14 dias e o Nepal (4)
Jantámos numa mesa baixa de um restaurante indiano pouco iluminado, o que dava às especiarias uma cor invariavelmente ocre. A galinha ficava a parecer uma peça de caça acabada de assar ao relento e, para lá das mesas do lado, os rostos perdiam-se na escuridão. Era como se estivessemos sozinhos. E sem violinos, nem um tocador de cítara frustrado que a cada quarto de tom ainda pensasse nas palavras de encorajamento que Ravi Shankar um dia lhe disse. Não tenho grande técnica para fazer relatos de viagens exóticas. Segundo as convenções, devia agora discorrer sobre a série de pratos que provámos, impregnar a prosa de aromas e paladares, falar de províncias com nomes acolhedores e descobrir num fonema qualquer uma ligação a Goa e à nossa estafada glória. Mas escrevo de um quarto barato e sem graça, num terceiro andar de kathmandu. Ela dorme numa cama ao lado e ambos acreditamos que assim é por serem os estrados demasiado estreitos. Tenho uma lanterna que ilumina a página e transforma as pregas do lençol numa maquete de deserto ao entardecer. Virei-me de costas para ela, para que a luz não lhe perturbe o sono. Antes passeáramos pelas ruas da cidade, com a tranquilidade tensa de quem se sente excitado pela certeza de ter as montanhas a dois dias de espera e desiludido por ir reparando em silêncio que o toque de mãos, os beijos e o riso não mudaram com a geografia. Sinto-me meio envergonhado, porque não tenho remorsos nem sequer uma tristeza morna. Penso apenas como seria bom se aquele restaurante indiano tivesse folhas de papel em que pudesse ter feito alguns desenhos. Em tempos soube desenhar. Até aos cinco anos fazia uns bonecos fantásticos. Depois estagnei. Vinte anos depois, continuo a desenhar da mesma forma, não por opção deliberada de um artista sério e inconformado em processo de retrogressão, mas por total inépcia. A verdade é que me conforta ir desenhando os meus cavalos e caras de traços arredondados, enquanto lhe sorvo a eloquência. Gostaria de saber falar como ela, com um ritmo complexo e variações de dinâmica rigorosas como as de uma partitura bem escrita. Resta-me ouvir. E desenhar. E no fim, porque tive tempo para pensar, digo qualquer coisa vagamente inteligente mas nunca excessivamente inesperada e parece que tudo fica bem. Geralmente deixo o restaurante sem levar os desenhos e só os assino quando quero gozar comigo na presença de terceiros. Em todo o caso, naquele restaurante não havia papel e agora faz-se tarde. Ponho em prática um método de adormecer que dispensa carneiros e pastilhas. (Kathmandu, madrugada de 27/3/98)
14 dias e o Nepal (3)

Numa rua secundária sentámo-nos num café. Acabara de tirar uma fotografia, reflexo do interesse de um ateu pelos produtos da religião. Com os meus pais aprendi a procurar a igreja da vila antes de entrar na sociedade recreativa para a jogatana de matraquilhos ou bilhar às três tabelas. Falamos de experiências religiosas e constatamos com uma risada mais sarcástica que desesperada que ambos estamos a zero. Nesta altura seria talvez previsível falar do budismo. O budismo é aquela religião que a todos atrai antes de vencermos um certo nível de ignorância.
Com alguma brusquidão, ela despede-se para ir comprar tapetes e eu fico com o caderninho, tentando inventar uma caligrafia que não é a minha, para que possa ler mais tarde o que escrevi. Uso uma esferográfica preta, o que é já uma cedência à caneta de tinta permanente, um luxo que não está ao alcance de um canhoto. E de novo tento relembrar-me de um momento qualquer de iluminação, ou algo menos que isso. E é claro que surgem alguns, sempre ao som da música sacra. Mozart, Pergolesi, Bach, Rossini, pelo menos até ao quarto compasso. Depois começo a distrair-me com o contraponto e a harmonia, as soluções encontradas, a matemática que julgo perceber e lá vou atrás do baixo contínuo, num puro delírio pelas coisas terrenas. Esqueço-me logo das mensagens divinas, dos anjos e das cornetas. De resto, nunca apreciei Telleman. Voltarei ao tema, cuja recorrência aumentará seguramente na razão directa da cota a que nos encontrarmos. Kathmandu está a apenas a uns 2300 m de altitude. Acabo a Saporo. Deixo uma gorjeta generosa. Vou ver agora se a descubro com os tapetes. Não deve ser difícil. Ainda é cedo, isto não é um bazar turco e os tapetes devem ser vermelhos. Com alguma sorte não se lembraram de os embrulhar em papel pardo. Kathmandu 26/3/98
14 dias e o Nepal (2)

Como aqui, de resto. E buzinas fora, sobra tudo o resto. Há momentos em que a paisagem já não importa. Espreita-se para fora como quem olha para dentro. Quanto tempo mais faltará para, de novo, voltar a olhar o mundo ? De repente, encalhamos por aí. Mas isto agora não tem importância nenhuma.
Acordámos com fome. Tomámos banho e eu não fiz a barba. Em frente do espelho surgiu-me mais um daqueles pensamentos de almanaque que me apoquentam como insectos persistentes: “a grandeza de um homem mede-se pelo problema que elege”. E nisto fui invadido por um desejo irreprimível de comer uma sopa exótica. Entrámos num restaurante. Nas paredes vejo fotografias de homens que têm o acrescento de coragem que lhes levou as falanges. Não sei se os admiro. Um homem sem falanges nunca tocará uma buleria, mas o argumento só colheria se todos partilhássemos os mesmos sonhos. Olho agora para ela. Tem um lenço na cabeça, de fundo branco e motivos verde seco, que lhe cobre o cabelo, farto, de reflexos dourados que só eu conheço. Os olhos são enormes e reflectem a vertigem de quem quer devorar o mundo. Está sentada e olha-me como se fosse amanhã. Eu olho-a como se fosse ontem. Há ainda um rapaz, que chega com duas sopas aguadas e que nos olha porque estamos ali. Da sopa não vieram surpresas; nem olhos flutuantes, nem pernas de lagarto. Deixei-me de ilusões. Isto é Katmandu, um desastre urbano corrompido pelo ocidente. Quem quiser um hamburger de Yaque só precisa de 2 dólares
Saímos para a rua. Vemos as montanhas ao longe. É para lá que vamos. Talvez consiga voltar a sonhar nas montanhas. É um desejo ingénuo, mas pelo menos não aderi a nenhuma daquelas seitas estapafúrdias que alastram pelo mundo. O meu problema não é sonhar, mas ter sonhos normais. Se sonhasse acordado o que sonho a dormir, adormecia. Por isso compenso de dia. Nos Olivais via as faias a sair da terra e a subir aos céus, não como as almas mas como foguetões movidos a clorofila. Pelas ruas imaginava bichos estranhos que não apareciam nem sequer na televisão e punha as pessoas a falar dialectos de boximanes. Consegui passar quase sempre por um tipo normal. Basta vestir de forma pouca excêntrica, falar pouco e cuidar da higiene.
Muitos dias depois do primeiro dia (1)
Lugar cativo desde que me tornara fiel da Brasserie de esquina, era naquela cadeira que passava os princípios de serão que forçava por ver como finais de tarde. Como ontem. Já a esperava há vários cinco minutos quando pedi a segunda cerveja. Estava tranquilo. Habituara-me a perdoar-lhe os atrasos, não só por saber inútil o meu eventual descontentamento, mas por também eu ter telhados de vidro. Entretive-me a observar as pessoas que regressavam a suas casas, reparando aqui e ali nos rostos familiares que já associo ao bairro, enquanto pensava que devia fumar, para ter o gozo de acender um cigarro e ver o fumo a subir. A certa altura, tirei do bolso uma esferográfica e um livrinho com páginas grossas de papel de arroz. Comecei a lê-lo, de caneta em punho, rabiscando aqui e ali algumas correcções, a um ritmo tal que quem me visse diria que escrevia sobre páginas virgens. Pascal, o empregado, não pôde deixar de reparar. À sua pergunta, disse-lhe que estava a escrever. Isso via ele, adiantou-me. Disse-lhe então que estava a escrever uma carta de amor. Aí ele soltou uma gargalhada e depois rimos. Até que parou de súbito, aproximou-se mais da mesa e, quase em surdina, disse-me que não devia fazê-lo, revelando-me que as cartas de amor são ridículas, ao que lhe perguntei se ele conhecia um certo poeta. Disse-me que não e apenas respondi que já estava morto. Pascal, dando já ares de se dirigir a outra mesa rematou: « ...Pauvre mec.... Une outre bière, peut-être? ».
Cinco cervejas depois, duas horas depois, depois da ausência dela e das páginas rabiscadas, ganhava o asfalto de bicicleta, gincaneando o traço descontínuo com liberdade excessiva. Cortava sobras de frio perdidas na Primavera, veloz, para lá de ébrio e anestesiado pelo fastio. Tudo me parecia igual, além da rotina. Com a rotina tem-se a noção de período, do hábito que recomeça, o que implica uma certa variação, algo que permita distinguir o princípio do fim do ciclo. Naquela noite não havia nada. Tentara recordar-me da vida nesta cidade e não saíra nada. Tinha uma lembrança vaga, uma amálgama de momentos que sobrepostos se anulavam; aqui e ali, um olhar, um desejo mais forte, um impulso de sexo, um sabor, elementos que não davam corpo ao passado, apenas um esqueleto descarnado, erguido pelos sentidos. Aos anos que aqui morei, que demoram décadas a passar e se recordam em segundos, sobrepunha-se, agigantada, a lembrança de uma viagem única.
Em casa, fazendo do candeeiro de cabeceira vela de aroma adocicado e inventando sombras trémulas num quarto com paredes de terracota, lia agora em voz alta e intimista, à maneira de locutor de programa radiofónico da madrugada :
«Se Richard Burton lesse este livrinho, sorriria de condescendência. O que se segue são impressões imediatas e ingénuas, esquiços desajeitados e colagens sem método. De caderno de bordo têm estas linhas muito pouco, pois a escrita não será diária, apenas adiada. E as impressões clássicas de viagem, como o assombro perante um maciço imponente ou o respeito que a postura altiva de um Brahma inspira, não serão mais do que pretextos para introduzir outra travessia, alheia a bilhetes de avião e passaportes, que passa ao lado do choque de culturas e segue sem acusar os estímulos externos, ou que de imediato os integra como recordações passadas. O convívio com a viagem geográfica é pura conveniência. A conveniência é o tempo; tempo para pensar, para fugir da anestesia da rotina e das obrigações inadiáveis. O risco desta viagem não é o paludismo ou uma má experiência com a altitude, tão só o de chegar a conclusões incómodas ou não chegar a conclusão nenhuma... Mas também os frutos possíveis são bem mais apetecíveis que a paz e alegria das montanhas, a lembrança do exotismo dos rostos, aromas e paladares. Quem sabe se Richard Burton não guardaria outra expressão atrás do sorriso condescendente : um travo de angústia ao reconhecer-se nos primeiros passos de um discípulo, menos capaz mas igualmente determinado a vencer o medo da vertigem das paisagens internas. Ele e os demais que me desculpem, mas não se trata aqui de ser modesto nem original, apenas sincero. Kuwait 22/3/98»
Manhã chegada, o livrinho estava pelo chão e as sombras tinham partido mas ao esticar o braço julguei ter sentido nos dedos paredes de terracota. Paris entrava-me pela janela sem pedir licença. Olhei o livrinho e ganhei um sorriso imbecil, quando os meus olhos ainda pediam sono, o corpo descanso e a cabeça tréguas ou o sonho fantástico que não viera. Há um ano atrás lembrara-me daquele primeiro sonho, agora por terra. Levantei-o do chão e li, agora em silêncio:
Desperto com a cidade. A chuva de ontem limpou o ar e a alvorada revela os primeiros cumes brancos, a Norte, atrás de uma cordilheira despida de neves. Acordo devagar. Invadem-me sons familiares: por todo o lado, o chilreio de pardais que me transporta até às manhãs tranquilas da minha adolescência nos Olivais. Há latidos com um ritmo imprevisível e galos que soam exactamente como os de Ourique no Alentejo. Os outros sons não consigo identificar e o silêncio só o é além do burburinho incessante dos geradores. Esta cidade é um caos que está prestes a começar. Automóveis, motorizadas, triciclos e bicicletas não vão tardar a levantar a poeira que os aguaceiros da madrugada assentaram. Soube ontem que a cacofonia de buzinas em breve será insuportável, as mesmas buzinas que ontem me despertaram de um sonho mau. Decididamente, aquele fora um sonho mau, sem monstros, sangue ou cenas tenebrosas que o tornassem num pesadelo. Um sonho mau, demasiado evidente, sem símbolos nem máscaras.
14 dias e o Nepal
Aproveitando a época estival e depois de constactar que o Difool deve andar demasiado entretido em Puerto Rico, resolvi começar a publicar algumas notas de uma viagem que fiz ao Nepal. Foi já há alguns anos, mas na altura tinha todas as cicatrizes no corpo, as mágoas, as taras e os sonhos que hoje me acompanham. De certa forma, é quase como se tivesse voado ontem para Katmandu.
Uma vinheta
Há algum tempo que tenho vontade de escrever sobre o Riverside Park, um lugar que fez com que tivesse percebido a força do baseball neste país: são centenas de miúdos aos Sábados de manhã, equipados a rigor e com os pais a sonhar à boleia. É também o lugar de um encontro inesperado com o Cotton Club, que persiste. E com o grand danois que cavalga pelos relvados em busca de uma bola de borracha, deixando indiferentes os pescadores negros e os mexicanos que viram e reviram tortilhas nos assadores portáteis. A pedalar para norte, vejo barcos a bombordo e a ponte Washington ao fundo, que abriga um farol de brincar. Em suma, é uma paisagem meritória, digna de figurar em qualquer colecção de postais ilustrados desta cidade. Nunca pensei foi que a paisagem pudesse tomar conta de mim. Há dois dias, quando me virei para Sul, a imaginação disparou. Começo pelo céu, de fazer milagres, com as nuvens a deixar passar o Sol apenas por umas abertas, criando a ilusão dos holofotes celestiais às quatro da tarde. Cá em baixo, um Hudson de prata irrequieta, e tudo o resto meio acinzentado e cheio de reflexos, a pedir filtro para luz polarizada. A língua da ilha estendia-se até ao fim da ténue neblina e os arranha-céus, à esquerda, perdiam-se de vista. Lembrei-me de uma vinheta qualquer, não sei se pelas cores ou pelas formas. O certo é que por momentos tive mesmo de travar pois daí a instantes estaria a pedalar pelos ares. Certas paisagens partilham com os aromas raros da infância a força mobilizadora irresistível, mas não nos transportam de volta ao passado; enviam-nos antes para lugares difícil de cartografar, perdidos no espaço e vagos no tempo. No Domingo passado, era como se a paisagem entrasse por um olho, como matéria-prima e fosse saindo pelo outro, já processada. Como se o olho direito recebesse informações exactas conformes às leis da física e o olho esquerdo, que me parece mais vivido, devolvesse uma paisagem deturpada, que o olho direito voltava então a absorver, com inocência. Foi estranho. Às quatro e meia da tarde, voava rasante ao Husdon, ia fazendo leques de água com os dedos dos pés e sentia a maresia a dilatar-me as narinas.
Tarde e a más horas
Por volta das três da madrugada (a fazer norma do que vejo da minha janela) a cidade atinge um equilíbrio dinâmico com o número de carros que entram a igualar o número de carros que saem. A esta hora ainda não cantam os pássaros (entram às 5 horas e 30 minutos). Não estamos no Inverno e das várias frinchas da rua já não vem o vapor que tanta ajuda dá no momento de furtar mais um cliché. O quarteirão nunca chega a fervilhar como um bazar durante o dia, mas de noite transfigura-se num deserto de candeeiros, semáforos e inúteis passadeiras para peões. Perante a desolação de uma paisagem em que as sombras não se cruzam, quase sinto saudades dos matutinos americanos apressados e dos vagarosos ciclistas mexicanos em contra-mão. Nesta madrugada não vi vagabundos nem ouvi as vozes bêbadas das noites de Sexta-feira. Confirmei que não temos rafeiros e que quase não há gatos. Sobram os ratos, que da janela apenas adivinho (são pequenos e para ver ratazanas é preciso apanhar o metro e chegar a Brooklin). De noite tudo se torna mais claro: é um bairro de gente conformada que vive de fora para dentro (a família como cidadela). A pirâmide etária tem pouco de pirâmide; assemelha-se mais a uma silhueta de mulher de fina cintura ou apertado espartilho. Temos muitas crianças, muitos casais e muitos velhos mas não há gente nova. As ruas não acumulam sinais de crises de adolescência e não há grupos abancados no lancil dos passeios. A um bairro residencial em plena cidade falta sempre o nervo dos subúrbios. Aqui não há tensões sociais: os americanos brancos são servidos pelos mexicanos de bicicleta (a fast food demora a chegar), os japoneses preparam sushi, os coreanos dominam a restauração tex-mex, os afro-americanos colocam as compras de supermercado dentro de sacos de plástico. Um bairro assim deita-se cedo. Até por volta da uma da manhã ainda é possível passar o tempo a descobrir formas na distribuição de janelas iluminadas do prédio que tenho à minha frente (uma espécie de firmamento dinâmico, bem a calhar numa cidade sem estrelas). Porém, depois das duas sei que apenas vou poder contar com o tipo do oitavo andar com a casa mais a Sul (excluo dois apartamentos com a luz azulada do televisor ligado). Ponto final a uma madrugada que não funcionou.
A ponte de Queensboro
De todas as construções que mudam as paisagens, escolho as termiteiras e as barragens dos castores. Das coisas que o homem faz, prefiro as pontes e tolero as torres. Necessariamente altivas, tantas vezes fúteis, subo os degraus das torres armado com a desculpa do fulano famoso que detestava a obra do Eiffel e desfez o aparente flagrante lembrando que só subindo à torre a podia evitar, pois em qualquer outro lugar de Paris seria forçado a vê-la. Sem grande queda para a vertigem e com os olhos saturados das vistas de promontórios, miradouros e montanhas de neves eternas, subir a uma torre só para espraiar o horizonte parece-me um absurdo. Por isso, quanto mais subo mais aprumo o olhar, para que perceba enfim o labirinto das ruas ou o inteligência do plano urbanístico. É claro que tão nobres propósitos logo degeneram no espiar das indiscrições que têm lugar nos terraços, no contar das carecas que despontam no alto das cabeças dos homens altos, na invenção de histórias em que a trajectória de alguém que vestiu uma camisola vermelha se transforma num desafio ao talento narrativo. Mas até esse jogo cansa. Na cidade as pessoas andam depressa e em ângulos rectos, sem hesitações. Às vezes apanho alguém mais aluado, que hesita, deixa cair um embrulho, volta atrás, pergunta as horas duas vezes em menos de cinco minutos. Então sim, dá gozo inventar-lhe uma voz, arriscar um flashback, atirar-lhe com uma paixão quando o semáforo muda de cor. Porém, estes são momentos raros. Já não subo às torres com a inocência de quem pensava ir ganhar o olhar dos pássaros. Lá em cima é estar a meio caminho de nenhum lugar. Sim, uma torre cumpre sempre algum desígnio, nem que seja obedecer apenas à vaidade dos homens. Entendo as torres de menagem e a torre da igreja; aceito até as torres do Trump, tão fálicas quanto monolíticas; e gosto até dos faróis, com aquele sábio equilíbrio de poesia e luminotecnia. Mas prefiro as pontes. Nada supera a união de duas margens. Reconheço que não estou a ser objectivo. Quem escreve pensa que o melhor refrão da música portuguesa pertence aos Jáfumega. Ao contrário das torres, que me chamam para que as perca, prefiro ver as pontes de uma das margens. Isto vai parecer uma pequena perversão, mas não há no corpo da mulher uma forma que ultrapasse em beleza a suave curvatura do tabuleiro de uma ponte. Julgo também que enquanto uma queda na calçada de quem anda pelos andaimes de uma torre em construção é um acidente de trabalho, um mergulho involuntário nas águas tranquilas de um rio depois de uma queda de centenas de metros já é morte para mártir. São opiniões fortes de quem tem todos os dias encontro marcado com a ponte de Queensboro. Não é a ponte mais famosa de Nova Iorque, nem sequer a mais importante. Não atrai turistas nem nunca foi a construção mais alta feita pela homem, como chegou a ser a ponte de Brooklin (de novo a influência nefasta da culto das torres); está até fora da mnemónica que os guias turísticos ensinam a quem quer decorar o nome das pontes: BMW, para Brooklin, Manhatan e Williamburg. Ainda bem. Fica a ser a nossa ponte, da gente de Queens e da gente do Upper East Side, malta algo imiscível, mas unida por uma ponte. A ponte tem dois tabuleiros e uma renda de ferro que parece simultaneamente sustentá-la e aprisioná-la com uma chave que não consta dos manuais de luta greco-romana. É uma malha apertada e pesada, a deixar a ponte bem longe da sofisticação de outras obras mais recentes, que escaparam ilesas aos entraves da engenharia e são ainda cópias fiéis dos esquissos do autor, livres e sonhadores. Paciência. A verdade é que a ponte tem uma certa elegância e ganha com uma escolha criteriosa do ângulo de observação. Fica também muito bem na paisagem, a todas as estações do ano e a todas as horas do dia. Em resumo, pode não ser uma ponte bonita, mas é uma ponte com carisma. De resto, parece que não sou o único a gostar dela. Num dos cartazes mais famosos de promoção do Manhatan de Woody Allen percebe-se que o filme conta com um elenco razoável e uma ponte magnífica.
As entranhas da minha rua
Como todos os miúdos do meu tempo, também eu queria ser bombeiro. Até hoje convivi pacificamente com tal desejo, que via como parte de uma infância bem cumprida. Mas esta tarde, enquanto almoçava e ia reparando nas obras de reparação de um cano de água que rebentou na minha rua, experimentei uma sensação anacrónica. Pareceu-me óbvio que só quer ser bombeiro quem nunca viu uma retro-escavadora a trabalhar. Não há melhor manifestação de força, técnica e engenho. O artrópode gigante escavou o asfalto com a facilidade de uma colher a quebrar a película de chocolate de um bolo de encomenda. Em alguns minutos tinha aberto um burado do tamanho de uma cave. Ergueu depois um cano enorme, dentro do qual um skater anão talvez fosse feliz. Encostando a pá no topo de uns tarolos, enterrou-os bem fundo num gesto firme e lento (ocorreu-me que o uso da expressão "força tranquila" teria sido aqui bem mais pertinente). A salvo de derrocadas, puderam assim os trabalhadores descer à cova para continuar a reparação. Um homem saíu então da retro-escavadora e, embora parecesse um troglobita, olhei para ele daquele ângulo que reservamos para os heróis. E com o artrópode amarelo finalmente a repousar, ainda apoiado nos braços laterais que durante o esforço o equilibram, tentei perceber se esta súbita sensação de ter vivido toda a infância enganado fazia algum sentido. Conclui que foi melhor assim. Afinal, eu nunca quisera ser bombeiro e limitara-me a desempenhar o meu papel de criança. Porém, se tivesse visto esta retro-escavadora aos cinco anos, não saberia responder pelo meu futuro. E ainda que as coisas tivessem corrido de feição e o troglodita agora fosse eu, não será melhor ter um herói do que ser o herói de outros? Sei que a razão está comigo, mas por agora a vontade ainda é rebentar com o asfalto da minha rua a golpe de retro-escavadora até que fique com as entranhas ao luar.
Paisagens de NY
Desde que cheguei aqui, tenho ficado muitas vezes a ver navios. E não me canso. A minha janela abre sobre o East River e esta é uma vista que tão cedo não será corrompida pelo postal ilustrado. Falta-lhe beleza convencional e é preciso aprender a gostar dela, ver como lhe assentam as estações. Se não fosse a circunstância de ser a minha vista, não lhe daria importância. Hoje gosto do que vejo como quem descobriu algum encanto num rosto banal trazido pela rotina. A paisagem é futurista, mas à imagem daquele futuro da arquitectura que surgiu em meados do século passado e não há forma de deixar de estar sempre uns anos à frente. É uma Brasília a ir ao fundo, com um enquadramento estranho de duas pontes. Já a vi de noite, de madrugada, durante as manhãs ventosas, nos finais de tarde pacíficos e, claro, ao crepúsculo. Já a vi a todas as horas do dia e a quase todas as horas da noite, com a persistência de um Monet e sem o talento do pintor. Os batelões, quando passam, de tão carregados agitam o fantasma de Arquimedes, ou não lançassem suspeita sobre o Eureka velho de mais de dois mil anos. Os veleiros dilatam as pupilas do Daniel, que também espreita da janela, deixando-o a pensar "eu devia era ter tirado a especialidade..." . Ontem vi um autista em braçadas lentas, embalado pela corrente. Hoje foi um galeão de velas enfunadas que desceu o rio. Amanhã as pontes ainda estarão ali· ao fundo mas não sei o que trarão as marés e a correnteza. É que entre a foz e a nascente, olha-se para um rio e é sempre presente. Pelo menos parece.
A negra encanta
Para minha grande pena, os ruídos deste laboratório não fazem justiça à imagem do laboratório imposta pelo genérico de uns desenhos animados que a minha geração consumia em doses diárias nos anos setenta. Quase nada aqui soa a laboratório. Não temos retortas, nem líquidos em persistente ebulição. No preciso momento em que escrevo, os ruídos são subprodutos degenerados da electricidade, como o ronronar dos congeladores e o zumbido de uma lâmpada fluorescente mal atarraxada; ou então são demasiado modernos e incaracterísticos, como os avisos sonoros de floresta tropical no computador de alguém a precisar de férias. E teria preferido nem sequer mencionar o meu colega grego, que grita em grego agarrado ao telefone. Mas há uma hora do dia em que o laboratório, fugindo de ser laboratório, transcende-se na acústica. É preciso chegar muito cedo. Então, sem grego à vista, concentro-me no burburinho das máquinas, que vem de todos os lados, quase sem harmonia; são coxos os acordes e pouco temperados os intervalos. Adivinho uma evasão de entropia pelos corredores. Fico atento aos acidentes. O erlenmeyer sujo que flutuou a noite toda numa tina com lixívia resolve ir ao fundo; sai um som redondo. O plástico do encosto da cadeira cede ao meu espreguiçar. A borracha dos ténis guincha baixinho no oleado. São sons que não ficam para a história. Olho depois a paisagem amordaçada pelos vidros duplos; a fila de carros ordeiros, as copas agitadas, o plano de água do East River com os seus baixíssimos relevos feitos por ventos e remoinhos. Tudo lá fora está em silêncio. E tudo cá dentro está à espera. Mais uma vez, ela não me desilude. É pontual como kant. E canta. A negra começa a encantar quando ainda não se vê. A voz precede-a, a 340 metro por segundo e com enorme competência no dobrar das esquinas. Canta sempre espirituais, mas julgo que na mesma semana não chega a repetir um tema. E logo vem a imagem dos campos de algodão que só conheço dos livros e da televisão. E tudo faz sentido. A começar, porque é negra (sim, preta, não me lixem) e porque canta enquanto mergulha os braços na tina com lixívia. Mas, logo depois, apenas por cantar maravilhosamente bem. Deixo de pensar nos campos de algodão. A senhora deve ser de Queens. Não tem um vozeirão. Ou talvez tenha, mas então canta em surdina. E enquanto canta e resgata os erlenmeyers, reparo que tem uma peruca de cabelos lisos e um rosto que fica bem com a canção. É já uma velha. Na Europa estaria reformada, a cantar lenga-lengas junto de um aquecedor a óleo. Aqui canta para objectos inanimados e ocasionais madrugadores. Mas é provável que brilhe aos Domingos. Só uma vez meti conversa. Elogiei-lhe a voz e ela devolveu-me um sorriso de menina envergonhada. Foi há muito tempo e nunca mais voltámos a falar. A rotina cumpre-se com ela a cantar e eu calado; não há lugar para saudações. Fico a ouvi-la na sala durante uns minutos, até ela partir com o carrinho cheio de loiça por esterilizar. A sua voz escoa-se depois em decrescendo geográfico. Então sou eu quem arregassa as mangas e se prepara para atacar o dia, já tomado por outra voz, distante e quase indistinta, que canta também: Bal... Bal... Baltazar(1). Este momento morre quando me precipito num daqueles sorrisinhos idiotas à actor de telefilme. E a imagem do grego ao fundo do corredor, de caixa torácica impressionante e telemóvel armado, não augura nada de bom. (1) início da canção dos tais desenhos animados, que nos anos 70 passavam na RTP.
Dois loucos
Este ano cruzei-me poucas vezes com o maluquinho do Upper East Side, um travesti que corre pelas avenidas quando o temperatura começa a ficar amena, mas que aparenta demasiado rimel na cara e gordura nas coxas para que alguém o leve a sério como fundista. É uma figura patética, quase televisiva. E é praticamente o único maluco público do bairro, se aceitar excluir dois ou três vagabundos por falta de provas dadas no que respeita à demência. Sobre a loucura que se esconde atrás das persianas nada posso adiantar. O maluco público parece ser um indivíduo extremamente territorial e solitário, embora a memória dos que o rodeiam ajude a vincar ainda mais as fronteiras e a exclusão. Afinal, de cada lugar recordamos apenas o maluco mais louco. O maluquinho da aldeia, por exemplo, resultado de acasos que o endocruzamento e o isolamento tornam menos raros, domina sozinho a praceta e as ruelas adjacentes. Não tem parceiros de dominó e fala para a lua. Uma aldeia não aguenta 5 loucos, pois um só chega para esgotar a caridade das gentes. O mesmo se passa nos bairros urbanos. Nos Olivais havia um caçador-recolector de tabaco, que percorria as calçadas a pedir cigarros e apanhar beatas. Era um homem de biografia incerta, inofensivo mas asustador, porque lembrava Rasputine. Ganhara o estatuto de maluco do bairro, fazendo esquecer um vasto leque de figuras secundárias, das quais agora apenas recordo, com algum esforço, o paraquedista de barriga transbordante e olhar vago, que fazia a carreira do 21 todos os dias só para se poder encostar às raparigas. Vem tudo isto a propósito de mais um encontro furtuito que acabo de ter com outro louco do Upper East Side. Este distingue-se do travesti em tudo. Não corre e é até invulgarmente vagaroso. Não é espalhafatoso, tem antes um misto de autismo e timidez que o anulam nos corredores. Desloca-se encostado às paredes e demora uma eternidade para contornar uma esquina. Anda geralmente com imensa papelada entalada entre um dos braços e o corpo. Às vezes fica largos minutos a olhar para coisas que não despertariam interesse ao mais excêntrico dos fotógrafos. É muito alto, com um sotaque que podia ser romeno. Curiosamente, há algo de vampiresco no personagem, pois anda sempre a deambular a altas horas da noite. O travesti é o maluquinho do bairro, mas o rapaz que agora descrevo não tem queda para louco do campus da universidade. Não tem a alegria tonta que se desejaria. Olho para ele e apetece-me devorar um calhamaço de psiquiatria. Olho para ele e assusto-me um pouco, porque é um louco consciente e amargurado, quando no estreito corredor me passa ao lado. Também por isso, quando ele nos passa ao lado vamos todos passando-lhe ao largo
Poppe
Falo do Poppe. Da pop? Não, do Poppe, com p grande. Popper? Não, apenas Poppe. Um tipo que diz poesia, escreve poesia, vive para a poesia e não vive da poesia porque ninguém vive da poesia. O Poppe não é transpiração, todo ele é inspiração. Nunca li um poema dele, mas repito que o Poppe é só inspiração. Podia também dizer que todo o Poppe é expiração. Numa palavra: respira poesia. É o verbo certo. O homem funciona sem tempos fracos e reinventou o diafragma. A métrica do poema ressente-se um pouco, mas não ouvi ninguém refilar. Poppe também repete versos, como se apalpasse o poema antes de decidir avançar. Disse-me ele que é uma forma de sentir o ritmo da poesia, o que foi um esclarecimento inútil pois já me tinha convencido que aquilo não era falta de memória. O Poppe não tem brancas e se as tivesse improvisaria. Naquelas noites que têm muitas noites, e depois da primeira, rumámos para um bar que tinha uma banda a tocar. Fizemos as coisas que se fazem nos bares, mas o Poppe parecia pairar como um abutre em torno dos músicos. No intervalo do gig percebi tudo: era fome de microfone. O Poppe apanhou um micro a jeito e de olhos fechados mostrou-nos que um poema é também um acordeão. Com a voz entaramelada, o português tornou-se ainda mais estranho para os ouvidos virgens da RDP. Não fora pelas oscilações rítmicas e seria uma ladainha. Neste momento convém referir que o Poppe estava nas últimas, depois da sessão de poesia que tinha organizado no Bowery Poets Club. Sem cair no ridículo, o Poppe conseguiu resgatar aquela noite do esquecimento a que estão condenados os serões de Segunda-feira. Por outras palavras, o evento foi um sucesso. Poppe fez de mestre de cerimónias e apresentou americanos raros, que estudam a nossa língua. Lá os fomos ouvindo, às vezes com aquele fascínio pelas coisas circenses, outras vezes genuinamente comovidos e só algumas vezes a agrafar os lábios com os dentes para que não saísse uma risada comprometedora. A verdade é que, se já quase tinha esquecido a americana gordinha que lançava poemas dentro de garrafas como se o Atlântico fosse um charco, lembro-me ainda da coragem daquela malta, falando um português sofrível mas dando o que tinham e não podiam ter para terminar um poema de Pessoa. O bizarro da situação de os ter a pisar o meu território, quando quase sempre sucede o contrário, teria bastado para ganhar a noite, mas houve muito mais que isso. O Poppe esteve bem. Declamou inúmeras poesias, com aquele misto de à vontade e atrapalhação de quem não preparou muito bem as coisas, mas tem infinitos versos na cabeça. E nele os versos estão sempre a querer sair… Como naquele dia em minha casa, cheia de gente satisfeita (o jantar estava bom), quando me desafiou para que começasse a tocar. E então lá peguei na guitarra, a pensar no desastre que tudo aquilo ia ser. Comecei a tricotar um ensopado harmónico e o Poppe, com os dedos também a mexer, arrancou um Herberto Helder que não soava nada mal em Mi menor. Apressado, falou de casas como quem fala da sua alma,/entre um incêndio,/junto ao modelo das searas,/na aprendizagem da paciência de vê-las erguer/e morrer com um pouco, um pouco. Creio que não houve fusão, pois eu não tenho unhas nem recursos para acompanhar o Poppe. E ninguém nos ligou nenhuma importância. Mas o Poppe é um verdadeiro artista e o verdadeiro artista é aquele que não precisa de público. Sem ser arrogante ou lunático, parece ficar sempre com a satisfação de um dever cumprido, pouco lhe importando o que os outros pensam. Quando me lembro do Poppe, ele está a dançar sozinho no palco do Bowery Poets Club, de olhos fechados e braços abertos, ao som de Elis Regina. Foi essa a forma que escolhera para rematar a sessão, não me perguntem porquê...Ivan
Masilami
Avisado por um amigo que é um fino observador da condição humana e acumula um vastíssimo currículo de interacções com elementos ainda jovens (mas já dentro do prazo, esclareça-se) do sexo feminino, tenho vindo a confirmar um certo declínio da língua inglesa falada pelas jovens americanas. Não sou grande apreciador de rap e ao fim de duas horas a ouvir Beastie Boys quase adormecia no estádio dos Giants, mas reconheço mérito em algumas letras. Com raras excepções, prefiro ler rap a ter que escutá-lo. Se esse é um legado dos bairros desfavorecidos que convém preservar, o contributo das meninas da classe média americana coloca-nos perante o desafio oposto. A questão é complexa. Em primeiro lugar, as americanas falam sempre uns 10 decibel acima do comum dos mortais. De início ainda as ouvia com algum desportivismo e lembrava-me de uma cena hilariante no incontornável Spinal Tap (a discussão sobre a idiossincrasia do amplificador do guitarrista, que tinha uma escala que ia até 11 ao contrário dos amplificadores de outras bandas, que ficavam no 10). Porém, rapidamente se tornou insuportável escutá-las. Elas começam a falar e eu imagino-me dentro da minúscula nave que no Fantastic voyage percorre o corpo humano, a ser açoitado por todos os lados e condenado a perecer numa laringe cavernosa. Em segundo lugar, estas meninas são excessivamente expressivas e abusam do rosto. Para gáudio dos cirurgiões plásticos, de seringa de botox na mão, já a gotejar, as raparigas desvalorizam o sorriso e fazem inúmeras caretas. A causa deste overacting permanente é o discurso directo. As americanas só sabem narrar uma história na forma de diálogo. Recorrendo ao "he(she) goes like…", fazem as vozes todas. A frequência com que a palavra "like" aparece é, deste modo, um óptimo indicador do grau de degenerescência do discurso. Não me preocupa muito saber que Shakespeare escrevia manejando 4000 vocábulos e o cidadão comum apenas recorre a 400, mas a morte da narrativa oral entristece-me. É por isso que gosto tanto de ouvir a Masalanami. Indiana, Masalanami distingue-se das indígenas muito para além da cor da pele. O inglês dela é um autêntico bálsamo para o espírito. Tem vinte e poucos anos, mas a India deu-lhe o domínio de cinco línguas, permitindo-lhe tirar partido da sólida formação que recebeu num colégio indiano ao velho estilo britânico. Não espanta pois que o inglês de Masalanami seja melhor que o inglês dos ingleses. Ela gosta tanto de falar e eu gosto tanto de a ouvir, que às vezes, perante uma tarefa rotineira que só convida à preguiça, peço-lhe que venha ter comigo e comece a falar, sobre qualquer coisa. Então, enquanto o meu corpo brinca aos robots, a mente diverte-se um pouco. Quado era miúdo, uma velhinha contava-me histórias ao lado de um fogão de lenha. Agora é a Masalanami quem me entretém ao lado de um bico de Busen. No fundo, estamos sempre a tentar fazer o que já fazíamos antes. Ivan
O velho que lê revistas de pornografia
Produto híbrido do cruzamento de um voyeurismo camuflado com o costumeiro pragmatismo americano, o museu do sexo aqui do burgo é patético. Senti-o quando reparei na pose dos quatro ou cinco homens que comigo seguiam o vídeo de uma Vanessa del Rio em pleno acto de tripla penetração: todos estavam de pé, tinham óculos, pinta de Wim Wenders e apoiavam o queixo na palma da mão do braço que a outra mão segurava pelo cotovelo. Só de relance, a imagem daquela gente reabilitou todas as recordações antes censuradas das tardes de pornografia alemã com a malta do bairro. Éramos putos (o que agora soa a tirada de burguês cinquentão e ex-maoísta, mas é meramente factual). Desde então o meu contacto com a pornografia tem sido algo tangencial. É claro que inspecciono sempre os cartazes dos Olímpia deste mundo, mas escolho depois outro cinema, como antes optava pelo Bruce Lee que passava no Éden. É uma espécie de reflexo atávico que ficou do tempo em que as calças de ganga ainda tinham algo de imaculado, incompatível com uma mancha de esperma alheio que tivesse sobrado da sessão anterior. A pornografia parece despertar apenas reacções extremadas- a censura completa (misturada com vergonha ou indignação) ou a defesa acérrima- mas a minha opinião é algo pífia: em doses moderadas, como quase tudo na vida, não faz mal nenhum. Quando se abusa dela, torna-se uma grande chatice. Como em tantos outros grupos, também constatei que cabia ao amigo mais inteligente e eloquente a apologia da pornografia. Gostava de o ouvir, mas da mesma forma que aprecio a defesa de um caso difícil. Os filmes pornográficos não primam pela invenção narrativa e a banalização do sexo diminui-lhe o interesse. Mais fazem as beatas pela continuação da indústria pornográfica do que os libertinos exaltados. Para mais, entre as mentes permeáveis, desconhecedoras dos rigorosos critérios de selecção da indústria pornográfica e de que quase todos os parâmetros antropométricos obedecem a uma distribuição gaussiana, uma colagem excessiva ao universo da pornografia pode ser fonte de grandes frustrações. Vem tudo isto a propósito de um fulano aqui do quarteirão. Em rigor, desde a última Quinta-Feira, do fulano só restam as cinzas dele e as lembranças nossas. Trabalhava numa Deli, algo que se define grosseiramente como uma mercearia de bairro. Os indianos e os paquistaneses dominam o negócio das Deli, que aqui são também “lojas de conveniência”. Este tipo já era velhote quando o conheci e estava sempre a ler pornografia. Ao balcão, o velho cobria as revistas com a edição diária do New york Post. Foi preciso esperar umas três semanas de visita quase diária à Deli para que eu ganhasse coragem e soltasse a piada que tinha engatada desde que topara o esquema dele: “Sabe, devia usar a revista para esconder esse jornal e não o contrário...” Uma piada armazenada é um produto bem mais perecível do que qualquer enlatado, mas a verdade é que o homem riu em abundância. Reparei então que parecia a negação de um coelho: faltavam-lhe os incisivos. É claro que não lhe disse nada. Enquanto a piada ainda ressoava, fui metendo conversa. A ideia que faço da Índia peca por escassez de referências: algumas leituras avulsas, muitos preconceitos e 5 horas no aeroporto de Nova Deli, com o medo dos mosquitos, ao ponto de fazer da roupa uma trincheira e deixar a descoberto apenas os olhos, que lá iam seguindo os telediscos do melhor da pop indiana. (continua) Ivan
Os Nobel no elevador
Quando subo com eles no elevador, até chegar ao quarto andar penso em algo de fundamental para dizer. Nunca sai nada. Às vezes lembro-me das perguntas menos elegantes: “o que fez ao milhão?”, “mas a ideia foi mesmo sua?”, “acha que merecia ter ganho?”. Outras vezes apetece-me perguntar-lhes sobre o momento da descoberta e o instante da sua percepção, aqueles 4 ou 5 segundos que justificam uma carreira. Invariavelmente, fico só a olhar com discrição para eles. Respiram como toda a gente, têm o rosto vincado por rugas. Não procuro nenhum traço característico. Que raio, a frenologia foi desmascarada a tempo e contaram-me já um número suficiente de anedotas para saber que também eles têm ausências de inteligência. Um Nobel é um tipo provavelmente esperto e capaz, que teve sorte. Esta definição, algo desencantada, pode levantar a suspeita de um certo ressentimento premeditado. Não comento. É impossível ter um discurso lúcido sobre um prémio Nobel. O premiado vive nas nuvens, levita sobre o mundo com o ego transformado em zeppelin ou desfaz-se em exercícios de genuína ou falsa imodéstia. Os colegas distribuem-se por um espectro que vai da inveja verde à admiração mais babada. Há uns faróis de lucidez no meio do caos de opiniões que um Nobel suscita. Por agora, assinalo que um dos Nobel que sobe comigo no elevador tem uma cabeleira de um branco imaculado e o outro tem cara de vilão e passeia-se com um cão sublime.
Bob
Bob não publicou um único artigo nos últimos 7 anos. A acreditar na regra académica do publish or perish, para morto-vivo o meu companheiro Bob até está com muito bom aspecto. Não publicar nada em 7 anos é uma pequena catástrofe pessoal. Não sendo ele mentecapto nem preguiçoso, é difícil acreditar em tanto azar. A verdade é que as carreiras científicas se fazem muito à custa de faro político e de alguma sorte. O talento e a persistência também contam e acabam sempre por fazer a diferença, mas no caso presente não pretendo relativizar o sucesso dos outros. Trata-se apenas de enquadrar o fracasso de Bob. Não sei se Bob é talentoso. Confirmo a sua garra. Sei que gosta de beber cerveja, que tem uma colecção de T-shirts que seria invejável se os tira-nódoas funcionassem realmente. Sei que não tem aquilo a que se convencionou chamar "vida pessoal", conceito de definição escorregadia mas que passa por ter uma companhia em casa (recebendo-se ainda bonificações por cada filho que se fez e uma menção honrosa por cada cão que se alimenta) e actividades extra-laborais, como praticar desporto ou participar em cursos de pintura. Ficar em casa a ver televisão é uma actividade extra-laboral penalizada e ficar em casa a ler é um passatempo ignorado. Investir horas a cuidar da avó doente desperta alguma simpatia e nenhuma inveja, pelo que não dá direito a muitos pontos. No fundo, a "vida pessoal" é a vida que cada um sonha para si próprio. Recorrendo a estes critérios, Bob é o típico loser. Como não é muito atraente, não tem muito dinheiro nem uma carreira promissora, dificilmente arranjará namorada em Manhattan. A solidão leva-o a trabalhar mas, como a frustração não é boa conselheira, facilmente se entra numa espiral de derrocadas. Esta é a versão corrente sobre a vida de Bob. É claro que sobre este assunto ninguém se lembrou de consultar o visado.
Bruce
O porteiro é um homem avariado. Ninguém tem paciência para o aturar, mas ele gosta de mim e costumo dar-lhe 15 minutos de atenção, aos Domingos, com um pé no elevador e o outro ainda no patamar. Que se lixem os vizinhos. A avaria de Bruce é sistémica e tem causas múltiplas. Segundo o próprio: ter fumado arbustos de marijuana, abusado da bebida e fornicado a torto e a direito. Não vale a pena discutir com ele. É um homem de inteligência flutuante. Às vezes conta coisas com uma lucidez desconcertante, outras vezes chega a ser constrangedor. Se há uns tempos ainda se dizia que ninguém era de Lisboa, em tempos ainda mais remotos ninguém era de New York, mas Bruce é um produto desta cidade. Aqui nasceu e aqui vai morrer. Desconfio que nem sequer foi de férias à terra dos pais, que emigraram da Grécia para aqui, há mais de 60 anos (tomo nota: será tópico de conversa nos próximos 15 minutos dominicais). Conta-me histórias do Bronx, de como eram os parques da cidade nos anos 70, das suas idas ao museu de história natural, do conto de ficção científica que escreveu há 30 anos (tema recorrente). É o Bruce no seu melhor, ocasião para reparar que ainda se ri como um miúdo. Mas fala-me também das suas proezas sexuais de outros tempos, do número de mulheres com quem dormiu, da duração da folia (a ser verdade, Bruce era um “tântrico natural”). De início ainda achava graça a tais histórias, que agora se repetem e me aborrecem, ocasião para reparar na boca cavernosa e na magreza de quem quase fura a farda com as clavículas. Em suma, Domingo sim, Domingo não, ou aprecio o Bruce ou talvez não.
Pariscópio
Da janela deste quarto
Vejo o meu País
Mas o meu quarto é aqui
E tão longe o meu País
De olhos fechados
À janela deste quarto
É ainda o meu País
Nos gritos desta rua
Oiço o verbo do meu bairro
Nas nuvens que aqui passam
Toco as nuvens que antes vira
E entre os cinzentos
Encontro o branco e o amarelo
O meu País é ali
Mas à janela deste quarto
E mais País aqui
Reflexos, reflexos
O único reflexo
É espreitar pela vidraça
E ver o País inventado
Engrandecido pela tristeza
Que aqui tem morada
Do meu quarto tudo lhe perdoo
E sinto a falta
Que é só falta
À falta de estar lá
Por isso, espreito o meu País
De um nenúfar que flutua
À deriva num qualquer doce engano
O nenúfar é este quarto
O lago é Paris
E Narciso o meu País.