Wall Street que por ali terão passado, a prova de fidelidade desta pobre alma reconciliou-me com a vida.

    #

    dezembro 09, 2003

    COM UMA LETRINHA APENAS...

    A letra G é pau para toda a obra, senão vejamos: na física, G é a constante de gravitação universal; na psicometria existe um controverso factor G, medida que segundo uns traduz a inteligência global; na música (em inglês) G é a nota sol; o ponto G é uma expressão a que a astronomia e a sexologia recorrem para designar duas coisas completamente distintas... Só me resta agora pedir alguma clemência por não ter censurado este momentoTrivial Pursuit...

    #

    QUANDO BRAQUE ASSINA NO CAMPO DE VISÃO


    De dia, a vista da margem de Queens e Brooklyn banhada pelo East River é dominada por um arranha-céus solitário e por algumas torres de igrejas, que também se destacam do casario rasteiro. De noite, a paisagem fica refém de uns dois ou três anúncios com letras de néon gigantescas. Quando se desce pela marginal do lado Este de Manhattan é difícil descobrir pontos de interesse na paisagem do outro lado, mesmo se, tentando uma inspecção mais minuciosa, recorro às sucessivas pontes para cortar a paisagem em talhões. Aceito que o melhor da marginal do lado de lá é a vista para o lado de cá. Começo depois a inventariar as excepções. Por exemplo, há um quarteirão fantasma na transição de Queens para Brooklyn que me fascina. Já o tinha visto antes, mas só há pouco tempo lhe dei alguma importância, certamente devido a uma conjugação acidental de elementos, que inclui a altura do sol e a minha disposição momentânea. O que aquela paisagem tem de especial é o aglomerado de volumes e a colecção de fachadas, que se ignoram mutuamente. É uma paisagem que se reinventa a todo o momento e que parece fazer das três dimensões do espaço uma tela, só para gozar o capricho de a poder furar ao reintroduzir a profundidade. É a mesma paisagem que absorve tudo o que a circunda, tal é a sobrecarga de pontos de fuga. A mesma paisagem que só tem castanhos e sombras, mas que um pintor amador que a quisesse pintar do outro lado do rio não conseguiria domesticar. E são apenas armazéns abandonados, placas de zinco enferrujadas e janelas sem vidro a abrir para a penumbra. De longe não vejo as seringas que adivinho terem ficado pelo chão e concentro-me nas formas, que continuam a fugir.


    #

    dezembro 08, 2003

    IVY LEAGUE COLLEGES


    No Sábado de manhã meti-me no comboio e fui para os lados de Yale, ao encontro de um colega polaco. Voltei ao fim da noite e meti-me noutro comboio, que me levou até Princeton. Para quem fique com a ideia errada de que tenho uma vida académica muito atarefada, adianto que o almoço de cozinha polaca estava excelente e foi bem regado. Sobre a festa de Princeton realço o sortido de queijos, a circulação constante de substâncias ilícitas e um champagne anónimo que a partir das 3 da manhã comecou a saber bem.

    #

    dezembro 06, 2003

    CAGED


    A famosa peça 4’ 33’’, de John Cage, foi em tempos um manifesto, e passou depois a curiosidade, antes de se perder no caudal das excentricidades subsequentes. Ouvi o relato há muitos anos: um pianista entra em palco, senta-se ao piano, abre o tampo do teclado e fica imóvel durante 4 minutos e 33 segundos, concluindo-se a peça com o fechar do tampo que indicara o princípio da execução. Tive hoje a oportunidade de ouvir a peça (ou ver, se se preferir). Num auditório cheio, a pianista entrou em palco, sentou-se ao piano, abriu o tampo do teclado e ficou imóvel durante 4’ 33’’. A interpretação foi segura e corajosa e não o escrevo com ironia. Tratando-se de um recital colectivo, a cargo da turma de piano da Julliard School, não deixa de revelar algum carácter quem, diante de colegas e do público, abdica de peças mais ortodoxas, que seriam uma ocasião para exibir virtuosismo. Infelizmente, a peça foi precedida por uma outra intitulada Suicide in an airplane. Alguém tivera a ideia de fazer com o encadeamento uma alusão ao 11 de Setembro... Se é certo que algum pudor me impede de discutir as subtilezas que distinguem suícidio de assassínio, bem como de explorar a confusão óbvia (afinal, quem estivéramos a homenagear?), não posso esconder alguma consternação. Tenho a minha dose de minutos de silêncio, cerimónias que respeito escrupulosamente, na inacção e nos pensamentos, procurando que as reflexões que me povoam durante os 60 segundos estejam de acordo com a natureza da homenagem que se presta. Gosto desse tipo de cerimónias, especialmente se estou no local a partilhar com milhares de pessoas um momento de silêncio. Porém, 4’ 33’’ é demasiado tempo... Ou melhor, é muito tempo se se começa contrariado, como foi o caso. Irritou-me aquela usurpação do silêncio que Cage escreveu. Todos os 4’ 33’’podem ser 4 vezes um minuto de silêncio mal contado, menos os 4’ 33’’ do Cage. Curiosamente, durante a execução da peça seria provável lembrar-me do 11 de Setembro, que vivi já aqui e que me marcou também. Bastava que não o tivessem sugerido.

    #

    dezembro 05, 2003

    AGRADECIMENTOS (actualizado)

    Por terem reparado na mudança de endereço e actualizado ou colocado de raiz um link para o Memória (causa próxima) e por algumas outras e variadas razões, aqui fica um agradecimento ao Barnabé, ao BlogDeEsquerda, ao FILHOS DE VIRIATO, ao 100 Nada e ao 1bsk. Aos poucos vamos recuperando momento.
    Como seria de esperar, pecámos por omissão. O agradecimento abrange ainda, entre outros, o generoso crítico musical, o implacavelmente atento aladino do burgo e uma recém-chegada língua viperina.


    #

    IMPULSO SÁDICO

    Passa por mim um rapaz agarrado ao telemóvel, alheado do passeio público e com um volume de voz a lançar suspeitas sobre a qualidade do sinal que a rede disponibiliza. Penso num projecto à medida de um cientista vilão em fase com o tempo que vivemos: um receptor irreversivelmente acoplado ao ouvido esquerdo (para perpetuar o preconceito) que consiga captar todos os sinais, de todas as redes. A vítima ficaria sujeita a uma cacofonia permanente, a todas as horas do dia e da noite. Milhares de conversas escutadas em paralelo, numa massa sonora bárbara, interrompida a espaços por palavras distinguíveis que formariam um discurso quimérico e absurdo. Para fugir a tal destino, o homem emprega-se como condutor de carruagens de uma linha de metro, parte depois para o centro Sahara, torna-se mineiro em regiões remotas. Seriam esforços vãos, pois o homem acabaria sempre presa de alguma rede, qualquer que fosse o lugar. Na verdade, só no dia em que trocasse o T3 por um batiscafo e se afundasse na fossa das Marianas é que encontraria algum repouso. Com alguns ajustes, a história dava para um anúncio publicitário.

    #

    dezembro 02, 2003

    PARIS AQUI


    Tenho com Paris, cidade que me roubou um molar e a inocência, uma relação de ódio e indiferença. Tudo em Paris escorregava permanentemente entre os meus dedos, à excepção das mulheres, claro. Não consegui lidar com o leque de preconceitos que adivinhava nos franceses e demorei a dar-me conta da falácia que alimentava. Com o seu quê de mediocridade, ganhei ódio à cidade, que não tem culpa das minhas fraquezas. Mais tarde domei o ódio com a indiferença. Enfim, enfin. Porém, sem que o consiga explicar, há momentos raros em que me lembro daquela cidade com ternura. Por exemplo, protesto com Nova Iorque por não ter a linha 6 do metro parisiense; em rigor, a linha 6 entre as estações Pasteur e Bir Hakeim. É um percurso de superfície, para fazer ao lusco-fusco, quando a luz do interior das casas já ganhou força e as fachadas ainda têm sombras ténues e azuladas. Um filme vivo de histórias paralelas. Gente pouco dada a cortinas, os franceses mostram tudo, dos podres domésticos aos melhores óleos. E com a carte orange, era uma pechincha. Ivan

    #