julho 31, 2003

Azul

Porto onde se chega
A gritar mar à vista
Imagem partilhada
Com o escultor anónimo
A figura de proa
O mármore à chuva no jardim
As texturas inventadas
Há uma gota a escorrer
Mas é de carne
O rego por onde vai
E este corpo já não é meu
Se há uma cor que te diga
Eu digo azul
No reflexo de um corvo
Que depois das tangentes
Foge a sete asas
E semeia o Douro
Por caminhos inadiáveis
Voa sem os segredos
Que largou como lastro
Vai com confidências
Que aceita como um destino
Muito além da razão
Foi o meu corpo
Traiu-se sem traidor
Furta-se agora ao rio
Ganha o mar e o deserto
O horizonte em círculo
Esse truque fácil
De não sair do lugar
A patriótica vocação
O abandono existencialista
E a vida corre ao lado
Não se pára o curso de um rio
Com as palmas da mão
Não se troca de foz
Com as voltas na cama
Não cabe um oceano
Nas palavras de um conto
Há algo de trágico
Neste mergulho em apneia
Descubro-te em braçadas
Acima é à tona d’água
E ainda digo azul.