Nova Iorque, 8.01.06
Considero este conjunto de textos o primeiro rascunho que cumpre os objectivos que tinha fixado, isto é, usar o MI como uma oficina de escrita.
O registo da BnO mistura memórias com ficção e a série é apenas uma de um conjunto de que continuarei aqui, varrendo o mesmo tempo mas segundo ângulos e obsessões distintos. Há um plano mais vasto, que passa por não desenvolver estes relatos em paralelo mas cruzando-os, para formar um emaranhado com nós que correspondem a um mesmo episódio contado segundo perspectivas distintas. O registo à base de memórias continuará a funcionar nestes textos como um atractor, para que noutros exercícios de ficção me liberte mais facilmente da tentação da autobiografia.
A presente série avançou sem norte e o conjunto de textos é uma coisa algo esdrúxula. Há um trabalho de revisão e aumento do número de entradas que provavelmente não será feito aqui. Em todo o caso, a reescrita deste material não implicará a sua chamada para a cabeça do blogue. De uma leitura sumária, do início ao fim, resulta claro que os primeiros textos são os menos conseguidos, o que deverá ser corrigido. Também a ordem com que as entradas são listadas, que respeita a data em que foram escritas, deverá ser alterada numa versão mais madura.
O desafio agora consiste em dar uma sequência narrativa a este conjunto de episódios independentes, algo que conto ter presente, desde o início, para as séries futuras.
A BnO, em concreto, interessou-me por três motivos: 1) pela exploraração de um tema menor (jogatanas de futebol entre miúdos), o que me deixou, desde logo, numa posição confortável; 2) pelo modo como fui obrigado a ir inventando histórias diferentes a partir de cirscunstâncias algo restritivas; 3) pelo exercício - excluindo uma minoria de entradas que se limitam a fixar determinadas sensações ou ambientes - de ter de rematar uma história, com uma punchline ou conclusão, sem recorrer ao expediente do fim em aberto. Este último ponto é provavelmente o mais relevante para o autor, sobretudo tendo em conta a minha proverbial incapacidade para terminar os vários contos que vou começando.
Tentar perceber quantas partes de ficção há para cada parte de realidade não me parece relevante. Manuel da Fonseca resolveu a questão de um modo feliz: "uma vez lançado, a realidade e a invenção, mascaradas, jogam às escondidas comigo - nunca sei ao certo, em cada momento, qual delas preside ao que escrevo". O interesse destes textos - a haver algum - não passa pela colagem ao real ou pela honestidade com que conto as experiências que vivi. Nada na vida que serviu como ponto de partida é particularmente extraordinário. Esta circunstância poderia ter funcionado como manifesto estético e contribuído para um registo minimalista ou lacónico. A opção que tomei foi outra: enxertar os relatos com um pouco de fantasia ou sobre-interpretação, de forma a torná-los mais cativantes. Mas aqui senti-me obrigado a não disparar - nem disparatar - para uma prosa onírica, barroca ou de tipo experimental, preferindo antes um discurso bastante contido. A outra regra que impus foi a de partir sempre de uma situação ou impressão reais. Quando falo da visita de um primo americano, lembro-me dele como se tivesse sido ontem. O sacana, lourinho e bonito, jogou realmente futebol connosco e agradou, apesar de ninguém o querer contratar no fim. Ao invés, nunca passou pelo prédio (Avenida Cidade de Luanda, lote 484) um Dirceu, mas era verdade que idolatrávamos o futebol brasileiro de tal forma que o episódio, não sendo real, tem uma verosimilhança - digamos - emocional.
As iniciais, tirando algumas excepções, são inventadas. Estas personagens definem situações e não correspondem a nenhum dos meus vizinhos. Outras há que respeitam o nome ou a alcunha de uma pessoa que conheci. E surgem ainda alguns nomes reais - Afonso, Samagaio e Gantes... - mas não pretendo com isto explorar uma eventual notoriedade presente destas pessoas ou prestar-lhes um tributo. Os motivos desta selecção são algo inexplicáveis, mas acredito ter respeitado o critério que, inconscientemente ou não, fez com que me tivesse afeiçoado mais a uns nomes e apelidos do que a outros.