junho 19, 2003

As sombras

Eu que gastava os dias
Fazendo nós das sombras
E via o mundo livre de espanto
Pasmei quando te vi
Tocas também nas sombras
Mas com dedos de oleiro
E as sombras um dia serão cacos
Mas são ânforas e estátuas
E foram argila primeiro
Ver-te depois
Foi uma música a crescer
O acorde pesado e estranho
A canção como voo de pássaro
Atar sombras é tudo o que sei
Não tenho jeito de oleiro
Os meus nós desfazem-se de noite
Quando as estátuas quase falam
E as ânforas ganham vinho
Espero o toque dos teus dedos
Se ao cruzar os braços
Foi em nó cego que fiquei
Antes estátua que quase fala
Antes ânfora que te sacie
E depois caco de fina aresta
Já gastei os dias e sobrou
Uma sombra sem paradeiro.