agosto 21, 2003

Alentejo orgânico

Alentejo Orgânico

Em carne viva os dedos
Da cal arrancada com as unhas
Desenho arabescos absurdos
Que escorrem em coágulo
Sentira de madrugada
O achigã pela escama
E o peixe rei pela guelra
No riacho que se calcorreia
Sem pudor, apenas arrepio
Nu diante do sobreiro
Fiz pele da cortiça
Ainda a sombra era inteira
E fazia um frio de Natal
De facas ao relento
No porco que gemeu
Ouvi um cisne a cantar
E do sangue que jorrou
Vi o dia a nascer
O Sol então mais alto
Trouxe calor e cigarras
As cegonhas, os cisões
Ao longe o bombardeiro
Era como uma abetarda
E mais perto a abetarda
Parecia um bombardeiro
Só que manso, sem o pique
Que um búteo vigilante
Ensaiava ao rufo do tractor
Fui depois um funâmbulo
Pelos cabos de alta tensão
Em baixo estava a terra
Menos abaixo um manto de pão
Cantando ia, como se fosse muitos
«Esta terra não é minha
Sou eu que te pertenço »
Quem faz espigas das melodias
Merece o meu respeito
Eu gosto do Alentejo
Era a província que trepidava
Quando ia de cabeça encostada
O meu pai guiava
E minha mãe ainda fumava.