junho 27, 2004


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998


Nepal, 1998

junho 26, 2004


Nepal, 1998

junho 25, 2004

Nepal

maio 25, 2004

14 dias e o Nepal (5)

Acabei por descobri-la quase por acaso, dentro de uma pequena loja de tapetes e almofadas, prestes a concluir a transacção: quatro tapetes de grande dimensão, suficientes para alcatifar o nosso minúsculo apartamento em Paris. Resolvi intervir, mesmo sem me inteirar do preço que eles tinham acordado. Sabia que para ela regatear era imoral, sobretudo com gente necessitada. Não compreendia que discutir o preço era uma etapa essencial naquele ritual e eu, que ainda tinha presente o sucesso de uma campanha recente em Marrocos onde me convencera de uma vocação, não hesitei em me aproximar do homem, tirando-lhe as medidas. De traços finos, olhar penetrante e mãos delicadas, tinha encontrado um adversário à altura. Ataquei em inglês, enquanto ela abandonava o recinto, sem disfarçar a sua irritação. O homem deixou-me acabar e depois perguntou: " Vem de Macau?" Habituado a ser confundido com um russo quando falo em português na Europa do Norte, trazendo nos músculos, tendões e glândulas o reflexo pavloviano que me amansa sempre que alguém lembra o nosso passado glorioso e vivendo a ilusão de praticar um inglês oxfordiano irrepreensível, aquela pergunta bastou para o comerciante me surpreender, seduzir e ganhar um ascendente difícil de anular. Tentei ripostar, mas não, o homem não era um Gurka como pensara e a explicação da arte do tapete de arraiolos saiu-me atabalhoada. Optei por encurtar a conversa. Trocámos uns números e apertámos as mãos quando o preço era cerca de metade do que ele inicialmente me pedira. Sabia que tinha sido derrotado, mas ao sair com os tapetes quebrados sobre o ombro resisti ao sarcasmo dela, que preferiu não revelar o preço que tinha conseguido antes de eu entrar em acção, mas não resistiu a comentar: “Então, parece que foste ao tapete...” Nessa noite ofereci-lhe o jantar.
Deitámo-nos cedo. Às onze da noite acordei. Ela dormia na cama do lado. Na primeira noite dormíramos juntos, mas ontem parecíamos um casal idoso à antiga. Olhei pela janela, julguei distinguir ao montanhas ao longe. Talvez dormíssemos juntos lá no alto. Sorri antes de concretizar em voz o que pensara- "unidos pelo frio"-, e sorri outra vez, como se não me lembrasse já do primeiro sorriso. Perdera o sono nestes pensamentos e para deles me perder também resolvi sair à rua. Vesti-me com cuidado, quase não fiz barulho ao fechar a porta atrás de mim. Reconheci o cheiro das escadas e galguei os degraus. As ruas estavam quase desertas. Katmandu não é uma cidade de libertinagem aparente. É verdade que alguns vultos vindos da escuridão me ofereciam marijuana, mas ainda não vira uma prostituta nas ruas, o que me teria sido proveitoso. Entendamo-nos: as mulheres asiáticas deixam-me indiferente mas a prostituição fascina-me. Uma educação católica levou-me a condenar a prostituição por defeito, posição que foi reforçada pela visão de mulheres com bocas de escorbuto e joelhos ossudos das esquinas da Avenida da Liberdade e do Intendente, imagem tão forte que a pena que senti em criança era ainda pena no adolescente em convulsão hormonal. Já ateu e com uma consciência política a germinar, a prostituta pareceu-me o paradigma da exploração do homem pelo homem, convicção que foi depois abalada por alguns relatos vindos da Holanda. Encaixei a novidade, tolerando a vontade de pessoas livres que optam por aquele modo de vida, mas terminando aí a cumplicidade. No fundo, eram ainda os joelhos ossudos e as bocas de escorbuto que estavam vincadas na memória, mas tivera tempo de inventar outra explicação. A procura antecipada do acto sexual, mais até que a sua compra, desmotivava-me. Descobrira também um pudor que me inibia de ir ter com uma prostituta. Afinal, o corpo daquelas mulheres é um lugar público e as taras vagamente exibicionistas, se é que as tive, não resistiram ao fim da adolescência. Feitas as ressalvas, cruzar-me com uma prostituta pelas ruas deste mundo é bem mais inspirador que uma qualquer visita guiada ao cavaleiro de bronze da praça do município. Mas não havia nenhuma indicação de que me encontraria com uma prostituta em Katmandu. Um bar que se insinuava com uns neons de tonalidade promissora era, afinal, um club de jazz sério. Os candeeiros da iluminação pública revelaram depois três turistas inglesas embriagadas. Dei-me por vencido e voltei para o quarto. Subi os degraus devagar, um a um. Apetece-me inventar que adormeci a pensar numa série de Fibonaci, mas reparo agora nos tapetes, discretamente enrolados e quase escondidos ao lado do armário do quarto, o que interpreto como um sinal de que a dose diária de presunção para aquele dia tinha sido atingida muito antes do jantar. Escrevo pois a verdade: ontem adormeci a contar, mas de 100 para 1. (Katmandu, manhã de 29/3/98)

outubro 28, 2003

(Do velho MI)

14 dias e o Nepal (4)

Jantámos numa mesa baixa de um restaurante indiano pouco iluminado, o que dava às especiarias uma cor invariavelmente ocre. A galinha ficava a parecer uma peça de caça acabada de assar ao relento e, para lá das mesas do lado, os rostos perdiam-se na escuridão. Era como se estivessemos sozinhos. E sem violinos, nem um tocador de cítara frustrado que a cada quarto de tom ainda pensasse nas palavras de encorajamento que Ravi Shankar um dia lhe disse. Não tenho grande técnica para fazer relatos de viagens exóticas. Segundo as convenções, devia agora discorrer sobre a série de pratos que provámos, impregnar a prosa de aromas e paladares, falar de províncias com nomes acolhedores e descobrir num fonema qualquer uma ligação a Goa e à nossa estafada glória. Mas escrevo de um quarto barato e sem graça, num terceiro andar de kathmandu. Ela dorme numa cama ao lado e ambos acreditamos que assim é por serem os estrados demasiado estreitos. Tenho uma lanterna que ilumina a página e transforma as pregas do lençol numa maquete de deserto ao entardecer. Virei-me de costas para ela, para que a luz não lhe perturbe o sono. Antes passeáramos pelas ruas da cidade, com a tranquilidade tensa de quem se sente excitado pela certeza de ter as montanhas a dois dias de espera e desiludido por ir reparando em silêncio que o toque de mãos, os beijos e o riso não mudaram com a geografia. Sinto-me meio envergonhado, porque não tenho remorsos nem sequer uma tristeza morna. Penso apenas como seria bom se aquele restaurante indiano tivesse folhas de papel em que pudesse ter feito alguns desenhos. Em tempos soube desenhar. Até aos cinco anos fazia uns bonecos fantásticos. Depois estagnei. Vinte anos depois, continuo a desenhar da mesma forma, não por opção deliberada de um artista sério e inconformado em processo de retrogressão, mas por total inépcia. A verdade é que me conforta ir desenhando os meus cavalos e caras de traços arredondados, enquanto lhe sorvo a eloquência. Gostaria de saber falar como ela, com um ritmo complexo e variações de dinâmica rigorosas como as de uma partitura bem escrita. Resta-me ouvir. E desenhar. E no fim, porque tive tempo para pensar, digo qualquer coisa vagamente inteligente mas nunca excessivamente inesperada e parece que tudo fica bem. Geralmente deixo o restaurante sem levar os desenhos e só os assino quando quero gozar comigo na presença de terceiros. Em todo o caso, naquele restaurante não havia papel e agora faz-se tarde. Ponho em prática um método de adormecer que dispensa carneiros e pastilhas. (Kathmandu, madrugada de 27/3/98)

14 dias e o Nepal (3)


Numa rua secundária sentámo-nos num café. Acabara de tirar uma fotografia, reflexo do interesse de um ateu pelos produtos da religião. Com os meus pais aprendi a procurar a igreja da vila antes de entrar na sociedade recreativa para a jogatana de matraquilhos ou bilhar às três tabelas. Falamos de experiências religiosas e constatamos com uma risada mais sarcástica que desesperada que ambos estamos a zero. Nesta altura seria talvez previsível falar do budismo. O budismo é aquela religião que a todos atrai antes de vencermos um certo nível de ignorância.

Com alguma brusquidão, ela despede-se para ir comprar tapetes e eu fico com o caderninho, tentando inventar uma caligrafia que não é a minha, para que possa ler mais tarde o que escrevi. Uso uma esferográfica preta, o que é já uma cedência à caneta de tinta permanente, um luxo que não está ao alcance de um canhoto. E de novo tento relembrar-me de um momento qualquer de iluminação, ou algo menos que isso. E é claro que surgem alguns, sempre ao som da música sacra. Mozart, Pergolesi, Bach, Rossini, pelo menos até ao quarto compasso. Depois começo a distrair-me com o contraponto e a harmonia, as soluções encontradas, a matemática que julgo perceber e lá vou atrás do baixo contínuo, num puro delírio pelas coisas terrenas. Esqueço-me logo das mensagens divinas, dos anjos e das cornetas. De resto, nunca apreciei Telleman. Voltarei ao tema, cuja recorrência aumentará seguramente na razão directa da cota a que nos encontrarmos. Kathmandu está a apenas a uns 2300 m de altitude. Acabo a Saporo. Deixo uma gorjeta generosa. Vou ver agora se a descubro com os tapetes. Não deve ser difícil. Ainda é cedo, isto não é um bazar turco e os tapetes devem ser vermelhos. Com alguma sorte não se lembraram de os embrulhar em papel pardo. Kathmandu 26/3/98

14 dias e o Nepal (2)


Como aqui, de resto. E buzinas fora, sobra tudo o resto. Há momentos em que a paisagem já não importa. Espreita-se para fora como quem olha para dentro. Quanto tempo mais faltará para, de novo, voltar a olhar o mundo ? De repente, encalhamos por aí. Mas isto agora não tem importância nenhuma.

Acordámos com fome. Tomámos banho e eu não fiz a barba. Em frente do espelho surgiu-me mais um daqueles pensamentos de almanaque que me apoquentam como insectos persistentes: “a grandeza de um homem mede-se pelo problema que elege”. E nisto fui invadido por um desejo irreprimível de comer uma sopa exótica. Entrámos num restaurante. Nas paredes vejo fotografias de homens que têm o acrescento de coragem que lhes levou as falanges. Não sei se os admiro. Um homem sem falanges nunca tocará uma buleria, mas o argumento só colheria se todos partilhássemos os mesmos sonhos. Olho agora para ela. Tem um lenço na cabeça, de fundo branco e motivos verde seco, que lhe cobre o cabelo, farto, de reflexos dourados que só eu conheço. Os olhos são enormes e reflectem a vertigem de quem quer devorar o mundo. Está sentada e olha-me como se fosse amanhã. Eu olho-a como se fosse ontem. Há ainda um rapaz, que chega com duas sopas aguadas e que nos olha porque estamos ali. Da sopa não vieram surpresas; nem olhos flutuantes, nem pernas de lagarto. Deixei-me de ilusões. Isto é Katmandu, um desastre urbano corrompido pelo ocidente. Quem quiser um hamburger de Yaque só precisa de 2 dólares
Saímos para a rua. Vemos as montanhas ao longe. É para lá que vamos. Talvez consiga voltar a sonhar nas montanhas. É um desejo ingénuo, mas pelo menos não aderi a nenhuma daquelas seitas estapafúrdias que alastram pelo mundo. O meu problema não é sonhar, mas ter sonhos normais. Se sonhasse acordado o que sonho a dormir, adormecia. Por isso compenso de dia. Nos Olivais via as faias a sair da terra e a subir aos céus, não como as almas mas como foguetões movidos a clorofila. Pelas ruas imaginava bichos estranhos que não apareciam nem sequer na televisão e punha as pessoas a falar dialectos de boximanes. Consegui passar quase sempre por um tipo normal. Basta vestir de forma pouca excêntrica, falar pouco e cuidar da higiene.

Muitos dias depois do primeiro dia (1)

Lugar cativo desde que me tornara fiel da Brasserie de esquina, era naquela cadeira que passava os princípios de serão que forçava por ver como finais de tarde. Como ontem. Já a esperava há vários cinco minutos quando pedi a segunda cerveja. Estava tranquilo. Habituara-me a perdoar-lhe os atrasos, não só por saber inútil o meu eventual descontentamento, mas por também eu ter telhados de vidro. Entretive-me a observar as pessoas que regressavam a suas casas, reparando aqui e ali nos rostos familiares que já associo ao bairro, enquanto pensava que devia fumar, para ter o gozo de acender um cigarro e ver o fumo a subir. A certa altura, tirei do bolso uma esferográfica e um livrinho com páginas grossas de papel de arroz. Comecei a lê-lo, de caneta em punho, rabiscando aqui e ali algumas correcções, a um ritmo tal que quem me visse diria que escrevia sobre páginas virgens. Pascal, o empregado, não pôde deixar de reparar. À sua pergunta, disse-lhe que estava a escrever. Isso via ele, adiantou-me. Disse-lhe então que estava a escrever uma carta de amor. Aí ele soltou uma gargalhada e depois rimos. Até que parou de súbito, aproximou-se mais da mesa e, quase em surdina, disse-me que não devia fazê-lo, revelando-me que as cartas de amor são ridículas, ao que lhe perguntei se ele conhecia um certo poeta. Disse-me que não e apenas respondi que já estava morto. Pascal, dando já ares de se dirigir a outra mesa rematou: « ...Pauvre mec.... Une outre bière, peut-être? ».
Cinco cervejas depois, duas horas depois, depois da ausência dela e das páginas rabiscadas, ganhava o asfalto de bicicleta, gincaneando o traço descontínuo com liberdade excessiva. Cortava sobras de frio perdidas na Primavera, veloz, para lá de ébrio e anestesiado pelo fastio. Tudo me parecia igual, além da rotina. Com a rotina tem-se a noção de período, do hábito que recomeça, o que implica uma certa variação, algo que permita distinguir o princípio do fim do ciclo. Naquela noite não havia nada. Tentara recordar-me da vida nesta cidade e não saíra nada. Tinha uma lembrança vaga, uma amálgama de momentos que sobrepostos se anulavam; aqui e ali, um olhar, um desejo mais forte, um impulso de sexo, um sabor, elementos que não davam corpo ao passado, apenas um esqueleto descarnado, erguido pelos sentidos. Aos anos que aqui morei, que demoram décadas a passar e se recordam em segundos, sobrepunha-se, agigantada, a lembrança de uma viagem única.
Em casa, fazendo do candeeiro de cabeceira vela de aroma adocicado e inventando sombras trémulas num quarto com paredes de terracota, lia agora em voz alta e intimista, à maneira de locutor de programa radiofónico da madrugada :

«Se Richard Burton lesse este livrinho, sorriria de condescendência. O que se segue são impressões imediatas e ingénuas, esquiços desajeitados e colagens sem método. De caderno de bordo têm estas linhas muito pouco, pois a escrita não será diária, apenas adiada. E as impressões clássicas de viagem, como o assombro perante um maciço imponente ou o respeito que a postura altiva de um Brahma inspira, não serão mais do que pretextos para introduzir outra travessia, alheia a bilhetes de avião e passaportes, que passa ao lado do choque de culturas e segue sem acusar os estímulos externos, ou que de imediato os integra como recordações passadas. O convívio com a viagem geográfica é pura conveniência. A conveniência é o tempo; tempo para pensar, para fugir da anestesia da rotina e das obrigações inadiáveis. O risco desta viagem não é o paludismo ou uma má experiência com a altitude, tão só o de chegar a conclusões incómodas ou não chegar a conclusão nenhuma... Mas também os frutos possíveis são bem mais apetecíveis que a paz e alegria das montanhas, a lembrança do exotismo dos rostos, aromas e paladares. Quem sabe se Richard Burton não guardaria outra expressão atrás do sorriso condescendente : um travo de angústia ao reconhecer-se nos primeiros passos de um discípulo, menos capaz mas igualmente determinado a vencer o medo da vertigem das paisagens internas. Ele e os demais que me desculpem, mas não se trata aqui de ser modesto nem original, apenas sincero. Kuwait 22/3/98»

Manhã chegada, o livrinho estava pelo chão e as sombras tinham partido mas ao esticar o braço julguei ter sentido nos dedos paredes de terracota. Paris entrava-me pela janela sem pedir licença. Olhei o livrinho e ganhei um sorriso imbecil, quando os meus olhos ainda pediam sono, o corpo descanso e a cabeça tréguas ou o sonho fantástico que não viera. Há um ano atrás lembrara-me daquele primeiro sonho, agora por terra. Levantei-o do chão e li, agora em silêncio:

Desperto com a cidade. A chuva de ontem limpou o ar e a alvorada revela os primeiros cumes brancos, a Norte, atrás de uma cordilheira despida de neves. Acordo devagar. Invadem-me sons familiares: por todo o lado, o chilreio de pardais que me transporta até às manhãs tranquilas da minha adolescência nos Olivais. Há latidos com um ritmo imprevisível e galos que soam exactamente como os de Ourique no Alentejo. Os outros sons não consigo identificar e o silêncio só o é além do burburinho incessante dos geradores. Esta cidade é um caos que está prestes a começar. Automóveis, motorizadas, triciclos e bicicletas não vão tardar a levantar a poeira que os aguaceiros da madrugada assentaram. Soube ontem que a cacofonia de buzinas em breve será insuportável, as mesmas buzinas que ontem me despertaram de um sonho mau. Decididamente, aquele fora um sonho mau, sem monstros, sangue ou cenas tenebrosas que o tornassem num pesadelo. Um sonho mau, demasiado evidente, sem símbolos nem máscaras.

14 dias e o Nepal

Aproveitando a época estival e depois de constactar que o Difool deve andar demasiado entretido em Puerto Rico, resolvi começar a publicar algumas notas de uma viagem que fiz ao Nepal. Foi já há alguns anos, mas na altura tinha todas as cicatrizes no corpo, as mágoas, as taras e os sonhos que hoje me acompanham. De certa forma, é quase como se tivesse voado ontem para Katmandu.